quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Fernão Capelo Gaivota - continuação VII


Terceira Parte
Fernão voou em círculo, devagar, sobre os Penhascos Longínquos, observando. Este duro jovem Francisco Gaivota aproximava-se muito de um perfeito aluno de vôo. Era forte, leve e rápido no ar, mas muito mais importante do que isso era o ritmo vertiginoso com que aprendia a voar.

Ali vinha ele agora, turva forma cinzenta troando à saída de um mergulho, a duzentos quilômetros por hora, passando como um relâmpago à frente do seu instrutor.

Abruptamente, lançou-se noutra tentativa, um "slow roll" vertical de dezesseis pontos, fazendo a contagem bem alto.

— ... oito... nove... dez... olha-Fernão-estou-saindo-da-velocidade-do-ar... onze... eu-quero-boas-paradas-bruscas-como-as-suas... doze... mas-maldição-não-consigo... treze... fazer-estes-últimos-três-pontos... sem... cator... aaahh!
A atrapalhação de Francisco no topo foi como uma chicotada, foi o pior que lhe podia ter acontecido, e enfureceu-se por ter falhado. Caiu para trás, aos trambolhões, desabou selvaticamente num "inverted spin" e acabou por se recuperar, ofegante, trinta metros abaixo do nível do seu instrutor.
— Você perde o seu tempo comigo, Fernão! Sou tapado demais! Sou estúpido demais! Tento e volto a tentar, mas nunca conseguirei!
Fernão Gaivota olhou para ele e concordou.
— Você nunca o conseguirá, é certo, se continuar a fazer o arranque com essa brusquidão. Francisco, você perdeu sessenta quilômetros na entrada! TEM de ser suave! Firme mas suave, compreende?
Desceu ao nível da gaivota mais nova.
— Agora vamos tentar juntos, em formação. E preste atenção ao arranque. É uma entrada suave, fácil.

* * *

Ao cabo de três meses, Fernão tinha mais seis discípulos, todos banidos, mas ainda curiosos acerca desta estranha e nova idéia de voar pelo prazer de voar.
Contudo, era-lhes mais fácil praticar altas execuções do que compreender a razão que existia por detrás delas.
— Cada um de nós é, em realidade, uma idéia da Grande Gaivota, uma idéia ilimitada de liberdade — costumava dizer-lhes Fernão à noite, quando se reuniam na praia. — E o vôo de precisão é um passo à frente para expressarmos a nossa verdadeira natureza. Temos de pôr de parte tudo o que nos limita. É por isso que todo este treino de alta velocidade, baixa velocidade e acrobacia aérea...
E os seus alunos adormeciam, exaustos pelo vôo do dia. Gostavam dos treinos porque eram rápidos e excitantes e porque saciavam uma fome de aprender que crescia de lição para lição. Mas nenhum deles, nem mesmo Francisco Coutinho Gaivota, chegava a crer que o vôo de idéias pudesse de fato ser tal real como o vôo de vento e penas.
— Todo o corpo de vocês , da ponta de uma asa à outra — dizia Fernão outras vezes —, não é mais do que seus próprios pensamentos, numa forma que podem ver. Quebrem as correntes dos seus pensamentos e conseguirão quebrar as correntes do corpo...
Mas qualquer que fosse a maneira como o dissesse, soava sempre como ficção agradável, e eles precisavam dormir.
Só um mês depois Fernão disse que era tempo de voltar ao bando.
— Mas não estamos prontos! — disse João Calvino Gaivota. — E não nos desejam! Estamos banidos! Não podemos forçar-nos a ir aonde não somos desejados, não é?
— Nós somos livres para ir aonde nos aprouver e ser o que somos — replicou Fernão, elevando-se da areia e voando para leste, para os domínios do bando.
A angústia reinou por momentos entre os seus alunos, pois, segundo a lei do bando, nenhum banido regressa, e a lei não fora quebrada em dez mil anos. A lei dizia: fiquem. Fernão dizia: vão. E nesta altura já ia há mais de um quilômetro de distância, sobrevoando a água. Se esperasse muito mais, ele iria enfrentar sozinho o bando hostil.
— Bem, já que não fazemos parte do bando não temos que nos submeter à lei... — disse Francisco timidamente. — Além disso, se houver luta, seremos muito mais úteis lá do que aqui.
E assim, oito gaivotas voaram do oeste nessa manhã, em dupla formação de diamante, as pontas das asas quase sobrepondo-se. Atravessaram a Praia do Conselho do Bando a mais de duzentos quilômetros por hora, Fernão à frente, Francisco suavemente à sua direita, João Calvino lutando com o vento, brincalhão, à sua esquerda. Então, toda a formação rolou suavemente para a direita, como um único pássaro... planando... invertendo... planando, o vento chicoteando-os todos por cima.
Os gritos e guinchos habituais à vida diária do bando cessaram de repente, como se a formação fosse uma espada gigante, e oito mil olhos de gaivotas observaram, sem pestanejar uma só vez. Um a um, ou oito pássaros lançaram-se abruptamente para cima, fazendo um "loop" completo, descreveram uma curva perfeita e deixaram-se cair lentamente até aterrarem na areia, de pé. Então, tal como se o acontecimento fosse uma coisa de todos os dias, Fernão Gaivota iniciou a sua crítica do vôo.
— Para começar — disse com um sorriso zombeteiro —, demoraram um bocado a juntar-se a mim...
Foi como se um relâmpago percorresse o bando. Aqueles pássaros eram banidos! E tinham regressado! E isso... isso não podia acontecer! As predições de Francisco quanto a haver luta fundiram-se na confusão do bando.
— Está bem, é certo que são banidos — disse uma das gaivotas mais novas —, mas, caramba! onde eles aprenderam a voar desta maneira?
A palavra do Mais Velho levou quase uma hora a percorrer o bando: — Ignorem-nos.
A gaivota que falar a um banido será banida. A gaivota que olhar para um banido quebrará a lei do bando.
Costas de penas cinzentas viraram-se a Fernão a partir desse momento, mas ele não deu a perceber tê-lo notado. Deu as sessões precisamente sobre a Praia do Conselho e, pela primeira vez, começou a instigar os seus alunos até o limite de sua capacidade.
— Martinho Gaivota! — gritou através do céu. — Você diz que sabe voar a baixa velocidade. Não sabe nada até provar! VOE!
Foi assim que o calado Martinho Gaivota, sobressaltado pelo fogo que o seu instrutor lhe ateara, surpreendeu a si próprio tornando-se um especialista em baixas velocidades. Conseguia curvar as suas penas de modo a elevar-se na mais leve brisa, sem um único batimento da asa, da areia às nuvens e voltar das nuvens à areia.
Do mesmo modo, Rolando Gaivota sobrevoou o pico da Grande Montanha do Vento, a sete mil e duzentos metros, desceu azul do ar frio e rareado, maravilhado e feliz, decidido a ir ainda mais alto no dia seguinte.
Francisco Gaivota, que mais do que ninguém adorava a acrobacia aérea, conseguiu o seu "slow roll" vertical de dezesseis pontos, ao qual, no dia seguinte, acrescentou um triplo "cartwheel", as penas irradiando uma luz solar branca que ofuscou a praia onde mais de um olho furtivo o observava.
A todo momento, lá estava Fernão ao lado de cada um dos seus discípulos, demonstrando, sugerindo, instigando, conduzindo. Voou com eles através da noite, da nuvem e da tempestade, por puro prazer, enquanto o bando se encolhia miseravelmente no solo.
Depois dos treinos, os alunos descansavam na areia, e, com o tempo, começaram a prestar mais atenção a Fernão. Embora este tivesse algumas idéias loucas que não entendiam, tinha outras muito boas, que conseguiam aprender.
Gradualmente, à noite, começou a formar-se outro círculo à volta dos alunos — um círculo de gaivotas curiosas que escutavam durante horas a fio, desejando não ver nem ser vistas por outras e desvanecendo-se na meia-luz que antecede a aurora.
Foi um mês depois do Regresso que a primeira gaivota do bando venceu a barreira e pediu para aprender a voar. Ao fazê-lo, Teseu Sousa Gaivota passou a ser um pássaro condenado, portador de uma etiqueta que dizia: "Banido". E passou também a ser o oitavo aluno de Fernão.

Na noite seguinte foi Virgilio Gaivota quem deixou o bando. Aproximou-se cambaleante, arrastando a asa esquerda pela areia, e caiu aos pés de Fernão.
— Ajude-me — pediu-lhe baixinho, com a voz daqueles que estão morrendo. — Mais do que tudo no mundo eu quero voar...
— Nesse caso, venha — disse Fernão. — Eleve-se comigo e comecemos.
— Você não compreende... A minha asa. Não consigo mexê-la.
— Virgilio Gaivota, você tem liberdade de ser você mesmo, de ser o seu próprio eu, aqui e agora, e não há nada que possa interpor-se no seu caminho. Essa é a lei da Grande Gaivota, a lei que É.
— Você quer dizer que eu posso voar?
— Eu quero dizer que você é livre.

