sábado, 6 de outubro de 2007

Houssein



Este é o Houssein, um pitt bull que vive num corredor cheio de sucatas de construção ao lado do prédio da minha mãe, em Blumenau.



Da janela da cozinha, chamava-o e ele abanava o rabo, feliz de me ver e ouvir uma voz carinhosa. Eu, sei que erradamente, atirava-lhe alguma comida, um pedaço de pão, um resto de bife. E a cada dia meu coração ficava mais apertado por ele.



Reparava que nem sempre o balde de água estava cheio, que seu lugar não era limpo e que passava o dia inteiro trancado ali, naquele corredorzinho, muitas vezes preso pela corrente, com o espaço mais limitado ainda.



Não conseguia sentir medo daquele cão. Seus olhos demonstravam carinho e carência. Ele precisava de carinho, de amor. E eu não podia fazer mais nada do que lhe enviar algumas palavras mansas e um pouco de comida.

Um dia, ouvi a voz do seu dono conversando com ele. Corri à janela e perguntei se podia descer para vê-lo de perto. O dono concordou na hora, simpaticamente dizendo que o Houssein era inofensivo e que adorava brincar.

Foi aí que descobri que aquele já era seu terceiro dono, e ele só tinha oito meses. O rapaz era bem intencionado, brincava e fazia festas ao cão e disse que pretendia enviá-lo a um local de treinamento numa cidade perto. Na hora fiquei apreensiva. Que tipo de treinamento, perguntei. É claro que ele respondeu que era treinamento de obediência e não de violência. Do fundo do meu coração espero bem que sim. Fiz algumas festas ao Houssein que, quando me viu, abanou o rabo e saltou para brincar. Acariciei sua cabeça e lhe dei um beijo na testa. Sem medo, sem receio, sem desconfiança.

Conversei um pouco mais com o rapaz, não deixei, é claro, de meter-me na história, tirando não sei de onde que um cão com pouca água e pouca comida torna-se muito agressivo. E no fundo, todos sabemos que isso é verdade...

De tudo isso, ficou uma idéia perturbadora dentro de mim. Acredito que não há cães assassinos, há donos irresponsáveis e mal intencionados. No caso do Houssein, o seu dono até é muito bem intencionado, mas não tem o preparo nem os meios para criar um cão desta raça. E penso, então, que é exatamente isso que acontece: donos despreparados, que não conhecem as particularidades da raça, que resolvem criar um cão por estar na moda. Estes donos acabam criando monstros que, na maioria das vezes, voltam-se contra eles próprios.

Ouvi alguns comentários sobre a extinção da raça dos pitt bulls. Talvez seja melhor para os cães, porque os humanos que os criam não estão preparados para valorizá-los e cuidá-los.

Continuo defendendo e repetindo-me: a culpa não é dos cães, é dos donos. Estes, sim, deveriam ser presos e surrados, enquanto os cães deveriam ser encaminhados para reabilitação. Solução que existe e que funciona mesmo.

Afinal, com compreensão, carinho, dedicação e, principalmente, amor, o que não se consegue??? Um cão é um cão, seu instinto é ser dócil, é ser amigo, é ser companheiro. Se ele ataca, é porque foi ensinado a atacar, um cão nunca é mau.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

4 de Outubro - dia de São Francisco!!!


Oração de São Francisco de Assis




Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.



Onde houver ódio, que eu leve o amor;



Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;



Onde houver discórdia, que eu leve a união;



Onde houver dúvida, que eu leve a fé;



Onde houver erro, que eu leve a verdade;



Onde houver desespero, que eu leve a esperança;



Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;



Onde houver trevas, que eu leve a luz.



Ó Mestre, Fazei que eu procure mais Consolar, que ser consolado;



compreender, que ser compreendido;



amar, que ser amado.



Pois é dando que se recebe,



é perdoando que se é perdoado,



e é morrendo que se vive para a vida eterna.

Hermano sol, hermana luna

Quem não se emociona???

Irmão Sol, Irmã Lua, uma grande lição de São Francisco!!!

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

À Bê


Foste a luz e a escuridão
O mistério desvelado,
A verdade calada.

Não viste o amor, até senti-lo.
Não sentiste o ódio, até prová-lo.
Não provaste o medo, mas ele veio.

Gosto amargo de remorso,
Asco de amargura,
Desencanto da procura.

Sonhavas o céu,
Desejavas o infinito,
Querias asas…

Mas saltos altos não são asas,
Talvez bengalas, muletas,
Efémeras alegrias fingidas.

Deste teu último voo,
Estás livre dos saltos,
Desamarrada dos sonhos.

Voa mais alto agora,
Minha estrela de papel,
Já brilhas sem fingir.

Vai, amiga-irmã,
Assumo tua dor, que já foi minha,
E do teu jeito abrandaste.

sábado, 4 de agosto de 2007



Se essa rua, se essa rua fosse minha,
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes
Para o meu, para o meu amor passar...


Nesta rua, nesta rua tem um bosque
Que se chama, que se chama solidão
Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração!


Se eu roubei, se eu roubei teu coração
Tu roubaste, tu roubaste o meu também!
Se eu roubei, se eu roubei teu coração
É porque, é porque te quero bem!


Não lembro ao certo a minha idade, mas lembro exatamente do dia em que aprendi estas cantigas. Minha mãe chegou do trabalho e me chamou no seu quarto: «Vem, que tenho umas musiquinhas pra te ensinar».


Eu fui, feliz da vida! Sentada na cama dela, ouvia-a cantar um verso e repetia, enquanto ela trocava de roupa. Nunca mais esqueci nem das cantigas nem daquele momento mágico.


E agora será minha vez de ensinar cantigas. Tomara que eu tenha a mesma meiguice da minha mãe.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Filho Azul


Viver vida sem ter esperança
Viver morte sem morrer
Ver nuns olhos de criança
A vontade de crescer

Mas quem espera sempre alcança
E eu não posso entardecer
Sem ter visto uma criança
Não só de parto nascer

Há-de ser um filho azul
Das altas marés do mar
Filho tempo, vento sul
Temporal do verbo amar.


(Ary dos Santos / Guilherme Inês)

terça-feira, 26 de junho de 2007

E agora???

Preciso de ajuda,
Preciso de conselho…

Como é que eu faço
E o que é que eu faço?

Tanta coisa pra parar,
Tantas outras pra começar…

Cafeína, pastel, batata frita,
Corrida, noitada, nicotina…

Pára tudo!!!

Agora é…

Caminhada, sesta, fruta,
Vitamina, óleo de amêndoa, salada…

É muita responsa…

Será que dou conta???

domingo, 17 de junho de 2007

Sem título, com dor no coração

O domingo amanheceu estranho. Chuva através do sol e uma aura de presságio, de mau presságio.
Como sempre, estava tomando minha xícara de café na sala, fazendo planos para o dia. Os cães estavam deitados junto aos meus pés e aquela má impressão com que eu havia acordado parecia se dissipar à medida que recebia o carinho deles e o café esquentava meu corpo. Não estava frio, mas um vento gelado corria no jardim, sacudindo as árvores e fazendo bater as portas da casa. Foi quando ouvi os gritos.

Era o grito desesperado de um cão. Parecia machucado. Meus cães correram em direção ao portão, latindo e rosnando, desesperados. A princípio, fechei os olhos e pedi para que os gritos parassem, afinal, que podia eu fazer? Recolher o cão, chamar o veterinário, talvez. Mas isso aqui é complicado, os cães, mesmo os que parecem de rua, têm donos e estes donos são às vezes mais animais do que os próprios cães.

Mas os uivos e gritos não pararam e eu corri em direção à rua. Quando cheguei ao portão, os gritos haviam parado e eu fiquei procurando a origem do barulho. Havia muitas pessoas na rua, um grupo de crianças gritava alguma coisa que eu não entendia. Um caminhãozinho do Conselho Municipal (equivalente à prefeitura) estava parado na esquina e alguns homens executavam algum serviço que eu não podia distinguir.

Foi quando um dos homens veio para a frente da minha casa. Havia um casal de cães na rua, uma cadela já minha conhecida, da casa da frente e outro cão, um cãozinho preto, pequeno, peludo. Seu pêlo e estatura lembravam um Yorkshire. Lembro que pensei, naquele momento, nas madames que pintam seus cães e que, talvez, esse pudesse ser um dos cães de madame com henna no pêlo. Mas não, aqui isso não acontece. Era mesmo um cão de rua, um rafeiro, como dizem aqui.

De imediato, o homem do Conselho Municipal, alto, forte e decidido, agarrou o cãozinho indefeso por uma perna e levantou-o no ar. Eu imediatamente comecei a gritar para que parasse, pois estava machucando o cão. Outro homem limitou-se a responder-me que eu não me preocupasse, pois o cão assim não morderia. Como se eu estivesse preocupada com o homem… que ironia! Este gesto quebrou a perna do cão, que gritava mais desesperadamente ainda. Talvez seus gritos tenham sido abafados pelos meus que, histérica, com as mãos nas grades do portão, implorava para que parassem com aquela cena bizarra. Já imaginava como iria telefonar ao veterinário, como faria para cuidar daquele cão com a perna partida por um animal. Mas os homens ficaram surdos aos meus gritos e aos gritos do cão. Com o cão machucado, o monstro conseguiu pegá-lo pelas duas patas e ficou girando-o em volta de si, até que um outro veio com um tronco, com o qual subjugaram o cão (como se um cão daquela estatura e com a perna quebrada pudesse causar algum mal), enquanto o caminhãozinho chegava mais perto. Na carroceria, havia uma gaiola de madeira, cheia de outros cães. Era a carrocinha moçambicana. O cão, machucado, foi atirado para dentro da gaiola, junto com os outros cães que uivavam e choravam.

Foram embora e eu fiquei ali, grudada ao portão, sem conseguir sair do lugar. Chorava compulsivamente e as crianças, assustadas com minha reação, achegaram-se a mim. Eu perguntei por que faziam aquilo e as crianças responderam que não sabiam, mas que agora iam guarda seus cães para que não lhes acontecesse o mesmo.

Chorei muito, revoltei-me, tentando entender o que leva um ser humano (?) a tal atitude. O cãozinho teve a perna quebrada por aquele monstro e ele não demonstrou nenhuma pena, balançava o animalzinho como se fosse um pedaço de madeira, indiferente aos gritos (meus e do cão).

