quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O Noivado do Sepulcro

Pertencente à segunda geração romântica portuguesa, o poeta Soares de Passos consagrou-se com este poema, O Noivado do Sepulcro.

Para os críticos e teóricos literários, esta geração da poesia romântica portuguesa não fez senão uma poesia de entoação melodramática, de linguagem artificialmente rebuscada e medievalizante, com soluções formais convencionais, ou seja, uma poesia estereotipada e destituída de capacidade de inovação estética. Resumindo: uma poesia que tinha por função a decoração da vida social, para ser recitada em serões e musicada.

Mas deixemos de lenga-lengas e vamos ao poema:





Vai alta a lua! na mansão da morte


Já meia-noite com vagar soou;


Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte


Só tem descanso quem ali baixou.





Que paz tranqüila!... mas eis longe, ao longe


Funérea campa com fragor rangeu;


Branco fantasma semelhante a um monge,


Dentre os sepulcros a cabeça ergueu.





Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste


Campeia a lua com sinistra luz;


O vento geme no feral cipreste,


O mocho pia na mormórea cruz.





Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto


Olhou em roda... não achou ninguém...


Por entre as campas, arrastando o manto,


Com lentos passos caminhou além.





Chegando perto duma cruz alçada,


Que entre os ciprestes alvejava ao fim,


Parou, sentou-se com a voz magoada


Os ecos tristes acordou assim:





"Mulher formosa, que adorei na vida,


E que na tumba não cessei de amar,


Por que atraiçoas, desleal, mentida,


O amor eterno que te ouvi jurar?





Amor! engano que na campa finda,


Que a morte despe da ilusão falaz:


Quem dentre os vivos se lembrará ainda


Do pobre morto que na terra jaz?





Abandonado neste chão repousa


Há já três dias, e não vens aqui...


Ai, quão pesada me tem sido a lousa


Sobre este peito que bateu por ti!





Ai quão pesada me tem sido!"e em meio


A fronte exausta lhe pendeu na mão,


E entre soluços arrancou do seio


Fundo suspiro de cruel paixão.





"Talvez que rindo dos prostestos nossos,


Gozes com outro d'infernal prazer;


E o olvido cobrirá meus ossos


Na fria terra sem vingança ter!"





- "Ó nunca, nunca!" de saudade infinita,


Responde um eco suspirando além...


- "Ó nunca, nunca!" repetiu ainda


Formosa virgem que em seus braços tem.





Cobrem-lhe as formas divinais, airosas.


Longas roupagens de nevada cor;


Singela c'roa de virgíneas rosas


Lhe cerca a fronte dum mortal palor.





"Não, não perdeste meu amor jurado:


Vês este peito? reina a morte aqui...


É já sem forças, ai de mim, gelado,


Mas ainda pulsa com amor por ti.





Feliz que pude acompanhar-te ao fundo


Da sepultura, sucumbindo à dor:


Deixei a vida... que importava o mundo,


O mundo em trevas sem a luz do amor?





Saudosa ao longe vês no céu a lua?"


- "Ó vejo sim... recordação fatal"


- Foi à luz dela que jurei ser tua


Durante a vida, e na mansão final.





Ó vem! se nunca te cingi ao peito,


Hoje o sepulcro nos reúne enfim...


Quero o repouso do teu frio leito,


Quero-te unido para sempre a mim!"





E ao som dos pios co cantor funéreo,


E à luz da lua de sinistro alvor,


Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério


Foi celebrado, d'infeliz amor.





Quando risonho despontava o dia,


Já desse drama nada havia então,


Mais que uma tumba funeral vazia,


Quebrada a lousa por ignota mão.





Porém mais tarde, quando foi volvido


Das sepulturas o gelado pó,


Dois esqueletos, um ao outro unido,


Foram achados num sepulcro só.





Gostaram? Pode ser fútil, mas é lindo!

Relendo este poema, lembrei-me de uma notícia que li no início de 2007.
Arqueólogos encontraram na Itália uma tumba com dois esqueletos humanos abraçados. Supunham, na época (agora já não sei, não acompanhei a reportagem), que fossem de um homem e de uma mulher. Estavam sepultados há 5000-6000 anos e calculava-se que haviam morrido muito jovens, pois seus dentes ainda estavam intactos e pouco gastos.





Vejam a foto:






Agora me pergunto: será coincidência? Alguns dirão: claro! Mas, e quem pode dizer de onde vem a inspiração de um poeta??? Pergunto também: será mesmo fútil retratar um amor eterno???

Deixo com vocês!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Crianças bonitas


Qual destas duas meninas é mais bonita? Existe criança feia???
À esquerda, Yang Peiyi, a dona da voz.
À direita, Lin Miaoke, a dona do rosto.


Matéria publicada no Jornal de Moçambique, p. 14, em 13 de agosto/2008 (e aposto que em muitos outros jornais espalhados pelo mundo):

O director musical da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Beijing - 2008, decorrida na sexta-feira passada, admitiu que a menina chinesa que supostamente cantou «Ode à Pátria» durante o show no estádio Ninho de Pássaro não era a dona da voz. O motivo? A cantora verdadeira não era suficientemente bonita para representar a China.

«Queríamos passar uma imagem perfeita e pensamos no que seria melhor para a nação», explicou Chen Quigang, em entrevista à televisão chinesa. O conteúdo chegou a ser veiculado no portal Sina.com, mas depois sumiu.

A imprensa chinesa divulgou ontem fotos de Lin Miaoke, de nove anos, a tratando como uma estrela em ascensão. No entanto, ignoram Yang Peiyi, de sete anos, a dona da voz que é gordinha, tem os dentes fora do lugar e uma óptima voz.

«Era uma questão de interesse nacional. A criança que apareceria diante das câmeras tinha que ser expressiva», argumentou Chen.

«Lin Miaoke é excelente para tudo isso. Porém, no que diz respeito à voz, Yang Peiyi é perfeita. Toda a equipa concordou», finalizou o compositor chinês.


Absurdo? Preconceito? Quantas pessoas diriam isso ao ler esta matéria. Afinal, o que faz uma criança mais ou menos bonita?
Simbolicamente, criança representa o futuro, o renascer, a esperança. A China, com estas Olimpíadas, quer mostrar ao mundo o seu poderio, o seu progresso, o seu sucesso. A ditadura que antes proibia as flores nos jardins agora dita a beleza, escolhe a beleza. Uma beleza superficial e falsa, como muitas coisas naquele país.

Cruelmente, negaram a uma criança o direito ser ela mesma. Falsificaram sua voz em outra criança, não menos vítima.
Essa é a China que se «abre ao mundo», tentando esconder os fuzilamentos, o controle cruel de natalidade e o domínio vergonhoso do Tibet.

Chocolate

Sou uma chocólatra compulsiva. Êpa, acho que isso foi uma redundância… chocólatra = viciada em chocolate, logo, todos os chocólatras são compulsivos… Por outro lado, chocólatra é não poder ficar sem chocolate e isso, com certeza, sou. Às vezes, dá-me uma vontade louca de comer chocolate. E compulsiva também, porque não consigo parar enquanto não terminar a barra ou a caixa.

Mas outro dia me peguei pensando… o que faz alguma comida realmente gostosa? Será cultural? Aprendemos desde cedo que chocolate é muito bom. Se seguir este pensamento, é claro que, se desde pequenos aprendermos que quiabo é bom (tem gente que gosta, mas… blargh!), então será que poderemos nos tornar quiabólatras?
Nesta mesma linha de pensamento: por que gostamos de certos cheiros e de outros temos repulsa?

Resumindo… será que nossos gostos são socialmente condicionados? É uma boa teoria, já que a maioria dos nossos comportamentos sociais são condicionados. O que é «feio» e o que é «bonito» é condicionado. Lembram-se de que na Roma antiga era normal vomitar após comer para poder comer mais? E quem não fizesse isso, era extremamente mal educado. Já pensaram se, hoje em dia, alguém fizer isso??? Muito «feio»!

Mas, voltando ao chocolate…

Meu filho está aprendendo a comer. Foi-me insistentemente recomendado pelos meus pais que o ensinasse a comer todas as verduras e legumes de que eu não gosto. Sim, não gosto de verduras, como pouquíssimos legumes, logo, detesto salada. Estou tentando ensinar meu filho a comer tudo isso. Mas ele não gosta de muita coisa. Com seis meses, já tem aquele gostar disso ou daquilo. Ao meio-dia, vira a cara para a sopa e faz ânsia de vômito. Mas, se for farinha láctea, ele come tudinho. Então, isso não é gostar mais disto do que daquilo?

Ontem estava comendo meu chocolate de sobremesa. Ele me olhava curioso. Peguei um pedacinho e coloquei na boca dele. Ele lambeu, chupou e – pasmem! – reclamou muito quando lhe tirei. Ele queria mais!

Assim, cheguei à brilhante conclusão de que, realmente, o chocolate é gostoso porque é gostoso. Não tem nada a ver com condicionamento.

Baita descoberta!!!

We are the world


Esta música foi gravada em 1985 para ajudar a combater a fome na Etiópia. Ela diz «nós somos o mundo, nós somos as crianças, nós somos os que podem fazer um dia melhor, então, VAMOS COMEÇAR». Infelizmente, esta mensagem ainda precisa ser passada.

