
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Pensamento do dia

Saramago blogueiro
Ontem recebi a notícia: o Saramago está escrevendo em um blog.Fiquei confusa... será que é mesmo o JOSÉ SARAMAGO??? Isso não é dele... muito estranho!
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Caridade?!
Notícia da última página do Jornal de Moçambique de hoje: Esmola acaba em tragédia na Indonésia. Explico, para não transcrever: uma família abastada estava distribuindo esmolas para a população, quando se deu um tumulto, resultando em pelo menos 23 pessoas mortas, esmagadas. Tudo por uma quantia equivalente a 100 meticais, ou 10 reais, ou 4 dólares, ou 3 euros.História triste, que me fez lembrar uma situação que vivi ontem. Fui ao mercado, como sempre faço. E, como sempre, um dos meninos que fica por lá veio ajudar-me a empacotar as compras e colocá-las no carro.
Ajudar é maneira de falar, porque esta «ajuda» tem como contrapartida um dinheirinho, uma esmola. Confesso que, para mim, é muito confortável ter alguém que me «ajude» com as compras, apesar de, no fundo, saber que estou agindo erradamente. Quando estava guardando as compras no carro, outro menino veio correndo para «ajudar» também. Dei-lhe também um dinheirinho, coisa pouca, para mim.
Ao final, já dentro do táxi, comentei com o taxista que estes meninos deveriam estar na escola. A resposta do homem foi, senão óbvia, um verdadeiro tapa na cara! Eles estavam ali porque há pessoas como eu que lhes dão dinheiro. Fogem da escola para arrecadar alguns trocados.
Mea culpa! Sou culpada sim. Como são culpados todos os que dão esmolas. Já diz aquele velho ditado: ensinar a pescar, não dar o peixe.
Fácil falar, difícil fazer. Quem tem tempo para perder com caridade? Muito mais fácil abrir a carteira! Vamos reconhecer: dar dinheiro não é caridade, é desencargo de consciência!
Mas tem gente que faz. São estas pessoas iluminadas e desprendidas, que ajudam simplesmente por ajudar. Fazem realmente diferença. Conheço um grupo de mulheres que veio do Brasil para Moçambique simplesmente para ajudar. Largaram família, amigos, empregos, estudos, tudo por um ideal. Viajam o país, enfrentando estradas esburacadas, machibombos (ônibus, autocarros) mais velhos do que a História, fazem caminhos a pé, enfrentam condições deploráveis de saneamento e higiene, comem mal, dormem mal. E não reclamam. Pelo contrário, agradecem pelo aprendizado.
Chamado de Deus, dizem elas, modestas. Eu digo exemplo difícil de ser seguido, abnegação, dedicação. Não buscam reconhecimento, aplausos ou prêmios. Não pedem ajuda nem esperam que ninguém as siga. Já disse: ajudam simplesmente por ajudar.
Ah, se eu conseguisse fazer pelo menos um centésimo do que a Raquel, a Lívia, a Cris, a Thaís e tantas outras fazem… se cada pessoa fosse um pouquinho de cada uma delas, o mundo seria melhor, perfeito, fraterno!
E eu fico aqui, com inveja da coragem delas… limito-me a escrever, contar e admirar.
P.S. Se alguém quiser conhecer o trabalho delas e ajudar (de qualquer maneira), aí estão os e-mails de cada uma:
Raquel: raqueliecp@yahoo.com.br
Lívia: liviahoza@hotmail.com
Cris: cris.kikka@hotmail.com
Thaís: semlimitess@yahoo.com.br
Elas costumam fazer uma «carta informativa» mensalmente, contando todas as suas realizações aqui em Moçambique. Escrevam-lhes!
Hambre - Aldo Novelli
Aldo Novelli - La poesía es un impossible y el poema una derrota.
Los efectos de un buen poema
Un buen poema, durante y después de su lectura nos deja mirando el infinito, ese punto inaccesible del espacio que brilla como una lejanísima estrella en medio de un vendaval de piedras y palabras.
Y al observar detenidamente por unos instantes interminables ese mínimo resplandor, uno siente una sensación inefable en todo el cuerpo y en ese lugar desconocido llamado alma, una sensación física que nos modifica en forma permanente hasta el fin de nuestros días o hasta el próximo poema.
Quisiera compartir ahora con ustedes, un mínimo y discutible ensayo que escribiera alguna vez, sobre el nacimiento y los acontecimientos posteriores al luminoso acto de escribir el poema, que bien o mal, podría tomarse como una metodología (tal vez fallida) para escribir un buen poema.
La poesía es un imposible y el poema una derrota.
El poema surge de un mal estado de ánimo, de una manifestación tribal en la esquina, de un texto mal leído, de un intestino revolucionario, de la soledad absoluta un segundo después del coito, o de la observación abusiva de un programa banal de televisión.
Técnicamente diría, que sucede un acontecimiento, personal o ajeno, un acontecimiento cualquiera, la imagen de una película, un trozo de conversación escuchado arriba del colectivo, los pechos de una mujer vislumbrados debajo de la blusa, algunos acordes de una canción olvidada, una muerte, o un sueño extraño y fragmentado por la desmemoria.
Y alguno de estos sucesos genera una sensación, una sensación diversa y varia, dolor, emoción, angustia, nostalgia, delirio, desasosiego o excitación, o cualquier otra, y ésta permanece grabada, en algún recoveco de la memoria y de alguna desconocida forma.