Realmente, há muitos cães na rua aqui na cidade. Realmente alguma coisa precisa ser feita. Mas isso??? Por que tanta maldade? Tentei me consolar pensando que aqueles cães iam morrer, que iam para o céu dos cães, como costumo dizer, iam parar de sofrer maus tratos nesta vida ingrata. Mas depois lembrei… como irão matá-los? A pauladas, certamente.

O pior é que não tenho a quem recorrer, não tenho a quem denunciar. Aqui, os animais são isso, são tratados assim, como nadas. Sei que não há dinheiro para canis públicos, para uma campanha de castração, mas nada justifica a violência.

Meu coração está despedaçado. Senti mais uma vez o tamanho da minha impotência frente a estes animais que se dizem humanos. Deveria ter saído do portão, deveria ter arrancado o cão à mão daquele monstro, mas, será que não teria tido o mesmo tratamento que o cão? Confesso, senti medo. E pior do que a impotência, é o medo, principalmente quando os ditos humanos transformam-se em monstros insensíveis e desalmados.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

E-mails, judeus, palestinos & chimpanzés

Todos os dias recebo quase uma centena de e-mails. Alguns são automaticamente repassados e, quando vejo que é assim, nem leio, deleto logo. Outros trazem piadas velhas e batidas (chego a receber a mesma piada até três vezes por dia). Quando vejo o assunto, deleto.

Os que acho interessantes, leio, ou deixo para ler com mais atenção quando tiver mais tempo. Alguns são do meu grupo, os Poetas Independentes. Estes são prioritários, sempre leio primeiro.

Tenho uma grande amiga em Blumenau que sempre me repassa e-mails sobre as mazelas humanas, sobre as lutas do povo, sobre notícias de usurpação de direitos, tomadas revolucionárias… alguns são muito pertinentes e considero uma das melhores fontes de informação que tenho. Pessoa extremamente esclarecida, esta minha amiga tem uma compreensão do mundo que eu gostaria de ter. Ela consegue desvelar as máscaras, importa-se realmente.

Hoje recebi um e-mail com o seguinte título: «Não à ocupação israelense». Era datado de 16 de Maio deste ano e assinado pela Coordenação Internacional de Organizações pela Palestina. Começava assim: «Entre os dias 9 e 10 de Junho, pessoas ao redor do mundo se reunirão, em atos e manifestações, para dizer: Basta! O mundo diz não à ocupação israelense de Jerusalém Oriental, Cisjordânia, Faixa de Gaza e colinas do Golã…».

E eu pensei: o que eu tenho a ver com isso? Sou mesmo alienada, fico sempre dividida entre os judeus e os palestinos. Fico sempre desejosa de uma reconciliação cor-de-rosa entre eles, torcendo para que vivam finalmente em paz e em harmonia. Mas isso é impossível, pelo jeito. A história, que é mãe do tempo, já provou: eles não se acertam.

A experiência que tenho deste conflito é mínima, limita-se à convivência com judeus e com palestinos, aqui no Brasil. Sinceramente, nunca vi nada de diferente em nenhum deles, nunca achei que este ou aquele fosse «esquisito» ou que meus amigos palestinos fossem potenciais homens-bomba.

Vou começar com os palestinos. Convivi com muitos, lá em Uruguaiana, na fronteira do Brasil com a Argentina. Eles são comerciantes e ocupam a chamada «Baixa» da cidade. Frequentava sempre a loja do seu Maruf, pai do Marcelo e do Beto. Lá tomava aquele café maravilhoso e comia aqueles biscoitos que pareciam caídos do céu. Pessoas maravilhosas, todos eles. Amigos mesmo, queridos. Tive colegas na faculdade que eram palestinos. Gente!!! Eram pessoas normais, como devem ser todos os outros. Eram amigos, parceiros, prestativos. Como são as pessoas.

Em Blumenau, um dos meus grandes amigos é judeu. Neto de rabino. Pessoa fantástica, principalmente pelo seu senso de justeza (justeza mesmo). Um dia, falando sobre o holocausto (oh, um judeu falando sobre o holocausto! – devem ter rolado lágrimas, vocês estão pensando…), contou-me que, a idéia inicial do Hitler era justa. (Pasmaram???). Disse-me que os judeus-alemães, donos das fábricas, não queriam participar do esforço de guerra, que diziam que não eram alemães, e sim judeus e por isso não tinham obrigação patriótica nenhuma. O Hitler, justíssimo, então (pasmem mais ainda!), resolveu expulsá-los, afinal, não eram alemães… Só que, no caminho, o bigodinho enlouqueceu e resolveu matá-los todos. Vou lembrar… a história não é minha – é de um JUDEU!

Por isso, continuo em cima do muro: não acho que os judeus devam sair, nem acho que os palestinos devam sair. Queria colocá-los todos sentados no meu sofá e passar um daqueles sermões de professora… parecem crianças!

Pôxa!!! Antes de serem palestinos ou judeus, são humanos, pessoas, gente!!! Todos sofrem, todos sangram, todos choram. A dor não dói mais em um lado do que no outro. A humanidade é que está perdida, humanidade no sentido de sentir que o outro é igual a si, de reconhecer no outro parte de si mesmo.

Mas, bom… outro dia, li que alguns estudiosos filmaram um ataque de chimpanzés a outro chimpanzé, da mesma raça, só que de grupo diferente. Espancaram o chimpanzé invasor até à morte. E isso tudo só provou mais um elo entre humanos e chimpanzés: que a violência gratuita é da nossa natureza.

Que vergonha! Que vergonha pertencer a esta raça humana! Por isso que, quando vejo uma cobra morder alguém, ou um touro a jogar para o alto um toureiro, penso bem alto: bem feito! Porque os animais só atacam para se defender. Com exceção do chimpanzé, é claro, mas este tem um elo muito forte com os humanos…

sexta-feira, 1 de junho de 2007

01 de junho - Dia da Criança em Moçambique


Inocência escondida sob a poeira,
Brilho ensombrado pela vida,
Nasceu já obsidiante, conformado,
Candura alugada por trocados.

Persegue-me pela rua e repete:
«Tia, tou a pedir um mil»,
É para a barriga, para o irmão,
Inata necessidade tornada costume.

Hoje não te dou «um mil»,
Ofereço-te, sim, sonhos,
Carneirinhos de nuvem

Num céu cor-de-rosa,
Histórias de dormir,
Boa noite e um beijo.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

O erro que deu certo - ao Clovinho

Pensei um poema
Que rimasse direito,
Que aliterasse a ideia,

Que tocasse o peito…

E foram sons combinados,
Pancadas com tês e dês
Correrias com erres e esses…
Mas algo deu errado!


Esqueci as letras,
Ignorei o escrito!
No lugar da palavra certa,
Saiu um risco perdido!


O poeta diz não ser pecado
Afinal, é convencionado.
Vale a comunicação
E o fluir da emoção!

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Depressão

A depressão está na moda. É o mal do século, mas que já vem desde o século passado. Os balcões das farmácias estão abarrotados de anti-depressivos e as prateleiras das livrarias repletas de livros de auto-ajuda, para combater a baixa auto-estima, que causa a tal depressão.

Meu avô uma vez me disse que no tempo dele não havia essa coisa de depressão. As pessoas não tinham tempo para deprimir-se, tinham é muito trabalho. É certo que o trabalho a que ele se referia era o trabalho braçal, na lavoura, na lida com o gado, que não representa nenhum grande sacrifício mental. Pelo contrário, quando eu ia para a fazenda, minha maior terapia era acordar com o sol e soltar o gado no pasto.

Já tive amigas deprimidas, que não tinham coragem nem de sair da cama, ficavam lá, enfurnadas, com medo da vida. Eu não conseguia sentir pena, sentia somente uma revolta profunda pelo completo desinteresse delas com tudo o que acontecia em volta.

Eu mesma já pensei em entrar em depressão (acho esta expressão horrível – entrar em depressão!). Estava soterrada de trabalho, a faculdade exigindo mais e mais, sem tempo para nada. Um dia acordei e resolvi: vou me deprimir. Fiquei na cama. Esperei que o tempo passasse e as obrigações passassem junto. Pensei que uns dois meses de depressão seriam suficientes. Era Inverno e estava quentinho na cama, uma sensação maravilhosa.

Na escola, teriam pena de mim - coitada, mais uma professora deprimida. Na faculdade, os professores se apiedariam e talvez me deixassem fazer as provas mais tarde. Levaria um atestado médico, com a cópia da receita azul de remédio faixa preta. Ninguém me culparia, todos entenderiam minha ausência forçada da vida.


Olhei para o relógio, somente dez minutos de depressão e as cobertas começavam a pesar. Vontade de ir ao banheiro – será que a depressão inibe as necessidades fisiologias? Segurei o mais que pude. Não deu. No banheiro, olhando no espelho, tentei fazer cara de deprimida. Baixei os olhos, busquei uma expressão de nada. Mas que nada! Aquela cena pareceu-me tão impossível que caí na gargalhada, rindo sozinha no banheiro. Parecia uma louca. Ops! Mas era depressão e não loucura a minha meta. Respirei fundo e voltei para a cama.

Já era meia hora de depressão. Lembrei da gata que, enrolada nos meus pés olhava-me impacientemente. Tinha fome. Minha depressão não poderia impedir-me de alimentá-la, seria maldade demais. Levantei, fui à cozinha, servi ração. A cafeteira me olhava convidativa e não resisti. O café me acordou e o sentimento de culpa me invadiu.

Na escola, as crianças deveriam estar esperando por mim, todas trancadas dentro da sala-de-aula, correndo, gritando, naquele caos que sempre acontece quando um professor falta. Lembrei que naquele ano haviam muitos feriados e que o tempo para cumprir o currículo era apertado. Como iria recuperar tudo depois da depressão?

A faculdade! Meu Deus, a faculdade! Perderia o semestre, atrasaria minha formatura…
É… o caso é que depois da depressão, há que se recuperar o tempo perdido e isso dá muito trabalho.

Desisti da depressão. Vesti a primeira roupa que vi e saí correndo. Consegui chegar à escola no segundo período. Dei a desculpa do despertador estragado e segui a vida.

Sem depressão.