Tão simples e rapidamente como fora dito, Virgilio Gaivota abriu as asas, sem esforço, e rasgou o ar negro da noite. A cento e cinqüenta metros de altura, gritou o mais alto que pôde e o seu grito arrancou o bando do sono que o entorpecia.
— Eu posso voar! Ouçam! EU POSSO VOAR!

Quando o sol surgiu no horizonte, havia quase mil pássaros em volta do círculo de alunos, olhando curiosamente para Virgilio. Pouco lhes importava serem vistos ou não, e escutavam, tentando compreender, Fernão Gaivota.
Falou de coisas muito simples — que as gaivotas têm o direito de voar, que a liberdade é própria da sua natureza, que todo aquele que se oponha a essa liberdade deve ser posto de parte, quer a oposição seja motivada por ritual, superstição ou limitação sob qualquer forma.

— Pôr de parte? — gritou uma voz entre a multidão. — Mesmo se for a lei do bando?
— Só a lei que conduz à liberdade é verdadeira — disse Fernão. — Não há outra.
— Como você pode esperar que voemos como você? — interrompeu outra voz. — Você é especial, dotado e divino, muito acima dos outros pássaros.
— Olhem para Francisco! Teseu! Rolando! São também especiais, dotados e divinos? Não mais do que vocês, não mais do que eu. A única diferença, a única, de fato, é que eles começaram a compreender o que são realmente e decidiram pôr em prática esse conhecimento.
Salvo Francisco, os alunos moveram-se pouco à vontade. Ainda não tinham tomado consciência de que era isso realmente o que lhes acontecia.
A multidão crescia de dia para dia: vinham fazer perguntas, idolatrá-lo ou injuriá-lo.
***

Pensamento do dia


«Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo.»


José Saramago - do blog dele!

Saramago blogueiro

Ontem recebi a notícia: o Saramago está escrevendo em um blog.

Fiquei confusa... será que é mesmo o JOSÉ SARAMAGO??? Isso não é dele... muito estranho!
Fui conferir: era ele mesmo! Imaginem o autor de A Caverna e todos aqueles outros livros maravilhosos virando um blogueiro, como um simples mortal, como nós!

Como não tive tempo de ler tudo ontem, hoje acordei e, sem tirar o pijama, liguei o computador. Tomei café lendo o Caderno de Saramago. Fantástico!

Ele promete escrever diariamente. E está cumprindo a promessa, desde segunda-feira já são três posts.

Curiosos??? Confiram: http://caderno.josesaramago.org (é sem www mesmo!)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Caridade?!

Notícia da última página do Jornal de Moçambique de hoje: Esmola acaba em tragédia na Indonésia. Explico, para não transcrever: uma família abastada estava distribuindo esmolas para a população, quando se deu um tumulto, resultando em pelo menos 23 pessoas mortas, esmagadas. Tudo por uma quantia equivalente a 100 meticais, ou 10 reais, ou 4 dólares, ou 3 euros.

História triste, que me fez lembrar uma situação que vivi ontem. Fui ao mercado, como sempre faço. E, como sempre, um dos meninos que fica por lá veio ajudar-me a empacotar as compras e colocá-las no carro.

Ajudar é maneira de falar, porque esta «ajuda» tem como contrapartida um dinheirinho, uma esmola. Confesso que, para mim, é muito confortável ter alguém que me «ajude» com as compras, apesar de, no fundo, saber que estou agindo erradamente. Quando estava guardando as compras no carro, outro menino veio correndo para «ajudar» também. Dei-lhe também um dinheirinho, coisa pouca, para mim.

Ao final, já dentro do táxi, comentei com o taxista que estes meninos deveriam estar na escola. A resposta do homem foi, senão óbvia, um verdadeiro tapa na cara! Eles estavam ali porque há pessoas como eu que lhes dão dinheiro. Fogem da escola para arrecadar alguns trocados.
Mea culpa! Sou culpada sim. Como são culpados todos os que dão esmolas. Já diz aquele velho ditado: ensinar a pescar, não dar o peixe.

Fácil falar, difícil fazer. Quem tem tempo para perder com caridade? Muito mais fácil abrir a carteira! Vamos reconhecer: dar dinheiro não é caridade, é desencargo de consciência!

Mas tem gente que faz. São estas pessoas iluminadas e desprendidas, que ajudam simplesmente por ajudar. Fazem realmente diferença. Conheço um grupo de mulheres que veio do Brasil para Moçambique simplesmente para ajudar. Largaram família, amigos, empregos, estudos, tudo por um ideal. Viajam o país, enfrentando estradas esburacadas, machibombos (ônibus, autocarros) mais velhos do que a História, fazem caminhos a pé, enfrentam condições deploráveis de saneamento e higiene, comem mal, dormem mal. E não reclamam. Pelo contrário, agradecem pelo aprendizado.

Chamado de Deus, dizem elas, modestas. Eu digo exemplo difícil de ser seguido, abnegação, dedicação. Não buscam reconhecimento, aplausos ou prêmios. Não pedem ajuda nem esperam que ninguém as siga. Já disse: ajudam simplesmente por ajudar.

Ah, se eu conseguisse fazer pelo menos um centésimo do que a Raquel, a Lívia, a Cris, a Thaís e tantas outras fazem… se cada pessoa fosse um pouquinho de cada uma delas, o mundo seria melhor, perfeito, fraterno!

E eu fico aqui, com inveja da coragem delas… limito-me a escrever, contar e admirar.

P.S. Se alguém quiser conhecer o trabalho delas e ajudar (de qualquer maneira), aí estão os e-mails de cada uma:

Raquel: raqueliecp@yahoo.com.br
Lívia: liviahoza@hotmail.com
Cris: cris.kikka@hotmail.com
Thaís: semlimitess@yahoo.com.br

Elas costumam fazer uma «carta informativa» mensalmente, contando todas as suas realizações aqui em Moçambique. Escrevam-lhes!

Hambre - Aldo Novelli


Me tragué la luna
de un tirón,
sorbí cinco estrellas
y dos nubes negras,
me comí
una pierna, los pechos y un ojo de mi hembra
y aún tengo hambre de este mundo.

Aldo Novelli - La poesía es un impossible y el poema una derrota.

Foi com surpresa que conheci este poeta argentino. Visceral, posso dizer!...

vejam sua interpretação de poesia e do que deve ser um poema...


Los efectos de un buen poema


Un buen poema, durante y después de su lectura nos deja mirando el infinito, ese punto inaccesible del espacio que brilla como una lejanísima estrella en medio de un vendaval de piedras y palabras.

Y al observar detenidamente por unos instantes interminables ese mínimo resplandor, uno siente una sensación inefable en todo el cuerpo y en ese lugar desconocido llamado alma, una sensación física que nos modifica en forma permanente hasta el fin de nuestros días o hasta el próximo poema.

Quisiera compartir ahora con ustedes, un mínimo y discutible ensayo que escribiera alguna vez, sobre el nacimiento y los acontecimientos posteriores al luminoso acto de escribir el poema, que bien o mal, podría tomarse como una metodología (tal vez fallida) para escribir un buen poema.


Nacimiento y avatares del poema


La poesía es un imposible y el poema una derrota.

El poema surge de un mal estado de ánimo, de una manifestación tribal en la esquina, de un texto mal leído, de un intestino revolucionario, de la soledad absoluta un segundo después del coito, o de la observación abusiva de un programa banal de televisión.

Técnicamente diría, que sucede un acontecimiento, personal o ajeno, un acontecimiento cualquiera, la imagen de una película, un trozo de conversación escuchado arriba del colectivo, los pechos de una mujer vislumbrados debajo de la blusa, algunos acordes de una canción olvidada, una muerte, o un sueño extraño y fragmentado por la desmemoria.

Y alguno de estos sucesos genera una sensación, una sensación diversa y varia, dolor, emoción, angustia, nostalgia, delirio, desasosiego o excitación, o cualquier otra, y ésta permanece grabada, en algún recoveco de la memoria y de alguna desconocida forma.

Después de cierto tiempo, en un momento pertinente y sensitivo, este recuerdo surge inesperadamente en el presente, creando ahora una sensación similar o tal vez igual (pero no la misma) y forma imágenes mentales, claras o difusas, reales o ficcionales, de aquel acontecimiento que las generó y entonces el cerebro y el espíritu las empieza a traducir en palabras, las decodifica, las sintetiza, las corrompe, y nace un verso, tan solo un verso, que el esfuerzo posterior, o sea, la inspiración, el talento natural y un complejo y desconocido andamiaje de saberes, convertirán en un poema, o mejor aún, en un proto-poema.

