domingo, 21 de setembro de 2008

Pensamento do dia

Imagem: Britenbucher - Peace on Earth

«Não há caminho para a paz.
A paz é o caminho.»


(Mahatma Gandhi)

Dia Internacional da Paz

Hoje, dia 21 de setembro, é o Dia Internacional da Paz. Proposto pela ONU, é um apelo para um dia de cessar fogo. Gostaria, do fundo do meu coração, que este cessar fogo fosse respeitado hoje e todos os outros 364 dias do ano...



Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell bellow us
Above us only sky

Imagine all the people
Living for today

Imagine there's no countries
It's isn't hard to do
Nothing to kill or die for

And no religion too

Imagine all the people
Living life in peace

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday
You'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of men

Imagine all the people
Sharing all the world

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one


Imagine que não há paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
E acima somente céu

Imagine todas as pessoas
Vivendo para hoje

Imagine que não há países
Não é difícil de fazer
Nada por que matar ou morrer
E nenhuma religião também

Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer que sou um sonhador
Mas não sou o único
Espero que um dia
Você junte-se a nós
E o mundo será um só

Imagine que não há posses
Eu ficarei maravilhado se você conseguir
Nenhuma necessidade de cobiça ou fome
Uma irmandade de homens

Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Você pode dizer que sou um sonhador
Mas não sou o único
Espero que um dia
Você junte-se a nós
E o mundo será um só


Alguém dirá: esta música novamente?! Pois é... mas, infelizmente, esta canção ainda tem de ser cantada, este sonho ainda tem de ser sonhado. O sonho da paz ainda não se realizou, mas temos de seguir no caminho.

sábado, 20 de setembro de 2008

Carlos Rufai Murange

Três pretendentes à mesma noiva


Algures em Marromeu, em Sofala, três rapazes, por curiosa coincidência, pensaram em noivar a mesma rapariga. Como eram pobres e sabiam já que o pai só daria a filha ao pretendente mais rico, resolveram ir trabalhar na Rodésia do Sul, actual Zimbabwe, a fim de fazerem fortuna.

Partiram. Algum tempo depois de lá estarem, um deles encontrou um segredo maravilhoso que lhe permitia conhecer as coisas que aconteciam a distância.

Um outro, também na mesma altura, encontrou um segredo que tinha a virtude de levar uma pessoa rapidamente a terras longínquas.

Finalmente, o terceiro encontrou um remédio que lhe dava o poder de ressuscitar os mortos.

Decorridos alguns meses, o primeiro deles, por virtude do seu segredo, teve conhecimento da morte da noiva pretendida.

Correu ao encontro dos outros dois seus companheiros e falou-lhes desta sorte:

- Na nossa terra, lá em Moçambique, aconteceu uma grande desgraça. Acaba de falecer a nossa pretendida noiva.
Ao ouvir a novidade, o segundo, que tinha o poder de fazer deslocar uma pessoa à distância, disse:

- Então vamos os três depressa, a fim de assistirmos ao seu enterro.

E, por virtude do seu segredo, dentro de momentos, encontraram-se, misteriosamente, os três juntos da defunta.

Uma vez ali, o terceiro disse:

- Eu tenho o poder de ressuscitar os mortos. Por isso, ressuscitá-la-ei. E assim fez, deixando toda a gente maravilhada.

Como a rapariga ficasse completamente boa, novamente renasceu no coração dos três rapazes o desejo de a noivarem.

O primeiro a apresentar as suas pretensões foi o que acbara de a ressuscitar. E disse:

- A menina é minha, porque, se não fosse eu, ela não mais voltaria à vida.

Mas logo lhe observou o segundo:

- A menina pertence-me, porque, se é certo que tu a ressuscitaste, a verdade é que nenhum de vós chegaria a tempo de a ver, se eu não usasse do segredo que tenho.

Por sua vez, o que tinha o segredo de conhecer as coisas à distância objectou contra os dois:

- Alto lá com as pretensões! A menina é minha e muito minha, porque, embora um para aqui nos tenha conduzido rapidamente e outro tenha ressuscitado, se não fosse eu, nenhum de vós teria sequer conhecimento da morte dela.

Estado o assunto neste pé e não querendo nenhum deles ceder a outro o direito de pretensão à rapariga, foram os três ter com o Régulo a fim de resolver o milando.

O Régulo, depois de ouvir atentamente cada uma das partes, declarou que o caso era dificílimo de solucionar, porque as razões que militavam a favor de cada um eram todas de igual valor.

Como, pois, nada mais acrescentasse, entrou de falar a rapariga e propôs aos pretendentes a seguinte prova:

- Aquele dentro de vós que for capaz de aplicar os seus lábios ao peito da minha mãe, esse será o que terá dirieto à minha mão.

Apenas acabou de falar, imediatamente dois deles se apressaram a cumprir a condição imposta. O outro, ao contrário, sentiu-se tomado de um natural pudor e exclamou, decisivamente:

- Perderei a noiva, mas nunca!... nunca eu farei uma tal coisa!

Então a rapariga, ao contrário do que prometera, estendeu a mão para este terceiro e sentenciou, sabiamente:

- Só tu efectivamente tens direito à minha mão, os outros dois não, porque são meus irmãos... A prova é que não tiveram repugnância de aplicar os lábios ao mesmo peito a que eu fui amamentada...

Deste modo, ficou a contenda definitivamente resolvida, passando toda a assistência da esperteza da rapariga.

Alma Welt


Flor Noturna
Uma flor nasceu em meu jardim
Até então desconhecida, e inusitada
Pois que tem um cheiro doce de jasmim
Não sendo co'este todavia aparentada

Pois de noite evola outro perfume
E eu diria que de modo até perverso
Assim como essa lua que resume
A doce febre de onde nasce o verso.

Mas logo a senti como uma irmã
Das dores e anseios com que lido
De dia a rescender o meu amor,

Pálida e bela, mas altiva barregã
Que se erguesse do seu leito proibido,
A vagar nua entre os seres de labor...

Às vezes, sem querer, descobrimos uma pérola no meio de um areal. Foi o que aconteceu. Passeando por alguns blogs, clicando em links, descobri os sonetos desta poetisa gaúcha, Alma Welt.

A responsável pelos blogs é sua irmã, Lúcia Welt, também poetisa mas que, num lindo gesto de desprendimento e amor, dedica-se a divulgar a obra da irmã, falecida em 2007.

