sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Livro novinho em folha...
Livro das Encantações e outros Poemas, da Ana Mafalda Leite.
Publicado em julho de 2010.
Comprei esta semana... recolha de poemas e um livro inédito, Livro das Encantações. Estou saboreando cada página...
Divido com vocês o poema de abertura...
UM RUMOR DE VOZES
entram sem ruído pelas portas
semi-abertas
o olhar insular prolonga-se pela noite
entram devagar
tão devagar
que quando os olhamos
o esquecimento e a memória se conjugam num vazio
cheio de estranha luz coada
violeta negro oiro baço
insinuam-se pelas margens quietas isoladas incólumes
guardam na imensidão do olhar a planície o deserto
um raso fluir de som de sombra cerce à terra um rumor
de vozes ou de passos longe
não se ouvem
desaparecem no instante preciso em que os adivinhamos rápidos
silenciosos serenos altivos mas muito mansos
os anjos os olhos brancos entranhando-se nos muros
nas árvores no espaço
lembram a infinita doçura de certos animais selvagens
lâmpadas noite adiante lâmpadas sem luz
Mia para crianças
Eu não conhecia e já vai na 2ª edição...
Mia Couto para os baixinhos! Fantástico!!!
Começa assim...
"Vejam, meus filhos, o gatinho preto, sentado no cimo desta história. Pois ele nem sempre foi dessa cor.
Conta a mãe dele que, antes, tinha sido amarelo, às malhas e às pintas. Tanto que lhe chamavam o Pintalgato.
Diz-se que ficou desta aparência, em totalidade negra, por motivo de um susto. Vou aqui contar como aconteceu essa trespassagem de claro para escuro. O caso, vos digo, não é nada claro."
Querem saber como o Pintalgato passou de claro para escuro??? Leiam a história!!!
Boa leitura!
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Da Série Livros
O Livro Desconhecido
Estou à procura de um livro para ler. É um livro todo especial. Eu o imagino como a um rosto sem traços. Não lhe sei o nome nem o autor. Quem sabe, às vezes penso que estou à procura de um livro que eu mesma escreveria. Não sei. Mas faço tantas fantasias a respeito desse livro desconhecido e já tão profundamente amado. Uma das fantasias é assim: eu o estaria lendo e, de súbito, uma frase lida com lágrimas nos olhos, diria em êxtase de dor e de enfim libertação: mas é que eu não sabia que se pode tudo, meu Deus!
Clarice Lispector
Imaginação!!!
Pedro acorda numa manhã extremamente chuvosa...
- Mãe, tá de dia?
- Sim, Pedro, já é dia.
- Mas tá escuridão!!!
- É porque está chovendo, filho...
- E tem trovão, mãe?
- Sim, Pedro, tem muitos trovões.
- Hum... tenho uma ideia!!!
A ideia do Pedro:
- Vamos chamar o Sasquatch,
para ele levar um caminhão lá no céu - porque o Sasquatch é elástico como um macaco de borracha.
Então o trovão entra no caminhão e vem aqui para casa.
- E daí, Pedro? O que fazemos com o trovão aqui em casa?
- Mandamos o trovão embora e pára de chover.
Simples, não acham???
Sobre o Sasquatch: Mecanimais - Wikipedia
- Mãe, tá de dia?
- Sim, Pedro, já é dia.
- Mas tá escuridão!!!
- É porque está chovendo, filho...
- E tem trovão, mãe?
- Sim, Pedro, tem muitos trovões.
- Hum... tenho uma ideia!!!
A ideia do Pedro:
- Vamos chamar o Sasquatch,
para ele levar um caminhão lá no céu - porque o Sasquatch é elástico como um macaco de borracha.
Então o trovão entra no caminhão e vem aqui para casa.
- E daí, Pedro? O que fazemos com o trovão aqui em casa?
- Mandamos o trovão embora e pára de chover.
Simples, não acham???
Sobre o Sasquatch: Mecanimais - Wikipedia
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
E-mail desagradável
Pessoal, ontem recebi o seguinte e-mail:
BOMBA:
MOVIMENTO NÃO VOTE EM DILMA!!!
SÓ PRA VC COMO CRENTE OU CATOLICO FICAR COM A CONSCIÊNCIA TRANQUILA....
A DILMA APROVARÁ A LEI DO ABORTO E DO CASAMENTO GAY JÁ DECLARADO POR ELA MESMA.
E O MAIS INTERESSANTE QUE EU NÃO SABIA E NÃO HAVIA REPARADO...
VCS SABEM O NOME DO VICE DA DILMA?
MICHEL TEMER!
ISSO TE LEMBRA ALGO?