Después de todo esto, resta un esfuerzo importantísimo, el trabajo textual sobre esta arcilla blanda y maleable, que es el poema crudo, el poema en estado puro, y allí, las diversas facetas de este arduo trabajo.

Luego, una de las múltiples consecuencias de este proceso, es provocar una sensación parecida o análoga, a la que generó el texto, ahora en el lector, intención, que generalmente es otra derrota.
De aquí, que la poesía, el arte todo, es una permanente derrota, es la búsqueda de un ideal, de un imposible.

A mí me alienta la búsqueda de ese ‘aleph poético’, la búsqueda del poema total, aún sabiendo conscientemente que es un imposible, pero también una utopía, tal vez la que me incita a seguir escribiendo.

Algunos ‘poetas entre comillas’ (y dice esto, un poeta que no está totalmente libre de comillas) creen, que están escribiendo la ‘gran cosa’ y entonces, ‘se postran embelesados con reverencia ante un paisaje plagado de edenes’, o nos dictan ‘una desiderata estúpida y vulgar sobre su amor a la madre o a la novia indigestada de blanca pureza’, seguramente están muy lejos de la poesía o cualquier otra forma de arte que se precie.

Personalmente, no puedo afirmar que he accedido al ‘cosmos de la poesía’, digo que vi una hendija y espié por allí (y esto me llevó muchos años) y digamos, que apenas he vislumbrado ese cosmos, que intuyo infinito.

Compartirlo ahora con otros, con ustedes, es un acto generoso y egoísta, es buscar en el otro una afinidad, es buscar un soñador, un príncipe de las mareas entre aguas turbias y contaminadas.

Compartirlo con otro, es intentar un mundo mejor, es creer que la palabra sirve para algo más que para comunicarse, es un acto de rebelión, es también, un acto de fe.

Compartirlo con el otro, es el último acto de resistencia, para combatir la tremenda soledad que nos aflige en este nuevo milenio.

Compartirlo, es ya el triunfo, de esta permanente derrota.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Ah, Amicíssima... 100 anos sem Machado!!!

Que tragédia! Este homem não podia ter morrido! Um homem tão bom, tão honesto! - diriam os desconhecedores do nosso Machado...

Pois é... recebi um e-mail sobre os cem anos da morte do Machado de Assis. Grande coisa, né? Mas, e juro que não sei por quê, voltei a quebrar a cabeça com a história da Capitu. Será que ela traiu mesmo o Bentinho???

Sinceramente, eu não sei se traiu, mas penso que deveria ter traído. No lugar dela, teria feito, ah, teria feito sim!!! E não só com o tal melhor amigo (que de tão importante nem lembro o nome agora), mas com vários! Cara mais chato o Bentinho! Insosso, cheio de não-me-toques! Homem não pode ser muito intimista. Vai dizer que toda mulher não sonha, láááááá bem no fundo, com um estivador alto, musculoso e suado? (que o Gabriel não leia isso!)...


Na verdade, acho que o próprio Machado era meio recalcado, medroso de ser traído...


O que não me deixa conformar é a quantidade de estudos e intertextualidades com o Dom Casmurro! Até em novela! E a pobre da Capitu tinha logo de ser uma «Madalena arrependida»! Prostituta que voltou para o caminho certo. Quanta hipocrisia!


Ando assim, meio revoltada. Não sei por quê... deve ser a velha TPM...


Aguardo notícias....................................................


P.S. Não vais acreditar! Fui procurar no Google uma foto da Capitu para ilustrar este post... fui lá em «Images» e digitei: Capitu. Adivinha o que apareceu em quase 90% das figuras??? Mulheres de bunda de fora ou cachorras (da raça canina). Coincidências??? A coitada já foi apedrejada, nem Madalena foi tão condenada. Ninguém provou o adultério, mas que ela é puta, ah, isso é!

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Arroz de carreteiro

Nobre cardápio crioulo das primitivas jornadas,
Nascido nas carreteadas do Rio Grande abarbarado,
Por certo nisso inspirado, o xiru velho campeiro
Te batizou de "Carreteiro", meu velho arroz com guisado.

Não tem mistério o feitio dessa iguaria bagual,
É xarque - arroz - graxa - sal
É água pura em quantidade.
Meta fogo de verdade na panela cascurrenta.
Alho - cebola ou pimenta, isso conforme a vontade.

Não tem luxo - é tudo simples, pra fazer um carreiteiro.
Se fica algum "marinheiro" de vereda vem à tona.
Bote - se houver - manjerona, que dá um gostito melhor
Tapiando o amargo do suor que -
às vezes, vem da carona.

Pois em cima desse traste de uso tão abarbarado,
É onde se corta o guisado ligeirito - com destreza.
Prato rude - com certeza,
mas quando ferve em voz rouca
Deixa com água na boca a mais dengosa princesa.

Ah! Que saudades eu tenho
dos tempos em que tropeava
Quando de volta me apeava
num fogão rumbeando o cheiro
E por ali - tarimbeiro, cansado de bater casco,
Me esquecia do churrasco saboreando um carreteiro.

Em quanto pouso cheguei de pingo pelo cabresto,
Na falta de outro pretexto indagando algum atalho,
Mas sempre ao ver o borralho onde a panela fervia
Eu cá comigo dizia: chegou de passar trabalho.

Por isso - meu prato xucro, eu me paro acabrunhado
Ao te ver falsificado na cozinha do povoeiro
Desvirtuado por dinheiro à tradição gauchesca,
Guisado de carne fresca, não é arroz de carreteiro.

Hoje te matam à Mingua, em palácio e restaurante
Mas não há quem te suplante,
nem que o mundo se derreta,
Se és feito em panela preta, servido em prato de lata
Bombeando a lua de prata sob a quincha da carreta!

Por isso, quando eu chegar,
nalgum fogão do além-vida,
Se lá não houver comida já pedi a Deus por consolo,
Que junto ao fogão crioulo,

Quando for escurecendo, meu mate -amargo sorvendo,
A cavalo nalgum tronco, escute, ao menos, o ronco
De um "Carreteiro" fervendo.


Jayme Caetano Braum


A receita:


Para quem não sabe o que é, CHARQUE é a carne salgada e seca. A diferença entre a carne de sol, típica do Ceará e o charque é que este não seca ao sol, mas em galpões ventilados.
Mas vamos à receita...
Ingredientes:

* 1/2kg de charque
* 1/2kg de arroz
* 1 cebola grande picadinha
* 3 dentes de alho
* óleo
* pimenta preta (opcional)


- Já sei.. vão dizer: «só isso de ingredientes?». Pois é... o carreteiro de charque era o prato comum dos tropeiros. Tinha de ser simples e rápido! Mas, continuemos...


Modo de fazer:


- Dessalgar o charque: cortar em pedacinhos e demolhar. A água pode ser quente ou fria, mas não esquecer que, se a água for quente, o sal sairá mais rapidamente.


- Colocar na panela o óleo e refogar a cebola e o alho. Quando estiver dourado, adicionar o charque e fritar. Colocar o arroz, fritar mais um pouco. Encher a panela com água e deixar secar.


- Importante: acertar o sal - às vezes, tiramos demais o sal do charque e precisamos colocar mais um pouquinho na hora de cozinhar.


- Opcional: há gente que gosta de colocar para cozinhar junto uns pedacinhos de abóbora ou de batata-doce. Fica muito bom, dá um sabor contrastante com o charque.


- Mais: depois de pronto, fica muito bom jogar um pouco de salsa ou ovo cozido picado (ou os dois) por cima.