O tempo


Toc-toc, o tempo bate na porta

Punt-punt, pancadas no batente

Tarda o dia, atrasada vida


Corre rápido, sem celeuma

Que a hora urge

E o relógio...


Fogo!!! O relógio voooooaaaaaa!!!

sábado, 26 de maio de 2007

Amicíssima

Estou perdida, amicíssima.... tornei-me dependente das tecnologias e agora não há terapia de choque que me livre deste vício. O computador estragou, foi arrumar, roubei o do marido.
Estava pensando em projetos (ou projectos? - já não sei mais se escrevo em PE ou em PB, se bem que pelas últimas informações isso tudo vai ficar igual no final do ano - tomara!!!)... e lembrei daquele teu. Nunca mais falaste, nunca mais disseste nada. Desististe? O meu agora é o jardim, só que não tenho nem tempo nem bom jardineiro. O último queria botar argila nos vasos - será que ele não sabe que argila é para fazer e não para preencher??? Foi embora.
A empregada também foi embora. Consegui outro (sim, masculino, aqui é normalíssimo e dizem que eles trabalham melhor do que elas), que também foi embora, durou dois dias. Não sabia cozinhar. Consegui outra, vamos ver...
Meu proje(c)to agora é colocar na cachola toda a teoria literária possível. E êta que tá difícil... Vamos ver, também... dia 11 é o dia D, começa a loucura, a peregrinação das provas. E lá nossos amigos falando em lançar um livro. Bem queria garatujar no livro, mas não tenho a verve... ou será que tenho e está escondida em algum lugar? Eles dizem que sim. Mas não, não tenho tempo de procurá-la agora... antes de fazer literatura, tenho de («de» mesmo, de obrigação, porque «tenho que» não denota obrigação) aprender literatura.
Afinal, amicíssima, tu que és minha guru para assuntos teórico-literários, diga-me a verdade: Para que serve saber que a literatura é um conjunto aberto??? E por que (ih... em PE este «por que» é «porque» - será que isso também vai mudar? - e, se mudar, fica como no PE ou como no PB?) eu tenho DE explicar isso???
Amicíssima... vou estudar que a água já está batendo na bunda!!!
Saudades!!!!

sábado, 19 de maio de 2007

Senhas - Adriana Partimpim




Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus-tratos

Mas o que eu não gosto é do bom gosto

Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas

Eu aguento até os estetas
Eu não julgo a competência
Eu não ligo para etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
Eu compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades

Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Império, Mito e Miopia - Capítulo IÍ

II
Literatura e representação:
Fundamentos e aporias


Um factor constitutivo e definidor da literatura de ficção é que ela participa da composição de mundos possíveis e convoca, para cada um destes mundos, uma ideia de realidade que acaba por se articular, por semelhança ou por contiguidade, com o mundo empírico no qual nos movemos. Segundo Lubomir Dolezel (1988: 83), a acessibilidade ao mundo ficcional efectiva-se a partir do mundo real que concorre, de forma marcada, para a formação do mundo da ficção. Aquele proporciona os modelos da estrutura deste, ancorando, muitas vezes, o relato ficcional num acontecimento histórico e transmitindo factos em bruto ou realemas culturais.

Esta é uma ideia que vai de encontro àquela que é avançada por Marie-Laure Ryan (1997: 181), que preconiza igualmente que um mundo torna-se possível desde que concebido em função do mundo que ocupa o centro do sistema: o real. Apesar de Ryan considerar, por seu lado, que a relação entre o mundo possível da ficção e o mundo empírico é baseado na identidade das propriedades dos objectos comuns dos dois mundos, na uniformidade e na compatibilidade lógica, analítica ou linguística, a questão não nos parece ser tão líquida assim.


Na verdade, acreditamos que a relação entre aquilo que ela designa de «mundo real» (MR) e «mundo real textual» (MRT) não é, por exemplo, sempre e necessariamente lógica. Casos há em que a relação é estruturalmente ilógica, como a ficção científica e as narrativas fantásticas onde o princípio da não-contradição, por exemplo, é transgredido.

Por outro lado, tanto a uniformidade como a identidade entre esses dois mundos acaba por ser posta em causa pelo simples facto de que enquanto um, o mundo da ficção, é um mundo de referências, da linguagem, portanto, o mundo real é, por sua vez, o mundo dos fenómenos. Daí que estejamos perante mundos estrutural e semioticamente distintos.

Reflectindo também sobre a interacção entre estes dois mundos, Jonathan Culler (1997: 29) entende, por seu lado, que one reason why readers attend to literature differently is that its utterances have a special relation to the world – a relation we call «fictional». Exactamente porque, através do exercício interpretativo, se desenvolve um processo de reconhecimento, de identificação e de complementaridade entre as referências dos textos e os referentes do nosso universo.

Apesar de o teórico russo, V. Chklovski (1917: 83), defender que le but de l’art, c’est de donner une sensation de l’objet comme vision et non pas comme reconnaissance e, por conseguinte, salvaguardar a autonomia da obra literária – posição que não podemos deixar de compartilhar –, parece-nos, no entanto, sustentável, sem cair numa contradição irredutível, que essa mesma autonomia não fica em causa por fazermos interagir dois discursos: o do mundo criado e o do mundo do qual participamos enquanto sujeitos empíricos. Entra aí em jogo a relação dialógica tão cara a Bakhtine e que atenua a solidão estrutural e semiótica da obra literária.

Poesia – leia-se literatura, apesar de este ser um vocábulo tardio – é imitação. Com esta asserção, Aristóteles abriu uma das reflexões pioneiras e, também, não menos duradouras sobre as relações entre o mundo que a literatura cria e o mundo que nos situa historicamente. Por outro lado, inaugura com essa afirmação uma determinada forma de fazer e pensar a literatura como representação e que vale pelo mimetismo em relação a uma qualidade preexistente.

Assente na ideia de imitação, o conceito de representação assume, em Aristóteles, uma dimensão que vai muito além do plano a que muitas vezes tem sido reduzido. O classicismo e o neoclassicismo europeus serão os grandes culpados desse reducionismo devido à aplicação dogmática dos princípios aristotélicos da criação literária. Aliás, o filósofo grego evidenciou um rasgo inexcedível ao afirmar que a poesia (literatura) era mais filosófica que a história, precisamente por ver nela potencialidades representativas ilimitadas.

Reflectir, hoje, sobre a literatura como representação pressupõe a priori um exercício tautológico, redundante e, de certo modo, pouco produtivo. Mais a mais, se se considerar que esta é uma reflexão que acompanha o percurso da arte, em geral, e da literatura, em particular, provavelmente desde as suas origens, como o demonstra a milenar tradição da teorização literária de inspiração platónica e aristotélica.

Se é verdade que a revolução romântica, já nos finais do século XVIII, recolocou a questão da representação noutros patamares, de tal modo a ideia da representação como imitação foi substituída pela noção essencial da representação como criação, e se é verdade, também, que outras perspectivas epistemológicas (filosóficas, antropológicas, sociológicas, semiológicas, psicológicas, linguísticas, translinguísticas, políticas, etc.) – entre outros, pensamos nos contributos de Kant, Marx, Freud, Nietzsche, Saussure e Bakhtine – trouxeram novos e diversificados contributos teóricos, a questão em si não deixa aparentemente de manifestar sinais iniludíveis de consumição.

Porém, o facto de estarmos a lidar com a escrita romanesca, por um lado, e que – talvez por isso mesmo – interage decisivamente com o contexto epocal e geográfico em que ela surge, por outro, tornando-se essa mesma interacção um aspecto determinante da sua própria condição, leva-nos a retomar a questão da representação literária, não como um fim em si, mas como um dos eixos de reflexão potencialmente mais harmonizantes com a especificidade da literatura colonial.

No capítulo anterior, apresentámos as razões que fundamentaram a nossa opção pelo romance e que demonstram em que medida esta é uma arena privilegiada dos protocolos representativos não só no concernente à literatura colonial, mas também à literatura em geral. Devido à reconhecida plasticidade do romance, Emile Cioran (1956: 112) será, por isso, cáustico ao considerá-lo «a prostituta da literatura». Isto porque, no seu entender, sendo o romance um usurpador por excelência não hesitou em apoderar-se de meios próprios dos movimentos essencialmente proféticos. Além do mais, é, ainda segundo este filósofo romeno, «impuro» devido à sua própria «desenvoltura», vivendo da fraude e da pilhagem e tendo-se vendido a todas as causas.

Falar, portanto, da representação é reequacionar os diferentes conceitos que lhe são inerentes, ou seja, imitação, conhecimento, criação do mundo, imaginação, mediação, ou, mesmo, predição e que determinam a idiossincrasia do fenómeno artístico. Atento à incontornabilidade desta problemática, Jean Bessière (1995: 382) defende que, apesar de ser uma questão dos realismos e dos naturalismos literários constituídos a partir do século XVIII, a representação constitui, no entanto, um problema para a teoria literária contemporânea. Esgrimindo não só com o conceito de representação, mas também com o conceito de anti ou auto-representação, Bessière adianta que «está em causa aqui o estatuto e o poder do literário» (p. 394). Isto é,

estes termos permanecem presentemente inapagáveis e exactamente recíprocos, porque um deles – a anti ou auto-representação – sugere que o artificialismo do discurso recolhe o próprio infinito do sentido do dizível, e outro – a representação – retém um imperialismo do realismo – a palavra certa e o seu dizer sem resíduo.

Portanto, se a ideia de representação remete para um determinado mundo de coisas, a anti ou auto-representação inscreve-se na circularidade imagética da própria linguagem. Porém, a representação nunca é completa, apenas provisória, uma vez que nunca é mais do que alguma coisa que procede pontualmente segundo a autoridade da linguagem e a autoridade das coisas, e é, ao mesmo tempo, repetição e diferença. Subsiste, pois, uma situação de aparente insolubilidade da linguagem e das coisas.

Porém, definir a representação como criação, criação de mundos possíveis ou alternativos, tal como defendem, entre outros, autores como Lubomir Dolezel, Martínez Bonati, Thomas Pavel, Umberto Eco, M. L. Ryan, ou, simplesmente, como modo de fazer mundos (Goodman), é, tanto em termos teóricos como pragmáticos, a forma com que na contemporaneidade se superam as aporias que o conceito tradicional de representação suscita.