Nestes tempos obscuros, mesquinhos e horrorosos, de guerras no Cáucaso e no Oriente Médio, de fome e de tristezas, de caos causado somente pelos homens, vale a pena lembrar esta música. A letra deveria ecoar e fazer pensar todas as pessoas para que, finalmente, descobríssemos que «we are the world», nós somos o mundo, um só mundo! Basta apenas começarmos a agir como tal!

O Poeta Morto - José Régio

O Descanso do Poeta - Chagall

Barbearam-no e vestiram-no de preto,

Calçaram-lhe sapatos de verniz,

Moscas varejas chupam-lhe o nariz,

E ele mantém-se pálido e correcto.



Cheira a cera no quarto, já repleto

Do que há de mais distinto no país:

... Um general, dois lentes, um juiz...,

Com ar triste, imbecil, grave e discreto.



Logo, os críticos sérios e carecas

Folhearão no pó das bibliotecas

Um livro caluniado enquanto vivo.



Esse a quem chamam hoje ilustre e augusto

Porque... porque ele, agora, é inofensivo

Como qualquer estampa ou qualquer busto!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Joana Francesa - Chico Buarque

Vergonha!!! Eu, que me considero A FÃ do Chico, que sonho com aqueles olhos verdes, não conhecia esta música! Vejam que coisa fantástica, linda, maravilhosa! Ele fez mais uma perfeição, os versos em francês combinando foneticamente com os em português...

Lindo demais, perfeito demais!!!

Tu ris, tu mens trop

Tu pleures, tu meurs trop

Tu as le tropique

Dans le sang et sur la peau

Geme de loucura e de torpor

Já é madrugada

Accord'accord'accorda

Mata-me de rir

Fala-me de amor

Songes et mensonges

Sei de longe e sei de cor

Geme de prazer e de pavor

Já é madrugada

Accord'accord'accord'accord...

Vem molhar meu colo

Vou te consolar

Vem mulato mole

Dançar dans mes bras

Vem moleque me dizer

Onde é que está

Ton soleil, ta braise

Quem me enfeitiçou

O mar, marée, bateaux

Tu as le parfum

De la cachaça e de suor

Geme de preguiça e de calor

Já é madrugada

Accord'accord'accord'accord...

sábado, 9 de agosto de 2008

Fernão Capelo Gaivota - Continuação V


Quando regressaram já estava escuro. As outras gaivotas olhavam Fernão com o assombro nos olhos dourados. Tinham-no visto desaparecer do lugar onde há tanto criara raízes. Suportou as felicitações por menos de um minuto.

— Eu sou o mais novo aqui! Estou apenas começando! Sou eu quem tem de aprender com vocês.

— Tenho as minhas dúvidas, Fernão — disse Henrique, ali próximo. — Você tem menos medo de aprender do que qualquer outra gaivota que conheci em dez mil anos.

O bando ficou em silêncio e Fernão moveu-se embaraçado.

— Se você quiser, podemos começar a trabalhar, com tempo — disse-lhe Chiang —, até você poder voar no passado e no futuro. E então estará preparado para começar o mais difícil, o mais poderoso e o mais divertido de tudo. Estará preparado para voar no além e conhecer o significado das palavras "bondade" e "amor".

Passou-se um mês, ou algo que se pareceu com um mês, e Fernão aprendeu num ritmo tremendo. Aprendera sempre depressa, com a experiência vulgar, e agora, como aluno especial do próprio Mais Velho, fixou novas idéias, como um aerodinâmico computador de penas.

Mas chegou o dia em que Chiang se evaporou. Falara calmamente a todos, exortando-os a nunca deixarem de aprender, de treinar e de lutar por compreenderem cada vez melhor o perfeito e invisível principio de toda a vida. Então, enquanto falava, suas penas foram-se tornando cada vez mais brilhantes, e acabaram por ficar tão brilhantes que nenhuma gaivota o conseguia olhar.

As suas últimas palavras foram para Fernão:
— Continue trabalhando no amor, Fernão.
Quando puderam olhar outra vez, Chiang havia desaparecido.
À medida que os dias se passavam, Fernão surpreendia-se pensando no tempo e na terra de onde viera. Se ele tivesse sabido que havia só um décimo, só um centésimo do que aprendera aqui, como a vida teria sido mais válida! Ficou na areia, pensando se haveria alguma gaivota lá atrás lutando por quebrar os seus limites, compreendendo o que realmente significava voar: não um simples meio de locomoção para arrancar uma migalha de pão a um barco a remos. Talvez até houvesse uma que tivesse sido banida por lançar a verdade à cara do bando. E quanto mais Fernão treinava os seus exercícios de bondade, quanto mais trabalhava para compreender a natureza do amor, mais desejava regressar à terra. Porque, apesar do seu passado solitário, Fernão Gaivota nascera para ser instrutor, e a sua maneira de demonstrar o amor era dar um pouco da verdade que ele próprio descobrira a uma gaivota que apenas pedisse uma oportunidade para vislumbrar essa verdade.
Henrique, agora adepto do vôo velocidade pensamento, ao mesmo tempo que ajudava os outros a aprender, tinha dúvidas.
— Fernão, você foi banido uma vez. O que é que o leva a pensar que alguma das gaivotas do seu tempo o ouviria agora? Você conhece o provérbio, que é bem verdade: "Vê mais longe a gaivota que voa mais alto". As gaivotas que você deixou estão no solo, gritando e lutando umas com as outras. Estão a mil e quinhentos quilômetros do paraíso, e você diz que lhes quer mostrar o paraíso, de onde estão! Fernão, elas nem vêem a própria ponta das asas! Fique aqui. Fique aqui ajudando as novas gaivotas, essas que estão suficientemente cultivadas para compreenderem o que você lhes tem a dizer. — Calou-se um momento, e depois disse: — Que teria acontecido se Chiang tivesse regressado aos velhos mundos dele? Onde estaria você hoje?
A última frase era significativa, e Henrique tinha razão. "Vê mais longe a gaivota que voa mais alto."
Fernão ficou trabalhando com os novos pássaros que chegaram e que se mostraram muito inteligentes e rápidos na aprendizagem das suas lições. Mas o velho sentimento voltou e ele não podia impedir-se de pensar que talvez houvesse uma ou duas gaivotas na terra que também pudessem aprender. Quanto mais não saberia ele agora se Chiang tivesse ido ao seu encontro no dia em que fora banido!
— Henrique, tenho de regressar! — acabou por dizer. — Os seus alunos vão bem. Podem ajudar você a ensinar os que chegarem.
Henrique suspirou, mas não discutiu.
— Acho que vou sentir a sua falta, Fernão — foi tudo o que disse.
— Henrique, que vergonha! — exclamou Fernão, reprovador. — Não seja tolo! Afinal, o que é que estamos treinando todos os dias? Se a nossa amizade depende de coisas como o espaço e o tempo, então, quando finalmente ultrapassarmos o espaço e o tempo, teremos destruído a nossa fraternidade! Mas, ultrapassado o espaço, tudo o que nos resta é Aqui. Ultrapassado o tempo, tudo o que nos resta é Agora. E entre Aqui e Agora você não crê que poderemos ver-nos uma ou duas vezes?
Henrique Gaivota riu sem vontade e disse-lhe brandamente:
— Você é um louco. Se alguém conseguir mostrar a um pássaro no chão como ver a mil e quinhentos quilômetros, esse alguém tem de ser Fernão Capelo Gaivota. — Olhou a areia. — Adeus, Fernão, meu amigo.
— Adeus, Henrique, voltaremos a encontrar-nos.
Dito isso, Fernão fixou no pensamento a imagem dos grandes bandos de gaivotas das costas doutros tempos e, com a facilidade do treino, soube que não era só ossos e penas, mas sim uma idéia perfeita de liberdade e vôo que nada conseguia limitar.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Mais Eduardo White

Um texto fantástico, esclarecedor e que, apesar de falar de Moçambique, poderia muito bem estar falando do Brasil... É a globalização da vergonheira!!!
Um P.S.: coloquei umas notas de rodapé para esclarecer alguns termos tipicamente moçambicanos.

O silêncio tem dentro muito barulho, mas o País continua a falar mais ao telefone. Com quem fala, então, o País? Não é progresso isso? Quem duvida que na era da casca de árvore e da pedra ainda, em quase todo o significativo território nacional, em vez do poço de água que faz falta abrir seja levantada uma antena que faz o País dar um salto mortal continuado na lista dos mais pobres do mundo e ficar último na outra lista à frente?

Se falta o medicamento para a malária nos hospitais e não há crédito nos bancos de sangue não é bonito sermos em África o país com mais internautas? Não é desenvolvimento isso? Os bólides nas ruas não mostram a prosperidade da Nação ou é apenas um mero indicativo para o investidor ver as potencialidades?

E quem são esses que gritam que as estradas das nossas capitais andam cheias de buracos? Arre!! Estão contra quem afinal? Que interesses servem eles? Então esses mentecaptos da oposição mais esburacados que as próprias estradas não vêem que só as esburacadas vias justificam os luxuosos foure bai foures[1] das capitais?

Estavam então a pensar que os dirigentes, que os Latifes, que os Costas e os Cossas haveriam de passear no domingo de motorizada[2]? Isto não é Maringué não senhor, calma lá. Aqui não se perdem óculos em debandada na motorizada, aqui, nesta zona agora deslibertada da humanidade, motorizada e bicicleta é só para se ver por uns binóculos.