Después de cierto tiempo, en un momento pertinente y sensitivo, este recuerdo surge inesperadamente en el presente, creando ahora una sensación similar o tal vez igual (pero no la misma) y forma imágenes mentales, claras o difusas, reales o ficcionales, de aquel acontecimiento que las generó y entonces el cerebro y el espíritu las empieza a traducir en palabras, las decodifica, las sintetiza, las corrompe, y nace un verso, tan solo un verso, que el esfuerzo posterior, o sea, la inspiración, el talento natural y un complejo y desconocido andamiaje de saberes, convertirán en un poema, o mejor aún, en un proto-poema.
Después de todo esto, resta un esfuerzo importantísimo, el trabajo textual sobre esta arcilla blanda y maleable, que es el poema crudo, el poema en estado puro, y allí, las diversas facetas de este arduo trabajo.
Luego, una de las múltiples consecuencias de este proceso, es provocar una sensación parecida o análoga, a la que generó el texto, ahora en el lector, intención, que generalmente es otra derrota.
De aquí, que la poesía, el arte todo, es una permanente derrota, es la búsqueda de un ideal, de un imposible.
A mí me alienta la búsqueda de ese ‘aleph poético’, la búsqueda del poema total, aún sabiendo conscientemente que es un imposible, pero también una utopía, tal vez la que me incita a seguir escribiendo.
Algunos ‘poetas entre comillas’ (y dice esto, un poeta que no está totalmente libre de comillas) creen, que están escribiendo la ‘gran cosa’ y entonces, ‘se postran embelesados con reverencia ante un paisaje plagado de edenes’, o nos dictan ‘una desiderata estúpida y vulgar sobre su amor a la madre o a la novia indigestada de blanca pureza’, seguramente están muy lejos de la poesía o cualquier otra forma de arte que se precie.
Personalmente, no puedo afirmar que he accedido al ‘cosmos de la poesía’, digo que vi una hendija y espié por allí (y esto me llevó muchos años) y digamos, que apenas he vislumbrado ese cosmos, que intuyo infinito.
Compartirlo ahora con otros, con ustedes, es un acto generoso y egoísta, es buscar en el otro una afinidad, es buscar un soñador, un príncipe de las mareas entre aguas turbias y contaminadas.
Compartirlo con otro, es intentar un mundo mejor, es creer que la palabra sirve para algo más que para comunicarse, es un acto de rebelión, es también, un acto de fe.
Compartirlo con el otro, es el último acto de resistencia, para combatir la tremenda soledad que nos aflige en este nuevo milenio.
Compartirlo, es ya el triunfo, de esta permanente derrota.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Ah, Amicíssima... 100 anos sem Machado!!!
Pois é... recebi um e-mail sobre os cem anos da morte do Machado de Assis. Grande coisa, né? Mas, e juro que não sei por quê, voltei a quebrar a cabeça com a história da Capitu. Será que ela traiu mesmo o Bentinho???
Na verdade, acho que o próprio Machado era meio recalcado, medroso de ser traído...
O que não me deixa conformar é a quantidade de estudos e intertextualidades com o Dom Casmurro! Até em novela! E a pobre da Capitu tinha logo de ser uma «Madalena arrependida»! Prostituta que voltou para o caminho certo. Quanta hipocrisia!
Ando assim, meio revoltada. Não sei por quê... deve ser a velha TPM...
Aguardo notícias....................................................
P.S. Não vais acreditar! Fui procurar no Google uma foto da Capitu para ilustrar este post... fui lá em «Images» e digitei: Capitu. Adivinha o que apareceu em quase 90% das figuras??? Mulheres de bunda de fora ou cachorras (da raça canina). Coincidências??? A coitada já foi apedrejada, nem Madalena foi tão condenada. Ninguém provou o adultério, mas que ela é puta, ah, isso é!
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Arroz de carreteiro
Jayme Caetano Braum
A receita:
Para quem não sabe o que é, CHARQUE é a carne salgada e seca. A diferença entre a carne de sol, típica do Ceará e o charque é que este não seca ao sol, mas em galpões ventilados.
* 1/2kg de charque
- Já sei.. vão dizer: «só isso de ingredientes?». Pois é... o carreteiro de charque era o prato comum dos tropeiros. Tinha de ser simples e rápido! Mas, continuemos...
Modo de fazer:
- Dessalgar o charque: cortar em pedacinhos e demolhar. A água pode ser quente ou fria, mas não esquecer que, se a água for quente, o sal sairá mais rapidamente.
- Colocar na panela o óleo e refogar a cebola e o alho. Quando estiver dourado, adicionar o charque e fritar. Colocar o arroz, fritar mais um pouco. Encher a panela com água e deixar secar.
- Importante: acertar o sal - às vezes, tiramos demais o sal do charque e precisamos colocar mais um pouquinho na hora de cozinhar.
- Opcional: há gente que gosta de colocar para cozinhar junto uns pedacinhos de abóbora ou de batata-doce. Fica muito bom, dá um sabor contrastante com o charque.
- Mais: depois de pronto, fica muito bom jogar um pouco de salsa ou ovo cozido picado (ou os dois) por cima.
- Para acompanhar, o feijão preto é perfeito!
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Civil War
"what w've got here is failure to communicate
(Axl Rose / Izzy Stradling)
"O que temos aqui é falha na comunicação.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Fernão Capelo Gaivota - Continuação VI
Francisco Coutinho Gaivota era bastante novo, mas já sabia que nunca um pássaro fora tratado com tanta aspereza por nenhum bando ou com tanta injustiça.
"Não importa o que digam", pensava com violência, o olhar toldado, enquanto voava em direção aos Penhascos Longínquos. "Voar tem muito mais valor do que esvoaçar de um lado para o outro! Um... um... um mosquito faz isso! Um pequeno 'barrel roll' à volta da gaivota mais velha, só por brincadeira, e eis-me banido! São cegos? Não vêem? Não percebem a glória que será quando aprendermos a voar realmente?