Os sonetos de Alma são autobiográficos e através deles conhecemos uma mulher com alma de anjo, ou de ninfa, ou de demônio. Uma Alma livre presa em um corpo físico que a limitava.

Agora Alma está livre e Lúcia nos presenteia com seu legado.

Querem saber mais sobre Alma e Lúcia? Cliquem aqui: O Espaço da Irmã da Alma ou aqui: Sonetos de Mistérios de Alma Welt ou, simplesmente, procurem no google por Alma Welt.

Pensamento do dia

«Povo que não tem virtude acaba por ser escravo...»
(do hino riograndense)

O Grito dos Livres

Esta música é uma das minhas preferidas. Conta a história da formação do povo gaúcho. Quem canta é Dante Ramón Ledesma, um gaúcho argentino, porque o gaúcho não é somente quem nasceu no Rio Grande do Sul, mas também os pampeanos, que vivem na fronteira Brasil / Uruguai / Argentina.

Ouçam a música, vejam como é linda e conheçam um pouquinho mais da minha terra.



O Grito dos Livres


Quando os campos deste sul eram mais verdes
Índios pampeanos que habitavam o lugar
Foram mesclando com a raça do homem branco
Recém chegado de querências além mar

E o novo ser que se formou miscigenado
Virou semente, germinou e se fez povo
E um grito novo ecoou no continente
Lembrando a todos que esta terra tinha dono

Enquanto o gaúcho for visto no pampa
Enquanto essa raça teimar em viver
O grito dos livres ecoará nesses montes
Buscando horizontes libertos na paz

No grito do índio, o grito inicial
Com cheiro de terra no próprio ideal
De amor à querência liberta nos pampas
Gerada em estampas do próprio ancestral

A nova raça cresceu e traçou limites
Que bem demarcam a extensão dos ideais
E o mesmo povo hoje repete o grito
Alicerçado nas raízes culturais

A liberdade não tem tempo nem fronteiras
O homem livre não verga e não perde o entono
Vai repetindo a todos num velho grito
Passam os tempos mas a terra ainda tem dono

Do grito do índio, aos gritos atuais
Há cheiro de terra nos próprios ideais
De um povo sofrido, ereto em vontade
De escrever liberdade nos seus memoriais

Enquanto o gaúcho for visto no pampa
Enquanto essa raça teimar em viver
O grito dos livres ecoará nesses montes
Buscando horizontes libertos na paz



Dante Ramon Ledesma - Grito dos livres

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Rio Grande do Sul - Bandeira e Hino



Hino Riograndense


Como a aurora precursora
Do farol da divindade,
Foi o Vinte de Setembro
O precursor da liberdade


(estribilho)
Mostremos valor, constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra


Mas não basta pra ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo


Wilson Pain - Gaucha - Hino do Rio Grande do Sul

Semana Farroupilha

Todos os anos, na semana que antecede o 20 de setembro, os gaúchos promovem a Semana Farroupilha. Em todas as cidades há comemorações com bailes, rodeios, confraternizações com muito churrasco, carreteiro de charque e todas as outras comidas típicas do Rio Grande do Sul. A Semana é encerrada com um grande desfile, a cavalo, com os homens ostentando seus lenços vermelhos e as mulheres em seus vestidos de prenda.

Lá no Rio Grande, hoje é o dia deste desfile maravilhoso. Aqui, no Devezenquandário, inicio a nossa Semana Farroupilha. Espero poder dividir com todos um pouco da história e da cultura dos gaúchos!

Começo com nossos símbolos mais queridos, nossa bandeira e nosso hino. Uma observação: praticamente não há gaúcho, criança, adulto ou velho, que não saiba cantar o hino. É um orgulho para o nosso estado!

Revolução Farroupilha

Guilherme Litran, Carga de Cavalaria Farroupilha

Há 173 anos explodia uma revolução no sul do Brasil. Foi a Revolução Farroupilha, guerra que, teoricamente, foi perdida. Teoricamente porque o resultado moral desta revolução foi a maior vitória que um povo poderia ter alcançado.

Lutando descalços, desnutridos e desamparados, os farrapos deram seu sangue e sua alma em favor de um ideal maior, o maior ideal de todos: a LIBERDADE.

Hoje, graças aos nossos antepassados que lutaram em andrajos, continuamos um povo altivo, orgulhoso da sua terra. Um povo que não se verga mas não quebra. Continuamos o povo GAÚCHO!

Quem ainda não conhece a história da "nossa" revolução, dê uma passadinha na Wikipedia, lá eles contam a história bem melhor do que eu contaria aqui, porque, quando penso nela, fico cheia de emoção, que poderia trair minha objetividade.

Pensamento do dia - Democracia


«O governo de um só não é preferível à decisão coletiva, mas o que fazer, quando um só pensa (ou poucos) em meio a uma multidão agitada pelo afeto? Qual é o futuro da democracia de um povo que não pensa? Desponta aqui uma objeção severa contra o governo do povo, sustentada ainda por Platão. Como poderão governar pessoas dominadas pela paixão? Um estado só poderá ter êxito se dirigido por homens que pensam. (...) A tirania é provocada por homens que não pensam(negrito meu)


Donald Schüller, in Origens do Discurso Democrático

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Pensamento do dia


«Em todo homem existem centenas de homens: o homem tem possibilidades infinitas: basta pensar que um manifesto, colado a uma parede, com uma ordem de mobilização, transforma, de um dia para outro, um pacífico estudante num guerreiro


(Pitigrilli, escritor italiano)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Fernão Capelo Gaivota - continuação VII


Terceira Parte
Fernão voou em círculo, devagar, sobre os Penhascos Longínquos, observando. Este duro jovem Francisco Gaivota aproximava-se muito de um perfeito aluno de vôo. Era forte, leve e rápido no ar, mas muito mais importante do que isso era o ritmo vertiginoso com que aprendia a voar.

Ali vinha ele agora, turva forma cinzenta troando à saída de um mergulho, a duzentos quilômetros por hora, passando como um relâmpago à frente do seu instrutor.

Abruptamente, lançou-se noutra tentativa, um "slow roll" vertical de dezesseis pontos, fazendo a contagem bem alto.