É ELE MESMO O PAI DE DANIEL MASTRAL O GRANDE CABEÇA DOS SATANISTAS...
INFORMAÇÕES DIVULGARAM QUE A PRESIDENTE SERÁ ELEITA, NÃO TEM JEITO,
PORÉM VC COM CONHECIMENTO E SABEDORIA, FILHO DE DEUS, NÃO VOTE NELA,
OS SATANISTAS JÁ PREPEARAM TUDO...
A PRESIDENTE POSSUI UM CÂNCER ADORMECIDO E DENTRO DO ANO DO SEU LEGADO,
O DIABO A FERIRÁ E ELA FICARÁ TERRIVELMENTE DOENTE, TALVEZ, VINDO ATÉ A FALECER
E QUEM ASSUMIRÁ O PODER?
O VICE MICHEL TEMER.... FIQUE LIGADO!
A INTENSÃO DO DIABO É DOMINAR TODO TERRITÓRIO BRASILEIRO LIBERANDO POTESTADES E PRINCIPADOS NO AR,TERRA E MAR.
É HORA DE NOS LEVANTARMOS COMO FILHOS DE DEUS.
CUIDADO COM O SEU VOTO, NÃO O JOGUE NAS MÃOS DE UM INSTRUMENTO DO NOSSO ADVERSARIO.
Por favor!!! Votem em quem quiserem, façam campanha, falem mal, mas não venham com esta conversa ultra fanática para cima de mim.
Sinceramente, depois desta, eu, que não votaria na Dilma, até estou pensando em votar nela. Se os seus opositores são fanáticos e ignorantes a ponto de enviar e-mails deste tipo, é porque ela não deve ser tão ruim assim...
Votar em um ou outro candidato e fazer uma boa escolha é sinônimo de esclarecimento, de inteligência. Quem utiliza este tipo de argumentos obtém o resultado inverso.
Lembro que quando o Obama candidatou-se, correu na Internet uma interpretação de uma profecia do Nostradamus que afirmava ser o Obama o anticristo. A profecia dizia que quando um negro assumisse o comando da maior potência do mundo, este negro seria o tal coisa ruim.
Nem por isso o Obama perdeu.
Não sei se ele é ou não é o tal, mas sei que este tipo de história não agrada e muito menos convence pessoas inteligentes e psicologicamente sãs.
Acredito em Deus, sim. Mas não suporto qualquer tipo de radicalismo ou fanatismo.
A resposta que dei a esta pessoa (que não conheço) que enviou-me este e-mail foi: se for para encher a minha caixa postal com este tipo de absurdo, por favor remova o meu endereço da sua lista.
Para terminar: votem conscientemente, com responsabilidade, baseados nos fatos reais, na história do candidato.
Eu até poderia dizer: não votem na Dilma, mas, depois desta, fico com medo de me acharem fanática!!!
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Que mulher mais desavergonhada!!! Dois maridos!!! Oh, que horror!!! (huaehuaehuae........)
Engraçado... nunca tinha visto a coisa assim... quando procurei no Google imagens sobre poliandria, a primeira que me apareceu foi esta, da Branca de Neve.
Nós crescemos com estas histórias e nem sempre nos damos conta do conteúdo moral delas...
Todos conhecem a história... a Branca de Neve é socorrida pelos anões e contrai um casamento poliândrico com eles... mas, claro, o mais correto, aceitável, sociável é o casamento monogâmico, portanto, o príncipe vem e faz da coitada da sem-vergonha da Branca de Neve uma mulher respeitada.
Mas o que me motivou a pesquisa foi uma reportagem enorme que estava no Diário de Moçambique de ontem. Ocupava as duas páginas centrais. Sinceramente - e desculpem-me os meus grandes amigos jornalistas do Diário - penso que há assunto mais importante do que aquela notícia... pareceu mais fofoca do que notícia...
Acontece que aqui perto da Beira, numa vila (ou cidade, mas é mais vila, pelo tamanho) chamada Caia, há uma mulher que é casada com dois homens e este fato está arrepiando os cabelos de todo mundo.
Sim, estas coisas geram curiosidade, perplexidade... mas lendo o conteúdo da reportagem, a interpretação é muito diferente.
A mulher tem 58 anos e batalha todos os dias o sustento. Vende produtos no mercado local. O seu primeiro marido ficou cego, portanto, numa sociedade em que a comida no prato todos os dias é uma luta medonha, este marido já não desempenhava as suas funções como deveria ser. Entenda-se aqui que estou falando da função de sustento da família, de provedor, que ao homem, em uma sociedade patriarcal, é inerente. A nossa heroína, portanto, achou por bem casar-se com outro para prover esta "lacuna" no seu casamento.