Passam a vida a dizer que o Povo vê o dirigente a engordar. Quem disse a esses trogloditas da oposição que dirigente engorda? Dirigente não engorda, não senhor, enche só. E sabem eles das dificuldades disso, ou são inveja essas infundamentadas visões? Não sabem esses da maioria que o Povo não precisa nem de motorizada nem de bicicleta? Que a enxada é que o Povo está mesmo a precisar?

Povo existe para trabalhar ou para passear? Digam lá então? Povo existe para trabalhar, e se a riqueza nacional não é mais é porque o Povo é preguiçoso. É ou não é verdade?

Esta coisa da população fugir do campo para a cidade é o quê? Não é isso mesmo? Se o Povo visse o exemplo do dirigente não voltava para o campo? Pensem lá vocês com o dentro das vossas cabeças. Dirigente não dá exemplo bom? Mas esses estupores da oposição vão vir dizer que o dirigente vai para o campo porque tem projectos, tem financiamento bancário, tem parceria e junta sinergias. O Povo se não tem isso tudo é porque não pensa. Mas Povo não existe para ter projecto como o dirigente, povo existe para ser projecto do dirigente. E o Povo mesmo sabe disso.

Anda por aí o boato de que a população não foi votar nas autárquicas porque o governo deu tolerância de ponto. Mas têm o quê contra a população essa gente?

Povo quando tem tolerância de ponto vai cumprir os seus deveres cívicos?
Não!

Povo quando tem tolerância de ponto faz o quê afinal?
Vai beber nos bares, faz festa de família com verduras e galinha a ouvir na rádio qual é o resultado desse jogo chamado eleições. Mas eu pergunto a esses agitadores, como é que o povo vai votar num dirigente que está sempre a rir enquanto ele está a chorar? Como? Digam lá então?

Mas eu disse que o silêncio tem dentro muito barulho. E não vale a pena dizerem que eu sou um xiconhoca porque o povo agora está cansado e quando não vota não é porque está a beber. Não, não é. Esses tais de candidatos são candidatos a quê? A iguais ou a parecidos? A dirigentes ou a dirigidos? Eles também não sabem.

(…)

Os originários não têm direito a apanhar os papéis principais. Ahhh, camarada poder, isto é abuso, palavra de honra. Nós perguntamos em meio a tanta corrupção: esses bais, esses mulungos[3] todos arranjam dinheiro aonde para tantas quintas, para tantas fábricas, tantas sociedades anónimas de responsabilidade ilimitada, tantas participações financeiras em projectos sustentáveis? Sozinho ou com conivência de alguém?

Não são os moçambicanos 100% que vão fumar charuto de Cuba no Sheik, ter Mercedes de último modelo com nome de amante na matrícula e quintas[4] com muros a esconder os telhados das casas? Quando? Quando vão ter corrente de ouro grossa na garganta?

Assim não vale, camarada poder, assim não vale. Porque ficam só os moçambicanos estafetas desse novo-riquismo desnacional? Um País assim pode desenvolver? Com tantos meios descendentes a roubar nas repartições públicas, nos projectos beneméritos e outros afins? Pode?

Mas nossos mais renomados analistas cêeniacos vieram dizer-nos que o Povo não foi votar por ver tudo isso. O Povo não foi votar porque o Ministério do Trabalho deu tolerância de ponto para ele bichar[5]. Quer dizer, o Povo desconsciente, ao invés de ir escolher seu candidato, foi candidatar a sua escolha nas urnas médias da 2M e da Laurentina[6]. Isso não é sabotagem para uns e fraude para os outros. Povo não tem consciência para ser objector de consciência. Povo não tem cabeça para pensar nessas coisas de política. A cabeça do Povo é só para votar no desejo de voto dos políticos.

O País está muito bom, não é o que toda a gente vê? Não é o que toda a gente sente? O País tem mais stands de carros, tem mais imobiliárias a vender moradias, o país tem muitas empresas de consultoria, não está bom o país assim? Isto não é sinónimo de desenvolvimento? Não há mais clínicas particulares? Não há mais lodjes para o turismo da banana? Não há mais pedidos de visto nos consulados para se passarem os fins-de-semana no exterior? E então as escolas públicas não estão a crescer? Não há mais população estudantil nos bancos das escolas?

E os professores e os enfermeiros não ganham muito melhor? Os doentes não são consolados com simpatia e carinho nos postos de socorro dos nossos hospitais? E não há mais carros de bombeiros e ambulâncias e autocarros[7] públicos? Nossos agentes de autoridade não são exemplo de entrega e abnegação à ordem pública?

Não há mais prostitutas nas ruas? Não aumentaram as conferências e os seminários para se discutir o indiscutível e o que já se sabe? Não tem mais estudantes a casar e habitar suas flats tipo 1[8]? Não é progresso isso? Os camaradas da oposição não vão mais felizes fazer discurso na assembleia com gordura na boca? Não usam balalaica agora? Não se mata mais agora nas nossas ruas e não tem mais bandidos a falar nos celulares? A cocaína e o haxixe não são agora mais extensivos aos consumidores? Não são impunes as suas pedradas? Dizer o contrário estamos a mentir?

O País está muito bom, tem a consciência desprendida, tem a irreverência desarrumada. As sirenes estão a tocar mais agora, há mais Kalachnikoves nas janelas dos automóveis e os tiros que não se falham descascam amendoim de manhã nos componentes do Estrela Vermelha[9]. Tem muito chingondo sem emprego a vender lenços de assoar, mas chingondo não sabe, coitadinho, chingondo não sabe que o país, ao contrário dele, deixou de chorar há maningue[10] tempo.

[1] 4 x 4 – carros «todo terreno». Calculo que 80% dos carros em Moçambique sejam deste tipo.
[2] motocicleta
[3] Mulungo: branco, senhor
[4] Quintas: sítios, chácaras.
[5] Bichar: fazer fila (de «bicha» = fila).
[6] 2M e Laurentina: cervejas fabricadas em Moçambique.
[7] Ônibus.
[8] Tipo 1: com 1 quarto (como tipo 2: com 2 quartos…)
[9] Time de futebol de Maputo.
[10] Maningue: muito.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Noémia de Sousa

Mulher negra reclinada - Abraham Baylinson

Negra


Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias...
Teus encantos profundos de Africa.


Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia...
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.


Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra...
menos tu.


E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Fernão Capelo Gaivota - continuação IV


Segunda Parte

"Então o paraíso é isto",


pensou, e teve de sorrir de si próprio. Não era muito respeitoso analisar o paraíso precisamente quando se estava voando para entrar nele.

Enquanto se afastava da terra e ultrapassava as nuvens, em formação com as duas gaivotas brilhantes, notou que o seu próprio corpo se tornava tão brilhante como os dela. Em realidade, era o mesmo Fernão Capelo Gaivota que sempre vivera por detrás dos olhos dourados. Só a forma exterior se modificara.

Era como o corpo de uma gaivota, mas voava muito melhor do que o antigo jamais voara. "É maravilhoso", pensava ele. "Com metade do esforço consigo o dobro da velocidade, o dobro da eficiência dos meus melhores dias na terra!"

As penas luziam agora num branco radiante e as asas eram lisas e perfeitas como folhas de prata polida. Deliciado, começou a aprender a conhecê-las, a incutir potência a essas novas asas.

A trezentos e setenta quilômetros por hora, sentiu que se aproximava da velocidade máxima que atingira antes em vôo planado. A quatrocentos e nove quilômetros pensou que voava tão depressa quanto podia voar e, apesar disso, sentiu-se ligeiramente desapontado. Havia um limite para tudo o que o novo corpo podia fazer, e, embora fosse muito mais rápido do que o seu antigo recorde em vôo planado, era ainda um limite. Para o vencer, iria ser necessário um grande esforço. "No paraíso", pensou, "não devia haver limites."As nuvens romperam-se, a escolta gritou-lhe "Feliz aterragem, Fernão", e evaporou-se no ar fino.

Voava sobre um mar em direção a uma linha áspera da costa. Muito poucas gaivotas treinavam os "updrafts" nos penhascos. Bastante desviado para o norte, na linha do horizonte, voava outro pequeno grupo. Novas paragens, novos pensamentos, novas perguntas. "Por que tão poucas gaivotas? O paraíso devia estar repleto de gaivotas! E por que é que, de repente, fiquei tão cansado? As gaivotas no paraíso nunca devem cansar-se, nem dormir."

Onde é que ouvira isso? A lembrança da sua vida na terra sumia-se. A terra fora um lugar onde aprendera muito, é certo, mas os pormenores estavam esmaecidos — qualquer coisa como lutar por comida e ser banido.

A dúzia de gaivotas que treinava junto à costa veio ao seu encontro, sem pronunciar uma palavra. Sentiu apenas que era bem-vindo e que esta era a sua casa. Tinha sido um grande dia para ele, um dia cuja aurora já não recordava.

Dispôs-se a aterrar na praia batendo as asas de modo a ficar suspenso a dois centímetros do chão e deixando-se cair levemente na areia. As outras gaivotas também aterraram, mas nenhuma delas moveu uma única pena. Esvoaçaram no vento com as asas brilhantes bem abertas e, modificando depois a curva das penas, pararam exatamente na mesma altura em que os pés tocaram no chão. Era um controle magnífico, mas, nesse momento, Fernão estava demasiado cansado para experimentar. Adormeceu ali mesmo na praia, sem que se tivesse pronunciado uma palavra.