Orientando-nos concretamente pela literatura colonial, verificamos que esta potencia e explora, de maneira intensa, uma rede inextricável de identidades e alteridades (físicas, culturais, éticas e filosóficas) tornando-se, por conseguinte, inevitável tematizar e reflectir sobre a questão da representação que, per si, se impõe como determinação estrutural e semiótica dessa mesma literatura. Tanto enquanto figuração das coisas como da própria linguagem.

A literatura colonial, enquanto modo particular de gerar (e gerir) mundos, acaba por consagrar esteticamente a expressão O mundo que o português criou, uma das mais emblemáticas expressões de Gilberto Freyre e título de uma das suas obras mais representativas. Trata-se, aliás, de uma das crenças que mais alimentam e povoam, mesmo que de forma subterrânea, o imaginário dos portugueses. E a literatura colonial não só se limita a criar mundos, mundos possíveis ou alternativos, como torna seriamente indissolúvel a compatibilidade entre esses mundos e o mundo real, isto é, o seu devir. Daí a sua importância e actualidade.



1. Da irrepresentabilidade ou a resistência à representação

Uma das motivações maiores (e porque não mérito, mesmo tendo em conta o cabedal de distorções e preconceitos?) subjacentes à literatura colonial é o de ela assumir-se, implícita ou explicitamente, como uma forma mais ou menos elaborada de revelação de uma realidade mal conhecida ou simplesmente ignorada.

Até que ponto a representação literária cumpre, pois, este desígnio se nos ativermos, por exemplo, às constatações cépticas de Philippe Hamon (1973: 134) que questiona: como «é possível reproduzir, através de uma mediação semiológica (com signos) uma imediatidade não semiológica?». Ou de Roland Barthes (1978: 22) para quem o real não é representável, daí que a literatura traduz uma «impossibilité topologique» por não poder fazer coincidir uma ordem pluridimensional (o real) com uma ordem unidimensional (a linguagem)?

Em contrapartida, para Roman Ingarden (1965: 301), com o processo de representação, trata-se apenas de reter aspectos de uma realidade em permanente devir ou, numa perspectiva de raiz freudiana e actualizada pelo mesmo Barthes (1973: 121), a representação seria uma figuração embaraçada, estorvada por outros sentidos que não o do desejo: um espaço de álibis (realidade, moral, verosimilhança, legibilidade, verdade, etc.).

Ultrapassada a ideia de assumir a representação como imitação, ideia tributária das reflexões platónico-aristotélicas e que se firmaria como norma[1] até princípios do século XVIII, apesar de amiúde objecto de contestação e de transgressão, colamo-nos agora a um sentido muito mais elástico, muito mais realista, mas nem por isso menos problemático, da representação que, de forma concisa, é definida por aquilo que ela não deve ser, como explica Helena C. Buescu (1990: 266):

Ora, a partir do momento em que se concebe a linguagem como convenção e consenso, a noção de imitação tem de ser liminarmente eliminada, e a representação justamente entendida como a impossibilidade de imitar. Representar não é apenas «não imitar»; é sobretudo o indício de uma actividade apenas possível a partir do momento em que se reconhece que o homem representa justamente na medida em que não pode copiar. Representar não só não é imitar, como sobretudo é não imitar.

Portanto, esta formulação traduz o cruzamento dos subsídios trazidos quer por uma triunfante prática literária inaugurada pelo romantismo, quer por um exercício teórico que se verifica tanto dentro desse mesmo movimento – estamos a pensar, por exemplo, nos irmãos Schlegel –, como também por todo um percurso filosófico e científico que, de forma aguda, e durante o século XIX, deixou a nu a precariedade da própria realidade enquanto valor objectivo, estável e uno.

Para isso, contribuíram quer as transformações teóricas (a dialéctica hegeliana; Marx, com o primado da matéria e da necessidade económica sobre a consciência; Nietzsche, com a apologia do instinto e com a sua negatividade radical em relação ao cristianismo, à filosofia socrático-platónica e à ciência; Freud, com as suas teorias sobre o inconsciente), quer as transformações políticas (a Revolução Francesa, a emancipação política dos povos ditos «primitivos»), quer, ainda, as transformações sociais e tecnológicas, que irão, por sua vez, desencadear a multiplicação de visões do mundo: étnicas, religiosas, culturais, socioeconómicas, estéticas e sexuais.

Segundo o filósofo italiano Gianni Vattimo (1989: 15), dá-se, com todas estas transformações, a erosão do próprio «princípio da realidade». Isto é, o mundo torna-se fábula, interpretação. Esta é, aliás, uma ideia com incontornável sabor nietzschiano, em que os factos, a realidade, o mundo existem apenas como interpretação, isto é, como um texto misterioso em devir e em processo de decifração sempre inconcluso.

Além do mais, disto tudo resultou, entre outras coisas, a exposição da fragilidade da condição humana, que se apresenta de forma fragmentária, solitária, contraditória e dificilmente fixável. De maneira categórica, ficou também patenteada, através da linguística e da semiótica, a importância e a complexidade da linguagem enquanto elemento municiador de sentidos, múltiplos e voláteis, na relação entre o homem e a realidade que o envolve.

Por outro lado, o movimento simbolista redimensionou o conceito de representação, com sentido crítico, ao assentar a sua produção literária fundamentalmente no auto-investimento da linguagem. De acordo com Foucault (1966: 313), a linguagem torna-se um processo alargado de auto-representação de tal modo que, a partir de Mallarmé, la littérature se distingue de plus en plus de discours d’idées, et s’enferme dans une intransivité radicale.

Podemos, pois, concluir que, por um lado, a representação se institui como uma busca incessante, uma impossibilidade, enfim, se tivermos como horizonte a conformação (mimetismo) com uma realidade estável, global e preexistente, a qual ela procura adequar-se. Por outro lado, a representação pode ser um fim em si, cumprindo-se, sobretudo enquanto criação, adquirindo daí uma grandeza imanente, própria. E o que faz com que a representação se torne acessível, compatível, inteligível, verosímil, é que ela se institui, como antes fizemos referência, em função dos códigos (linguísticos, culturais, filosóficos, éticos, estéticos, etc.) do mundo real, isto é, do nosso mundo.



2. O efeito do verosímil

Le concept de vraisemblable n’est plus à la mode (Todorov 1971: 93). Com esta afirmação, concludente e plena de convicção, Todorov retira-nos, à partida, qualquer veleidade de avançarmos numa reflexão em que o conceito de verosimilhança seja equacionado. Na verdade, é muito pouco estimulante sustentar um discurso dito, de modo tão peremptório como démodé há mais de trinta anos.

Em todo o caso, por imperativos de ordem metodológica e teorética e pela necessidade intorneável que temos em manter o nosso estudo perseguindo um determinado alinhamento, decidimo-nos por correr o risco e revisitarmos um dos mais vetustos conceitos dos estudos literários mas, mesmo assim, dotado de particular vitalidade.

Aliás, é o próprio Todorov quem nos abalança nesta direcção quando, a dado passo, concede que existem vários sentidos para o termo: primeiro, quando acções e atitudes conforme a realidade; segundo, enquanto relação com o que a maioria das pessoas julga ser o real; terceiro, enquanto adequação do texto às regras particulares do género que adopta; e, finalmente, já numa acepção mais precisa, enquanto máscara com que se dissimulam as leis do texto, e que nos daria a impressão de uma relação (referencial) com a realidade. Isto é, o texto faz-nos acreditar que se submete ao real e não às suas próprias leis.

Por conseguinte, e de acordo com esta reflexão, falar em verosimilhança implica necessariamente ter em conta a aceitabilidade do mundo representado e a conformidade entre esse mundo e o universo expectacional do leitor. Afinal, e como concede Antonio Risco (1982: 10),

sólo es posible distinguir el fenómeno literario al nivel de la situación comunicativa, situación que establece un pacto particular, una complicidad – específica, sí, en teste caso – entre el autor y el lector.

Segundo este teórico espanhol, este «pacto particular» que se estabelece entre autor e leitor, consiste

en la simulación, en ele ejercicio del como si – la mimesis aristotélica, pero que ha de extenderse a muy diferentes niveles del texto literario – por medio de un conjunto de técnicas y recursos figurativos que tienden a elaborar una suerte de experiencias imaginarias, o sea de vida paralela.

Daí que a literatura seja, antes de tudo, «figuración» e que passa pela simulação de um facto vital. Apesar de discordarmos da ideia de que a figuração literária tende para o concreto, para o acumular de referencias de orden sensorial, há um dado conceptual importante que ele avança e que se refere a um campo imaginativo comum, património de uma unidade cultural num determinado momento no qual cada indivíduo possui a sua parcela: o «hipercódigo».

Trata-se de um campo imaginativo que se actualiza na obra e reúne os universos do leitor e do autor e é uma espécie de «virtual código cultural». Será, pois, o hipercódigo que irá determinar, em grande medida, o grau de verosimilhança da obra literária. Naturalmente que este hipercódigo será tão funcional quanto mais devedor for de uma cultura literária que se instituirá como plataforma identitária entre o universo do autor e do leitor e que acaba por ter uma dimensão histórica.

A este propósito, a já citada M.-L. Ryan reforça o facto de a ficcionalidade, que se ancora na ideia de verosimilhança com a qual muitas vezes se confunde, não se decidir nem pelas propriedades semânticas do universo textual, nem pelas propriedades estilísticas do texto, estabelecendo-se apenas e a priori como parte das nossas expectativas gerais (Ryan 1997: 205). Para esta autora, é, por conseguinte, ao leitor que cabe a função de determinar a ficcionalidade: Consideramos un texto como ficción cuando conocemos su género, y sabemos que el género está governado por las reglas del juego ficcional.

Entretanto, não deixamos ainda de ter em conta outras reservas colocadas em relação a esta arcaica questão da verosimilhança. É o caso de Julia Kristeva, que em Le Texte du Roman. Approche sémiologique d’une structure discoursive transformationnele (1970), defende que a verosimilhança adequa-se mais a sistemas monomorfos como a filosofia ou o discurso científico, onde a preocupação de provar e de verificar é acutilante. Por conseguinte, por a questão da prova e da verificabilidade não se impor em matéria literária, la productivité textuelle releve d’un domaine autre que le vraisemblable(1970: 76). No entender, ainda, desta autora,

La «vérité», ou la pertinence, de la pratique scripturale est d’un autre ordre; elle est indécidable (improuvable, invérifiable) et consiste dans l’accomplissement du geste productif, c’est-à-dire du trajet scriptural se faisant et se détruisant lui-même dans le processus d’une mise en RAPPORT de termes opposés ou contradictoires.