Segundo a reportagem, ambos maridos dão-se perfeitamente bem e têm um entendimento acertado. Ela visita cada um seguindo um calendário pré-estabelecido e cumpre as suas funções de esposa (sim, agora estou falando das funções que a sociedade patriarcal impõe à esposa).
Outro fato da reportagem: parece que a mulher é estéril, portanto, muito antes de contrair o segundo casamento, convenceu a sobrinha a tornar-se segunda esposa do marido (o primeiro), união que frutificou em 5 filhos. Portanto, o primeiro marido já possuía uma segunda esposa...
Mais: o segundo marido também tem uma segunda esposa, que visita regularmente.
Para um expectador de fora, isso poderia parecer uma grande suruba!!! Mas vamos prosseguir...
Em Moçambique, a poligamia é socialmente aceita. Por um lado pelo grande número de muçulmanos, por outro, porque as culturas tribais mais antigas também já aceitavam. Claro que a poligamia deriva do advento da sociedade patriarcal, onde ao homem é permitido ter tantas esposas quantas possa sustentar. Porque o homem DEVE sustentar a família.
Hoje em dia, o status de provedor único já não é mais masculino. As mulheres trabalham tanto quanto eles e, às vezes, até mais. Mas, infelizmente, os preconceitos machistas ainda prevalecem. Mesmo em uma sociedade um pouco mais atrasada na evolução social, as mulheres saem todos os dias de casa para providenciar o sustento dos filhos e, em muitos casos, dos maridos também.
Fiquei, sinceramente, chocada quando vi na reportagem que as autoridades (sim, as autoridades têm de lidar com este tipo de assunto por aqui) dizem-se "preocupadas" com a situação da poliandra de Caia, porque não é uma situação NORMAL. O próprio primeiro marido diz temer que a sua segunda esposa siga os passos da primeira... (ora, se ele pode, por que não ela???).
Ora!!! Analisemos, então, o caso..................
A mulher tem de se sustentar... o marido já não serve mais para o sustento, pelo contrário, está cego e agora quem tem de sustentá-lo é ela!!! A única obrigação de esposa que ela não cumpriu, dar-lhe os filhos, foi cumprida indiretamente pela sobrinha...
Mais: ela afirma que nunca pensou em separar-se do primeiro marido, pois sabe que ele é cego e precisa dela...
Será que estamos mesmo diante de um caso clássico de poliandria??? Penso que não...
Por um lado, a compaixão dela pelo marido que agora está incapacitado... por outro, a necessidade de ajuda no sustento. Ela diz que ama os dois. E eu acredito. Existem muitos tipos de amor.
Agora, dizer que é uma situação preocupante??? Acho que não. Em uma sociedade em que a sobrevivência é tão difícil, é mais um caso de adaptação. Evolução, lei do mais forte.
Darwin concordaria comigo....
Deixo para vocês as interpretações....
Quem quiser saber mais sobre poliandria, acesse a Wikipedia.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Sempre adolescente!!!
Sempre gostei de música velha... pelo menos muito mais velha do que eu...
Mas, no meu tempo (huahuahua!!! nunca pensei usar esta expressão!!!), esta música, apesar de "velha", tocava muito nas danceterias (discoteca para os portugueses, boate para os brasileiros) que eu frequentava.
Eu delirava! Até comprei o disco (vinil, sim, ainda sou desta época) para uma das "discos" porque eles não tinham a versão ao vivo.
É TALKING HEADS, numa performance ma-ra-vi-lho-sa do David Byrne! Esta é a música do filme "Stop Making Sense". Simplesmente de-ma-is!!!
Agora, para os brasileiros... o TALKING HEADS não lembra um pouquinho os TITÃS???
Curtam!!! PSYCHO KILLER!!!
I can’t seem to face up to the facts.
I’m tense and nervous and I... can’t relax.
I can’t sleep, cause my bed’s on fire.
Don’t touch me I’m a real live wire.
Psycho Killer
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run run away
OH OH OH
Psycho Killer
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run run away
OH OH OH
AY AY AY AY AY WOO
You start a conversation you can't even finish it.
You're talking a lot, but you're not saying anything.
When I have nothing to say, my lips are sealed.
Say something once, why say it again?