— ... oito... nove... dez... olha-Fernão-estou-saindo-da-velocidade-do-ar... onze... eu-quero-boas-paradas-bruscas-como-as-suas... doze... mas-maldição-não-consigo... treze... fazer-estes-últimos-três-pontos... sem... cator... aaahh!
A atrapalhação de Francisco no topo foi como uma chicotada, foi o pior que lhe podia ter acontecido, e enfureceu-se por ter falhado. Caiu para trás, aos trambolhões, desabou selvaticamente num "inverted spin" e acabou por se recuperar, ofegante, trinta metros abaixo do nível do seu instrutor.
— Você perde o seu tempo comigo, Fernão! Sou tapado demais! Sou estúpido demais! Tento e volto a tentar, mas nunca conseguirei!
Fernão Gaivota olhou para ele e concordou.
— Você nunca o conseguirá, é certo, se continuar a fazer o arranque com essa brusquidão. Francisco, você perdeu sessenta quilômetros na entrada! TEM de ser suave! Firme mas suave, compreende?
Desceu ao nível da gaivota mais nova.
— Agora vamos tentar juntos, em formação. E preste atenção ao arranque. É uma entrada suave, fácil.

* * *

Ao cabo de três meses, Fernão tinha mais seis discípulos, todos banidos, mas ainda curiosos acerca desta estranha e nova idéia de voar pelo prazer de voar.
Contudo, era-lhes mais fácil praticar altas execuções do que compreender a razão que existia por detrás delas.
— Cada um de nós é, em realidade, uma idéia da Grande Gaivota, uma idéia ilimitada de liberdade — costumava dizer-lhes Fernão à noite, quando se reuniam na praia. — E o vôo de precisão é um passo à frente para expressarmos a nossa verdadeira natureza. Temos de pôr de parte tudo o que nos limita. É por isso que todo este treino de alta velocidade, baixa velocidade e acrobacia aérea...
E os seus alunos adormeciam, exaustos pelo vôo do dia. Gostavam dos treinos porque eram rápidos e excitantes e porque saciavam uma fome de aprender que crescia de lição para lição. Mas nenhum deles, nem mesmo Francisco Coutinho Gaivota, chegava a crer que o vôo de idéias pudesse de fato ser tal real como o vôo de vento e penas.
— Todo o corpo de vocês , da ponta de uma asa à outra — dizia Fernão outras vezes —, não é mais do que seus próprios pensamentos, numa forma que podem ver. Quebrem as correntes dos seus pensamentos e conseguirão quebrar as correntes do corpo...
Mas qualquer que fosse a maneira como o dissesse, soava sempre como ficção agradável, e eles precisavam dormir.
Só um mês depois Fernão disse que era tempo de voltar ao bando.
— Mas não estamos prontos! — disse João Calvino Gaivota. — E não nos desejam! Estamos banidos! Não podemos forçar-nos a ir aonde não somos desejados, não é?
— Nós somos livres para ir aonde nos aprouver e ser o que somos — replicou Fernão, elevando-se da areia e voando para leste, para os domínios do bando.
A angústia reinou por momentos entre os seus alunos, pois, segundo a lei do bando, nenhum banido regressa, e a lei não fora quebrada em dez mil anos. A lei dizia: fiquem. Fernão dizia: vão. E nesta altura já ia há mais de um quilômetro de distância, sobrevoando a água. Se esperasse muito mais, ele iria enfrentar sozinho o bando hostil.
— Bem, já que não fazemos parte do bando não temos que nos submeter à lei... — disse Francisco timidamente. — Além disso, se houver luta, seremos muito mais úteis lá do que aqui.
E assim, oito gaivotas voaram do oeste nessa manhã, em dupla formação de diamante, as pontas das asas quase sobrepondo-se. Atravessaram a Praia do Conselho do Bando a mais de duzentos quilômetros por hora, Fernão à frente, Francisco suavemente à sua direita, João Calvino lutando com o vento, brincalhão, à sua esquerda. Então, toda a formação rolou suavemente para a direita, como um único pássaro... planando... invertendo... planando, o vento chicoteando-os todos por cima.
Os gritos e guinchos habituais à vida diária do bando cessaram de repente, como se a formação fosse uma espada gigante, e oito mil olhos de gaivotas observaram, sem pestanejar uma só vez. Um a um, ou oito pássaros lançaram-se abruptamente para cima, fazendo um "loop" completo, descreveram uma curva perfeita e deixaram-se cair lentamente até aterrarem na areia, de pé. Então, tal como se o acontecimento fosse uma coisa de todos os dias, Fernão Gaivota iniciou a sua crítica do vôo.
— Para começar — disse com um sorriso zombeteiro —, demoraram um bocado a juntar-se a mim...
Foi como se um relâmpago percorresse o bando. Aqueles pássaros eram banidos! E tinham regressado! E isso... isso não podia acontecer! As predições de Francisco quanto a haver luta fundiram-se na confusão do bando.
— Está bem, é certo que são banidos — disse uma das gaivotas mais novas —, mas, caramba! onde eles aprenderam a voar desta maneira?
A palavra do Mais Velho levou quase uma hora a percorrer o bando: — Ignorem-nos.
A gaivota que falar a um banido será banida. A gaivota que olhar para um banido quebrará a lei do bando.
Costas de penas cinzentas viraram-se a Fernão a partir desse momento, mas ele não deu a perceber tê-lo notado. Deu as sessões precisamente sobre a Praia do Conselho e, pela primeira vez, começou a instigar os seus alunos até o limite de sua capacidade.
— Martinho Gaivota! — gritou através do céu. — Você diz que sabe voar a baixa velocidade. Não sabe nada até provar! VOE!
Foi assim que o calado Martinho Gaivota, sobressaltado pelo fogo que o seu instrutor lhe ateara, surpreendeu a si próprio tornando-se um especialista em baixas velocidades. Conseguia curvar as suas penas de modo a elevar-se na mais leve brisa, sem um único batimento da asa, da areia às nuvens e voltar das nuvens à areia.
Do mesmo modo, Rolando Gaivota sobrevoou o pico da Grande Montanha do Vento, a sete mil e duzentos metros, desceu azul do ar frio e rareado, maravilhado e feliz, decidido a ir ainda mais alto no dia seguinte.
Francisco Gaivota, que mais do que ninguém adorava a acrobacia aérea, conseguiu o seu "slow roll" vertical de dezesseis pontos, ao qual, no dia seguinte, acrescentou um triplo "cartwheel", as penas irradiando uma luz solar branca que ofuscou a praia onde mais de um olho furtivo o observava.
A todo momento, lá estava Fernão ao lado de cada um dos seus discípulos, demonstrando, sugerindo, instigando, conduzindo. Voou com eles através da noite, da nuvem e da tempestade, por puro prazer, enquanto o bando se encolhia miseravelmente no solo.
Depois dos treinos, os alunos descansavam na areia, e, com o tempo, começaram a prestar mais atenção a Fernão. Embora este tivesse algumas idéias loucas que não entendiam, tinha outras muito boas, que conseguiam aprender.
Gradualmente, à noite, começou a formar-se outro círculo à volta dos alunos — um círculo de gaivotas curiosas que escutavam durante horas a fio, desejando não ver nem ser vistas por outras e desvanecendo-se na meia-luz que antecede a aurora.
Foi um mês depois do Regresso que a primeira gaivota do bando venceu a barreira e pediu para aprender a voar. Ao fazê-lo, Teseu Sousa Gaivota passou a ser um pássaro condenado, portador de uma etiqueta que dizia: "Banido". E passou também a ser o oitavo aluno de Fernão.