Nos dias que se seguiram, Fernão verificou que neste lugar havia tanto para aprender acerca do vôo como houvera na vida que deixara para trás. Mas com uma diferença. Aqui havia gaivotas que pensavam como ele. Para cada uma delas o mais importante na vida era olhar em frente e alcançar a perfeição naquilo que mais gostavam de fazer: voar. Todas elas eram aves magníficas e passavam hora após hora praticando vôo, fazendo experimentos de aeronáutica avançada.

Durante muito tempo Fernão esqueceu-se do mundo de onde viera, daquele lugar onde o bando vivia com os olhos completamente cerrados à felicidade de voar, usando as asas apenas como um meio de encontrar alimento e lutar por ele. Mas, uma vez ou outra, só por um momento, lembrava-se.

Lembrou-se uma manhã, quando estava a sós com o instrutor, enquanto descansavam na praia depois de uma sessão de "snap rolls" de asa dobrada.

— Onde estão os outros, Henrique? — perguntou em silêncio, já familiarizado com a telepatia fácil, que estas gaivotas usavam em vez dos gritos e guinchos. — Por que somos tão poucos aqui? No lugar de onde eu vim havia...

— ... milhares e milhares de gaivotas. Eu sei. — Henrique abanou a cabeça. — A única resposta que encontro, Fernão, é que você é um daqueles pássaros que se encontram num milhão. Quase todos nós percorremos um longo caminho. Fomos de um mundo para outro, que era praticamente igual ao primeiro, esquecendo logo de onde viéramos, não nos preocupando para onde íamos, vivendo o momento presente. Tem alguma idéia de por quantas vidas tivemos de passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando? Mil vidas, Fernão, dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma coisa chamada perfeição, e ainda outras cem para nos convencermos de que o nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição e levá-la ao extremo. A mesma regra mantém-se para os que aqui estão agora, é claro: escolheremos o nosso próximo mundo através daquilo que aprendermos neste. Não aprender nada significa que o próximo mundo será igual a este, com as mesmas limitações e pesos de chumbo a vencer.

Abriu as asas e, voltando-se de frente para o vento, continuou:

— Mas você, Fernão, aprendeu tanto de uma só vez que não teve de passar por mil vidas para chegar a esta.

Um instante depois estavam de novo no ar, treinando. A formação "point roll" era difícil, pois na posição invertida Fernão tinha de pensar de cabeça para baixo, virando a curva da asa ao contrário, mas virando-a em perfeita harmonia com a do seu instrutor.

— Vamos tentar outra vez — repetia Henrique, incansável. — Vamos tentar outra vez. — E, finalmente: — Está bom.

E começaram a praticar "loops" exteriores.

Uma noite, as gaivotas que não praticavam o vôo noturno juntaram-se na praia, para pensar. Fernão reuniu toda a sua coragem e dirigiu-se à gaivota mais velha, que, segundo diziam, devia passar em breve para outro mundo.

— Chiang... — começou ele, um pouco nervoso.

A velha gaivota olhou-o com bondade.

— Diga, meu filho.

Em vez de enfraquecer, a idade dera força ao Mais Velho. Em vôo batia qualquer gaivota do bando, e aprendera perícias de que os outros só muito lenta e gradualmente começavam agora a aperceber-se.

— Chiang, este mundo não é o paraíso, é?

O Mais Velho sorriu ao luar:

— Você está aprendendo outra vez, Fernão Gaivota.

— Bem, e o que é que acontece depois disso? Para onde vamos? Não há um lugar chamado paraíso?

— Não, Fernão, não há tal lugar. O paraíso não é um lugar nem um tempo. O paraíso é ser perfeito. — Ficou em silêncio durante um momento. — Você voa com muita velocidade, não voa?

— Eu... Eu gosto da velocidade — respondeu Fernão, surpreendido mas orgulhoso de que o Mais Velho o tivesse notado.

— Você começará a se aproximar do paraíso no momento em que alcançar a velocidade perfeita. E isso não é voar a mil e quinhentos quilômetros por hora, nem a um milhão e quinhentos mil, nem voar à velocidade da luz. Porque nenhum número é um limite, e a perfeição não tem limites. A velocidade perfeita, meu filho, é estar ali.

Sem avisar, Chiang evaporou-se e apareceu à borda da água, à distância de quinze metros, numa centelha de instante. Depois evaporou-se outra vez e surgiu ao lado de Fernão, no mesmo milésimo de segundo.

— É divertido — comentou.

Fernão ficou atordoado. Esqueceu-se de fazer perguntas acerca do paraíso.

— Como é que se faz isso? O que é que se sente? A que distância se pode ir?

— Desde que você o deseje, pode ir a qualquer lugar e a qualquer momento — disse-lhe o Mais Velho. — Que me lembre, já fui a todos os lugares e a todos os momentos. — Olhou o mar, pensativo. — É estranho... As gaivotas que desprezam a perfeição por amor ao movimento não chegam a parte alguma, devagar. As que ignoram o movimento por amor à perfeição chegam a toda parte, instantaneamente. Lembre-se, Fernão, o paraíso não é um lugar nem um tempo, porque lugar e tempo não significam nada. O paraíso é...

— Pode ensinar-me a voar assim?

Fernão Gaivota tremia de ansiedade por conquistar outro desconhecido.

— Claro, se você deseja aprender.

— Desejo, sim! Quando podemos começar?

— Se quiser, podemos começar já.

— Eu quero aprender a voar assim — disse Fernão, um brilho estranho a iluminar-lhe os olhos. — Diga-me o que devo fazer.

Chiang falou devagar, observando cuidadosamente a gaivota mais nova.

— Para voar à velocidade do pensamento, para onde quer que seja, você deve começar por saber que já chegou...

Segundo Chiang, o truque estava em Fernão deixar de se ver aprisionado dentro de um corpo limitado cujas asas abertas abrangiam a distância de um metro e cuja eficiência podia ser traçada num mapa.

O truque estava em saber que a sua verdadeira natureza vivia tão perfeita como um número não escrito, em toda parte e ao mesmo tempo, através do espaço e do tempo.

Fernão, empenhou-se em conseguir isso, dia após dia, desde antes da aurora até depois da meia-noite. Mas, por mais que se esforçasse, não conseguia afastar-se um milímetro do seu lugar.

— Esqueça a fé — dizia-lhe Chiang repetidamente. — Você não precisa de fé para voar; precisou, sim, compreender o que era voar. Isto é a mesma coisa. Tente outra vez...

Mas um dia em que Fernão estava na praia, de olhos fechados, concentrando-se, compreendeu num relâmpago o que Chiang tentava dizer-lhe.

— Mas é verdade! Eu SOU uma gaivota perfeita, ilimitada!

Sentiu um grande choque de alegria.

— Bom! — exclamou Chiang, com a voz vibrando de triunfo.

Fernão abriu os olhos. Estava sozinho com o Mais Velho numa praia completamente diferente — havia árvores até a beira da água, e dois sóis amarelos, girando sobre as cabeças de ambos.

— Por fim você conseguiu perceber a idéia — disse Chiang. — Mas ainda precisa trabalhar o seu controle...

Fernão estava atordoado.

— Onde estamos?

Obviamente não impressionado pelo estranho ambiente, o Mais Velho desprezou a pergunta.

— Estamos num planeta qualquer, evidentemente, com um céu verde e uma estrela dupla por sol.

Fernão soltou um grito de alegria, o primeiro som que emitia desde que deixara a terra.

— DEU CERTO!

— Mas claro que deu certo, Fernão — disse Chiang. — Dá certo sempre, quando se sabe o que se está fazendo. Agora, acerca do seu controle...

Eduardo White


Um homem é velho e está sentado sobre o seu analfabetismo. No entanto, escreve sobre um jardim. Palavras que, desconhecendo, o tornam belo pela pequena tesoura minuciosa com que apara as flores que as compõem. Um homem velho, suado na velha camiseta, vai, assim, perfumando a escrita. Pergunto-lhe: Que escreve? Flores, é como me responde curvado até aos enrugados dedos acariciando as palavras que vão crescendo. Fico ali, parado, olhando-o do analfabeto que agora sou.

Um homem escreve flores e cores e perfumes, sentado e descalço e dentro da pobreza que veste. Fantástico, penso, este velho que alguma magia certamente o tem cantado por dentro. E as flores riem, pequenas e verdes e brancas e por um vermelho que lhes foge pelo bordo das folhas. Eu adapto-as, diz-me ele. Não percebo, respondo-lhe. Eu adapto estas flores a estas letras porque não são próprias para as palavras. São tenras e, sendo assim, os insectos comem a minha escrita.

Sou o profundo espanto. Um homem escrevendo com flores e insectos comendo o que fica tão ternamente escrito nelas. Ele percebe este susto que revela, admirado, o meu rosto. Escrevo com flores faz muitos anos, mas nunca soube ler. Diz-me. Só mesmo as flores é que eu consigo entender. E um riso desce, então, pela boca do velho dobrado pela hérnia discal que agora noto e vem cumprimentar-me a mão com que eu redijo no computador. Não flores como eu gostaria que fosse, mas a ignorância total e a absoluta certeza de que jamais o saberei fazer.

Ao nosso lado, uma criança abre a janela de sua casa e grita: Bom dia galinhas, enquanto um galo canta arrebatador agradecendo o cumprimento. Que lugar será este donde vejo tudo isto?