- Para acompanhar, o feijão preto é perfeito!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Civil War

Escola na Ossétia


"what w've got here is failure to communicate
some men you just can't reach...
so, you get what we had here last week
which is the way he wants it!
well, he gets it!
n' i don't like it any more than you men."

look at your young men fighting
look at your women crying
look at your young men dying
the way they've always done before

look at the hate we're breeding
look at the fear we're feeding
look at the lives we're leading
the way we've always done before

my hands are tied
the billions shift from side to side
and the wars go on with brainwashed pride
for the love of god and human rights
and all these things are swept aside
by bloody hands time can't deny
and are washed away by your genocide
and history hides the lies of our civil wars

d'you wear a black armband
when they shot the man
who said "peace could last forever"
and in my first memories
they shot kennedy
and i went numb when i learned to see
so i never fell for vietnam
we got the wall of d.c. to remind us all
that you can't trust freedom
when it's not in your hands
when everybody's fightin'
for their promised land

and
i don't need your civil war
it feeds the rich while it buries the poor
your power hungry sellin' soldiers
in a human grocery store
ain't that fresh
i don't need your civil war

look at the shoes you're filling
look at the blood we're spilling
look at the world we're killing
the way we've always done before
look in the doubt we're wallowed
look at the leaders we've followed
look at the lies we've swallowed
and i don't want no hear no more

my hands are tied
for all i've seen has changed my mind
but still the wars go on as the years go by
with no love of god or human rights
'cause all these dreams are swept aside
by bloody hands of the hypnotized
who carry the cross of homicide
and history bears the scars of our civil wars

"we practice selective annihilation of mayors
and government officials
for example to create a vacuum
then we fill that vacuum
as popular war advances
peace is closer"

i don't need your civil war
it feeds the rich while it buries the poor
your power hungry sellin' soldiers
in a human grocery store
ain't that fresh
and
i don't need your civil war
i don't need your civil war
i don't need your civil war
your power hungry sellin' soldiers
in a human grocery store
ain't that fresh
i don't need your civil war
i don't need one more war

i don't need one more war
whaz so civil 'bout war anyway


(Axl Rose / Izzy Stradling)


"O que temos aqui é falha na comunicação.
Alguns homens simplesmente não se pode alcançar
Então você tem o que tivemos aqui semana passada
Que é a maneira como ele quer!
Bem, ele consegue!
E eu não gosto disto tanto quanto vocês, homens!"

Veja seus homens lutando
Veja suas mulheres chorando
Veja seus jovens morrendo
Da maneira que sempre fizeram antes

Veja o ódio que estamos criando
Veja o medo que estamos alimentando
Veja as vidas que estamos guiando
Da maneira que sempre fizemos antes

Minhas mãos estão presas
Os bilhões passam de um lado para outro
E a guerra continua com orgulho de mentes lavadas
Pelo amor de Deus e por nossos direitos humanos
E todas essas coisas são deixadas de lado
Por mãos sangrentas que o tempo não perdoará
E que são lavadas pelo seu genocídio
E a história esconde as mentiras de nossas guerras civis

Você vestiu uma braçadeira preta
Quando atiraram no homem que disse'A paz pode durar para sempre'
E nas minhas primeiras memórias
Eles atiraram em Kennedy
Eu fiquei anestesiado quando aprendi a ver
Então eu nunca senti pelo Vietnã
Temos as paredes de Washington para nos lembrar
Que você não pode acreditar na liberdade
Quando não está em suas mãos
Quando todo mundo está lutando
Por sua terra prometida

E eu não preciso de sua guerra civil
Ela alimenta os ricos e enterra os pobres
Sua ganância de poder vendendo soldados
Em um armazém humano
Não é uma graça?
Eu não preciso de sua guerra civil

Olhe os sapatos que você calça
Veja o sangue que fazemos jorrar
Veja o mundo que estamos matando
Da maneira que sempre fizemos antes
Veja a dúvida que temos engolido
Veja os líderes que temos seguido
Veja as mentiras que temos engolido
E eu não quero ouvir mais nada

Minhas mãos estão atadas
Por tudo que vi mudei minha mente
Mas a guerra continua à medida que os anos passam
Sem amor a Deus ou direitos humanos
Porque todos estes sonhos são deixados de lado
Por mãos sangrentas dos hipnotizados
Que carregam a cruz do homicídio
E a história carrega as cicatrizes de nossas guerras civis

"Nós fazemos aniquilação seletiva de prefeitos
e oficiais de governo
por exemplo, para criar um vazio
depois preenchemos o vazio
enquanto a guerra popular avança
A paz está próxima"

Eu não preciso de mais uma guerra
É tão civil, mas guerra de qualquer jeito

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Fernão Capelo Gaivota - Continuação VI


Francisco Coutinho Gaivota era bastante novo, mas já sabia que nunca um pássaro fora tratado com tanta aspereza por nenhum bando ou com tanta injustiça.

"Não importa o que digam", pensava com violência, o olhar toldado, enquanto voava em direção aos Penhascos Longínquos. "Voar tem muito mais valor do que esvoaçar de um lado para o outro! Um... um... um mosquito faz isso! Um pequeno 'barrel roll' à volta da gaivota mais velha, só por brincadeira, e eis-me banido! São cegos? Não vêem? Não percebem a glória que será quando aprendermos a voar realmente?

"Não me importa o que pensem. Vou lhes mostrar o que é voar! Serei um puro fora-da-lei, se é isso o que desejam. E vou fazê-los lamentar tanto..."

A voz surgiu dentro da sua cabeça e, embora fosse muito suave, sobressaltou-o de tal maneira que vacilou e quase despencou.
"Não seja duro com eles, Francisco Gaivota. Ao expulsarem-no, as outras gaivotas só fizeram mal a si próprias, e um dia vão sabê-lo, e um dia verão o que você vê. Perdoe-lhes e ajude-as a compreender."
A um centímetro da sua asa direita voava a gaivota branca mais brilhante de todo o mundo, deslizando suavemente e sem esforço, sem mover uma pena, quase à velocidade máxima de Francisco.
Houve um momento de caos no jovem pássaro.
— Que se passa? Estou louco? Estou morto? O que é isso?
Baixa e calma, a voz prosseguia dentro dos seus pensamentos, exigindo resposta.
— Francisco Coutinho Gaivota, você quer voar?
— SIM, EU QUERO VOAR!
— Francisco Coutinho Gaivota, você quer voar tanto que perdoará o bando, e aprenderá, e voltará um dia para ajudá-los a saber?
Era impossível mentir àquele magnífico e hábil ser, por muito que um pássaro como Francisco Gaivota se sentisse cheio de orgulho e de mágoa.
— Quero — disse suavemente.
— Então, Chico — disse-lhe a brilhante criatura, com uma voz muito calma —, vamos começar com o vôo planado...

Ser Poeta

Poema lindo de Florbela Espanca, na voz linda de Luís Represas!

O poema, eu já conhecia. A música, foi meu amor quem me cantou...



Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!


quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O Noivado do Sepulcro

Pertencente à segunda geração romântica portuguesa, o poeta Soares de Passos consagrou-se com este poema, O Noivado do Sepulcro.

Para os críticos e teóricos literários, esta geração da poesia romântica portuguesa não fez senão uma poesia de entoação melodramática, de linguagem artificialmente rebuscada e medievalizante, com soluções formais convencionais, ou seja, uma poesia estereotipada e destituída de capacidade de inovação estética. Resumindo: uma poesia que tinha por função a decoração da vida social, para ser recitada em serões e musicada.

Mas deixemos de lenga-lengas e vamos ao poema:





Vai alta a lua! na mansão da morte


Já meia-noite com vagar soou;


Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte


Só tem descanso quem ali baixou.





Que paz tranqüila!... mas eis longe, ao longe


Funérea campa com fragor rangeu;


Branco fantasma semelhante a um monge,


Dentre os sepulcros a cabeça ergueu.





Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste


Campeia a lua com sinistra luz;


O vento geme no feral cipreste,


O mocho pia na mormórea cruz.





Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto


Olhou em roda... não achou ninguém...


Por entre as campas, arrastando o manto,


Com lentos passos caminhou além.





Chegando perto duma cruz alçada,


Que entre os ciprestes alvejava ao fim,


Parou, sentou-se com a voz magoada


Os ecos tristes acordou assim:





"Mulher formosa, que adorei na vida,


E que na tumba não cessei de amar,


Por que atraiçoas, desleal, mentida,


O amor eterno que te ouvi jurar?





Amor! engano que na campa finda,


Que a morte despe da ilusão falaz:


Quem dentre os vivos se lembrará ainda


Do pobre morto que na terra jaz?





Abandonado neste chão repousa


Há já três dias, e não vens aqui...


Ai, quão pesada me tem sido a lousa


Sobre este peito que bateu por ti!





Ai quão pesada me tem sido!"e em meio


A fronte exausta lhe pendeu na mão,


E entre soluços arrancou do seio


Fundo suspiro de cruel paixão.





"Talvez que rindo dos prostestos nossos,


Gozes com outro d'infernal prazer;


E o olvido cobrirá meus ossos


Na fria terra sem vingança ter!"





- "Ó nunca, nunca!" de saudade infinita,


Responde um eco suspirando além...


- "Ó nunca, nunca!" repetiu ainda


Formosa virgem que em seus braços tem.





Cobrem-lhe as formas divinais, airosas.


Longas roupagens de nevada cor;


Singela c'roa de virgíneas rosas


Lhe cerca a fronte dum mortal palor.





"Não, não perdeste meu amor jurado:


Vês este peito? reina a morte aqui...


É já sem forças, ai de mim, gelado,


Mas ainda pulsa com amor por ti.