"Não me importa o que pensem. Vou lhes mostrar o que é voar! Serei um puro fora-da-lei, se é isso o que desejam. E vou fazê-los lamentar tanto..."
A voz surgiu dentro da sua cabeça e, embora fosse muito suave, sobressaltou-o de tal maneira que vacilou e quase despencou.
Ser Poeta
O poema, eu já conhecia. A música, foi meu amor quem me cantou...

Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
O Noivado do Sepulcro
Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.
Que paz tranqüila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
Dentre os sepulcros a cabeça ergueu.
Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na mormórea cruz.
Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.
Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre os ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:
"Mulher formosa, que adorei na vida,
E que na tumba não cessei de amar,
Por que atraiçoas, desleal, mentida,
O amor eterno que te ouvi jurar?
Amor! engano que na campa finda,
Que a morte despe da ilusão falaz:
Quem dentre os vivos se lembrará ainda
Do pobre morto que na terra jaz?
Abandonado neste chão repousa
Há já três dias, e não vens aqui...
Ai, quão pesada me tem sido a lousa
Sobre este peito que bateu por ti!
Ai quão pesada me tem sido!"e em meio
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.
"Talvez que rindo dos prostestos nossos,
Gozes com outro d'infernal prazer;
E o olvido cobrirá meus ossos
Na fria terra sem vingança ter!"
- "Ó nunca, nunca!" de saudade infinita,
Responde um eco suspirando além...
- "Ó nunca, nunca!" repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.
Cobrem-lhe as formas divinais, airosas.
Longas roupagens de nevada cor;
Singela c'roa de virgíneas rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.
"Não, não perdeste meu amor jurado:
Vês este peito? reina a morte aqui...
É já sem forças, ai de mim, gelado,
Mas ainda pulsa com amor por ti.
Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
Da sepultura, sucumbindo à dor:
Deixei a vida... que importava o mundo,
O mundo em trevas sem a luz do amor?
Saudosa ao longe vês no céu a lua?"
- "Ó vejo sim... recordação fatal"
- Foi à luz dela que jurei ser tua
Durante a vida, e na mansão final.
Ó vem! se nunca te cingi ao peito,
Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
Quero o repouso do teu frio leito,
Quero-te unido para sempre a mim!"
E ao som dos pios co cantor funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrado, d'infeliz amor.
Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.
Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.
Vejam a foto:

Deixo com vocês!
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Crianças bonitas
O director musical da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Beijing - 2008, decorrida na sexta-feira passada, admitiu que a menina chinesa que supostamente cantou «Ode à Pátria» durante o show no estádio Ninho de Pássaro não era a dona da voz. O motivo? A cantora verdadeira não era suficientemente bonita para representar a China.
«Queríamos passar uma imagem perfeita e pensamos no que seria melhor para a nação», explicou Chen Quigang, em entrevista à televisão chinesa. O conteúdo chegou a ser veiculado no portal Sina.com, mas depois sumiu.
A imprensa chinesa divulgou ontem fotos de Lin Miaoke, de nove anos, a tratando como uma estrela em ascensão. No entanto, ignoram Yang Peiyi, de sete anos, a dona da voz que é gordinha, tem os dentes fora do lugar e uma óptima voz.
«Era uma questão de interesse nacional. A criança que apareceria diante das câmeras tinha que ser expressiva», argumentou Chen.
«Lin Miaoke é excelente para tudo isso. Porém, no que diz respeito à voz, Yang Peiyi é perfeita. Toda a equipa concordou», finalizou o compositor chinês.
Chocolate
Sou uma chocólatra compulsiva. Êpa, acho que isso foi uma redundância… chocólatra = viciada em chocolate, logo, todos os chocólatras são compulsivos… Por outro lado, chocólatra é não poder ficar sem chocolate e isso, com certeza, sou. Às vezes, dá-me uma vontade louca de comer chocolate. E compulsiva também, porque não consigo parar enquanto não terminar a barra ou a caixa.Mas outro dia me peguei pensando… o que faz alguma comida realmente gostosa? Será cultural? Aprendemos desde cedo que chocolate é muito bom. Se seguir este pensamento, é claro que, se desde pequenos aprendermos que quiabo é bom (tem gente que gosta, mas… blargh!), então será que poderemos nos tornar quiabólatras?
Nesta mesma linha de pensamento: por que gostamos de certos cheiros e de outros temos repulsa?
Resumindo… será que nossos gostos são socialmente condicionados? É uma boa teoria, já que a maioria dos nossos comportamentos sociais são condicionados. O que é «feio» e o que é «bonito» é condicionado. Lembram-se de que na Roma antiga era normal vomitar após comer para poder comer mais? E quem não fizesse isso, era extremamente mal educado. Já pensaram se, hoje em dia, alguém fizer isso??? Muito «feio»!
Mas, voltando ao chocolate…
Meu filho está aprendendo a comer. Foi-me insistentemente recomendado pelos meus pais que o ensinasse a comer todas as verduras e legumes de que eu não gosto. Sim, não gosto de verduras, como pouquíssimos legumes, logo, detesto salada. Estou tentando ensinar meu filho a comer tudo isso. Mas ele não gosta de muita coisa. Com seis meses, já tem aquele gostar disso ou daquilo. Ao meio-dia, vira a cara para a sopa e faz ânsia de vômito. Mas, se for farinha láctea, ele come tudinho. Então, isso não é gostar mais disto do que daquilo?