Na noite seguinte foi Virgilio Gaivota quem deixou o bando. Aproximou-se cambaleante, arrastando a asa esquerda pela areia, e caiu aos pés de Fernão.
— Ajude-me — pediu-lhe baixinho, com a voz daqueles que estão morrendo. — Mais do que tudo no mundo eu quero voar...
— Nesse caso, venha — disse Fernão. — Eleve-se comigo e comecemos.
— Você não compreende... A minha asa. Não consigo mexê-la.
— Virgilio Gaivota, você tem liberdade de ser você mesmo, de ser o seu próprio eu, aqui e agora, e não há nada que possa interpor-se no seu caminho. Essa é a lei da Grande Gaivota, a lei que É.
— Você quer dizer que eu posso voar?
— Eu quero dizer que você é livre.

Tão simples e rapidamente como fora dito, Virgilio Gaivota abriu as asas, sem esforço, e rasgou o ar negro da noite. A cento e cinqüenta metros de altura, gritou o mais alto que pôde e o seu grito arrancou o bando do sono que o entorpecia.
— Eu posso voar! Ouçam! EU POSSO VOAR!

Quando o sol surgiu no horizonte, havia quase mil pássaros em volta do círculo de alunos, olhando curiosamente para Virgilio. Pouco lhes importava serem vistos ou não, e escutavam, tentando compreender, Fernão Gaivota.
Falou de coisas muito simples — que as gaivotas têm o direito de voar, que a liberdade é própria da sua natureza, que todo aquele que se oponha a essa liberdade deve ser posto de parte, quer a oposição seja motivada por ritual, superstição ou limitação sob qualquer forma.

— Pôr de parte? — gritou uma voz entre a multidão. — Mesmo se for a lei do bando?
— Só a lei que conduz à liberdade é verdadeira — disse Fernão. — Não há outra.
— Como você pode esperar que voemos como você? — interrompeu outra voz. — Você é especial, dotado e divino, muito acima dos outros pássaros.
— Olhem para Francisco! Teseu! Rolando! São também especiais, dotados e divinos? Não mais do que vocês, não mais do que eu. A única diferença, a única, de fato, é que eles começaram a compreender o que são realmente e decidiram pôr em prática esse conhecimento.
Salvo Francisco, os alunos moveram-se pouco à vontade. Ainda não tinham tomado consciência de que era isso realmente o que lhes acontecia.
A multidão crescia de dia para dia: vinham fazer perguntas, idolatrá-lo ou injuriá-lo.
***

Pensamento do dia


«Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo.»


José Saramago - do blog dele!

Saramago blogueiro

Ontem recebi a notícia: o Saramago está escrevendo em um blog.

Fiquei confusa... será que é mesmo o JOSÉ SARAMAGO??? Isso não é dele... muito estranho!
Fui conferir: era ele mesmo! Imaginem o autor de A Caverna e todos aqueles outros livros maravilhosos virando um blogueiro, como um simples mortal, como nós!

Como não tive tempo de ler tudo ontem, hoje acordei e, sem tirar o pijama, liguei o computador. Tomei café lendo o Caderno de Saramago. Fantástico!

Ele promete escrever diariamente. E está cumprindo a promessa, desde segunda-feira já são três posts.

Curiosos??? Confiram: http://caderno.josesaramago.org (é sem www mesmo!)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Caridade?!

Notícia da última página do Jornal de Moçambique de hoje: Esmola acaba em tragédia na Indonésia. Explico, para não transcrever: uma família abastada estava distribuindo esmolas para a população, quando se deu um tumulto, resultando em pelo menos 23 pessoas mortas, esmagadas. Tudo por uma quantia equivalente a 100 meticais, ou 10 reais, ou 4 dólares, ou 3 euros.

História triste, que me fez lembrar uma situação que vivi ontem. Fui ao mercado, como sempre faço. E, como sempre, um dos meninos que fica por lá veio ajudar-me a empacotar as compras e colocá-las no carro.

Ajudar é maneira de falar, porque esta «ajuda» tem como contrapartida um dinheirinho, uma esmola. Confesso que, para mim, é muito confortável ter alguém que me «ajude» com as compras, apesar de, no fundo, saber que estou agindo erradamente. Quando estava guardando as compras no carro, outro menino veio correndo para «ajudar» também. Dei-lhe também um dinheirinho, coisa pouca, para mim.

Ao final, já dentro do táxi, comentei com o taxista que estes meninos deveriam estar na escola. A resposta do homem foi, senão óbvia, um verdadeiro tapa na cara! Eles estavam ali porque há pessoas como eu que lhes dão dinheiro. Fogem da escola para arrecadar alguns trocados.
Mea culpa! Sou culpada sim. Como são culpados todos os que dão esmolas. Já diz aquele velho ditado: ensinar a pescar, não dar o peixe.

Fácil falar, difícil fazer. Quem tem tempo para perder com caridade? Muito mais fácil abrir a carteira! Vamos reconhecer: dar dinheiro não é caridade, é desencargo de consciência!