Feliz que pude acompanhar-te ao fundo


Da sepultura, sucumbindo à dor:


Deixei a vida... que importava o mundo,


O mundo em trevas sem a luz do amor?





Saudosa ao longe vês no céu a lua?"


- "Ó vejo sim... recordação fatal"


- Foi à luz dela que jurei ser tua


Durante a vida, e na mansão final.





Ó vem! se nunca te cingi ao peito,


Hoje o sepulcro nos reúne enfim...


Quero o repouso do teu frio leito,


Quero-te unido para sempre a mim!"





E ao som dos pios co cantor funéreo,


E à luz da lua de sinistro alvor,


Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério


Foi celebrado, d'infeliz amor.





Quando risonho despontava o dia,


Já desse drama nada havia então,


Mais que uma tumba funeral vazia,


Quebrada a lousa por ignota mão.





Porém mais tarde, quando foi volvido


Das sepulturas o gelado pó,


Dois esqueletos, um ao outro unido,


Foram achados num sepulcro só.





Gostaram? Pode ser fútil, mas é lindo!

Relendo este poema, lembrei-me de uma notícia que li no início de 2007.
Arqueólogos encontraram na Itália uma tumba com dois esqueletos humanos abraçados. Supunham, na época (agora já não sei, não acompanhei a reportagem), que fossem de um homem e de uma mulher. Estavam sepultados há 5000-6000 anos e calculava-se que haviam morrido muito jovens, pois seus dentes ainda estavam intactos e pouco gastos.





Vejam a foto:






Agora me pergunto: será coincidência? Alguns dirão: claro! Mas, e quem pode dizer de onde vem a inspiração de um poeta??? Pergunto também: será mesmo fútil retratar um amor eterno???

Deixo com vocês!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Crianças bonitas


Qual destas duas meninas é mais bonita? Existe criança feia???
À esquerda, Yang Peiyi, a dona da voz.
À direita, Lin Miaoke, a dona do rosto.


Matéria publicada no Jornal de Moçambique, p. 14, em 13 de agosto/2008 (e aposto que em muitos outros jornais espalhados pelo mundo):

O director musical da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Beijing - 2008, decorrida na sexta-feira passada, admitiu que a menina chinesa que supostamente cantou «Ode à Pátria» durante o show no estádio Ninho de Pássaro não era a dona da voz. O motivo? A cantora verdadeira não era suficientemente bonita para representar a China.

«Queríamos passar uma imagem perfeita e pensamos no que seria melhor para a nação», explicou Chen Quigang, em entrevista à televisão chinesa. O conteúdo chegou a ser veiculado no portal Sina.com, mas depois sumiu.

A imprensa chinesa divulgou ontem fotos de Lin Miaoke, de nove anos, a tratando como uma estrela em ascensão. No entanto, ignoram Yang Peiyi, de sete anos, a dona da voz que é gordinha, tem os dentes fora do lugar e uma óptima voz.

«Era uma questão de interesse nacional. A criança que apareceria diante das câmeras tinha que ser expressiva», argumentou Chen.

«Lin Miaoke é excelente para tudo isso. Porém, no que diz respeito à voz, Yang Peiyi é perfeita. Toda a equipa concordou», finalizou o compositor chinês.


Absurdo? Preconceito? Quantas pessoas diriam isso ao ler esta matéria. Afinal, o que faz uma criança mais ou menos bonita?
Simbolicamente, criança representa o futuro, o renascer, a esperança. A China, com estas Olimpíadas, quer mostrar ao mundo o seu poderio, o seu progresso, o seu sucesso. A ditadura que antes proibia as flores nos jardins agora dita a beleza, escolhe a beleza. Uma beleza superficial e falsa, como muitas coisas naquele país.

Cruelmente, negaram a uma criança o direito ser ela mesma. Falsificaram sua voz em outra criança, não menos vítima.
Essa é a China que se «abre ao mundo», tentando esconder os fuzilamentos, o controle cruel de natalidade e o domínio vergonhoso do Tibet.

Chocolate

Sou uma chocólatra compulsiva. Êpa, acho que isso foi uma redundância… chocólatra = viciada em chocolate, logo, todos os chocólatras são compulsivos… Por outro lado, chocólatra é não poder ficar sem chocolate e isso, com certeza, sou. Às vezes, dá-me uma vontade louca de comer chocolate. E compulsiva também, porque não consigo parar enquanto não terminar a barra ou a caixa.

Mas outro dia me peguei pensando… o que faz alguma comida realmente gostosa? Será cultural? Aprendemos desde cedo que chocolate é muito bom. Se seguir este pensamento, é claro que, se desde pequenos aprendermos que quiabo é bom (tem gente que gosta, mas… blargh!), então será que poderemos nos tornar quiabólatras?
Nesta mesma linha de pensamento: por que gostamos de certos cheiros e de outros temos repulsa?

Resumindo… será que nossos gostos são socialmente condicionados? É uma boa teoria, já que a maioria dos nossos comportamentos sociais são condicionados. O que é «feio» e o que é «bonito» é condicionado. Lembram-se de que na Roma antiga era normal vomitar após comer para poder comer mais? E quem não fizesse isso, era extremamente mal educado. Já pensaram se, hoje em dia, alguém fizer isso??? Muito «feio»!

Mas, voltando ao chocolate…

Meu filho está aprendendo a comer. Foi-me insistentemente recomendado pelos meus pais que o ensinasse a comer todas as verduras e legumes de que eu não gosto. Sim, não gosto de verduras, como pouquíssimos legumes, logo, detesto salada. Estou tentando ensinar meu filho a comer tudo isso. Mas ele não gosta de muita coisa. Com seis meses, já tem aquele gostar disso ou daquilo. Ao meio-dia, vira a cara para a sopa e faz ânsia de vômito. Mas, se for farinha láctea, ele come tudinho. Então, isso não é gostar mais disto do que daquilo?

Ontem estava comendo meu chocolate de sobremesa. Ele me olhava curioso. Peguei um pedacinho e coloquei na boca dele. Ele lambeu, chupou e – pasmem! – reclamou muito quando lhe tirei. Ele queria mais!

Assim, cheguei à brilhante conclusão de que, realmente, o chocolate é gostoso porque é gostoso. Não tem nada a ver com condicionamento.

Baita descoberta!!!

We are the world


Esta música foi gravada em 1985 para ajudar a combater a fome na Etiópia. Ela diz «nós somos o mundo, nós somos as crianças, nós somos os que podem fazer um dia melhor, então, VAMOS COMEÇAR». Infelizmente, esta mensagem ainda precisa ser passada.

Nestes tempos obscuros, mesquinhos e horrorosos, de guerras no Cáucaso e no Oriente Médio, de fome e de tristezas, de caos causado somente pelos homens, vale a pena lembrar esta música. A letra deveria ecoar e fazer pensar todas as pessoas para que, finalmente, descobríssemos que «we are the world», nós somos o mundo, um só mundo! Basta apenas começarmos a agir como tal!

O Poeta Morto - José Régio

O Descanso do Poeta - Chagall

Barbearam-no e vestiram-no de preto,

Calçaram-lhe sapatos de verniz,

Moscas varejas chupam-lhe o nariz,

E ele mantém-se pálido e correcto.



Cheira a cera no quarto, já repleto

Do que há de mais distinto no país:

... Um general, dois lentes, um juiz...,

Com ar triste, imbecil, grave e discreto.



Logo, os críticos sérios e carecas

Folhearão no pó das bibliotecas

Um livro caluniado enquanto vivo.



Esse a quem chamam hoje ilustre e augusto

Porque... porque ele, agora, é inofensivo

Como qualquer estampa ou qualquer busto!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Joana Francesa - Chico Buarque

Vergonha!!! Eu, que me considero A FÃ do Chico, que sonho com aqueles olhos verdes, não conhecia esta música! Vejam que coisa fantástica, linda, maravilhosa! Ele fez mais uma perfeição, os versos em francês combinando foneticamente com os em português...

Lindo demais, perfeito demais!!!

Tu ris, tu mens trop

Tu pleures, tu meurs trop

Tu as le tropique

Dans le sang et sur la peau

Geme de loucura e de torpor

Já é madrugada

Accord'accord'accorda

Mata-me de rir

Fala-me de amor

Songes et mensonges

Sei de longe e sei de cor

Geme de prazer e de pavor

Já é madrugada

Accord'accord'accord'accord...

Vem molhar meu colo

Vou te consolar

Vem mulato mole

Dançar dans mes bras

Vem moleque me dizer

Onde é que está

Ton soleil, ta braise

Quem me enfeitiçou

O mar, marée, bateaux

Tu as le parfum

De la cachaça e de suor

Geme de preguiça e de calor

Já é madrugada

Accord'accord'accord'accord...

sábado, 9 de agosto de 2008

Fernão Capelo Gaivota - Continuação V


Quando regressaram já estava escuro. As outras gaivotas olhavam Fernão com o assombro nos olhos dourados. Tinham-no visto desaparecer do lugar onde há tanto criara raízes. Suportou as felicitações por menos de um minuto.