Ontem estava comendo meu chocolate de sobremesa. Ele me olhava curioso. Peguei um pedacinho e coloquei na boca dele. Ele lambeu, chupou e – pasmem! – reclamou muito quando lhe tirei. Ele queria mais!
Assim, cheguei à brilhante conclusão de que, realmente, o chocolate é gostoso porque é gostoso. Não tem nada a ver com condicionamento.
Baita descoberta!!!
We are the world
Esta música foi gravada em 1985 para ajudar a combater a fome na Etiópia. Ela diz «nós somos o mundo, nós somos as crianças, nós somos os que podem fazer um dia melhor, então, VAMOS COMEÇAR». Infelizmente, esta mensagem ainda precisa ser passada.
Nestes tempos obscuros, mesquinhos e horrorosos, de guerras no Cáucaso e no Oriente Médio, de fome e de tristezas, de caos causado somente pelos homens, vale a pena lembrar esta música. A letra deveria ecoar e fazer pensar todas as pessoas para que, finalmente, descobríssemos que «we are the world», nós somos o mundo, um só mundo! Basta apenas começarmos a agir como tal!
O Poeta Morto - José Régio
Barbearam-no e vestiram-no de preto,
Calçaram-lhe sapatos de verniz,
Moscas varejas chupam-lhe o nariz,
E ele mantém-se pálido e correcto.
Cheira a cera no quarto, já repleto
Do que há de mais distinto no país:
... Um general, dois lentes, um juiz...,
Com ar triste, imbecil, grave e discreto.
Logo, os críticos sérios e carecas
Folhearão no pó das bibliotecas
Um livro caluniado enquanto vivo.
Esse a quem chamam hoje ilustre e augusto
Porque... porque ele, agora, é inofensivo
Como qualquer estampa ou qualquer busto!
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Joana Francesa - Chico Buarque
Vergonha!!! Eu, que me considero A FÃ do Chico, que sonho com aqueles olhos verdes, não conhecia esta música! Vejam que coisa fantástica, linda, maravilhosa! Ele fez mais uma perfeição, os versos em francês combinando foneticamente com os em português...
Lindo demais, perfeito demais!!!
Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Accord'accord'accorda
Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Accord'accord'accord'accord...
Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise
Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateaux
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Accord'accord'accord'accord...
sábado, 9 de agosto de 2008
Fernão Capelo Gaivota - Continuação V
Quando regressaram já estava escuro. As outras gaivotas olhavam Fernão com o assombro nos olhos dourados. Tinham-no visto desaparecer do lugar onde há tanto criara raízes. Suportou as felicitações por menos de um minuto.
— Eu sou o mais novo aqui! Estou apenas começando! Sou eu quem tem de aprender com vocês.
— Tenho as minhas dúvidas, Fernão — disse Henrique, ali próximo. — Você tem menos medo de aprender do que qualquer outra gaivota que conheci em dez mil anos.
O bando ficou em silêncio e Fernão moveu-se embaraçado.
— Se você quiser, podemos começar a trabalhar, com tempo — disse-lhe Chiang —, até você poder voar no passado e no futuro. E então estará preparado para começar o mais difícil, o mais poderoso e o mais divertido de tudo. Estará preparado para voar no além e conhecer o significado das palavras "bondade" e "amor".
Passou-se um mês, ou algo que se pareceu com um mês, e Fernão aprendeu num ritmo tremendo. Aprendera sempre depressa, com a experiência vulgar, e agora, como aluno especial do próprio Mais Velho, fixou novas idéias, como um aerodinâmico computador de penas.
Mas chegou o dia em que Chiang se evaporou. Falara calmamente a todos, exortando-os a nunca deixarem de aprender, de treinar e de lutar por compreenderem cada vez melhor o perfeito e invisível principio de toda a vida. Então, enquanto falava, suas penas foram-se tornando cada vez mais brilhantes, e acabaram por ficar tão brilhantes que nenhuma gaivota o conseguia olhar.
As suas últimas palavras foram para Fernão:
terça-feira, 22 de julho de 2008
Mais Eduardo White
Se falta o medicamento para a malária nos hospitais e não há crédito nos bancos de sangue não é bonito sermos em África o país com mais internautas? Não é desenvolvimento isso? Os bólides nas ruas não mostram a prosperidade da Nação ou é apenas um mero indicativo para o investidor ver as potencialidades?
E quem são esses que gritam que as estradas das nossas capitais andam cheias de buracos? Arre!! Estão contra quem afinal? Que interesses servem eles? Então esses mentecaptos da oposição mais esburacados que as próprias estradas não vêem que só as esburacadas vias justificam os luxuosos foure bai foures[1] das capitais?
Estavam então a pensar que os dirigentes, que os Latifes, que os Costas e os Cossas haveriam de passear no domingo de motorizada[2]? Isto não é Maringué não senhor, calma lá. Aqui não se perdem óculos em debandada na motorizada, aqui, nesta zona agora deslibertada da humanidade, motorizada e bicicleta é só para se ver por uns binóculos.
Passam a vida a dizer que o Povo vê o dirigente a engordar. Quem disse a esses trogloditas da oposição que dirigente engorda? Dirigente não engorda, não senhor, enche só. E sabem eles das dificuldades disso, ou são inveja essas infundamentadas visões? Não sabem esses da maioria que o Povo não precisa nem de motorizada nem de bicicleta? Que a enxada é que o Povo está mesmo a precisar?
Povo existe para trabalhar ou para passear? Digam lá então? Povo existe para trabalhar, e se a riqueza nacional não é mais é porque o Povo é preguiçoso. É ou não é verdade?