Psycho Killer,
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run away
OH OH OH
Psycho Killer
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run away
OH OH OH OH
AY AY AY AY
Ce que j'ai fait, ce soir-là [What I did that night]
Ce qu'elle a dit, ce soir-là [What she said that night]
Réalisant mon espoir [Making my hope come true]
Je me lance vers la gloire ... okay [I hurl myself toward glory]
YA YA YA YA YA YA YA YA YA YA YA
We are vain and we are blind
I hate people when they're not polite
Psycho Killer,
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run away
OH OH OH
Psycho Killer,
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run run away
OH OH OH OH
AY AY AY AY OOOH
Hey hey hey ha
Mas, no meu tempo (huahuahua!!! nunca pensei usar esta expressão!!!), esta música, apesar de "velha", tocava muito nas danceterias (discoteca para os portugueses, boate para os brasileiros) que eu frequentava.
Eu delirava! Até comprei o disco (vinil, sim, ainda sou desta época) para uma das "discos" porque eles não tinham a versão ao vivo.
É TALKING HEADS, numa performance ma-ra-vi-lho-sa do David Byrne! Esta é a música do filme "Stop Making Sense". Simplesmente de-ma-is!!!
Agora, para os brasileiros... o TALKING HEADS não lembra um pouquinho os TITÃS???
Curtam!!! PSYCHO KILLER!!!
I can’t seem to face up to the facts.
I’m tense and nervous and I... can’t relax.
I can’t sleep, cause my bed’s on fire.
Don’t touch me I’m a real live wire.
Psycho Killer
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run run away
OH OH OH
Psycho Killer
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run run away
OH OH OH
AY AY AY AY AY WOO
You start a conversation you can't even finish it.
You're talking a lot, but you're not saying anything.
When I have nothing to say, my lips are sealed.
Say something once, why say it again?
Psycho Killer,
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run away
OH OH OH
Psycho Killer
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run away
OH OH OH OH
AY AY AY AY
Ce que j'ai fait, ce soir-là [What I did that night]
Ce qu'elle a dit, ce soir-là [What she said that night]
Réalisant mon espoir [Making my hope come true]
Je me lance vers la gloire ... okay [I hurl myself toward glory]
YA YA YA YA YA YA YA YA YA YA YA
We are vain and we are blind
I hate people when they're not polite
Psycho Killer,
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run away
OH OH OH
Psycho Killer,
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run run away
OH OH OH OH
AY AY AY AY OOOH
Hey hey hey ha
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Sempre Florbela...
![]() |
| Imagem: http://www.ilustramos.blogspot.com/ Amo as pedras, os astros e o luar Que beija as ervas do atalho escuro Amo as águas de anil e o doce olhar Dos animais, divinamente puro Amo a hera, que entende a voz do muro E dos sapos, o brando tilintar De cristais que se afagam devagar E da minha charneca o rosto duro Amo todos os sonhos que se calam De corações que sentem e não falam Tudo o que é Infinito e pequenino! Asa que nos protege a todos nós! Soluço imenso, eterno, que é a voz Do nosso grande e mísero Destino!... |
terça-feira, 3 de agosto de 2010
A insólita história de João Madruga - Parte III
Passaram-se alguns meses e a vida em Macumba continuava no seu ritmo. João Madruga continuava com suas famosas festas, sempre a esbanjar dinheiro e sorrisos.
Num desses sábados, João acordou ainda com a escuridão a tomar conta da vila. Estranhou estar completamente desperto àquela hora e foi consultar o relógio. Nove horas da manhã! Como era possível ter dormido tanto, justamente em um dia tão especial como o sábado? Precisava arranjar-se rapidamente, afinal, em pouco tempo os convivas da festa estariam chegando e tinha muito que fazer antes disso.
No afã de apressar-se, esqueceu-se da escuridão. Só deu-se conta quando saiu para o pátio do sobrado. Uma neblina estranha encobria a claridade do sol e tornava o dia em noite. João Madruga já havia ouvido falar em neblinas assim espessas que aconteciam em certos lugares, mas isso nunca acontecera em Macumba. A névoa branca dava ao dia um ar de sobrenatural, de mau agouro. Um arrepio percorreu a espinha do Administrador. Alguma coisa muito ruim estava para acontecer...
Chamou pelos empregados. Nenhuma resposta. Nem os cães ladraram em resposta aos seus gritos. Silêncio absoluto. Apressou-se a entrar na casa e acordar as esposas e os filhos. Provavelmente, pensou ele, estes também haviam dormido demais por conta da falsa noite...
Mas ninguém estava em casa. O sobrado estava deserto. Nem família, nem empregados, nem os habituais primeiros convivas chegavam à casa.
Correu as ruas da vila, a tropeçar na escuridão. Chamou, gritou, nenhuma resposta. A vila estava vazia. Nenhuma vida além da sua. Sentia no ar úmido um cheiro pestilento, de podridão. O odor e o nervosismo fizeram-no vomitar.