No essencial, Kristeva põe em causa o conceito de verosimilhança, a partir do momento em que lê implicar uma necessidade de provar ou de verificar a realidade textual em confronto com a realidade empírica, extraliterária.

Sem deixarmos de estar de acordo com esta posição por recusar a necessidade de prova e de verificação enquanto caução de verdade, o que é legítimo em termos literários, não anulamos, no entanto, a ideia que avançamos antes em relação ao conceito de representação. Isto é, que a verosimilhança se concretiza quer no horizonte expectacional do leitor, quer em conformidade com as regras impostas pelo próprio género, mesmo quando o texto se institui como factor de transgressão, ou quando se impõe a tal máscara que dissimula as leis da escrita levando-nos a assumir o texto como submisso às regras e contingências da realidade.

Além do mais, não conseguimos colocar a verosimilhança no plano em que Kristeva a coloca (de verificabilidade e de prova), mas simplesmente no da possibilidade. Portanto, o texto mantém-se, no fundo, como o principal municiador dessa mesma verosimilhança, mas sempre enquadrado num movimento interactivo e incessante com o leitor. Isto significa que, e no âmbito do acordo tácito que aí se estabelece, enquanto que a obra finge que o mundo que cria é verdadeiro, o leitor, por seu lado, finge completamente que assume como verdadeiro o mundo que a obra lhe proporciona.

Em convergência com a nossa posição e com a defendida, de certa forma por Todorov, Antonio Risco e Ryan, Gérard Genette (1969: 76) explica que a verosimilhança, que pode variar em parte ou no seu todo, se institui com base em relações de implicação entre, por exemplo, a conduta das personagens e máximas gerais, normativas, implícitas e cristalizadas cultural, moral e socialmente. Isto é:

Le récit vraisemblable est donc un récit dont les actions répondent, comme autant d’applications ou de cas particuliers, à un corps de maximes reçues comme vraies par le public auquel il s’adresse : mais ces maximes, du fait même qu’elles sont admises, restent le plus souvent implicites.

Temos, uma vez mais, a ideia de um «contrato tácito entre a obra e o seu público», de tal modo que uma conduta torna-se incompreensível ou extravagante, inaceitável, portanto, quando não vai de encontro ao horizonte expectacional dos leitores apoiados num determinado conjunto de normas e de princípios. Incluem-se, obviamente, as próprias convenções do género que funcionam como um sistema de forças e de resistências naturais às quais a narrativa obedece sem sempre dar a entender que as percebe e sem as ter que nomear.

Obviamente que nem todas as obras literárias se mantêm reféns da opinião plebiscitária dos leitores. E aqui, o que temos é uma escrita comprometida com uma ordem particular ou uma imaginação ilimitada. Desta feita, L’originalité radicale, l’indépendance d’un tel parti le situe bien, idéologiquement, aux antipodes de la servilité du vraisemblable (Genette, 1969 : 77).

Porém, como a verosimilhança implica a legibilidade da obra, sempre que o autor se apercebe que introduz elementos novos e que escapam ao domínio dos seus destinatários, ou que transgridem o quadro normativo em que se integram, adopta uma atitude pedagogia, didáctica, produzindo, a partir daí, um «verosímil artificial».

E, é, pois, uma espécie de «demónio explicativo», segundo Genette, que vai caracterizar muitos dos segmentos discursivos do romance colonial onde as explanações do narrador, jogando quer com motivações extraliterárias, quer com as leis da própria narrativa, ne sont pás là pour le seul plaisir de théoriser, elles sont d’abord au service du récit: elles lui servent à chaque instant de caution, de justification, de captatio benevolentiae, elles bouchent toutes fissures, elles balisent tous ses carrefours (p. 81).

Em relação, portanto, à literatura colonial, podemos identificar, a partir dos próprios textos, a prevalência de determinadas normas ou princípios de ordem estética, moral, cultural, civilizacional que regem as mundividências e condutas particulares das personagens (e do próprio narrador). Todos esses aspectos traduzem-se, por exemplo, em ideias que têm a ver com a acção civilizadora do homem branco, a inferioridade do negro, a hegemonia da cultura ocidental, etc., e que acabam por constituir pontos de referência em termos de aceitação do que essa literatura veicula, isto é, em termos de verosimilhança. Verosímil que, na vertente mais marcadamente ideológica da literatura colonial, traduz um pretenso ecumenismo que se liga, para todos os efeitos, às expectativas do leitor pretendido.

Há, pois, uma espécie de convencionalidade que determina que um texto seja lido não só como literário, mas também como verosímil. Trata-se de um hyper-protected cooperative principle (Culler 1997: 24), que assegura a comunicação literária. Segundo a esclarecedora perspectiva de Jonathan Culler, o leitor corresponde aos dispositivos do texto, lendo-o e construindo o(s) sentido(s) em função do que lhe é proposto, resultando a eficácia da comunicação da cooperação que se estabelece entre a entidade autoral e o leitor através do próprio texto. Fazendo a interpretação um elemento determinante, tal como Wolfgang Iser, Culler (p. 29) considera que

the literary work is a linguistic event which projects a fictional world that includes speaker, actors, events, and an implied audience (an audience that takes shape through the work’s decisions about what must be explained and what the audience is presumed to know).

Da mesma forma, o «princípio cooperativo hiperprotegido», afinal na mesma linha do «hipercódigo» referido por Antonio Risco, e tendo em conta que estamos perante entidades históricas (autor-obra-leitor), concede, também, ao verosímil uma dimensão histórica. Isto é, aquilo que é verosímil numa determinada época, num determinado contexto, pode deixar de sê-lo, noutros.

Quer dizer, da mesma forma que o realismo de Flaubert, Balzac, Stendhal, Dostoiewski ou Dickens vai, de certa forma, alterar ou alargar o conceito de verosímil – dominado, tradicionalmente, pela representação dos comportamentos exemplares das personagens ligadas às classes hegemónicas –, através da transferência do protagonismo para personagens vulgares como camponeses, criados, comerciantes, operários, o realismo colonial, por seu lado, vai também alargar esse mesmo conceito de verosímil. Isto é, ao permitir que personagens de indivíduos não brancos, mesmo que condicionadas no seu comportamento e na sua atitude mental pela perspectiva manipuladora e etnocêntrica do narrador, mesmo que em confronto com a personagem do colono, joguem papéis determinantes na história narrada como são os casos dos romances Omar Ali, A Neta de Jazira, Fogo III, Raízes do Ódio ou Ku Femba.

Atendendo a que a literatura colonial é direccionada para um público determinado, para um destinatário específico, localizado espacial e temporalmente, interpretar essa mesma literatura torna-se, hoje, um exercício hermenêutico desafiador que requer reenquadramentos históricos e culturais. Isso, tratando-se de um leitor deslocado, ou desconhecedor, em absoluto, do contexto espácio-temporal em que essas obras foram produzidas e profusamente lidas. Trata-se, portanto, de um distanciamento que, apesar da carga informacional reunida nos textos, pode condicionar a recepção das obras.

Isto é, se é verdade que o autor, no extremo do processo comunicacional que desencadeia, é condicionado pelos códigos histórico-culturais que lhe são coevos, o leitor de hoje irá, como é óbvio, na interpretação do texto, aplicar os códigos que fazem parte do seu universo cultural. Apesar da inevitável reconstituição a que será com certeza submetida e partindo do pressuposto que ela assegura a plena legibilidade dos textos, a ideia de verosimilhança irá apresentar contornos mais complexos e fugidios, mas sempre como caução da própria ideia de representação.



3. O múltiplo e o diverso

Excerto 1

Gritam, galos do mato, empoleirados nos braços musculosos dos imbondeiros. Afloramentos de granito, como répteis gigantescos, aquecem o dorso negro ao flamejar do soalheiro. Assustadas, refugiam-se codornizes, em voo estrepitoso, no mais denso das moitas de espinheiras. Esbracejam, em atitudes desengonçadas de esqueleto, os galhos rugosos de mitiáti, pobremente enfolhados.

!Paisagem monótona, despida de pompas, assoalhada mas triste, a perder-se por léguas!

Luta renhida pela existência! O folhedo a pedir angustiado à calidez do céu uma gota benéfica de orvalho; raízes contorcidas, espalmadas rés-vés com o solo, serpeando ou enroscando-se como jibóias; garrunchos grosseiros e disformes, gretados e negros; troncos encarquilhados como velhos mendigos, curvados em gibosas nodosidades; raízes aéreas, grossas como cordas, em fartas madeixas pendentes dos braços gretados das escassas frondes, outros tantos dedos inertes, caídos em atitude de desalento, a pedir inutilmente ao espaço a esmola que a terra implacável lhes não quer dar.

E sempre assim, léguas e léguas andadas pelo mesmo brejo agreste, calcorreando por entre herbagens como fios de arame, duras e praganosas, furtando o corpo às garras dilacerantes de espinheiras arbustivas, revoltadas contra a sua morte malfazeja.
(In Eduardo Correia de Matos, Sinfonia Bárbara, pp. 87-88)


Excerto 2

Passou Dezembro, ardente, dos dias longos. Janeiro correu célere. Fevereiro apareceu mais quente. O chão do Muende era enorme ventre inchado, onde germinavam as sementes, que o branco da cantina oferecera aos negros. Viam-se-lhe as protuberâncias, quando a semente, feita planta, empurrara a terra, para vir espreitar o Sol – e crescer, cheia de mornidões revigorantes, criadoras de seivas fortes. E as hastes delicadas das plantas se tornaram vergônteas rijas, gingando ao sabor da brisa. Às noites, receberiam a frescura dos cacimbos, que as tomavam de cima a baixo.