Esta coisa da população fugir do campo para a cidade é o quê? Não é isso mesmo? Se o Povo visse o exemplo do dirigente não voltava para o campo? Pensem lá vocês com o dentro das vossas cabeças. Dirigente não dá exemplo bom? Mas esses estupores da oposição vão vir dizer que o dirigente vai para o campo porque tem projectos, tem financiamento bancário, tem parceria e junta sinergias. O Povo se não tem isso tudo é porque não pensa. Mas Povo não existe para ter projecto como o dirigente, povo existe para ser projecto do dirigente. E o Povo mesmo sabe disso.
Anda por aí o boato de que a população não foi votar nas autárquicas porque o governo deu tolerância de ponto. Mas têm o quê contra a população essa gente?
Povo quando tem tolerância de ponto vai cumprir os seus deveres cívicos?
Não!
Povo quando tem tolerância de ponto faz o quê afinal?
Vai beber nos bares, faz festa de família com verduras e galinha a ouvir na rádio qual é o resultado desse jogo chamado eleições. Mas eu pergunto a esses agitadores, como é que o povo vai votar num dirigente que está sempre a rir enquanto ele está a chorar? Como? Digam lá então?
Mas eu disse que o silêncio tem dentro muito barulho. E não vale a pena dizerem que eu sou um xiconhoca porque o povo agora está cansado e quando não vota não é porque está a beber. Não, não é. Esses tais de candidatos são candidatos a quê? A iguais ou a parecidos? A dirigentes ou a dirigidos? Eles também não sabem.
(…)
Os originários não têm direito a apanhar os papéis principais. Ahhh, camarada poder, isto é abuso, palavra de honra. Nós perguntamos em meio a tanta corrupção: esses bais, esses mulungos[3] todos arranjam dinheiro aonde para tantas quintas, para tantas fábricas, tantas sociedades anónimas de responsabilidade ilimitada, tantas participações financeiras em projectos sustentáveis? Sozinho ou com conivência de alguém?
Não são os moçambicanos 100% que vão fumar charuto de Cuba no Sheik, ter Mercedes de último modelo com nome de amante na matrícula e quintas[4] com muros a esconder os telhados das casas? Quando? Quando vão ter corrente de ouro grossa na garganta?
Assim não vale, camarada poder, assim não vale. Porque ficam só os moçambicanos estafetas desse novo-riquismo desnacional? Um País assim pode desenvolver? Com tantos meios descendentes a roubar nas repartições públicas, nos projectos beneméritos e outros afins? Pode?
Mas nossos mais renomados analistas cêeniacos vieram dizer-nos que o Povo não foi votar por ver tudo isso. O Povo não foi votar porque o Ministério do Trabalho deu tolerância de ponto para ele bichar[5]. Quer dizer, o Povo desconsciente, ao invés de ir escolher seu candidato, foi candidatar a sua escolha nas urnas médias da 2M e da Laurentina[6]. Isso não é sabotagem para uns e fraude para os outros. Povo não tem consciência para ser objector de consciência. Povo não tem cabeça para pensar nessas coisas de política. A cabeça do Povo é só para votar no desejo de voto dos políticos.
O País está muito bom, não é o que toda a gente vê? Não é o que toda a gente sente? O País tem mais stands de carros, tem mais imobiliárias a vender moradias, o país tem muitas empresas de consultoria, não está bom o país assim? Isto não é sinónimo de desenvolvimento? Não há mais clínicas particulares? Não há mais lodjes para o turismo da banana? Não há mais pedidos de visto nos consulados para se passarem os fins-de-semana no exterior? E então as escolas públicas não estão a crescer? Não há mais população estudantil nos bancos das escolas?
E os professores e os enfermeiros não ganham muito melhor? Os doentes não são consolados com simpatia e carinho nos postos de socorro dos nossos hospitais? E não há mais carros de bombeiros e ambulâncias e autocarros[7] públicos? Nossos agentes de autoridade não são exemplo de entrega e abnegação à ordem pública?
Não há mais prostitutas nas ruas? Não aumentaram as conferências e os seminários para se discutir o indiscutível e o que já se sabe? Não tem mais estudantes a casar e habitar suas flats tipo 1[8]? Não é progresso isso? Os camaradas da oposição não vão mais felizes fazer discurso na assembleia com gordura na boca? Não usam balalaica agora? Não se mata mais agora nas nossas ruas e não tem mais bandidos a falar nos celulares? A cocaína e o haxixe não são agora mais extensivos aos consumidores? Não são impunes as suas pedradas? Dizer o contrário estamos a mentir?
O País está muito bom, tem a consciência desprendida, tem a irreverência desarrumada. As sirenes estão a tocar mais agora, há mais Kalachnikoves nas janelas dos automóveis e os tiros que não se falham descascam amendoim de manhã nos componentes do Estrela Vermelha[9]. Tem muito chingondo sem emprego a vender lenços de assoar, mas chingondo não sabe, coitadinho, chingondo não sabe que o país, ao contrário dele, deixou de chorar há maningue[10] tempo.
[1] 4 x 4 – carros «todo terreno». Calculo que 80% dos carros em Moçambique sejam deste tipo.
[2] motocicleta
[3] Mulungo: branco, senhor
[4] Quintas: sítios, chácaras.
[5] Bichar: fazer fila (de «bicha» = fila).
[6] 2M e Laurentina: cervejas fabricadas em Moçambique.
[7] Ônibus.
[8] Tipo 1: com 1 quarto (como tipo 2: com 2 quartos…)
[9] Time de futebol de Maputo.
[10] Maningue: muito.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Noémia de Sousa
Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias...
Teus encantos profundos de Africa.
Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia...
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.
Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra...
menos tu.
E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Fernão Capelo Gaivota - continuação IV
Segunda Parte
"Então o paraíso é isto",
Enquanto se afastava da terra e ultrapassava as nuvens, em formação com as duas gaivotas brilhantes, notou que o seu próprio corpo se tornava tão brilhante como os dela. Em realidade, era o mesmo Fernão Capelo Gaivota que sempre vivera por detrás dos olhos dourados. Só a forma exterior se modificara.
Era como o corpo de uma gaivota, mas voava muito melhor do que o antigo jamais voara. "É maravilhoso", pensava ele. "Com metade do esforço consigo o dobro da velocidade, o dobro da eficiência dos meus melhores dias na terra!"
As penas luziam agora num branco radiante e as asas eram lisas e perfeitas como folhas de prata polida. Deliciado, começou a aprender a conhecê-las, a incutir potência a essas novas asas.
A trezentos e setenta quilômetros por hora, sentiu que se aproximava da velocidade máxima que atingira antes em vôo planado. A quatrocentos e nove quilômetros pensou que voava tão depressa quanto podia voar e, apesar disso, sentiu-se ligeiramente desapontado. Havia um limite para tudo o que o novo corpo podia fazer, e, embora fosse muito mais rápido do que o seu antigo recorde em vôo planado, era ainda um limite. Para o vencer, iria ser necessário um grande esforço. "No paraíso", pensou, "não devia haver limites."As nuvens romperam-se, a escolta gritou-lhe "Feliz aterragem, Fernão", e evaporou-se no ar fino.
Voava sobre um mar em direção a uma linha áspera da costa. Muito poucas gaivotas treinavam os "updrafts" nos penhascos. Bastante desviado para o norte, na linha do horizonte, voava outro pequeno grupo. Novas paragens, novos pensamentos, novas perguntas. "Por que tão poucas gaivotas? O paraíso devia estar repleto de gaivotas! E por que é que, de repente, fiquei tão cansado? As gaivotas no paraíso nunca devem cansar-se, nem dormir."
Onde é que ouvira isso? A lembrança da sua vida na terra sumia-se. A terra fora um lugar onde aprendera muito, é certo, mas os pormenores estavam esmaecidos — qualquer coisa como lutar por comida e ser banido.
A dúzia de gaivotas que treinava junto à costa veio ao seu encontro, sem pronunciar uma palavra. Sentiu apenas que era bem-vindo e que esta era a sua casa. Tinha sido um grande dia para ele, um dia cuja aurora já não recordava.
Dispôs-se a aterrar na praia batendo as asas de modo a ficar suspenso a dois centímetros do chão e deixando-se cair levemente na areia. As outras gaivotas também aterraram, mas nenhuma delas moveu uma única pena. Esvoaçaram no vento com as asas brilhantes bem abertas e, modificando depois a curva das penas, pararam exatamente na mesma altura em que os pés tocaram no chão. Era um controle magnífico, mas, nesse momento, Fernão estava demasiado cansado para experimentar. Adormeceu ali mesmo na praia, sem que se tivesse pronunciado uma palavra.
Nos dias que se seguiram, Fernão verificou que neste lugar havia tanto para aprender acerca do vôo como houvera na vida que deixara para trás. Mas com uma diferença. Aqui havia gaivotas que pensavam como ele. Para cada uma delas o mais importante na vida era olhar em frente e alcançar a perfeição naquilo que mais gostavam de fazer: voar. Todas elas eram aves magníficas e passavam hora após hora praticando vôo, fazendo experimentos de aeronáutica avançada.
Durante muito tempo Fernão esqueceu-se do mundo de onde viera, daquele lugar onde o bando vivia com os olhos completamente cerrados à felicidade de voar, usando as asas apenas como um meio de encontrar alimento e lutar por ele. Mas, uma vez ou outra, só por um momento, lembrava-se.
Lembrou-se uma manhã, quando estava a sós com o instrutor, enquanto descansavam na praia depois de uma sessão de "snap rolls" de asa dobrada.
— Onde estão os outros, Henrique? — perguntou em silêncio, já familiarizado com a telepatia fácil, que estas gaivotas usavam em vez dos gritos e guinchos. — Por que somos tão poucos aqui? No lugar de onde eu vim havia...
— ... milhares e milhares de gaivotas. Eu sei. — Henrique abanou a cabeça. — A única resposta que encontro, Fernão, é que você é um daqueles pássaros que se encontram num milhão. Quase todos nós percorremos um longo caminho. Fomos de um mundo para outro, que era praticamente igual ao primeiro, esquecendo logo de onde viéramos, não nos preocupando para onde íamos, vivendo o momento presente. Tem alguma idéia de por quantas vidas tivemos de passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando? Mil vidas, Fernão, dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma coisa chamada perfeição, e ainda outras cem para nos convencermos de que o nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição e levá-la ao extremo. A mesma regra mantém-se para os que aqui estão agora, é claro: escolheremos o nosso próximo mundo através daquilo que aprendermos neste. Não aprender nada significa que o próximo mundo será igual a este, com as mesmas limitações e pesos de chumbo a vencer.
Abriu as asas e, voltando-se de frente para o vento, continuou:
— Mas você, Fernão, aprendeu tanto de uma só vez que não teve de passar por mil vidas para chegar a esta.
Um instante depois estavam de novo no ar, treinando. A formação "point roll" era difícil, pois na posição invertida Fernão tinha de pensar de cabeça para baixo, virando a curva da asa ao contrário, mas virando-a em perfeita harmonia com a do seu instrutor.