— Eu sou o mais novo aqui! Estou apenas começando! Sou eu quem tem de aprender com vocês.

— Tenho as minhas dúvidas, Fernão — disse Henrique, ali próximo. — Você tem menos medo de aprender do que qualquer outra gaivota que conheci em dez mil anos.

O bando ficou em silêncio e Fernão moveu-se embaraçado.

— Se você quiser, podemos começar a trabalhar, com tempo — disse-lhe Chiang —, até você poder voar no passado e no futuro. E então estará preparado para começar o mais difícil, o mais poderoso e o mais divertido de tudo. Estará preparado para voar no além e conhecer o significado das palavras "bondade" e "amor".

Passou-se um mês, ou algo que se pareceu com um mês, e Fernão aprendeu num ritmo tremendo. Aprendera sempre depressa, com a experiência vulgar, e agora, como aluno especial do próprio Mais Velho, fixou novas idéias, como um aerodinâmico computador de penas.

Mas chegou o dia em que Chiang se evaporou. Falara calmamente a todos, exortando-os a nunca deixarem de aprender, de treinar e de lutar por compreenderem cada vez melhor o perfeito e invisível principio de toda a vida. Então, enquanto falava, suas penas foram-se tornando cada vez mais brilhantes, e acabaram por ficar tão brilhantes que nenhuma gaivota o conseguia olhar.

As suas últimas palavras foram para Fernão:
— Continue trabalhando no amor, Fernão.
Quando puderam olhar outra vez, Chiang havia desaparecido.
À medida que os dias se passavam, Fernão surpreendia-se pensando no tempo e na terra de onde viera. Se ele tivesse sabido que havia só um décimo, só um centésimo do que aprendera aqui, como a vida teria sido mais válida! Ficou na areia, pensando se haveria alguma gaivota lá atrás lutando por quebrar os seus limites, compreendendo o que realmente significava voar: não um simples meio de locomoção para arrancar uma migalha de pão a um barco a remos. Talvez até houvesse uma que tivesse sido banida por lançar a verdade à cara do bando. E quanto mais Fernão treinava os seus exercícios de bondade, quanto mais trabalhava para compreender a natureza do amor, mais desejava regressar à terra. Porque, apesar do seu passado solitário, Fernão Gaivota nascera para ser instrutor, e a sua maneira de demonstrar o amor era dar um pouco da verdade que ele próprio descobrira a uma gaivota que apenas pedisse uma oportunidade para vislumbrar essa verdade.
Henrique, agora adepto do vôo velocidade pensamento, ao mesmo tempo que ajudava os outros a aprender, tinha dúvidas.
— Fernão, você foi banido uma vez. O que é que o leva a pensar que alguma das gaivotas do seu tempo o ouviria agora? Você conhece o provérbio, que é bem verdade: "Vê mais longe a gaivota que voa mais alto". As gaivotas que você deixou estão no solo, gritando e lutando umas com as outras. Estão a mil e quinhentos quilômetros do paraíso, e você diz que lhes quer mostrar o paraíso, de onde estão! Fernão, elas nem vêem a própria ponta das asas! Fique aqui. Fique aqui ajudando as novas gaivotas, essas que estão suficientemente cultivadas para compreenderem o que você lhes tem a dizer. — Calou-se um momento, e depois disse: — Que teria acontecido se Chiang tivesse regressado aos velhos mundos dele? Onde estaria você hoje?
A última frase era significativa, e Henrique tinha razão. "Vê mais longe a gaivota que voa mais alto."
Fernão ficou trabalhando com os novos pássaros que chegaram e que se mostraram muito inteligentes e rápidos na aprendizagem das suas lições. Mas o velho sentimento voltou e ele não podia impedir-se de pensar que talvez houvesse uma ou duas gaivotas na terra que também pudessem aprender. Quanto mais não saberia ele agora se Chiang tivesse ido ao seu encontro no dia em que fora banido!
— Henrique, tenho de regressar! — acabou por dizer. — Os seus alunos vão bem. Podem ajudar você a ensinar os que chegarem.
Henrique suspirou, mas não discutiu.
— Acho que vou sentir a sua falta, Fernão — foi tudo o que disse.
— Henrique, que vergonha! — exclamou Fernão, reprovador. — Não seja tolo! Afinal, o que é que estamos treinando todos os dias? Se a nossa amizade depende de coisas como o espaço e o tempo, então, quando finalmente ultrapassarmos o espaço e o tempo, teremos destruído a nossa fraternidade! Mas, ultrapassado o espaço, tudo o que nos resta é Aqui. Ultrapassado o tempo, tudo o que nos resta é Agora. E entre Aqui e Agora você não crê que poderemos ver-nos uma ou duas vezes?
Henrique Gaivota riu sem vontade e disse-lhe brandamente:
— Você é um louco. Se alguém conseguir mostrar a um pássaro no chão como ver a mil e quinhentos quilômetros, esse alguém tem de ser Fernão Capelo Gaivota. — Olhou a areia. — Adeus, Fernão, meu amigo.
— Adeus, Henrique, voltaremos a encontrar-nos.
Dito isso, Fernão fixou no pensamento a imagem dos grandes bandos de gaivotas das costas doutros tempos e, com a facilidade do treino, soube que não era só ossos e penas, mas sim uma idéia perfeita de liberdade e vôo que nada conseguia limitar.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Mais Eduardo White

Um texto fantástico, esclarecedor e que, apesar de falar de Moçambique, poderia muito bem estar falando do Brasil... É a globalização da vergonheira!!!
Um P.S.: coloquei umas notas de rodapé para esclarecer alguns termos tipicamente moçambicanos.

O silêncio tem dentro muito barulho, mas o País continua a falar mais ao telefone. Com quem fala, então, o País? Não é progresso isso? Quem duvida que na era da casca de árvore e da pedra ainda, em quase todo o significativo território nacional, em vez do poço de água que faz falta abrir seja levantada uma antena que faz o País dar um salto mortal continuado na lista dos mais pobres do mundo e ficar último na outra lista à frente?

Se falta o medicamento para a malária nos hospitais e não há crédito nos bancos de sangue não é bonito sermos em África o país com mais internautas? Não é desenvolvimento isso? Os bólides nas ruas não mostram a prosperidade da Nação ou é apenas um mero indicativo para o investidor ver as potencialidades?

E quem são esses que gritam que as estradas das nossas capitais andam cheias de buracos? Arre!! Estão contra quem afinal? Que interesses servem eles? Então esses mentecaptos da oposição mais esburacados que as próprias estradas não vêem que só as esburacadas vias justificam os luxuosos foure bai foures[1] das capitais?

Estavam então a pensar que os dirigentes, que os Latifes, que os Costas e os Cossas haveriam de passear no domingo de motorizada[2]? Isto não é Maringué não senhor, calma lá. Aqui não se perdem óculos em debandada na motorizada, aqui, nesta zona agora deslibertada da humanidade, motorizada e bicicleta é só para se ver por uns binóculos.

Passam a vida a dizer que o Povo vê o dirigente a engordar. Quem disse a esses trogloditas da oposição que dirigente engorda? Dirigente não engorda, não senhor, enche só. E sabem eles das dificuldades disso, ou são inveja essas infundamentadas visões? Não sabem esses da maioria que o Povo não precisa nem de motorizada nem de bicicleta? Que a enxada é que o Povo está mesmo a precisar?

Povo existe para trabalhar ou para passear? Digam lá então? Povo existe para trabalhar, e se a riqueza nacional não é mais é porque o Povo é preguiçoso. É ou não é verdade?

Esta coisa da população fugir do campo para a cidade é o quê? Não é isso mesmo? Se o Povo visse o exemplo do dirigente não voltava para o campo? Pensem lá vocês com o dentro das vossas cabeças. Dirigente não dá exemplo bom? Mas esses estupores da oposição vão vir dizer que o dirigente vai para o campo porque tem projectos, tem financiamento bancário, tem parceria e junta sinergias. O Povo se não tem isso tudo é porque não pensa. Mas Povo não existe para ter projecto como o dirigente, povo existe para ser projecto do dirigente. E o Povo mesmo sabe disso.

Anda por aí o boato de que a população não foi votar nas autárquicas porque o governo deu tolerância de ponto. Mas têm o quê contra a população essa gente?

Povo quando tem tolerância de ponto vai cumprir os seus deveres cívicos?
Não!