In Até Amanhã Coração, 2007.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O nascimento da imprensa na África portuguesa

A tipografia foi introduzida nas colónias nas seguintes datas: Cabo Verde (1842); Angola (1845); Moçambique (1854); São Tomé e Príncipe (1857) e Guiné-Bissau (1879).

Os primeiros órgãos de comunicação social foram o Boletim Oficial de cada colónia, que dava abrigo à legislação, noticiário oficial e religioso, mas que também incluía textos literários (sobretudo poemas, mas eventualmente crónicas ou contos).

Em geral, no século passado, com excepção de Angola, a imprensa foi menos importante do que seria de supor devido também à repressão. O semanário O Progresso (1868) de Moçambique, religioso, instrutivo, comercial e agrícola, teve apenas um número, porque, dois dias depois, era obrigado a ir à censura prévia, que o proibiu. Um militante republicano, Carvalho e Silva, no início deste século, fundou quatro jornais, todos encerrados, o último dos quais assaltado, a tipografia destruída e o director agredido, de que resultou a sua morte. De facto, a história da imprensa não oficial de Moçambique foi geralmente de oposição aos governos, da colónia e de Lisboa.

Com a República, ate ao advento da lei de João Belo (1926) contra a liberdade de imprensa, floresceu uma imprensa operária. Mas os mais célebres, e justamente celebrados, pelo seu papel na consciencialização da moçambicanidade, foram os jornais fundados pelos irmãos José e João Albasini: O Africano (1909-1918), O Brado Africano (1918) e O Itinerário (1919), no penúltimo sobrevivendo durante décadas e o último reaparecendo, mais tarde, noutros moldes (1941-55).

Na Guiné, o primeiro jornal, Ecos da Guiné, apareceu somente em 1920.

Em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, a imprensa contribuiu decisivamente para o incentivo à criação literária, no quadro de limitação insular. A fundação do Liceu-Seminário de São Nicolau (Cabo Verde), nos anos 60 do século XIX, ajuda a explicar o nível de escolarização cabo-verdiana (a primeira escola primária surgiu em 1817). Curiosamente, cabo-verdianos e são-tomenses, vivendo em Portugal, na primeira metade do século XX, estiveram sempre muito activos na busca de uma identidade cultural e da consciencialização (proto-nacional ou simplesmente na produção intelectual desligada de intenções insulares). Basta recordar intelectuais como Viana de Almeida, Mário Domingues, Marcelo da Veiga ou Salustino da Graça espírito Santo (de São Tomé e Príncipe) e Pedro Cardoso (de Cabo Verde).

No século XIX, foi intensa e brilhante a actividade jornalística em Angola. Depois da criação do Boletim Oficial (1845), surge A Aurora (1855), jornal recreativo e literário. Mais tarde, aparece um jornal pugnando pela efectiva abolição da escravatura, para além da letra da lei, A Civilização da África Portuguesa (1866), dirigido por Urbano de Castro e Alfredo Mântua, europeus identificados com Angola.

De 1860 a 1900, surge cerca de meia centena de títulos de jornais, artesanais e episódicos, mas de grande importância para o fomento da actividade intelectual e literária. Desde o Jornal de Luanda (1878), do escritor e advogado Alfredo Troni (ver capítulo 4), que marca a transição do jornalismo de cariz mais colonial para o proto-nacionalista, até O Futuro de Angola ou O Pharol do Povo, muitos contribuíram para a informação, elevação cultural e promoção das línguas e culturas locais.

O primeiro jornal de africanos chamava-se Echo de Angola (1881), inaugurando duas décadas de frenética actividade jornalística (que se prolongaria, depois, até aos anos 20) e que ficaria conhecida por período da imprensa livre africana, terminando exactamente com a fundação de A Província de Angola (1923), primeiro jornal de tipo moderno, industrial, que passou a quotidiano em 1926, perdurando ainda hoje as instalações ao serviço do Jornal de Angola. A censura, que já funcionava, aprimorou-se e acabou com as últimas veleidades de uma imprensa realmente democrática e livre. Na época florescente da imprensa livre, apareceram jornais escritos simultaneamente em português e quimbundo, como o Muen’exi (=o senhor da terra) e o Mukuarimi (= o «linguarudo»), dirigidos por Alfredo Troni. Nos últimos vinte anos de Oitocentos, pugnaram por uma Angola autónoma, mais livre e desenvolvida, jornalistas-intelectuais como Arantes Braga, José Fontes Pereira de Melo, Pedro Félix Machado ou Cordeiro da Matta.

No dealbar do novo século, algumas publicações literárias marcaram o desejo de emancipação dos «filhos do país», de que cumpre destacar as duas seguintes:

Voz d’Angola – clamando no deserto (1901), colectânea de artigos não assinados contra um artigo colonialista;

revista Luz e Crença (1902), cujo segundo número saiu um ano depois.

Esta última era promovida pela Associação Literária Angolense, cuja sigla «Liberdade, fraternidade, igualdade» alerta para os ideais republicanos. Pugnava-se por um espírito de instrução, autonomia política e crítica social e institucional.

Foram líderes e nomes cimeiros desta geração, entre outros, Francisco Castelbranco, Silvério Ferreira, Paixão Franco, Lourenço do Carmo Ferreira e Domingos Van Dúnem (não confundir com o homónimo, nascido em 1925 e hoje embaixador do seu país na UNESCO).

É, pois, através dos jornais que os letrados fazem a aprendizagem da escrita, vendo os seus escritos em letra de forma, assim modelando a própria concepção de intervenção literária, que ficaria marcada por essa prática intrínseca de concretude e explicitude, a não ser quando toda a sorte de preciosismos (saídos do ultra-romantismo, parnasianismo e decadentismo) tomava conta da efusividade lírica. Esse desígnio jornalístico – ou melhor, de comunicação social, à letra – marcaria decisivamente os escritores de África, que quase sempre assistiam à divulgação dos seus textos através de compilações e antologias, antes de os poderem ver estampados em livro, um objecto a que poucas vezes tinham acesso, por dificuldades de vária ordem (censura, perseguição, pobreza, desleixo, dispersão, etc., que foram aumentando em crescendo ate à independência).
Pires Laranjeira, 1995

quarta-feira, 9 de julho de 2008

O coração da humanidade


O coração da humanidade
É uma estrela de luz violeta
Que agora imaginamos
Pulsando a expandir
Uma vibrante claridade purificadora
Que viaja pela Terra
A doar as forças da liberdade
Desfazendo as teias da ilusão

O coração da verdade em todos
A emanar sua ligação com a origem da vida
O comovente foco de todo amor
Que continua criando e sustentando
A existência de todos os povos

Sentimos e mergulhamos
No mar de luz violeta
Gerado na mente divina
E nos aconchegamos
A esta reconfortante dádiva
Manancial inesgotável
Que nos acresce
Com os elementos constitutivos
De uma crescente espiritualidade

Por este poder manifesto
Podemos sentir a expansão do ser
Abrindo-se para o futuro
De peito aberto
Em perfeita confiança

Podemos perceber
O quanto somos parte
Da intensa atividade vital
Que está se exercendo a todo momento
Na direção do melhor impossível
Pois quando somos tocados
Pelo amor do Doador Universal
Sentimos que tudo está bem
E que a alma cresce
Ao modo como deve ser

Agora nos ofertamos asas
No contexto da imaginação
E com estas asas espirituais
Flutuamos leves como plumas
Sobre um oceano dourado
Que reflete o brilho estelar
E estes reflexos dourados nos alcançam
Tingindo de ouro nossa aura

Neste instante
Nos permitimos desfrutar as alegrias do universo
As ondas harmônicas
Das dimensões elevadas

Nos permitimos estar
Num estado de ser
Que é nosso direito
E natural condição
Quando livres de condicionamentos externos

Assim nos entregamos
A esta gloriosa expressão do ser
Desintegrando nossas couraças de sombra
Desmaterializando nossas perturbações

Para vibrar com a onipresença celestial
Em estado de supra-consciência

Respiramos docemente
Assimilando nosso Eu Superior


Somos vida vibrante
E tudo que nos cerca
São apenas acessórios à nossa apresentação
Perante o plano em que vivemos

Nosso ser cósmico
Magnetiza nesta hora
A todos os aspectos
De nossa passagem pela Terra

Magnetiza nossos meios de sobrevivência
Nossos relacionamentos
A vida dos que nos cercam
As situações planetárias
E o próprio coração da Terra

Nosso imaculado ser primordial
Agora expandido
Irradia com supremo amor
A todas as realidades simultâneas
Trazendo a brisa da paz
E a luz
Para todos os problemas

Ainda com nossas asas espirituais
Voamos até o reino dos seres elementais
Conhecidos como fadas, duendes, ondinas, salamandras e sílfides

Um bosque que exala um doce perfume
E há no seio desse bosque
Um lago de águas rosadas
Que ao dia reluz
Nos convidando a um mergulho

Mergulhamos na claridade rósea destas águas
E neste mergulho
Sentimos uma indefinível sensação de bem-estar
Que nos enche de alegria e bem-aventurança

É o amor líquido da Mãe Natureza
A nos abençoar
E nos energizar
Para os processos existenciais
Que nos aperfeiçoarão ainda mais
Em tempos vindouros


Saímos do seio das águas do lago rosa
E flutuamos a contemplar
Os horizontes límpidos
Dos seres sagrados que somos

E do universo mágico da mente
Retornamos ao plano físico
Desfrutando de grande serenidade
Mais conscientes
De nossa conexão com a verdade superior

E extremamente gratificados
Por tudo que a vida oferece.