— Vamos tentar outra vez — repetia Henrique, incansável. — Vamos tentar outra vez. — E, finalmente: — Está bom.
E começaram a praticar "loops" exteriores.
Uma noite, as gaivotas que não praticavam o vôo noturno juntaram-se na praia, para pensar. Fernão reuniu toda a sua coragem e dirigiu-se à gaivota mais velha, que, segundo diziam, devia passar em breve para outro mundo.
— Chiang... — começou ele, um pouco nervoso.
A velha gaivota olhou-o com bondade.
— Diga, meu filho.
Em vez de enfraquecer, a idade dera força ao Mais Velho. Em vôo batia qualquer gaivota do bando, e aprendera perícias de que os outros só muito lenta e gradualmente começavam agora a aperceber-se.
— Chiang, este mundo não é o paraíso, é?
O Mais Velho sorriu ao luar:
— Você está aprendendo outra vez, Fernão Gaivota.
— Bem, e o que é que acontece depois disso? Para onde vamos? Não há um lugar chamado paraíso?
— Não, Fernão, não há tal lugar. O paraíso não é um lugar nem um tempo. O paraíso é ser perfeito. — Ficou em silêncio durante um momento. — Você voa com muita velocidade, não voa?
— Eu... Eu gosto da velocidade — respondeu Fernão, surpreendido mas orgulhoso de que o Mais Velho o tivesse notado.
— Você começará a se aproximar do paraíso no momento em que alcançar a velocidade perfeita. E isso não é voar a mil e quinhentos quilômetros por hora, nem a um milhão e quinhentos mil, nem voar à velocidade da luz. Porque nenhum número é um limite, e a perfeição não tem limites. A velocidade perfeita, meu filho, é estar ali.
Sem avisar, Chiang evaporou-se e apareceu à borda da água, à distância de quinze metros, numa centelha de instante. Depois evaporou-se outra vez e surgiu ao lado de Fernão, no mesmo milésimo de segundo.
— É divertido — comentou.
Fernão ficou atordoado. Esqueceu-se de fazer perguntas acerca do paraíso.
— Como é que se faz isso? O que é que se sente? A que distância se pode ir?
— Desde que você o deseje, pode ir a qualquer lugar e a qualquer momento — disse-lhe o Mais Velho. — Que me lembre, já fui a todos os lugares e a todos os momentos. — Olhou o mar, pensativo. — É estranho... As gaivotas que desprezam a perfeição por amor ao movimento não chegam a parte alguma, devagar. As que ignoram o movimento por amor à perfeição chegam a toda parte, instantaneamente. Lembre-se, Fernão, o paraíso não é um lugar nem um tempo, porque lugar e tempo não significam nada. O paraíso é...
— Pode ensinar-me a voar assim?
Fernão Gaivota tremia de ansiedade por conquistar outro desconhecido.
— Claro, se você deseja aprender.
— Desejo, sim! Quando podemos começar?
— Se quiser, podemos começar já.
— Eu quero aprender a voar assim — disse Fernão, um brilho estranho a iluminar-lhe os olhos. — Diga-me o que devo fazer.
Chiang falou devagar, observando cuidadosamente a gaivota mais nova.
— Para voar à velocidade do pensamento, para onde quer que seja, você deve começar por saber que já chegou...
Segundo Chiang, o truque estava em Fernão deixar de se ver aprisionado dentro de um corpo limitado cujas asas abertas abrangiam a distância de um metro e cuja eficiência podia ser traçada num mapa.
O truque estava em saber que a sua verdadeira natureza vivia tão perfeita como um número não escrito, em toda parte e ao mesmo tempo, através do espaço e do tempo.
Fernão, empenhou-se em conseguir isso, dia após dia, desde antes da aurora até depois da meia-noite. Mas, por mais que se esforçasse, não conseguia afastar-se um milímetro do seu lugar.
— Esqueça a fé — dizia-lhe Chiang repetidamente. — Você não precisa de fé para voar; precisou, sim, compreender o que era voar. Isto é a mesma coisa. Tente outra vez...
Mas um dia em que Fernão estava na praia, de olhos fechados, concentrando-se, compreendeu num relâmpago o que Chiang tentava dizer-lhe.
— Mas é verdade! Eu SOU uma gaivota perfeita, ilimitada!
Sentiu um grande choque de alegria.
— Bom! — exclamou Chiang, com a voz vibrando de triunfo.
Fernão abriu os olhos. Estava sozinho com o Mais Velho numa praia completamente diferente — havia árvores até a beira da água, e dois sóis amarelos, girando sobre as cabeças de ambos.
— Por fim você conseguiu perceber a idéia — disse Chiang. — Mas ainda precisa trabalhar o seu controle...
Fernão estava atordoado.
— Onde estamos?
Obviamente não impressionado pelo estranho ambiente, o Mais Velho desprezou a pergunta.
— Estamos num planeta qualquer, evidentemente, com um céu verde e uma estrela dupla por sol.
Fernão soltou um grito de alegria, o primeiro som que emitia desde que deixara a terra.
— DEU CERTO!
— Mas claro que deu certo, Fernão — disse Chiang. — Dá certo sempre, quando se sabe o que se está fazendo. Agora, acerca do seu controle...
Eduardo White

In Até Amanhã Coração, 2007.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
O nascimento da imprensa na África portuguesa
Os primeiros órgãos de comunicação social foram o Boletim Oficial de cada colónia, que dava abrigo à legislação, noticiário oficial e religioso, mas que também incluía textos literários (sobretudo poemas, mas eventualmente crónicas ou contos).