Mas tem gente que faz. São estas pessoas iluminadas e desprendidas, que ajudam simplesmente por ajudar. Fazem realmente diferença. Conheço um grupo de mulheres que veio do Brasil para Moçambique simplesmente para ajudar. Largaram família, amigos, empregos, estudos, tudo por um ideal. Viajam o país, enfrentando estradas esburacadas, machibombos (ônibus, autocarros) mais velhos do que a História, fazem caminhos a pé, enfrentam condições deploráveis de saneamento e higiene, comem mal, dormem mal. E não reclamam. Pelo contrário, agradecem pelo aprendizado.

Chamado de Deus, dizem elas, modestas. Eu digo exemplo difícil de ser seguido, abnegação, dedicação. Não buscam reconhecimento, aplausos ou prêmios. Não pedem ajuda nem esperam que ninguém as siga. Já disse: ajudam simplesmente por ajudar.

Ah, se eu conseguisse fazer pelo menos um centésimo do que a Raquel, a Lívia, a Cris, a Thaís e tantas outras fazem… se cada pessoa fosse um pouquinho de cada uma delas, o mundo seria melhor, perfeito, fraterno!

E eu fico aqui, com inveja da coragem delas… limito-me a escrever, contar e admirar.

P.S. Se alguém quiser conhecer o trabalho delas e ajudar (de qualquer maneira), aí estão os e-mails de cada uma:

Raquel: raqueliecp@yahoo.com.br
Lívia: liviahoza@hotmail.com
Cris: cris.kikka@hotmail.com
Thaís: semlimitess@yahoo.com.br

Elas costumam fazer uma «carta informativa» mensalmente, contando todas as suas realizações aqui em Moçambique. Escrevam-lhes!

Hambre - Aldo Novelli


Me tragué la luna
de un tirón,
sorbí cinco estrellas
y dos nubes negras,
me comí
una pierna, los pechos y un ojo de mi hembra
y aún tengo hambre de este mundo.

Aldo Novelli - La poesía es un impossible y el poema una derrota.

Foi com surpresa que conheci este poeta argentino. Visceral, posso dizer!...

vejam sua interpretação de poesia e do que deve ser um poema...


Los efectos de un buen poema


Un buen poema, durante y después de su lectura nos deja mirando el infinito, ese punto inaccesible del espacio que brilla como una lejanísima estrella en medio de un vendaval de piedras y palabras.

Y al observar detenidamente por unos instantes interminables ese mínimo resplandor, uno siente una sensación inefable en todo el cuerpo y en ese lugar desconocido llamado alma, una sensación física que nos modifica en forma permanente hasta el fin de nuestros días o hasta el próximo poema.

Quisiera compartir ahora con ustedes, un mínimo y discutible ensayo que escribiera alguna vez, sobre el nacimiento y los acontecimientos posteriores al luminoso acto de escribir el poema, que bien o mal, podría tomarse como una metodología (tal vez fallida) para escribir un buen poema.


Nacimiento y avatares del poema


La poesía es un imposible y el poema una derrota.

El poema surge de un mal estado de ánimo, de una manifestación tribal en la esquina, de un texto mal leído, de un intestino revolucionario, de la soledad absoluta un segundo después del coito, o de la observación abusiva de un programa banal de televisión.

Técnicamente diría, que sucede un acontecimiento, personal o ajeno, un acontecimiento cualquiera, la imagen de una película, un trozo de conversación escuchado arriba del colectivo, los pechos de una mujer vislumbrados debajo de la blusa, algunos acordes de una canción olvidada, una muerte, o un sueño extraño y fragmentado por la desmemoria.

Y alguno de estos sucesos genera una sensación, una sensación diversa y varia, dolor, emoción, angustia, nostalgia, delirio, desasosiego o excitación, o cualquier otra, y ésta permanece grabada, en algún recoveco de la memoria y de alguna desconocida forma.

Después de cierto tiempo, en un momento pertinente y sensitivo, este recuerdo surge inesperadamente en el presente, creando ahora una sensación similar o tal vez igual (pero no la misma) y forma imágenes mentales, claras o difusas, reales o ficcionales, de aquel acontecimiento que las generó y entonces el cerebro y el espíritu las empieza a traducir en palabras, las decodifica, las sintetiza, las corrompe, y nace un verso, tan solo un verso, que el esfuerzo posterior, o sea, la inspiración, el talento natural y un complejo y desconocido andamiaje de saberes, convertirán en un poema, o mejor aún, en un proto-poema.

Después de todo esto, resta un esfuerzo importantísimo, el trabajo textual sobre esta arcilla blanda y maleable, que es el poema crudo, el poema en estado puro, y allí, las diversas facetas de este arduo trabajo.

Luego, una de las múltiples consecuencias de este proceso, es provocar una sensación parecida o análoga, a la que generó el texto, ahora en el lector, intención, que generalmente es otra derrota.
De aquí, que la poesía, el arte todo, es una permanente derrota, es la búsqueda de un ideal, de un imposible.

A mí me alienta la búsqueda de ese ‘aleph poético’, la búsqueda del poema total, aún sabiendo conscientemente que es un imposible, pero también una utopía, tal vez la que me incita a seguir escribiendo.

Algunos ‘poetas entre comillas’ (y dice esto, un poeta que no está totalmente libre de comillas) creen, que están escribiendo la ‘gran cosa’ y entonces, ‘se postran embelesados con reverencia ante un paisaje plagado de edenes’, o nos dictan ‘una desiderata estúpida y vulgar sobre su amor a la madre o a la novia indigestada de blanca pureza’, seguramente están muy lejos de la poesía o cualquier otra forma de arte que se precie.

Personalmente, no puedo afirmar que he accedido al ‘cosmos de la poesía’, digo que vi una hendija y espié por allí (y esto me llevó muchos años) y digamos, que apenas he vislumbrado ese cosmos, que intuyo infinito.

Compartirlo ahora con otros, con ustedes, es un acto generoso y egoísta, es buscar en el otro una afinidad, es buscar un soñador, un príncipe de las mareas entre aguas turbias y contaminadas.

Compartirlo con otro, es intentar un mundo mejor, es creer que la palabra sirve para algo más que para comunicarse, es un acto de rebelión, es también, un acto de fe.

Compartirlo con el otro, es el último acto de resistencia, para combatir la tremenda soledad que nos aflige en este nuevo milenio.

Compartirlo, es ya el triunfo, de esta permanente derrota.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Ah, Amicíssima... 100 anos sem Machado!!!

Que tragédia! Este homem não podia ter morrido! Um homem tão bom, tão honesto! - diriam os desconhecedores do nosso Machado...