O amor e a luz
Continuarão conosco.

sábado, 5 de julho de 2008

Vídeo do Pedro

Ele não é mesmo tuuuuudoooo de bom???

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Fernão Capelo Gaivota - continuação III



Fernão Gaivota passou o resto dos seus dias sozinho, mas voou muito além dos Penhascos Longínquos. A solidão não o entristecia. Entristecia-o que as outras gaivotas se tivessem recusado a acreditar na glória do vôo que as esperava. Recusaram-se a abrir os olhos e ver.

Aprendia cada vez mais. Aprendeu que um eficiente mergulho a grande velocidade lhe dava o peixe raro e saboroso que vivia três metros abaixo da superfície do mar. Já não precisava de barcos de pesca nem de pão duro para viver. Aprendeu a dormir no ar, estabelecendo um percurso noturno pelo vento do largo, cobrindo cento e cinqüenta quilômetros desde o ocaso até a aurora.

Utilizando o mesmo controle interior, voou através de nevoeiros cerrados e subiu acima deles para céus estonteantes de claridade... enquanto qualquer outra gaivota ficava em terra, conhecendo apenas neblina e chuva.

Aprendeu a dominar os altos ventos do continente e a jantar ali os delicados insetos.

O que outrora desejara para o bando tinha-o agora só para si. Aprendera a voar e não lamentava o preço que pagara por isso. Fernão Gaivota descobriu que o tédio, o medo e a ira são as razões por que a vida de uma gaivota é tão curta, e, sem isso a perturbar-lhe o pensamento, viveu de fato uma vida longa e feliz.

* * *

Vieram à noite, e encontraram Fernão deslizando tranqüilamente e sozinho pelo seu querido céu. As duas gaivotas que surgiram junto às suas asas eram puras como a luz das estrelas e o brilho que delas se desprendia era leve e afável no éter noturno. Mas o mais encantador era a perícia com que voavam, as pontas das asas movendo-se a um centímetro exato e constante das suas.

Sem uma palavra, Fernão submeteu-as ao teste, ao teste a que nenhuma gaivota fora ainda submetida. Torceu as asas, diminuiu a velocidade para um quilômetro e meio por hora e deslizou lentamente, quase parando no ar. Os dois pássaros, irradiantes, deslizaram com ele, suavemente, mantendo-se em posição. Sabiam voar devagar.

Dobrou as asas, e caiu num mergulho de duzentos e oitenta quilômetros por hora. Mergulharam com ele, riscando a noite em formação impecável.

Por fim, transformou diretamente essa velocidade numa longa rotação ascendente, lenta e vertical. Giraram com ele, sorrindo. Regressou ao vôo planado e esperou algum tempo, antes de falar.

— Muito bem. Quem são vocês?

— Nós somos do seu bando, Fernão. Somos suas irmãs. — As palavras eram fortes e calmas. — Viemos para levar você para mais alto, para levá-lo para casa.

— Eu não tenho casa. Nem tenho bando. Fui banido. E estamos agora sobrevoando o pico da Grande Montanha do Vento. Já não posso elevar este velho corpo além dumas centenas de metros.

— Você pode, sim, Fernão. Porque aprendeu. Acabou-se uma escola e chegou a hora de começar outra.

O entendimento raiou nesse momento para Fernão Gaivota, tal como o iluminara sempre em toda a sua vida. Tinham razão. Ele PODIA voar mais alto e ERA tempo de ir para casa.

Lançou um último longo olhar pelo céu, por aquela magnífica terra prateada onde aprendera tanto.

— Estou pronto — disse por fim.

E Fernão Capelo Gaivota elevou-se com as duas gaivotas brilhantes como estrelas para desaparecer num céu perfeitamente escuro.

IDEOGRAMA REIKI

Leituras do ideograma:

Chuva milagrosa de energia vital;

Chuva milagrosa que dá vida, porém é mais do que isso;

Esta energia maravilhosa, terá de ser vivenciada;

A comunhão de uma energia superior com uma terrena,
que se pertencem mutuamente.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Fernão Capelo Gaivota - continuação II


Quando voltou a si, a noite já era velha. Flutuava à superfície negra do oceano, encharcado em luar. As asas eram enormes e esfarrapadas barras de chumbo, mas o fracasso pesava-lhe ainda mais nas costas. Desfalecido, desejou que o peso fosse bastante para o arrastar docemente até o fundo, e acabar com tudo.

Ao afundar-se na água, uma estranha voz cavernosa soou dentro dele. "Não há nada a fazer. Sou uma gaivota. A minha natureza limita-me. Se estivesse destinado a aprender tanto acerca do vôo, teria mapas em vez de miolos. Se estivesse destinado a voar a altas velocidade, teria asas curtas como o falcão e viveria de ratos em vez de peixes. O meu pai tem razão. Devo esquecer esta loucura. Devo regressar ao seio do bando e contentar-me com o que sou, uma pobre e limitada gaivota."

A voz sumiu-se e Fernão acordou. Uma gaivota passa a noite em terra... A partir desse momento, jurou tornar-se uma gaivota normal. Seriam todos felizes.

Morto de cansaço, arrancou-se da água densa e voou para terra, grato pelo que aprendera: a forma de poupar trabalho voando a baixa altitude.

"Mas não!", pensou. "O que eu era acabou-se; acabou-se tudo o que aprendi. Sou uma gaivota como outra qualquer e voarei como uma delas." Assim, subiu dolorosamente a trinta metros e bateu as asas com mais força, apressando-se a chegar a terra.

Sentiu-se melhor depois da decisão de ser apenas mais um dos do bando. Daí em diante não haveria mais laços a prendê-lo à força que o levara a aprender, não haveria mais desafios nem mais fracassos. E era bom deixar de pensar, e voar no escuro em direção às luzes da praia.

"ESCURO!" A voz irreal estalou em alarma. "AS GAIVOTAS NUNCA VOAM NO ESCURO!"

Mas Fernão não prestava atenção e não a ouvia. "É bom", pensava. "A Lua e as luzes brincando na água, atirando a pequenos lampejos, e tudo tão calmo, tão parado..."

"Desça! As gaivotas nunca voam no escuro! Se estivesse destinado a voar no escuro teria olhos de coruja! Teria mapas em vez de miolos! Teria as asas curtas do falcão!"

Envolto na noite, a trinta metros no ar, Fernão Capelo Gaivota... pestanejou. A dor e as resoluções desvaneceram-se.

Asas curtas. AS ASAS CURTAS DO FALCÃO!
"É isso! Como fui louco! Tudo o que preciso é de uma asinha curta, tudo o que preciso é fechar as asas o mais que puder e voar só com as pontas! ASAS CURTAS!"
Subiu a seiscentos metros acima do negro mar e, sem pensar um momento no fracasso ou na morte, apertou as asas de encontro ao corpo, deixou que apenas as pontas das asas cortassem o vento como lâminas de punhal e mergulhou na vertical.

O vento era rugido de um monstro na sua cabeça. Cem quilômetros por hora, cento e trinta, cento e oitenta, e ainda mais depressa. A tensão nas asas, agora que se deslocava à velocidade de duzentos quilômetros por hora, não chegava a ser tão forte como antes, a cento e trinta, e bastou-lhe mover só um bocadinho a ponta das asas para sair da queda sem dificuldade e disparar por cima das ondas como uma bala cinzenta de canhão apontada à lua.

Semicerrou os olhos para se proteger do vento e regozijou-se. Duzentos quilômetros por hora! E controlados! Se mergulhasse de mil e quinhentos metros, em vez de seiscentos, que velocidade...
As promessas de momentos antes estavam esquecidas, varridas por aquele enorme vento rápido. E, contudo, não sentia remorso por não cumprir as promessas que fizera a si próprio. "Essas promessas são só para as gaivotas que aceitam o vulgar. Quem conseguiu chegar à excelência da sua aprendizagem não tem necessidade desse tipo de promessa."

Quando o sol começou a romper, Fernão Gaivota treinava outra vez. Vistos de mil e quinhentos metros, os barcos de pesca eram pontinhos escuros no azul liso da água, e o Bando da Alimentação uma apagada nuvem de átomos de poeira, movendo-se em círculo.

Ele estava vivo, ligeiramente trêmulo de prazer, orgulhoso de que o seu medo estivesse dominado. Então, sem cerimônias, cingiu-se com as asas anteriores, estendeu as curtas, colocando as pontas em ângulo, e mergulhou diretamente em direção ao mar.

Quando passou os mil e duzentos metros, deslocava-se à velocidade máxima e o vento era um sólido muro de som contra o qual não podia mover-se mais depressa. Voava agora em pleno mergulho, à velocidade de trezentos e vinte quilômetros por hora. Engolia em seco, sabendo que se as asas se abrissem àquela velocidade ficaria reduzido a um milhão de pequenos fragmentos de gaivota. Mas a velocidade era poder, e era alegria e beleza pura.
Começou o desvio a trezentos metros. As pontas das asas vibravam e ressoavam contra o vento gigante. O barco e a multidão de gaivotas cresciam à velocidade de um meteoro e lançavam-se diretamente no seu caminho.

Não podia parar; e ainda nem sabia como iria virar àquela velocidade. A colisão seria morte instantânea. Era melhor fechar os olhos.