Em geral, no século passado, com excepção de Angola, a imprensa foi menos importante do que seria de supor devido também à repressão. O semanário O Progresso (1868) de Moçambique, religioso, instrutivo, comercial e agrícola, teve apenas um número, porque, dois dias depois, era obrigado a ir à censura prévia, que o proibiu. Um militante republicano, Carvalho e Silva, no início deste século, fundou quatro jornais, todos encerrados, o último dos quais assaltado, a tipografia destruída e o director agredido, de que resultou a sua morte. De facto, a história da imprensa não oficial de Moçambique foi geralmente de oposição aos governos, da colónia e de Lisboa.
Com a República, ate ao advento da lei de João Belo (1926) contra a liberdade de imprensa, floresceu uma imprensa operária. Mas os mais célebres, e justamente celebrados, pelo seu papel na consciencialização da moçambicanidade, foram os jornais fundados pelos irmãos José e João Albasini: O Africano (1909-1918), O Brado Africano (1918) e O Itinerário (1919), no penúltimo sobrevivendo durante décadas e o último reaparecendo, mais tarde, noutros moldes (1941-55).
Na Guiné, o primeiro jornal, Ecos da Guiné, apareceu somente em 1920.
Em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, a imprensa contribuiu decisivamente para o incentivo à criação literária, no quadro de limitação insular. A fundação do Liceu-Seminário de São Nicolau (Cabo Verde), nos anos 60 do século XIX, ajuda a explicar o nível de escolarização cabo-verdiana (a primeira escola primária surgiu em 1817). Curiosamente, cabo-verdianos e são-tomenses, vivendo em Portugal, na primeira metade do século XX, estiveram sempre muito activos na busca de uma identidade cultural e da consciencialização (proto-nacional ou simplesmente na produção intelectual desligada de intenções insulares). Basta recordar intelectuais como Viana de Almeida, Mário Domingues, Marcelo da Veiga ou Salustino da Graça espírito Santo (de São Tomé e Príncipe) e Pedro Cardoso (de Cabo Verde).
No século XIX, foi intensa e brilhante a actividade jornalística em Angola. Depois da criação do Boletim Oficial (1845), surge A Aurora (1855), jornal recreativo e literário. Mais tarde, aparece um jornal pugnando pela efectiva abolição da escravatura, para além da letra da lei, A Civilização da África Portuguesa (1866), dirigido por Urbano de Castro e Alfredo Mântua, europeus identificados com Angola.
De 1860 a 1900, surge cerca de meia centena de títulos de jornais, artesanais e episódicos, mas de grande importância para o fomento da actividade intelectual e literária. Desde o Jornal de Luanda (1878), do escritor e advogado Alfredo Troni (ver capítulo 4), que marca a transição do jornalismo de cariz mais colonial para o proto-nacionalista, até O Futuro de Angola ou O Pharol do Povo, muitos contribuíram para a informação, elevação cultural e promoção das línguas e culturas locais.
O primeiro jornal de africanos chamava-se Echo de Angola (1881), inaugurando duas décadas de frenética actividade jornalística (que se prolongaria, depois, até aos anos 20) e que ficaria conhecida por período da imprensa livre africana, terminando exactamente com a fundação de A Província de Angola (1923), primeiro jornal de tipo moderno, industrial, que passou a quotidiano em 1926, perdurando ainda hoje as instalações ao serviço do Jornal de Angola. A censura, que já funcionava, aprimorou-se e acabou com as últimas veleidades de uma imprensa realmente democrática e livre. Na época florescente da imprensa livre, apareceram jornais escritos simultaneamente em português e quimbundo, como o Muen’exi (=o senhor da terra) e o Mukuarimi (= o «linguarudo»), dirigidos por Alfredo Troni. Nos últimos vinte anos de Oitocentos, pugnaram por uma Angola autónoma, mais livre e desenvolvida, jornalistas-intelectuais como Arantes Braga, José Fontes Pereira de Melo, Pedro Félix Machado ou Cordeiro da Matta.
No dealbar do novo século, algumas publicações literárias marcaram o desejo de emancipação dos «filhos do país», de que cumpre destacar as duas seguintes:
Voz d’Angola – clamando no deserto (1901), colectânea de artigos não assinados contra um artigo colonialista;
revista Luz e Crença (1902), cujo segundo número saiu um ano depois.
Esta última era promovida pela Associação Literária Angolense, cuja sigla «Liberdade, fraternidade, igualdade» alerta para os ideais republicanos. Pugnava-se por um espírito de instrução, autonomia política e crítica social e institucional.
Foram líderes e nomes cimeiros desta geração, entre outros, Francisco Castelbranco, Silvério Ferreira, Paixão Franco, Lourenço do Carmo Ferreira e Domingos Van Dúnem (não confundir com o homónimo, nascido em 1925 e hoje embaixador do seu país na UNESCO).
É, pois, através dos jornais que os letrados fazem a aprendizagem da escrita, vendo os seus escritos em letra de forma, assim modelando a própria concepção de intervenção literária, que ficaria marcada por essa prática intrínseca de concretude e explicitude, a não ser quando toda a sorte de preciosismos (saídos do ultra-romantismo, parnasianismo e decadentismo) tomava conta da efusividade lírica. Esse desígnio jornalístico – ou melhor, de comunicação social, à letra – marcaria decisivamente os escritores de África, que quase sempre assistiam à divulgação dos seus textos através de compilações e antologias, antes de os poderem ver estampados em livro, um objecto a que poucas vezes tinham acesso, por dificuldades de vária ordem (censura, perseguição, pobreza, desleixo, dispersão, etc., que foram aumentando em crescendo ate à independência).