Pois é... recebi um e-mail sobre os cem anos da morte do Machado de Assis. Grande coisa, né? Mas, e juro que não sei por quê, voltei a quebrar a cabeça com a história da Capitu. Será que ela traiu mesmo o Bentinho???

Sinceramente, eu não sei se traiu, mas penso que deveria ter traído. No lugar dela, teria feito, ah, teria feito sim!!! E não só com o tal melhor amigo (que de tão importante nem lembro o nome agora), mas com vários! Cara mais chato o Bentinho! Insosso, cheio de não-me-toques! Homem não pode ser muito intimista. Vai dizer que toda mulher não sonha, láááááá bem no fundo, com um estivador alto, musculoso e suado? (que o Gabriel não leia isso!)...


Na verdade, acho que o próprio Machado era meio recalcado, medroso de ser traído...


O que não me deixa conformar é a quantidade de estudos e intertextualidades com o Dom Casmurro! Até em novela! E a pobre da Capitu tinha logo de ser uma «Madalena arrependida»! Prostituta que voltou para o caminho certo. Quanta hipocrisia!


Ando assim, meio revoltada. Não sei por quê... deve ser a velha TPM...


Aguardo notícias....................................................


P.S. Não vais acreditar! Fui procurar no Google uma foto da Capitu para ilustrar este post... fui lá em «Images» e digitei: Capitu. Adivinha o que apareceu em quase 90% das figuras??? Mulheres de bunda de fora ou cachorras (da raça canina). Coincidências??? A coitada já foi apedrejada, nem Madalena foi tão condenada. Ninguém provou o adultério, mas que ela é puta, ah, isso é!

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Arroz de carreteiro

Nobre cardápio crioulo das primitivas jornadas,
Nascido nas carreteadas do Rio Grande abarbarado,
Por certo nisso inspirado, o xiru velho campeiro
Te batizou de "Carreteiro", meu velho arroz com guisado.

Não tem mistério o feitio dessa iguaria bagual,
É xarque - arroz - graxa - sal
É água pura em quantidade.
Meta fogo de verdade na panela cascurrenta.
Alho - cebola ou pimenta, isso conforme a vontade.

Não tem luxo - é tudo simples, pra fazer um carreiteiro.
Se fica algum "marinheiro" de vereda vem à tona.
Bote - se houver - manjerona, que dá um gostito melhor
Tapiando o amargo do suor que -
às vezes, vem da carona.

Pois em cima desse traste de uso tão abarbarado,
É onde se corta o guisado ligeirito - com destreza.
Prato rude - com certeza,
mas quando ferve em voz rouca
Deixa com água na boca a mais dengosa princesa.

Ah! Que saudades eu tenho
dos tempos em que tropeava
Quando de volta me apeava
num fogão rumbeando o cheiro
E por ali - tarimbeiro, cansado de bater casco,
Me esquecia do churrasco saboreando um carreteiro.

Em quanto pouso cheguei de pingo pelo cabresto,
Na falta de outro pretexto indagando algum atalho,
Mas sempre ao ver o borralho onde a panela fervia
Eu cá comigo dizia: chegou de passar trabalho.

Por isso - meu prato xucro, eu me paro acabrunhado
Ao te ver falsificado na cozinha do povoeiro
Desvirtuado por dinheiro à tradição gauchesca,
Guisado de carne fresca, não é arroz de carreteiro.

Hoje te matam à Mingua, em palácio e restaurante
Mas não há quem te suplante,
nem que o mundo se derreta,
Se és feito em panela preta, servido em prato de lata
Bombeando a lua de prata sob a quincha da carreta!

Por isso, quando eu chegar,
nalgum fogão do além-vida,
Se lá não houver comida já pedi a Deus por consolo,
Que junto ao fogão crioulo,

Quando for escurecendo, meu mate -amargo sorvendo,
A cavalo nalgum tronco, escute, ao menos, o ronco
De um "Carreteiro" fervendo.


Jayme Caetano Braum


A receita:


Para quem não sabe o que é, CHARQUE é a carne salgada e seca. A diferença entre a carne de sol, típica do Ceará e o charque é que este não seca ao sol, mas em galpões ventilados.
Mas vamos à receita...
Ingredientes:

* 1/2kg de charque
* 1/2kg de arroz
* 1 cebola grande picadinha
* 3 dentes de alho
* óleo
* pimenta preta (opcional)


- Já sei.. vão dizer: «só isso de ingredientes?». Pois é... o carreteiro de charque era o prato comum dos tropeiros. Tinha de ser simples e rápido! Mas, continuemos...


Modo de fazer:


- Dessalgar o charque: cortar em pedacinhos e demolhar. A água pode ser quente ou fria, mas não esquecer que, se a água for quente, o sal sairá mais rapidamente.


- Colocar na panela o óleo e refogar a cebola e o alho. Quando estiver dourado, adicionar o charque e fritar. Colocar o arroz, fritar mais um pouco. Encher a panela com água e deixar secar.


- Importante: acertar o sal - às vezes, tiramos demais o sal do charque e precisamos colocar mais um pouquinho na hora de cozinhar.


- Opcional: há gente que gosta de colocar para cozinhar junto uns pedacinhos de abóbora ou de batata-doce. Fica muito bom, dá um sabor contrastante com o charque.


- Mais: depois de pronto, fica muito bom jogar um pouco de salsa ou ovo cozido picado (ou os dois) por cima.


- Para acompanhar, o feijão preto é perfeito!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Civil War

Escola na Ossétia


"what w've got here is failure to communicate
some men you just can't reach...
so, you get what we had here last week
which is the way he wants it!
well, he gets it!
n' i don't like it any more than you men."

look at your young men fighting
look at your women crying
look at your young men dying
the way they've always done before

look at the hate we're breeding
look at the fear we're feeding
look at the lives we're leading
the way we've always done before

my hands are tied
the billions shift from side to side
and the wars go on with brainwashed pride
for the love of god and human rights
and all these things are swept aside
by bloody hands time can't deny
and are washed away by your genocide
and history hides the lies of our civil wars

d'you wear a black armband
when they shot the man
who said "peace could last forever"
and in my first memories
they shot kennedy
and i went numb when i learned to see
so i never fell for vietnam
we got the wall of d.c. to remind us all
that you can't trust freedom
when it's not in your hands
when everybody's fightin'
for their promised land

and
i don't need your civil war
it feeds the rich while it buries the poor
your power hungry sellin' soldiers
in a human grocery store
ain't that fresh
i don't need your civil war

look at the shoes you're filling
look at the blood we're spilling
look at the world we're killing
the way we've always done before
look in the doubt we're wallowed
look at the leaders we've followed
look at the lies we've swallowed
and i don't want no hear no more

my hands are tied
for all i've seen has changed my mind
but still the wars go on as the years go by
with no love of god or human rights
'cause all these dreams are swept aside
by bloody hands of the hypnotized
who carry the cross of homicide
and history bears the scars of our civil wars