Aconteceu então nessa manhã, logo a seguir ao nascer do sol, que Fernão Gaivota atravessou o Bando da Alimentação como uma bala, riscando o céu a trezentos quilômetros por hora, de olhos fechados, num tremendo rugido de vento e penas. A Gaivota da Fortuna sorriu-lhe desta vez e ninguém foi ferido.
Na altura em que espetou o bico para o céu, ainda frechava o ar a duzentos e quarenta quilômetros por hora. Quando por fim diminuiu para trinta e voltou a abrir as asas, o barco era apenas uma migalha no mar, mil e duzentos metros abaixo.
Na sua mente latejava o triunfo. Velocidade máxima! Uma gaivota a TREZENTOS E VINTE QUILÔMETROS POR HORA! Era uma vitória, o maior momento da historia do bando; e, nesse mesmo momento, nasceu uma nova era na vida de Fernão Gaivota. Voando para a sua solitária zona de treino, encolhendo as asas para um mergulho de dois mil e quatrocentos metros, dispôs-se imediatamente a descobrir como virar.
O movimento de um centímetro numa única pena da ponta da asa produzira uma curva larga e suave, a tremenda velocidade, descobriu ele. Contudo, antes de descobrir isto, verificou que, se movesse mais de uma pena àquela velocidade, era disparado em movimento giratório como uma bala de espingarda... E Fernão fez as primeiras acrobacias aéreas de uma gaivota viva.
Nesse dia não perdeu tempo conversando com as outras gaivotas e voou até depois do pôr-do-sol. Descobriu o "loop" , o "slow roll", o "point roll", o "inverted spin", o "gull bunt", o "pinwheel".
Quando Fernão Gaivota se juntou ao bando na praia era já noite cerrada. Estava tonto e tremendamente cansado. Apesar disso, não resistiu ao prazer de voar num "loop" para a terra e de fazer um "snap roll" antes de aterrar. "Quando souberem do triunfo", pensava, "ficarão loucos de alegria. Como vale a pena agora viver! Em vez da monótona labuta de procurar peixe junto dos barcos de pesca, temos uma razão para estar vivos! Podemos subtrair-nos à ignorância, podemos encontrar-nos como criaturas excelentes, inteligentes e hábeis. Podemos ser livres! PODEMOS APRENDER A VOAR!"
Os anos vindouros brilhavam e trauteavam promessas.
As gaivotas estavam reunidas em conselho quando ele aterrou, e, segundo parecia, já estavam em reunião havia algum tempo. Na realidade, estavam à espera dele.

— Fernão Capelo Gaivota! É chamado ao centro! — As palavras do Mais Velho foram pronunciadas no tom mais solene. Ser chamado ao centro só podia significar grande vergonha ou grande honra. Ser chamado ao centro por honra era a maneira como eram designados os principais chefes das gaivotas. "Claro", pensou, "o Bando da Alimentação esta manhã viu o triunfo! Mas eu não quero honras. Não me interessa ser chefe. Só quero partilhar o que descobri, mostrar a todos esses horizontes que estão à nossa frente." Avançou um passo.
— Fernão Gaivota — disse o Mais Velho — é chamado ao centro por vergonha aos olhos das gaivotas suas semelhantes!

Foi como se lhe batessem com uma tábua. Os joelhos enfraqueceram-lhe, um enorme rugido ensurdeceu-o. "Ser chamado ao centro por vergonha? Impossível! O triunfo! Eles não podem compreender! Estão errados, estão errados!"

— ... pela sua desastrada irresponsabilidade — entoava a voz solene —, por violar a dignidade e a tradição da família das gaivotas...

Ser chamado ao centro por vergonha significava que seria banido da sociedade das gaivotas, desterrado para uma vida solitária nos Penhascos Longínquos.

— ... um dia Fernão Capelo Gaivota aprenderá que a irresponsabilidade não compensa. A vida é o desconhecido e o desconhecível, mas não podemos esquecer que estamos neste mundo para comer e para nos mantermos vivos tanto quanto pudermos.

Uma gaivota nunca contesta o conselho do bando, mas a voz de Fernão ergueu-se gritando:

— Irresponsabilidade? Meus irmãos! Quem é mais responsável do que uma gaivota que descobre e desenvolve um significado, um propósito mais elevado na vida? Passamos mil anos lutando por cabeças de peixe, mas agora temos uma razão para viver, para aprender, para descobrir, para sermos livres! Dêem-se uma oportunidade, deixem-me mostrar-lhes o que descobri...

O bando mostrou-se impenetrável como a pedra.
— Quebrou-se a irmandade — entoaram em conjunto todas as gaivotas, e, em perfeito acordo, taparam solenemente os ouvidos e viraram-lhe as costas.

sábado, 28 de junho de 2008

Princípios do REIKI


quarta-feira, 25 de junho de 2008

Recomeço


No aquário

O peixe reaprende a nadar:

sob as escamas

guardou o mar.

(Lenilde Freitas)


sábado, 14 de junho de 2008

Fernão Capelo Gaivota - continuação I

Não tardou muito que Fernão Gaivota voltasse a pairar no céu, sozinho, longínquo, esfomeado, feliz, aprendendo.

O tema era a velocidade. Ao cabo de uma semana de prática, conseguira aprender mais sobre velocidade do que a gaivota viva mais rápida.

A trezentos metros de altura, batendo as asas com toda a força de que era capaz, lançou-se numa vertiginosa picada direta às ondas e aprendeu por que razão as gaivotas não fazem vertiginosos mergulhos picados. Em escassos seis segundos passou a mover-se a cento e vinte quilômetros por hora, velocidade que desequilibra a asa no arranque para a subida.

Vez após vez sucedeu o mesmo. Por mais cuidadoso que fosse, trabalhando até o limite da sua capacidade, perdia o controle em alta velocidade.

Subir a trezentos metros, dando primeiro tudo em frente; depois, dobrar o corpo e cair em mergulho vertical. Mas, sempre que tentava subir outra vez, a asa esquerda atrapalhava-se e fazia-o rolar violentamente para a esquerda. Ao tentar recuperar, era a asa direita que se atrapalhava, e então tremeleava como as chamas, num selvático movimento desordenado de parafuso, girando para a direita.

Não conseguir ser suficientemente cuidadoso naquele arranque. Dez vezes tentou e dez vezes alcançou os cento e vinte quilômetros por hora, acabando sempre numa agitada massa de penas descontroladas que ia esmagar-se na água.

"A chave", pensou por fim, "deve estar em manter as asas paradas nas grandes velocidades — batê-las até chegar aos cento e vinte e depois pará-las."

Tentou outra vez a seiscentos metros, lançando-se no mergulho com o bico espetado, as asas bem abertas e firmes a partir do momento em que ultrapassou os cento e vinte quilômetros por hora. Precisou de uma força tremenda, mas deu resultado. Em dez segundos transformou-se numa mancha no céu, a cento e trinta quilômetros pro hora.

Fernão acabava de estabelecer um recorde mundial de velocidade para gaivota!

Mas a vitória durou pouco. No instante em que tentou a horizontal, no instante em que modificou o ângulo das asas, projetou-se outra vez naquele terrível desastre descontrolado, e, a cento e trinta quilômetros, foi como se tivesse sido atingido por dinamite. Fernão Gaivota explodiu a meia altura e esmagou-se num mar duro como tijolo.

A história do Reiki


Houve muitas lendas sobre milagres de cura dos Grandes Mestres, mas os relatos ficaram perdidos. Não encontrando provas concretas, os que acreditavam, guardaram para si, pois sabiam que não havia modo de provar o que acreditavam.

A história do REIKI se desenrola desde os primórdios da humanidade, certamente mais antigo que qualquer relato escrito.

O REIKI é uma parte de cada um de nós. Um dia foi universal e nunca deveria ter-se perdido. Na antiga civilização, hoje conhecida como MU, as crianças recebiam treinamento em REIKI I no começo da escola primária, em REIKI II durante o colegial, já o REIKI III, o treinamento de Mestre, era exigido dos educadores e estava disponível a quem quisesse recebê-lo. Quando as pessoas da cultura-raiz deixaram a terra de MU para colonizar o que hoje é a Índia e o Tibete, o REIKI continuou com elas, embora MU, posteriormente, tenha se perdido. As mudanças na terra, que primeiramente destruíram a Atlântida, produziram vários conflitos culturais, obrigando que o sistema de cura fosse conhecido só por poucos eleitos. Quando, no século XIX, um japonês buscou a origem do método de cura de Jesus e Buda, ele a encontrou entre os vestígios da cultura primeva de Shiva, nos ensinamentos esotéricos da Índia.

No Tibete existem registros de cura através das mãos há mais de 8 mil anos. Essas técnicas se expandiram pela Grécia, Egito, Índia e outros países apesar de a técnica ter-se perdido nos últimos dois milênios.

Existem fatos que indicam ter Jesus praticado REIKI no Egito. Jesus aplicava a técnica com muito sucesso e também dizia a seus apóstolos «curem os que estiverem doentes».

A história do REIKI começa em 1822, na cidade de Kyoto, no Japão. Existia um pequeno seminário cristão, cujo deão era Mikao Usui. Questionado pelos seus alunos sobre como Jesus realizava esses milagres e ainda se alguém mais poderia curar da mesma forma, não soube responder. Embora tivesse compreensão intelectual da Bíblia, não compreendia a maneira que Jesus curava.
Dr. Mikao Usui

Conta-se que este questionamento mudou a vida de Usui. Demitiu-se do cargo que ocupava no seminário e viajou para a América. Em Chicago, estudou Teologia e línguas antigas, formou-se doutor.