Povo quando tem tolerância de ponto faz o quê afinal?
Vai beber nos bares, faz festa de família com verduras e galinha a ouvir na rádio qual é o resultado desse jogo chamado eleições. Mas eu pergunto a esses agitadores, como é que o povo vai votar num dirigente que está sempre a rir enquanto ele está a chorar? Como? Digam lá então?

Mas eu disse que o silêncio tem dentro muito barulho. E não vale a pena dizerem que eu sou um xiconhoca porque o povo agora está cansado e quando não vota não é porque está a beber. Não, não é. Esses tais de candidatos são candidatos a quê? A iguais ou a parecidos? A dirigentes ou a dirigidos? Eles também não sabem.

(…)

Os originários não têm direito a apanhar os papéis principais. Ahhh, camarada poder, isto é abuso, palavra de honra. Nós perguntamos em meio a tanta corrupção: esses bais, esses mulungos[3] todos arranjam dinheiro aonde para tantas quintas, para tantas fábricas, tantas sociedades anónimas de responsabilidade ilimitada, tantas participações financeiras em projectos sustentáveis? Sozinho ou com conivência de alguém?

Não são os moçambicanos 100% que vão fumar charuto de Cuba no Sheik, ter Mercedes de último modelo com nome de amante na matrícula e quintas[4] com muros a esconder os telhados das casas? Quando? Quando vão ter corrente de ouro grossa na garganta?

Assim não vale, camarada poder, assim não vale. Porque ficam só os moçambicanos estafetas desse novo-riquismo desnacional? Um País assim pode desenvolver? Com tantos meios descendentes a roubar nas repartições públicas, nos projectos beneméritos e outros afins? Pode?

Mas nossos mais renomados analistas cêeniacos vieram dizer-nos que o Povo não foi votar por ver tudo isso. O Povo não foi votar porque o Ministério do Trabalho deu tolerância de ponto para ele bichar[5]. Quer dizer, o Povo desconsciente, ao invés de ir escolher seu candidato, foi candidatar a sua escolha nas urnas médias da 2M e da Laurentina[6]. Isso não é sabotagem para uns e fraude para os outros. Povo não tem consciência para ser objector de consciência. Povo não tem cabeça para pensar nessas coisas de política. A cabeça do Povo é só para votar no desejo de voto dos políticos.

O País está muito bom, não é o que toda a gente vê? Não é o que toda a gente sente? O País tem mais stands de carros, tem mais imobiliárias a vender moradias, o país tem muitas empresas de consultoria, não está bom o país assim? Isto não é sinónimo de desenvolvimento? Não há mais clínicas particulares? Não há mais lodjes para o turismo da banana? Não há mais pedidos de visto nos consulados para se passarem os fins-de-semana no exterior? E então as escolas públicas não estão a crescer? Não há mais população estudantil nos bancos das escolas?

E os professores e os enfermeiros não ganham muito melhor? Os doentes não são consolados com simpatia e carinho nos postos de socorro dos nossos hospitais? E não há mais carros de bombeiros e ambulâncias e autocarros[7] públicos? Nossos agentes de autoridade não são exemplo de entrega e abnegação à ordem pública?

Não há mais prostitutas nas ruas? Não aumentaram as conferências e os seminários para se discutir o indiscutível e o que já se sabe? Não tem mais estudantes a casar e habitar suas flats tipo 1[8]? Não é progresso isso? Os camaradas da oposição não vão mais felizes fazer discurso na assembleia com gordura na boca? Não usam balalaica agora? Não se mata mais agora nas nossas ruas e não tem mais bandidos a falar nos celulares? A cocaína e o haxixe não são agora mais extensivos aos consumidores? Não são impunes as suas pedradas? Dizer o contrário estamos a mentir?

O País está muito bom, tem a consciência desprendida, tem a irreverência desarrumada. As sirenes estão a tocar mais agora, há mais Kalachnikoves nas janelas dos automóveis e os tiros que não se falham descascam amendoim de manhã nos componentes do Estrela Vermelha[9]. Tem muito chingondo sem emprego a vender lenços de assoar, mas chingondo não sabe, coitadinho, chingondo não sabe que o país, ao contrário dele, deixou de chorar há maningue[10] tempo.

[1] 4 x 4 – carros «todo terreno». Calculo que 80% dos carros em Moçambique sejam deste tipo.
[2] motocicleta
[3] Mulungo: branco, senhor
[4] Quintas: sítios, chácaras.
[5] Bichar: fazer fila (de «bicha» = fila).
[6] 2M e Laurentina: cervejas fabricadas em Moçambique.
[7] Ônibus.
[8] Tipo 1: com 1 quarto (como tipo 2: com 2 quartos…)
[9] Time de futebol de Maputo.
[10] Maningue: muito.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Noémia de Sousa

Mulher negra reclinada - Abraham Baylinson

Negra


Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias...
Teus encantos profundos de Africa.


Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia...
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.


Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra...
menos tu.


E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Fernão Capelo Gaivota - continuação IV


Segunda Parte

"Então o paraíso é isto",


pensou, e teve de sorrir de si próprio. Não era muito respeitoso analisar o paraíso precisamente quando se estava voando para entrar nele.

Enquanto se afastava da terra e ultrapassava as nuvens, em formação com as duas gaivotas brilhantes, notou que o seu próprio corpo se tornava tão brilhante como os dela. Em realidade, era o mesmo Fernão Capelo Gaivota que sempre vivera por detrás dos olhos dourados. Só a forma exterior se modificara.

Era como o corpo de uma gaivota, mas voava muito melhor do que o antigo jamais voara. "É maravilhoso", pensava ele. "Com metade do esforço consigo o dobro da velocidade, o dobro da eficiência dos meus melhores dias na terra!"

As penas luziam agora num branco radiante e as asas eram lisas e perfeitas como folhas de prata polida. Deliciado, começou a aprender a conhecê-las, a incutir potência a essas novas asas.

A trezentos e setenta quilômetros por hora, sentiu que se aproximava da velocidade máxima que atingira antes em vôo planado. A quatrocentos e nove quilômetros pensou que voava tão depressa quanto podia voar e, apesar disso, sentiu-se ligeiramente desapontado. Havia um limite para tudo o que o novo corpo podia fazer, e, embora fosse muito mais rápido do que o seu antigo recorde em vôo planado, era ainda um limite. Para o vencer, iria ser necessário um grande esforço. "No paraíso", pensou, "não devia haver limites."As nuvens romperam-se, a escolta gritou-lhe "Feliz aterragem, Fernão", e evaporou-se no ar fino.

Voava sobre um mar em direção a uma linha áspera da costa. Muito poucas gaivotas treinavam os "updrafts" nos penhascos. Bastante desviado para o norte, na linha do horizonte, voava outro pequeno grupo. Novas paragens, novos pensamentos, novas perguntas. "Por que tão poucas gaivotas? O paraíso devia estar repleto de gaivotas! E por que é que, de repente, fiquei tão cansado? As gaivotas no paraíso nunca devem cansar-se, nem dormir."

Onde é que ouvira isso? A lembrança da sua vida na terra sumia-se. A terra fora um lugar onde aprendera muito, é certo, mas os pormenores estavam esmaecidos — qualquer coisa como lutar por comida e ser banido.

A dúzia de gaivotas que treinava junto à costa veio ao seu encontro, sem pronunciar uma palavra. Sentiu apenas que era bem-vindo e que esta era a sua casa. Tinha sido um grande dia para ele, um dia cuja aurora já não recordava.

Dispôs-se a aterrar na praia batendo as asas de modo a ficar suspenso a dois centímetros do chão e deixando-se cair levemente na areia. As outras gaivotas também aterraram, mas nenhuma delas moveu uma única pena. Esvoaçaram no vento com as asas brilhantes bem abertas e, modificando depois a curva das penas, pararam exatamente na mesma altura em que os pés tocaram no chão. Era um controle magnífico, mas, nesse momento, Fernão estava demasiado cansado para experimentar. Adormeceu ali mesmo na praia, sem que se tivesse pronunciado uma palavra.

Nos dias que se seguiram, Fernão verificou que neste lugar havia tanto para aprender acerca do vôo como houvera na vida que deixara para trás. Mas com uma diferença. Aqui havia gaivotas que pensavam como ele. Para cada uma delas o mais importante na vida era olhar em frente e alcançar a perfeição naquilo que mais gostavam de fazer: voar. Todas elas eram aves magníficas e passavam hora após hora praticando vôo, fazendo experimentos de aeronáutica avançada.

Durante muito tempo Fernão esqueceu-se do mundo de onde viera, daquele lugar onde o bando vivia com os olhos completamente cerrados à felicidade de voar, usando as asas apenas como um meio de encontrar alimento e lutar por ele. Mas, uma vez ou outra, só por um momento, lembrava-se.