"we practice selective annihilation of mayors
and government officials
for example to create a vacuum
then we fill that vacuum
as popular war advances
peace is closer"

i don't need your civil war
it feeds the rich while it buries the poor
your power hungry sellin' soldiers
in a human grocery store
ain't that fresh
and
i don't need your civil war
i don't need your civil war
i don't need your civil war
your power hungry sellin' soldiers
in a human grocery store
ain't that fresh
i don't need your civil war
i don't need one more war

i don't need one more war
whaz so civil 'bout war anyway


(Axl Rose / Izzy Stradling)


"O que temos aqui é falha na comunicação.
Alguns homens simplesmente não se pode alcançar
Então você tem o que tivemos aqui semana passada
Que é a maneira como ele quer!
Bem, ele consegue!
E eu não gosto disto tanto quanto vocês, homens!"

Veja seus homens lutando
Veja suas mulheres chorando
Veja seus jovens morrendo
Da maneira que sempre fizeram antes

Veja o ódio que estamos criando
Veja o medo que estamos alimentando
Veja as vidas que estamos guiando
Da maneira que sempre fizemos antes

Minhas mãos estão presas
Os bilhões passam de um lado para outro
E a guerra continua com orgulho de mentes lavadas
Pelo amor de Deus e por nossos direitos humanos
E todas essas coisas são deixadas de lado
Por mãos sangrentas que o tempo não perdoará
E que são lavadas pelo seu genocídio
E a história esconde as mentiras de nossas guerras civis

Você vestiu uma braçadeira preta
Quando atiraram no homem que disse'A paz pode durar para sempre'
E nas minhas primeiras memórias
Eles atiraram em Kennedy
Eu fiquei anestesiado quando aprendi a ver
Então eu nunca senti pelo Vietnã
Temos as paredes de Washington para nos lembrar
Que você não pode acreditar na liberdade
Quando não está em suas mãos
Quando todo mundo está lutando
Por sua terra prometida

E eu não preciso de sua guerra civil
Ela alimenta os ricos e enterra os pobres
Sua ganância de poder vendendo soldados
Em um armazém humano
Não é uma graça?
Eu não preciso de sua guerra civil

Olhe os sapatos que você calça
Veja o sangue que fazemos jorrar
Veja o mundo que estamos matando
Da maneira que sempre fizemos antes
Veja a dúvida que temos engolido
Veja os líderes que temos seguido
Veja as mentiras que temos engolido
E eu não quero ouvir mais nada

Minhas mãos estão atadas
Por tudo que vi mudei minha mente
Mas a guerra continua à medida que os anos passam
Sem amor a Deus ou direitos humanos
Porque todos estes sonhos são deixados de lado
Por mãos sangrentas dos hipnotizados
Que carregam a cruz do homicídio
E a história carrega as cicatrizes de nossas guerras civis

"Nós fazemos aniquilação seletiva de prefeitos
e oficiais de governo
por exemplo, para criar um vazio
depois preenchemos o vazio
enquanto a guerra popular avança
A paz está próxima"

Eu não preciso de mais uma guerra
É tão civil, mas guerra de qualquer jeito

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Fernão Capelo Gaivota - Continuação VI


Francisco Coutinho Gaivota era bastante novo, mas já sabia que nunca um pássaro fora tratado com tanta aspereza por nenhum bando ou com tanta injustiça.

"Não importa o que digam", pensava com violência, o olhar toldado, enquanto voava em direção aos Penhascos Longínquos. "Voar tem muito mais valor do que esvoaçar de um lado para o outro! Um... um... um mosquito faz isso! Um pequeno 'barrel roll' à volta da gaivota mais velha, só por brincadeira, e eis-me banido! São cegos? Não vêem? Não percebem a glória que será quando aprendermos a voar realmente?

"Não me importa o que pensem. Vou lhes mostrar o que é voar! Serei um puro fora-da-lei, se é isso o que desejam. E vou fazê-los lamentar tanto..."

A voz surgiu dentro da sua cabeça e, embora fosse muito suave, sobressaltou-o de tal maneira que vacilou e quase despencou.
"Não seja duro com eles, Francisco Gaivota. Ao expulsarem-no, as outras gaivotas só fizeram mal a si próprias, e um dia vão sabê-lo, e um dia verão o que você vê. Perdoe-lhes e ajude-as a compreender."
A um centímetro da sua asa direita voava a gaivota branca mais brilhante de todo o mundo, deslizando suavemente e sem esforço, sem mover uma pena, quase à velocidade máxima de Francisco.
Houve um momento de caos no jovem pássaro.
— Que se passa? Estou louco? Estou morto? O que é isso?
Baixa e calma, a voz prosseguia dentro dos seus pensamentos, exigindo resposta.
— Francisco Coutinho Gaivota, você quer voar?
— SIM, EU QUERO VOAR!
— Francisco Coutinho Gaivota, você quer voar tanto que perdoará o bando, e aprenderá, e voltará um dia para ajudá-los a saber?
Era impossível mentir àquele magnífico e hábil ser, por muito que um pássaro como Francisco Gaivota se sentisse cheio de orgulho e de mágoa.
— Quero — disse suavemente.
— Então, Chico — disse-lhe a brilhante criatura, com uma voz muito calma —, vamos começar com o vôo planado...

Ser Poeta

Poema lindo de Florbela Espanca, na voz linda de Luís Represas!

O poema, eu já conhecia. A música, foi meu amor quem me cantou...



Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!


quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O Noivado do Sepulcro

Pertencente à segunda geração romântica portuguesa, o poeta Soares de Passos consagrou-se com este poema, O Noivado do Sepulcro.