Durante seus estudos, o Dr. Usui aprendeu que Buda também realizava os mesmos milagres que Jesus, curando doentes e tendo um controle sobre a energia, canalizando o poder de Deus e do Universo.

Ao retornar ao Japão, o Dr. Usui começa a questionar os membros das diversas seitas do Budismo, se eles poderiam curar o corpo das pessoas como Buda curava. Os Budistas o informaram que a cura do corpo e do espírito não tinha ligação e que eles estavam concentrados na cura do espírito e não do corpo. Eles sentiam que o corpo e o espírito eram separados e que o espírito é que precisava de cura. A cura do corpo deveria ser feita por aqueles que se dedicavam à Medicina.

Dr. Usui, ao chegar a um mosteiro Zen-Budista, pediu permissão e foi aceito, para estudar. Por muitos anos, sob a direção do monge Zen, estudou os Sutras e os ensinamentos de Buda. Leu todas as traduções japonesas e não encontrou o que buscava. Consultou novamente o monge Zen e este lhe disse para meditar e receber a resposta interior. As meditações levaram usui a aprender chinês.

Após alguns anos, foi levado a estudar sânscrito. O sânscrito é a raiz de todos os idiomas e, portanto, haveria possibilidade de descobrir o que tanto buscava. Em poucos anos, o Dr. Usui conseguiu a maestria no sânscrito e pôde ler os livros sagrados do Budismo Tibetano. Nesses livros ele encontra os escritos que sente serem a chave para a cura. Mas, no seu achado, ele não encontrava como utilizar aquelas chaves e nem tinha como se certificar de que aquilo era realmente o processo correto de cura. Os textos não incluíam a informação de como ativar a energia e fazê-la funcionar.

Como tem sido afirmado, essa falta de informação nos Sutras (manuscritos em sânscrito) era intencional, feita com freqüência para manter os poderosos ensinamentos longe do alcance de mãos não preparadas para conhecê-los e usá-los corretamente.

Novamente o Dr. Usui pede orientação ao monge tibetano e decide meditar na montanha sagrada do Japão, o monte Kuri Yama. Durante 21 dias ele medita e ora pedindo a iluminação. No 21º dia, ele acorda ao alvorecer e ainda está escuro. Levara consigo 21 pedrinhas para não perder a noção do tempo e joga a última delas. Ele reza pedindo novamente a Deus que confirme o seu achado e que lhe seja dada clareza e iluminação de como usar o conhecimento.

Ao jogar fora a última pedrinha, uma luz aparece no leste. Esta luz começa a se tornar mais brilhante e se aproxima do Dr. Usui. Ele fica assustado, ameaça fugir. Então, escuta a voz dizer: «Você buscou por 21 anos e tem jejuado nesses 21 dias. Você tem pedido a iluminação e confirmação e agora quer fugir?». Ele aquieta o seu intelecto, dizendo a si mesmo: «Se a luz é para mim, aceito a iluminação».

A luz se torna mais brilhante e corta os céus como um relâmpago e lhe toca o terceiro olho. Usui tem a sensação de estar morrendo. Ele nunca se sentira assim e seu campo de visão parece um arco-íris. Fora deste arco-íris aparecem luzes dourada e branca. Cada uma destas bolhas é como uma lâmpada contendo os caracteres sânscritos que ele descobrira nos Sutras Tibetanos. Uma voz parecia lhe dizer: «Estas são as chaves da cura; aprenda-as, não as esqueça e não permita serem novamente perdidas».

Dr. Usui olhava para os céus e ouvia a voz… até que se sente desperto e o sol está alto e ele diz para si mesmo: «eu tenho as chaves para a cura, eu não as esquecerei e não permitirei que se percam». E quando ele sente que não morrera, que ainda estava na terra, começa a descer a montanha, profundamente excitado e apressado. Ele quer voltar ao mosteiro e dizer ao monge o que aconteceu.

Na sua pressa em descer a montanha, o Dr. Usui machuca o pé e consegue parar o sangramento com o processo que acabara de aprender. Ele sente as suas mãos diferentes, elas estão muito quentes. Ao chegar ao pé da montanha ele tem fome. Pára numa estalagem onde são servidos os que estão em peregrinação. Ele insiste com o estalajadeiro para ter uma refeição «normal» e é atendido. Apesar dos 21 dias de jejum, ele come tudo e tem uma boa digestão completa.

Quem o serviu foi a neta do estalajadeiro, e ela tem o rosto inchado e o dente infamado. O Dr. Usui pergunta se ela aceita ser curado e usa o processo que acabara de aprender. O inchaço e a inflamação cedem e em poucos minutos a garota está bem. O estalajadeiro não aceita o pagamento da comida porque o Dr. Usui lhe presta um grande serviço, eles moravam longe e não tinham como pagar por assistência médica.

O Dr. Usui volta ao mosteiro e conversa com o monge. Ele trata o monge e o cura de uma artrite. Mas agora que ele tem as chaves da cura, ele quer saber mais como desenvolvê-las. Então resolve deixar o mosteiro e morar no bairro dos mendigos, curar os enfermos e aflitos.

Durante sete anos ele ministra a cura desde o amanhecer até tarde da noite. Ele curava a todos e era disciplinado e dedicado. Ele compreende como o REIKI flui pelo seu corpo e como o corpo se curava.

Um dia, o Dr. Usui encontra um pedinte cujo rosto lhe parecia familiar e o interroga. Ele se identifica como um dos primeiros mendigos a quem o Dr. Usui curara. O Dr. Usui lhe pergunta por que ele continua mendigo e o pedinte explica que fez tudo o que lhe fora mandado fazer depois da cura – fora ao Templo e recebera um nome, conseguira um emprego e se casara. Mas tudo isso era muita responsabilidade e ele decidira continuar mendigo. Sendo mendigo, ele não tinha que assumir responsabilidades por si mesmo.

O Dr. Usui decide então deixar o bairro dos mendigos. Retornando ao mosteiro, ele agradece por todos os ensinamentos que lhe foram dados no monte Kuri Yama. Ele medita sobre tudo o que acontecera. Compreende que fizera o contrário do que os Budistas vinham fazendo e que, ao se preocupar com a cura do corpo, ele esquecer da cura do espírito. Compreende que a pessoa em tratamento também tem de assumir a responsabilidade pelo seu processo de cura. Os Mestres da Cura Espiritual o levaram a compreender muitas coisas transmitindo-lhe os Cinco Princípios Espirituais do REIKI. Ele compreende que distribuíra a cura sem que o outro assumisse a responsabilidade pelo tratamento e não trocasse a energia pelo serviço. Dr. Usui compreendeu que os Cinco Princípios acrescentavam uma dimensão espiritual à cura física.

O Dr. Usui compreende também que, ao dar a cura sem que houvesse esforço pessoal de quem a recebera, não lhe era dado valor e ainda, que ao dar simplesmente, ele ajudara a imprimir padrões de miséria na mente dos que tratava.

Tudo isso trouxe transformações à vida de Dr. Usui e ele compreende que o REIKI é um processo de transformação de consciência que vem do coração e que é através do coração que a plenitude da vida pode ser obtida. Ele compreende também que a aplicação dos Cinco Princípios na vida quotidiana leva a essência a se manifestar em todos os níveis da vida da pessoa. E que a forma como as pessoas agem, reagem e compreendem a si mesmas e aos outros muda para se centrar na consciência divina EU SOU.

A partir daí, o Dr. Usui passa a ensinar o REIKI por todas as ilhas do Japão. Entre os anos de 1850 e 1898, quando morreu, tinha formado 18 mestres, dentre estes o Dr. Hayashi, que o sucedeu.

Não há registros escritos do Dr. Usui. O que se estabeleceu como aprendizado do REIKI foi mantido como conhecimento «de boca a ouvidos».

Durante o período em que viajou pelo Japão, o Dr. Usui chegava às cidades onde não conhecia ninguém e caminhava pelo mercado carregando uma tocha acesa. Muitos riam dele – o homem tolo que carregava uma tocha acesa em pleno dia. Mas isto atraía a atenção das pessoas e o Dr. Usui as convidava para as reuniões m que as pessoas manifestavam o desejo de aprender o processo do REIKI. É desta forma que o Dr. Usui encontra o Dr. Chujiro Hayashi, um oficial da Marinha, de família rica e tradicional e que é o responsável pela montagem do que foi a primeira clínica de REIKI no Japão, localizada em Tóquio.


Dr. Chujiro Hayashi


Dr. Chujiro Hayashi torna-se o Grande Mestre de REIKI com a morte do Dr. Usui. Formou 16 mestres, entre eles, duas mulheres, sua esposa Chie Hayashi e Hawayo Takata, que trouxe o REIKI para o Ocidente.

Hawayo Takata



Consciente da importância do REIKI, o Doutor em Medicina Hayashi colheu comprovações de tratamentos, produzindo assim ampla documentação que demonstra que o REIKI além de encontrar a fonte dos sintomas físicos revitaliza o corpo na sua totalidade.

Com todas essas informações e comprovantes de tratamentos, Dr. Hayashi repensou as posições e pôde sintetizá-las em níveis, para uma aplicação mais eficaz.