Lembrou-se uma manhã, quando estava a sós com o instrutor, enquanto descansavam na praia depois de uma sessão de "snap rolls" de asa dobrada.

— Onde estão os outros, Henrique? — perguntou em silêncio, já familiarizado com a telepatia fácil, que estas gaivotas usavam em vez dos gritos e guinchos. — Por que somos tão poucos aqui? No lugar de onde eu vim havia...

— ... milhares e milhares de gaivotas. Eu sei. — Henrique abanou a cabeça. — A única resposta que encontro, Fernão, é que você é um daqueles pássaros que se encontram num milhão. Quase todos nós percorremos um longo caminho. Fomos de um mundo para outro, que era praticamente igual ao primeiro, esquecendo logo de onde viéramos, não nos preocupando para onde íamos, vivendo o momento presente. Tem alguma idéia de por quantas vidas tivemos de passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando? Mil vidas, Fernão, dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma coisa chamada perfeição, e ainda outras cem para nos convencermos de que o nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição e levá-la ao extremo. A mesma regra mantém-se para os que aqui estão agora, é claro: escolheremos o nosso próximo mundo através daquilo que aprendermos neste. Não aprender nada significa que o próximo mundo será igual a este, com as mesmas limitações e pesos de chumbo a vencer.

Abriu as asas e, voltando-se de frente para o vento, continuou:

— Mas você, Fernão, aprendeu tanto de uma só vez que não teve de passar por mil vidas para chegar a esta.

Um instante depois estavam de novo no ar, treinando. A formação "point roll" era difícil, pois na posição invertida Fernão tinha de pensar de cabeça para baixo, virando a curva da asa ao contrário, mas virando-a em perfeita harmonia com a do seu instrutor.

— Vamos tentar outra vez — repetia Henrique, incansável. — Vamos tentar outra vez. — E, finalmente: — Está bom.

E começaram a praticar "loops" exteriores.

Uma noite, as gaivotas que não praticavam o vôo noturno juntaram-se na praia, para pensar. Fernão reuniu toda a sua coragem e dirigiu-se à gaivota mais velha, que, segundo diziam, devia passar em breve para outro mundo.

— Chiang... — começou ele, um pouco nervoso.

A velha gaivota olhou-o com bondade.

— Diga, meu filho.

Em vez de enfraquecer, a idade dera força ao Mais Velho. Em vôo batia qualquer gaivota do bando, e aprendera perícias de que os outros só muito lenta e gradualmente começavam agora a aperceber-se.

— Chiang, este mundo não é o paraíso, é?

O Mais Velho sorriu ao luar:

— Você está aprendendo outra vez, Fernão Gaivota.

— Bem, e o que é que acontece depois disso? Para onde vamos? Não há um lugar chamado paraíso?

— Não, Fernão, não há tal lugar. O paraíso não é um lugar nem um tempo. O paraíso é ser perfeito. — Ficou em silêncio durante um momento. — Você voa com muita velocidade, não voa?

— Eu... Eu gosto da velocidade — respondeu Fernão, surpreendido mas orgulhoso de que o Mais Velho o tivesse notado.

— Você começará a se aproximar do paraíso no momento em que alcançar a velocidade perfeita. E isso não é voar a mil e quinhentos quilômetros por hora, nem a um milhão e quinhentos mil, nem voar à velocidade da luz. Porque nenhum número é um limite, e a perfeição não tem limites. A velocidade perfeita, meu filho, é estar ali.

Sem avisar, Chiang evaporou-se e apareceu à borda da água, à distância de quinze metros, numa centelha de instante. Depois evaporou-se outra vez e surgiu ao lado de Fernão, no mesmo milésimo de segundo.

— É divertido — comentou.

Fernão ficou atordoado. Esqueceu-se de fazer perguntas acerca do paraíso.

— Como é que se faz isso? O que é que se sente? A que distância se pode ir?

— Desde que você o deseje, pode ir a qualquer lugar e a qualquer momento — disse-lhe o Mais Velho. — Que me lembre, já fui a todos os lugares e a todos os momentos. — Olhou o mar, pensativo. — É estranho... As gaivotas que desprezam a perfeição por amor ao movimento não chegam a parte alguma, devagar. As que ignoram o movimento por amor à perfeição chegam a toda parte, instantaneamente. Lembre-se, Fernão, o paraíso não é um lugar nem um tempo, porque lugar e tempo não significam nada. O paraíso é...

— Pode ensinar-me a voar assim?

Fernão Gaivota tremia de ansiedade por conquistar outro desconhecido.

— Claro, se você deseja aprender.

— Desejo, sim! Quando podemos começar?

— Se quiser, podemos começar já.

— Eu quero aprender a voar assim — disse Fernão, um brilho estranho a iluminar-lhe os olhos. — Diga-me o que devo fazer.

Chiang falou devagar, observando cuidadosamente a gaivota mais nova.

— Para voar à velocidade do pensamento, para onde quer que seja, você deve começar por saber que já chegou...

Segundo Chiang, o truque estava em Fernão deixar de se ver aprisionado dentro de um corpo limitado cujas asas abertas abrangiam a distância de um metro e cuja eficiência podia ser traçada num mapa.

O truque estava em saber que a sua verdadeira natureza vivia tão perfeita como um número não escrito, em toda parte e ao mesmo tempo, através do espaço e do tempo.

Fernão, empenhou-se em conseguir isso, dia após dia, desde antes da aurora até depois da meia-noite. Mas, por mais que se esforçasse, não conseguia afastar-se um milímetro do seu lugar.

— Esqueça a fé — dizia-lhe Chiang repetidamente. — Você não precisa de fé para voar; precisou, sim, compreender o que era voar. Isto é a mesma coisa. Tente outra vez...

Mas um dia em que Fernão estava na praia, de olhos fechados, concentrando-se, compreendeu num relâmpago o que Chiang tentava dizer-lhe.

— Mas é verdade! Eu SOU uma gaivota perfeita, ilimitada!

Sentiu um grande choque de alegria.

— Bom! — exclamou Chiang, com a voz vibrando de triunfo.

Fernão abriu os olhos. Estava sozinho com o Mais Velho numa praia completamente diferente — havia árvores até a beira da água, e dois sóis amarelos, girando sobre as cabeças de ambos.

— Por fim você conseguiu perceber a idéia — disse Chiang. — Mas ainda precisa trabalhar o seu controle...

Fernão estava atordoado.

— Onde estamos?

Obviamente não impressionado pelo estranho ambiente, o Mais Velho desprezou a pergunta.

— Estamos num planeta qualquer, evidentemente, com um céu verde e uma estrela dupla por sol.

Fernão soltou um grito de alegria, o primeiro som que emitia desde que deixara a terra.

— DEU CERTO!

— Mas claro que deu certo, Fernão — disse Chiang. — Dá certo sempre, quando se sabe o que se está fazendo. Agora, acerca do seu controle...

Eduardo White


Um homem é velho e está sentado sobre o seu analfabetismo. No entanto, escreve sobre um jardim. Palavras que, desconhecendo, o tornam belo pela pequena tesoura minuciosa com que apara as flores que as compõem. Um homem velho, suado na velha camiseta, vai, assim, perfumando a escrita. Pergunto-lhe: Que escreve? Flores, é como me responde curvado até aos enrugados dedos acariciando as palavras que vão crescendo. Fico ali, parado, olhando-o do analfabeto que agora sou.

Um homem escreve flores e cores e perfumes, sentado e descalço e dentro da pobreza que veste. Fantástico, penso, este velho que alguma magia certamente o tem cantado por dentro. E as flores riem, pequenas e verdes e brancas e por um vermelho que lhes foge pelo bordo das folhas. Eu adapto-as, diz-me ele. Não percebo, respondo-lhe. Eu adapto estas flores a estas letras porque não são próprias para as palavras. São tenras e, sendo assim, os insectos comem a minha escrita.

Sou o profundo espanto. Um homem escrevendo com flores e insectos comendo o que fica tão ternamente escrito nelas. Ele percebe este susto que revela, admirado, o meu rosto. Escrevo com flores faz muitos anos, mas nunca soube ler. Diz-me. Só mesmo as flores é que eu consigo entender. E um riso desce, então, pela boca do velho dobrado pela hérnia discal que agora noto e vem cumprimentar-me a mão com que eu redijo no computador. Não flores como eu gostaria que fosse, mas a ignorância total e a absoluta certeza de que jamais o saberei fazer.

Ao nosso lado, uma criança abre a janela de sua casa e grita: Bom dia galinhas, enquanto um galo canta arrebatador agradecendo o cumprimento. Que lugar será este donde vejo tudo isto?


In Até Amanhã Coração, 2007.