Os milharais tinham as espigas maduras. No topo das hastes fortes, as barbas do milho tinham mudado de cor: haviam passado do loiro dourado ao castanho escuro.
(In Rodrigues Júnior, Muende, p. 175)


Excerto 3

A indumentária de Catuane, essa é que era realmente assombrosa. Fazia a inveja e a cobiça de quantos a admiravam. Botas de cano largo, até meio da perna, de solas ferradas; calções à Chantily, às riscas azuis e brancas, chapeadas de cabedal em figuras geométricas; espessas meias vermelhas de lã que chegavam aos joelhos, saindo dos canos das botas; uma blusa feita de retraços de pergamóide de diversas cores, unindo ao meio por um fecho éclair; além dum casacão enorme, tão felpudo que era inteiramente aceitável ter pertencido ao espólio de algum alpinista. Na cabeça, um grande chapéu à cow-boy, de alta copa e de aba larga revirada, com duas penas de galo espetadas no alto. Óculos preto e uma sombrinha de senhora completavam a carnavalesca indumentária. A atravessar o lóbulo de uma das orelhas uma caneta de tinta permanente.
(In Eduardo Correia de Matos, Terra Conquistada, pp. 176,177)


Excerto 4

Cafere e as irmãs trouxeram, para a esteira, a panela de farinha, a carne de cabrito – e o tacho de ferro, com o molho de amendoim. O dono da casa iniciou o banquete, enfiando na panela maior a mão vazia, para a tirar cheia de farinha de milho cozida. Meteu, depois, no molho de amendoim, a bola que fizera dela – e foi comendo, devagar, enquanto a outra mão segurava um pedaço de carne assada, que ofereceu a Pedro da Maia. Pedro da Maia imitou Bambo, fazendo com a mão nua, uma bola de farinha cozida, que mergulhou no molho gorduroso […]

Quando nada ficou nas panelas, encostou à parede as costas largas, estendeu mais as pernas – e arrotou. Pedro da Maia fez um esforço – e arrotou, também, num acto de delicada cortesia, que Bambo agradeceu com um sorriso tão largo, que lhe deixou os dentes à mostra.
(In Rodrigues Júnior, Muende, pp. 73, 74)


Excerto 5

- … Não trazemos bandeirinhas como quando somos empurrados até Porto Amélia, e que uma vez levámos a Nampula para ver pessoa grande de Lisboa. Alguns gostaram ir. Era passeio de graça mesmo, com outra alimentação. Negro com cabeça maior nunca pode gostar destes passeios porque dinheiro gasto em bandeirinhas morreu assim mesmo, quando podia empatar-se para termos água perto das palhotas…
[…]
- Só falar não é nada, senhor governador. Fartos aguentar má vida! Vê esta gente ainda molhada? Choveu toda a manhã. Aguentamos porque desejamos ficar sem brancos nos macondes. [Itálicos nossos]
(In Agostinho Caramelo, Fogo III, pp. 225, 226)


Excerto 6

Fomos sempre mais um povo de aventureiros, nada ambiciosos, com pouco nos contentamos. Ligados, direi antes, amarrados a um atavismo das épocas recuadas em que as caravelas despejavam no reino carregamentos de especiarias vindas da costa do Malabar, continuamos até à presente época com o mesmo sistema, olhos fechados à realidade ultramarina. […] Tivemos sempre nos povos que civilizámos amigos fiéis que nada nos pediram, que defenderam as nossas fronteiras, que trabalharam resignadamente sem um queixume, sem um reparo. Somos um povo multirracial, vivemos sempre em paz e concórdia, tivemos essa felicidade, não a deixemos hoje fugir com posições de intransigência, de incompreensão.
(In Eduardo Paixão, Cacimbo, p. 249)


Atentando nestes seis excertos, consideramos que são vários os elementos que garantem a sua aceitabilidade e que, portanto, os tornam verosímeis aos olhos de múltiplos e diferentes leitores. Isto sem descurar o desfasamento referencial entre a realidade representada, o contexto onde se inserem muitos desses leitores e o seu horizonte de expectativas.

Vamos, pois, sem deixar de equacionar como se processa essa representação – que oscila entre a narração, o diálogo e a descrição – identificar o que é aí representado. Com esta identificação, procuramos por um lado, interligar o conceito de verosimilhança, enquanto dimensão representacional fundamental, com uma produção literária determinada e, por outro, deixar em aberto a abordagem das categorias, dos elementos e das modelizações que participam dessa mundividência específica.

Assim, no primeiro excerto, construção com fortes marcas impressionistas, deparamo-nos com uma representação dominada pelo espaço. Espaço que, apesar de humanizado pelo olhar da entidade que o recria, é essencialmente de desolação e de solidão.

Veremos, adiante, como o espaço é uma categoria determinante não só dos movimentos narrativos particulares, mas também da representação da colonialidade literária[2], em geral, subordinada a percepções e vivências em que os lugares, sejam eles privados ou colectivos, sejam eles reais ou imaginários, interiores ou exteriores, surgindo como referências dolorosas e insuportáveis, por um lado, ou com uma dimensão sortílega e compensatória, por outro, acabam por se instituir, todos eles, como verdadeiramente estruturantes.

No segundo excerto, temos o tempo como um dos centros do processo representativo. E o tempo, melhor, a sua fluência aparece-nos aqui tanto no seu movimento objectivo, homogéneo e cronológico (Dezembro, Janeiro, Fevereiro), como nos surge fundamentalmente enquanto efeito estético, de tal modo que é através dos motivos e dos elementos da natureza que nos damos conta do tempo que efectivamente evolui: «viam-se-lhe as protuberâncias, quando a semente, feita planta, empurrara a terra, para vir espreitar o Sol – e crescer…».

E é muito na relação com o espaço e os seres que é marcada a representação do tempo no romance colonial (daí a ideia bakhtiniana de o romance ser, no essencial, um cronótopo[3]) em que a tangibilidade realista é dominante. Casos há, como iremos verificar, em que o tempo mais do que uma dimensão categorial da narrativa apresenta-se como o grande protagonista. Seja o tempo como «mobilidade imóvel», segundo Bergson – quase sempre tempo de inacção e de despojamento –, seja o tempo no seu movimento incessante: vertiginoso ou lento, edificante ou desestruturante.

Reflectindo uma tensão metonímica, a descrição da indumentária da personagem conduz-nos, no terceiro excerto, à representação do ser na sua condição física e psicológica. Nesta representação, com inequívocos contornos caricaturais, interagem duas visões do mundo; por um lado, a do narrador (de quem vê) que polvilha a sua descrição com doses calculadas de juízos de valor (realmente assombrosa, inteiramente aceitável ter pertencido ao espólio de algum alpinista, à cow-boy, carnavalesca indumentária).

Por outro lado, temos a visão do mundo de Catuane, aquele que é visto, e que não sentindo o ridículo experienciado pelo narrador vive, no seu próprio envaidecimento, a importância e a sobrevalorização da sua pessoa, pois: «Fazia a inveja e a cobiça de quantos o admiravam».

A partir desta dicotomia entre o olhar do narrador e o ser objectalizado, o Outro, neste caso, institui-se numa rede interpretativa, uma espécie de «intriga ética», ou «uma não-relação», segundo Lévinas, e que representa uma das imagens de marca de toda a literatura colonial. Tal é a carga preconceituosa que domina toda essa interpretação – vista nos dois sentidos, isto é, do observador para o observado e vice-versa – que nos parece incontornável a ideia de que na interpretação do Outro, a subjectividade do observador sobrepõe-se de modo irredutível.

No quarto excerto, confrontamo-nos com a dimensão cinética da narrativa e que nos é veiculada através da representação do conjunto de acções das personagens. Todo esse movimento apresenta-se dominantemente com virtualidades diacrónicas. Trata-se de uma ordem não só cronológica, mas essencialmente lógica. Desde o momento que precede o repasto, em que Cafere e as irmãs trazem a panela de farinha, a carne de cabrito e o molho de amendoim, até o momento em que os comensais arrotam, temos uma representação sugestiva em termos de cadencia cinematográfica, em que os detalhes mostrados acabam por adquirir valor próprio. E esta é uma das características maiores da narrativa colonial que, no desvelamento de uma realidade alienígena, explora no pormenor o fardo antropológico e histórico de uma civilização. Mesmo com as distorções e as leituras enviesadas que se reconhecem.

Com a figuração da linguagem, que encontramos no quinto excerto, vem à superfície o conceito de auto-representação. Isto é, à linguagem que fala a linguagem. Gesto que é aqui desenvolvido através de uma tipicidade discursiva que, neste caso, é uma desfiguração sintáctica do português-padrão: alguns gostaram ir. Desfiguração que pode também ser a nível semântico: Negro com cabeça maior, isto é, negro inteligente.

Esta transfiguração linguística insere-se no contexto mais vasto do afã realista da literatura colonial que procura representar todo um universo em que a exploração da diferença se institui como um fenómeno verdadeiramente marcante em termos de anulação do Outro. A diferença que é referida no nosso estudo tem a ver não só com o Outro, que é encontrado num espaço outro, mas também com aquele que o encontra, com as construções que aos dois se referem e, finalmente, com quem evidencia essa mesma diferença. Os que vêm de fora (os europeus) assumem-se, assim, como diferentes em relação ao espaço de chegada do mesmo modo que se irão tornar gradualmente diferentes (embora não essencialmente outros) em relação ao lugar de origem (Europa).

Voluntária ou não, a vertente auto-representativa da linguagem acaba por ser uma credencial, mesmo que obedecendo a desígnios extraliterários no sentido da depreciação e da inferiorização cultural, que permite reconhecer alguma modernidade nesta literatura. E a modernidade institui-se, de modo particular, quando a linguagem se coloca no centro da criação literária, espaço de produção estética.

E o romance de Agostinho Caramelo, todo ele em ritmo dialogado, intercruzando falas distintas, com níveis de língua também distintos, é um exemplo destacado dessa vertente emancipatória do romance.

Como o último excerto, extraído de Cacimbo de Eduardo Paixão, confrontamo-nos com um dos aspectos mais carregados de intencionalidade da literatura colonial e esteticamente mais problemáticos: a representação ideológica.

Segundo Mukarowski (1975: 303-304), a «concepção do mundo pode significar quer a atitude que o homem de uma época qualquer adopta em relação à realidade, ou então, designa um determinado conteúdo ideológico». Se há uma Weltanschauung presente, explícita ou implicitamente, numa produção artística, essa parece ser, a todos os títulos, uma evidência no romance colonial, em geral, e neste texto, em particular.