Para os críticos e teóricos literários, esta geração da poesia romântica portuguesa não fez senão uma poesia de entoação melodramática, de linguagem artificialmente rebuscada e medievalizante, com soluções formais convencionais, ou seja, uma poesia estereotipada e destituída de capacidade de inovação estética. Resumindo: uma poesia que tinha por função a decoração da vida social, para ser recitada em serões e musicada.

Mas deixemos de lenga-lengas e vamos ao poema:





Vai alta a lua! na mansão da morte


Já meia-noite com vagar soou;


Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte


Só tem descanso quem ali baixou.





Que paz tranqüila!... mas eis longe, ao longe


Funérea campa com fragor rangeu;


Branco fantasma semelhante a um monge,


Dentre os sepulcros a cabeça ergueu.





Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste


Campeia a lua com sinistra luz;


O vento geme no feral cipreste,


O mocho pia na mormórea cruz.





Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto


Olhou em roda... não achou ninguém...


Por entre as campas, arrastando o manto,


Com lentos passos caminhou além.





Chegando perto duma cruz alçada,


Que entre os ciprestes alvejava ao fim,


Parou, sentou-se com a voz magoada


Os ecos tristes acordou assim:





"Mulher formosa, que adorei na vida,


E que na tumba não cessei de amar,


Por que atraiçoas, desleal, mentida,


O amor eterno que te ouvi jurar?





Amor! engano que na campa finda,


Que a morte despe da ilusão falaz:


Quem dentre os vivos se lembrará ainda


Do pobre morto que na terra jaz?





Abandonado neste chão repousa


Há já três dias, e não vens aqui...


Ai, quão pesada me tem sido a lousa


Sobre este peito que bateu por ti!





Ai quão pesada me tem sido!"e em meio


A fronte exausta lhe pendeu na mão,


E entre soluços arrancou do seio


Fundo suspiro de cruel paixão.





"Talvez que rindo dos prostestos nossos,


Gozes com outro d'infernal prazer;


E o olvido cobrirá meus ossos


Na fria terra sem vingança ter!"





- "Ó nunca, nunca!" de saudade infinita,


Responde um eco suspirando além...


- "Ó nunca, nunca!" repetiu ainda


Formosa virgem que em seus braços tem.





Cobrem-lhe as formas divinais, airosas.


Longas roupagens de nevada cor;


Singela c'roa de virgíneas rosas


Lhe cerca a fronte dum mortal palor.





"Não, não perdeste meu amor jurado:


Vês este peito? reina a morte aqui...


É já sem forças, ai de mim, gelado,


Mas ainda pulsa com amor por ti.





Feliz que pude acompanhar-te ao fundo


Da sepultura, sucumbindo à dor:


Deixei a vida... que importava o mundo,


O mundo em trevas sem a luz do amor?





Saudosa ao longe vês no céu a lua?"


- "Ó vejo sim... recordação fatal"


- Foi à luz dela que jurei ser tua


Durante a vida, e na mansão final.





Ó vem! se nunca te cingi ao peito,


Hoje o sepulcro nos reúne enfim...


Quero o repouso do teu frio leito,


Quero-te unido para sempre a mim!"





E ao som dos pios co cantor funéreo,


E à luz da lua de sinistro alvor,


Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério


Foi celebrado, d'infeliz amor.





Quando risonho despontava o dia,


Já desse drama nada havia então,


Mais que uma tumba funeral vazia,


Quebrada a lousa por ignota mão.





Porém mais tarde, quando foi volvido


Das sepulturas o gelado pó,


Dois esqueletos, um ao outro unido,


Foram achados num sepulcro só.





Gostaram? Pode ser fútil, mas é lindo!

Relendo este poema, lembrei-me de uma notícia que li no início de 2007.
Arqueólogos encontraram na Itália uma tumba com dois esqueletos humanos abraçados. Supunham, na época (agora já não sei, não acompanhei a reportagem), que fossem de um homem e de uma mulher. Estavam sepultados há 5000-6000 anos e calculava-se que haviam morrido muito jovens, pois seus dentes ainda estavam intactos e pouco gastos.





Vejam a foto:






Agora me pergunto: será coincidência? Alguns dirão: claro! Mas, e quem pode dizer de onde vem a inspiração de um poeta??? Pergunto também: será mesmo fútil retratar um amor eterno???

Deixo com vocês!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Crianças bonitas


Qual destas duas meninas é mais bonita? Existe criança feia???
À esquerda, Yang Peiyi, a dona da voz.
À direita, Lin Miaoke, a dona do rosto.


Matéria publicada no Jornal de Moçambique, p. 14, em 13 de agosto/2008 (e aposto que em muitos outros jornais espalhados pelo mundo):

O director musical da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Beijing - 2008, decorrida na sexta-feira passada, admitiu que a menina chinesa que supostamente cantou «Ode à Pátria» durante o show no estádio Ninho de Pássaro não era a dona da voz. O motivo? A cantora verdadeira não era suficientemente bonita para representar a China.

«Queríamos passar uma imagem perfeita e pensamos no que seria melhor para a nação», explicou Chen Quigang, em entrevista à televisão chinesa. O conteúdo chegou a ser veiculado no portal Sina.com, mas depois sumiu.

A imprensa chinesa divulgou ontem fotos de Lin Miaoke, de nove anos, a tratando como uma estrela em ascensão. No entanto, ignoram Yang Peiyi, de sete anos, a dona da voz que é gordinha, tem os dentes fora do lugar e uma óptima voz.

«Era uma questão de interesse nacional. A criança que apareceria diante das câmeras tinha que ser expressiva», argumentou Chen.

«Lin Miaoke é excelente para tudo isso. Porém, no que diz respeito à voz, Yang Peiyi é perfeita. Toda a equipa concordou», finalizou o compositor chinês.


Absurdo? Preconceito? Quantas pessoas diriam isso ao ler esta matéria. Afinal, o que faz uma criança mais ou menos bonita?
Simbolicamente, criança representa o futuro, o renascer, a esperança. A China, com estas Olimpíadas, quer mostrar ao mundo o seu poderio, o seu progresso, o seu sucesso. A ditadura que antes proibia as flores nos jardins agora dita a beleza, escolhe a beleza. Uma beleza superficial e falsa, como muitas coisas naquele país.

Cruelmente, negaram a uma criança o direito ser ela mesma. Falsificaram sua voz em outra criança, não menos vítima.
Essa é a China que se «abre ao mundo», tentando esconder os fuzilamentos, o controle cruel de natalidade e o domínio vergonhoso do Tibet.