E tratando-se, neste caso, de um manifesto exercício autognóstico – o de um povo que se repensa através da consciência de uma personagem – reconhece-se aí uma das imagens de marca de qualquer ideologia: a de ela impor-se como um sistema de ideias dominante. Por conseguinte, apesar da projecção de um aspecto negativo, ao deixar a descoberta uma verdadeira «ferida narcísica», como diria Freud, com a afirmação de que «fomos sempre mais um povo de aventureiros, nada ambiciosos, com pouco nos contentamos», há, logo de seguida, na fala da mesma personagem, uma genuína vangloriação, uma hipervalorização cauterizante e sublimatória de todos as imperfeições: «Somos um povo multirracial, vivemos sempre em paz e concórdia, tivemos essa felicidade, não a deixemos hoje fugir com posições de intransigência, de incompreensão.».

A representação do ideológico que é recorrente na literatura colonial – e que muitas vezes se fica pelas entrelinhas – acaba por ser decisiva na concepção do mundo que aí prevalece. A ideologia constitui, afinal, e ainda segundo Mukarowski (1975: 311), «um dos elementos da obra de arte, mas um elemento que funciona como laço eficaz entre a arte e toda a ampla esfera da cultura humana e as suas diversas componentes como a ciência, a política, etc.».

Posição que, num outro contexto, é partilhada por Althusser (Jameson, 1981: 30) para quem a ideologia é uma estrutura representacional que permite ao sujeito imaginar a sua efectiva ligação com a estrutura social ou lógica da História.

Portanto, analisar a função ideológica inscrita no romance colonial pode ser determinante para entender as diferentes interacções estabelecidas pelo próprio texto. Facto de que nos dá conta Jenny Sharpe (1993: 8-9) quando afirma: I also [como Foucault] consider a theory of ideology to be crucial for addressing cultural constructions of race, class, and gender.

Considerando, na esteira de Althusser, a ideologia como uma «second-degree relation», a mesma estudiosa adianta que ideology is not «the imaginary» but the articulation of na ideal (Womanhood, Nation, Democracy) with the relations that make that ideal active (gender and sexuality, race and ethnicity, class and status).

Se eh verdade que a literatura, do ponto de vista estético, fica caucionada sempre que a motivação ideológica é evidente, por outro lado, não deixa de ser interessante perceber o texto literário coo um espaço dialógico, ou melhor, antagonistique dialogue of class voices em que acaba por se sobrepor a voice of a hegemonic class (Jameson, 1981: 79). Neste caso, a voz que determina que a literatura colonial seja exactamente o que ela é: colonial.

[1] A nota curiosa do preceito mimético na literatura ocidental é que já não se trata de imitar a realidade, mas os modelos que asseguram a aceitabilidade dessa imitação. Esta é uma ideia que atravessa diagonalmente as reflexões de Erich Auerbach (1946) e Michel Foucault (1966).
[2] Como antes já foi sistematizado, entendemos por colonialidade literária o conjunto de marcas específicas que no texto traduzem a hegemonização cultural e civilizacional do universo das personagens identificadas com o colono, através de formas discursivas, comportamentais ou psicológicas.
[3] Na definição avançada por esse teórico russo, chronotope, ce qui se traduit, littéralement, par «temp-espace»: la corrélation essentielle des rapports spatio-temporels, telle qu’elle a été assimilée par la littérature (Bakhtine, 1975 : 237). Sobre a origem do termo, esclarece-nos o autor que : Ce terme est propre aux mathématiques; il a été introduit et adapté sur la base de la théorie de la relativité d’Einstein.

Animais? Humanos?


Ontem à noite mais uma vez tentei ignorar os gritos de um cão atropelado. Não consegui. Não eram gemidos nem latidos, eram gritos de dor, de desespero, de abandono. Eu tirei as mãos do computador, arranquei os óculos da cara e fiquei rezando para que o cão morresse logo. Dormi com a imagem do pobre animalzinho encolhido em qualquer canto, sozinho, sofrendo, sentindo a solidão das suas feridas.


Em outro tempo, em outro lugar, teria saído correndo em busca do acidentado, teria chamado o veterinário, teria cuidado do seu sofrimento e tentado amenizar seu abandono. Mas aqui, não posso. Todos os dias são dezenas de cães atropelados, maltratados, abandonados e eu rezo para que todos eles morram logo, como se reza para que o sofrimento de um doente terminal acabe.


A impotência é o pior dos sentimentos. Dizer «não posso» é a pior das frases. Mas, realmente, não posso.


Enquanto tento dormir, crio imagens de um hospital canino destinado a tratar destas emergências. Um carro a vagar pela cidade dia e noite atrás de cães abandonados que os recolhe e os leva a um abrigo. Sonho em ganhar na loteria para comprar um sítio grande o suficiente para acolhê-los e cuidá-los e para ter dinheiro suficiente para dar-lhes todos os mimos que dou aos meus dois cães.


Meus dois cães não sabem como são afortunados. No fundo, não têm mais do que merecem. Têm água limpa, comida abundante, banhos, remédios e muito amor. Mas o que é isso perto de tudo o que eles me dão? Não, eu não lhes dou nada de graça, recebo em dobro a alimentação e os cuidados que lhes dou.

Voltando aos cães que não são meus… Eles são do mundo, das ruas, filhos da miséria humana. Miséria da alma humana que despreza, judia e mata sem remorso criaturas indefesas que só têm amor para dar.

Às vezes penso que seria mais humano matá-los a todos, colocá-los em uma grande câmara de gás e acabar com seu sofrimento. Mas não, diriam alguns – câmara de gás não é humano, é desumano.

Aí está um conceito que não consigo entender. Utiliza-se a expressão «humano» como sinónimo de bondade; utiliza-se «animal» como sinónimo de maldade. Está tudo trocado.

Ora os ditos humanos destroem, poluem, inventam guerras em nome da cobiça e endurecem cada vez mais seus corações. A morte é cada vez mais banalizada nos noticiários. Ferem e fazem sofrer por motivos mesquinhos e ainda têm a petulância de justificar que o fazem por humanidade. Exactamente! As guerras, as fomes, a desolação do planeta, tudo é feito por humanidade!

E os animais? Ah, sim, são perigosos. Cobras picam e matam; elefantes arrasam colheitas inteiras com seus pesados pés; leões atacam sem piedade; jacarés engolem pés e mãos e pessoas inteiras; ursos polares competem na pesca com esquimós; pássaros comem as sementes das lavouras… Animais! Terríveis criaturas que simplesmente defendem seu território de invasores ou vão em busca de comida porque sua comida foi destruída pela humanidade.

Outro dia, encontrei uma cobra mamba no meu quintal. Era filhote, da grossura do meu dedo e com uns 20 centímetros. Relutei em matá-la, afinal, muito antigamente, no lugar desta casa havia um mato espesso onde ela podia esconder-se e caçar à vontade. E era o que fazia no meu quintal, tentando engolir um sapinho gordo que não passava nas suas mandíbulas. Matei-a por medo, por precaução. O correcto seria abandonar o quintal e deixá-lo todo para ela. Mas minha humanidade me impede de respeitar seu espaço, ela que respeite o meu!

Então esta é a solução: matem todos os animais. Construam uma grande câmara de gás e coloquem todos lá dentro. Que durmam tranquilos e vão para o céu, de onde nunca deveriam ter saído, porque são todos anjos de bondade e inocência.

A humanidade não merece sua companhia. Somos humanos demais, mesquinhos demais. Vamos criar uma civilização de animais-robôs programados para fazerem todas as graças dos antigos animais de carne e osso, sem o instinto de picar, pisotear, caçar… cães e gatos de estimação que não fazem chichi nem cocô, que não roem os sapatos, que não precisam de banho e cuidados. Será fácil. Quando estivermos muito atarefados e não lhes pudermos ou quisermos dar atenção, desligaremos o botão. Receberemos amor quando quisermos, uma lambida com gosto de lata, um ronronar metálico entre nossas pernas.

E, enquanto tudo isso acontece aqui embaixo, os animais-anjos estarão rindo de nós lá no céu, felizes, pulando de nuvem em nuvem em liberdade e harmonia. Esta é a sociedade perfeita, o mundo perfeito, sem guerras, equilibrado, onde só se caça por fome e só se ataca por defesa. Infelizmente, a humanidade ainda não evoluiu suficientemente para chegar a este nível.

Perguntas...



Hoje lembrei de um poema do Brecht, «Perguntas de um trabalhador que lê». Lembrei porque também tenho muitas perguntas que andam sem resposta...


Pensei em parodiá-lo, seria o poema «Perguntas de uma dona-de-casa que lê», mas quando li «Quem construiu a Tebas, a das sete portas...» desisti na hora. Não consegui achar nada que fosse construído por uma dona-de-casa letrada, pelo menos nada material, a não ser bolos, assados, biscoitos... mas isso depois desaparece, permanece somente na lembrança de quem comeu - isso se estiver muito bom ou muito ruim, porque, se estiver «normal», ninguém lembra mesmo! Eu mesma não lembro o que jantei ontem!


Mesmo assim, resolvi perguntar...


Por que quando tenho que estudar quero cozinhar e quando tenho que cozinhar quero estudar?

Por que quando finalmente consigo engatar um raciocínio, meu marido chega do trabalho?
Por que demorei tanto tempo procurando a diferença entre Teoria da Literatura e Ciência da Literatura e no final descobri que são basicamente a mesma coisa?

Por que, quando resolvo fazer «aquela» receita diferente, nunca tenho os ingredientes?

Por que o sexo era bem melhor quando meu marido era meu namorado?

Por que a empregada simplesmente faz questão de fazer de conta que não entende o que eu digo?

Por que nos raros dias que estou inspirada, perfumada e empolgada, meu marido chega cansado e estressado do trabalho? E vice-versa?

Por que o Barthes escreveu tantos livros se na maioria deles repetiu o que os estruturalistas russos disseram? E por que eu tive que ler Barthes para descobrir isso?

Por que fiquei curiosa em descobrir mais sobre o tal lusotropicalismo? E por que agora vou me obrigar a reler Casa Grande e Senzala para entender essa maluquice?

Por que a tarde passou tão depressa, ja são 7:00, ainda tenho que tomar banho e preparar o jantar e, na verdade, queria ficar aqui viajando e buscando mais porquês???

Agora um porque junto: porque c'est la vie...

Ah, só mais uma: Por que resolvi que iria aprender francês sozinha e agora passo manhãs inteiras fazendo biquinho para o espanto e gozação dos empregados???

Fui, então, porque já acabou meu tempo!


Ecologia, Hipocrisia e Recalque



Não costumo assistir televisão. Penso que existem coisas muito mais interessantes e informativas do que ficar horas e horas sentada à frente de uma tela que nos diz como agir e como viver...Mas, recentemente, num desses momentos de ociosidade completa, resolvi passar os canais.



Num canal conhecido, a National Geographic, passava uma reportagem sobre o lixo tóxico que os EUA haviam despejado no fundo da baía de Monterey e que agora está causando graves problemas - o feitiço virou contra o feiticeiro - o lixo contaminou a cadeia alimentar e está indo parar no prato dos poluidores. Confesso que pensei baixinho: «bem feito! - quem mandou sujar???».



Em outro canal, passava ao vivo uma conferência sobre o meio ambiente em Moçambique. O palestrante falava sobre dados da ONU, revelando que os EUA, com somente 5% da população mundial, consumiam 40% das reservas naturais do planeta. Se todos os habitantes da Terra consumissem como os estadunidenses (explico mais abaixo o uso deste termo), seriam necessários 6 planetas Terra!Este palestrante disse também que somente agora os EUA estão começando a ceder às pressões do protocolo de Kioto e iniciando uma tentativa de redução da emissão dos gases poluentes...Por fim (antes de eu desligar a televisão), disse que precisamos urgentemente encontrar meios para pressionar os «senhores do mundo» na questão ambiental, mas que, em contrapartida, temos que «limpar nossos quintais» também.Corretíssimos, a Nat Geo e o palestrante do outro canal.



Estas observações acenderam a minha velha aversão aos EUA. Aversão aprendida na escola, na faculdade, entre os hipócritas intelectuais comunistas-marxistas e todos os «istas» que se puder imaginar...Aprendi, naquele tempo, que não se pode chamar aos habitantes dos EUA «americanos» porque este termo pertence a todos os habitantes das 3 Américas, consequentemente, os brasileiros, bolivianos, chilenos......... também são americanos; muito menos «norte-americanos», porque a esta denominação também respondem os Canadenses e os Mexicanos. O termo politicamente correto (sob qual ponto de vista?) é mesmo «estadunidense».

Nós, dos países sub ou em vias de desenvolvimento, temos este nato sentimento confuso em relação aos vizinhos ricos do Norte. Ao mesmo tempo que os odiamos, os admiramos e os invejamos. Eu, particularmente, tenho outro termo para isso: recalque. Isso mesmo. Somos todos recalcados.Julgamos e condenamos, mas não nos colocamos no lugar deles. Será que não faríamos o mesmo? Quem no Brasil ou em qualquer outro país «sub» ou «terceiromundista» abriria mão da sua água quente no chuveiro, do seu forno de micro-ondas, da sua geladeira e do seu ar-condicionado? Quem abriria mão do spray para mosquitos e das lindas frutas e verduras cheias de agrotóxicos? Quem deixaria de passear no seu carro altamente poluente para enfrentar um ônibus lotado? Sou sincera: EUZINHA, NEM MORTA!

Gostei da expressão (acho que já bem batida) daquele palestrante: limpar nossos quintais. Se fôssemos viver de acordo com todas as leis ecológicas, teríamos de voltar à época dos paus e pedras. Sem eletricidade, sem confortos. Comendo o que a terra nos dá - porque a matança de animais também é anti-ecológica. Repito: sou sincera - não vivo sem um bom bife mal passado!Isso tudo é para dizer que somos radicais no que se refere aos hábitos dos outros - ELES não devem poluir, ELES não devem matar os animais, ELES não devem.... tantas reticências e tantos etecétaras...Mas NÓS... ah, nós não podemos viver sem nossos confortos.Quero deixar claro que não estou defendendo DE JEITO NENHUM os Estados Unidos. Nunca me passaria pela cabeça.

Continuo considerando-os os bandidos mais perigosos do mundo, sem escrúpulos nem humanidade nenhuma - veja-se Iraque & Cia (com trocadilhos). Mas, quanto à ecologia, acho que deveríamos parar com esse recalque de dizer que ELES devem ser pressionados. Primeiro, pressionemos a nós mesmos. Olhemos os nossos rabos antes de apontar os dos outros, talvez o nosso seja mais comprido.


Para terminar: li em algum lugar que a presença de borboletas indica um ambiente não contaminado, limpo de qualquer substância tóxica ou nociva à vida - as borboletas são extremamente sensíveis a qualquer poluição. Sugiro: olhem agora pela janela e procurem uma única borboleta.

Se avistarem alguma, podem jogar a primeira pedra em quem quer que seja.Eu, particularmente, tenho borboletas no meu jardim. Mas vivo na África, em Moçambique, num país sub-sub-sub-sub-desenvolvido... Será que continuarei a ter borboletas no meu jardim quando Moçambique se tornar um país desenvolvido como todos querem?

Crise da noção de pessoa


Vítor Manuel de Aguiar e Silva, no seu livro Teoria e Metodologia Literárias (Universidade Aberta, Lisboa, s/d), falando sobre o nascimento do 'nouveau roman' destaca a crise da noção de pessoa como como subjacente à crise da personagem romanesca. Neste 'novo romance', a personagem já não é descrita como nos romances dos séculos XVIII e XIX, com nome, atributos físicos e caracteres psicológicos bem definidos.

Chamou-me a atenção o último parágrafo do sub-capítulo 9.3.4 (O retrato da personagem), na p. 263, que diz o seguinte:



«Esta crise da noção de pessoa, imediatamente explicável pela influência exercida em largos sectores intelectuais e artísticos pela psicanálise e pela psicologia das profundidades, tem uma matriz mais profunda e deve situar-se num contexto mais amplo: trata-se de uma consequência e de um reflexo da crise ideológica, ética e política que vem minando a sociedade ocidental contemporânea - crise que alcançou o paroxismo com a sociedade neocapitalista dos nossos dias, dominada por uma tecnologia cada vez mais tirânica, regida pelo ideal do consumo crescente de mercadorias e serviços e comandada por um capital cada vez mais anónimo, mais identificado com gigantescos empreendimentos técnico-económicos de carácter multinacional e, por isso mesmo, cada vez mais brutalmente desumano. Nesta sociedade tecnoburocratizada, carecente de motivações éticas profundas, onde o homem sofre e não age, onde a reificação vai implacavelmente alastrando, o romance não poderia retratar personagens segundo os moldes e os valores da sociedade burguesa e liberal dos séculos XVIII e XIX.» (negrito meu)



O autor aqui não insinua, mas diz diretamente que vivemos numa sociedade sem identidade, sem motivações pessoais ou individualizações...



Quando ele diz «... o homem sofre e não age...» é como um tapa na nossa cara, porque vemos as barbáries, sangramos por dentro e o único ato que praticamos é mudar de canal ou fechar o jornal - ou quem sabe, no máximo, mandar um e-mail para toda a nossa lista de contatos protestando, com palavras de ordem.



Lembrou-me o Huxley e seu Admirável Mundo Novo - só falta mesmo admitirmos que somos humanóides, robôs programados pela mídia e pelas convenções de um capitalismo impessoal (será redundância chamar o capitalismo de impessoal?)!



Ah, o idílio, onde estão os pastores do Parnaso nesta algura???

A caminho da completa inutilidade masculina



Depois da emancipação feminina, da invenção do veneno de barata, do guindaste e do vibrador, a última função masculina está sendo posta em causa.

Em Londres, cientistas britânicos criaram espermatozóides a partir das células-tronco masculinas que podem ser a solução para uma concepção completamente feminina...

Leiam matéria abaixo, extraída do site do jornal O Globo, de 13/04/2007 - (xiii... que notícia para os homens, logo em uma sexta-feira 13!!!)


Técnica daria espermatozóides às mulheres

O Globo

LONDRES - Cientistas conseguiram criar células sexuais masculinas em laboratório a partir de células-tronco extraídas da medula óssea de homens, num estudo que promete aumentar a discussão sobre os limites da ética na reprodução assistida. A pesquisa, em tese, abre caminho para que sejam criados espermatozóides de mulheres, tornando possível, por exemplo, que um casal de lésbicas tenha filhos biológicos. De acordo com a reportagem do jornal britânico «The Independent», os pesquisadores já estão buscando obter autorização para tentar desenvolver células sexuais masculinas a partir de células-tronco da medula óssea de uma mulher.
- Teoricamente é possível. O problema é saber se os espermatozóides seriam funcionais ou não. Não acho que exista nenhuma barreira ética desde que seja seguro - afirmou, em entrevista ao jornal, o principal autor do estudo, Karim Nayernia, atualmente na Universidade de Newcastle upon Tyne, na Inglaterra. - Estamos no processo de tentar obter as licenças éticas. E nos preparamos para pedir autorização para usar as células-tronco existentes em um banco aqui em Newcastle. Precisamos da autorização do paciente que forneceu a medula, do comitê de ética e do hospital.
Se os especialistas conseguirem obter espermatozóides femininos, eles serão cultivados em laboratório. Depois, terão testada sua capacidade de conseguir penetrar um óvulo, no caso o de um camundongo, num teste básico para checar a viabilidade de espermatozóides.
- Queremos testar a funcionalidade de qualquer espermatozóide, masculino ou feminino, produzido dessa forma - afirmou Nayernia.
Entretanto, não há intenção, segundo o especialista, de produzir espermatozóides femininos para fertilizar um óvulo humano, o que requeriria a aprovação da Autoridade de Embriologia e Fertilização Humana do Reino Unido.
O objetivo imediato é avaliar se as células-tronco retiradas da medula óssea feminina poderiam mesmo originar espermatozóides. Não está claro ainda se as células femininas teriam as informações genéticas necessárias para criar uma célula exclusivamente masculina.
Criar espermatozóides de mulheres significa que eles só seriam capazes de produzir filhas mulheres porque o cromossomo Y do espermatozóide masculino é o responsável pelo nascimento de meninos. Para tanto, frisam os especialistas, ainda seriam necessários muitos anos de pesquisa. Mas ainda assim, o novo estudo torna a idéia da concepção feminina mais próxima da realidade.
Quer dizer -> as mulheres vão mesmo dominar o planeta!!! Cuidem-se, machões!!!