Quando conseguiu recompor-se minimamente, olhou em volta e já não conseguia mais distinguir as construções, nem as árvores, nem coisa alguma. A neblina parecia ter engolido tudo. Correu em direcção ao rio para lavar o rosto, mas no lugar do rio encontrou um buraco lamacento cheio de peixes mortos a apodrecer.
Paralisou-se na margem do rio a fitar o nada. Estava sem acção, sem saber o que fazer. Subitamente, sentiu uma rajada de vento muito forte que o fez desequilibrar e cair no leito morto do rio. A lama era pegajosa e profunda e Madruga foi-se afundando. quanto mais se movia, mais a lama o puxava para baixo. Conformou-se com a sua sorte e deixou-se ser sugado para o fundo da lama. Fechou os olhos, lembrou-se da boa vida que tinha e entregou-se ao seu fatídico destino. Morreria sem saber o motivo daquela desolação...
terça-feira, 27 de julho de 2010
CHEGA, BASTA, ACABOU!!!
Gente...
Hoje não há texto bonito nem palavras rebuscadas...
Recebi este e-mail, com estas fotos:
Hoje não há texto bonito nem palavras rebuscadas...
Recebi este e-mail, com estas fotos:
Sim, foi um muçulmano que enviou-me estas fotos...
Mas também recebo sempre e-mails de cristãos mostrando os "horrores" que os muçulmanos fazem.
Está na hora de parar com esta briga I D I O T A ! ! !
Deus, Allá, Jeová, Luz, Ser Superior, Mestre ou seja lá qual for o nome do nosso Pai, está dentro de nós e é Ú N I C O !
Com tanta porcaria (para não dizer merda) que está acontecendo no mundo, tantas catástrofes - enchentes, terremotos, tsunamis, maremotos, furacões, etc., etc., etc., etc., etc., - será que ninguém se dá conta de que todos, independentemente de religião, sofrem igualmente???
Podem me chamar de maluca, mas tenho certeza de que, se houvesse mais compreensão, amor e paz neste nosso planetinha tão maltratado, ele não reagiria tão mal e nos pouparia de tanta dor!!!
Então, muçulmanos, cristãos, budistas, testemunhas de Jeová, hindus, judeus e todos os outros que acreditam em Deus, por favor, por amor!!! Parem com esta briga imbecil!!!
E tenho dito!!! Humpf!!!
P.S. Isto depois de ficar mais de uma semana sem Internet... Nos próximos dias, atualizações super atuais no Devezenquandário!!!
Muitos beijos, muito amor e muita paz a todos!!!
terça-feira, 22 de junho de 2010
Da série "Livros"
Moça lendo com o cão
(Charles Burton Barber)
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso,
nem porto,
alimentam-se um instante em cada
par de mãos
e partem.
E olhas, então, estas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
(Mário Quintana)
segunda-feira, 21 de junho de 2010
A insólita história de João Madruga - Parte II
Foi num desses sábados de festa que um conhecido deu-lhe a notícia: a oposição havia tomado de golpe o governo. Os líderes do Partido estavam todos presos ou executados a tiros de fuzil.
João Madruga não tomou a notícia em conta. Havia sempre alguma confusão na capital, mas o Partido sempre as sufocara antes que se espalhassem pelo interior. Além do mais, aquela sua vila era tão longe de tudo que, se realmente o Partido tivesse caído, o novo regime nunca se lembraria de bulir por ali.
Macumba era uma vila simpática, de ruas largas ladeadas de simpáticos sobrados, todos construídos pelo antigo regime. As árvores frutíferas cresciam ordenadamente ao longo das avenidas e, na época da floração, davam à cidade um ar bucólico que chegava a dar a impressão de pertencer a outro mundo.
A economia era praticamente auto-sustentada. Pescava-se, plantava-se e, o que não podia ser produzido ou obtido do local, era trazido por um caminhão que visitava a loja do indiano Salim de seis em seis meses. Quando a encomenda chegava, o empório de Salim ficava abarrotado de gente que disputava panelas de alumínio, bacias de plástico e tecidos. O movimento durava quase um mês, depois diminuía como o estoque da loja.
Os habitantes da vila de Macumba empenhavam-se em manter o isolamento do resto do mundo. Quando chegavam notícias de fora, eram trazidas pelos raros visitantes ou pelo motorista do carro dos correios que, mensalmente, trazia alguma pouca correspondência, geralmente oficial ou relativa aos movimentos do posto bancário da vila.
O único telefone estava na Repartição dirigida por Madruga, mas havia avariado há tanto tempo que ninguém mais lembrava-se dele. Até porque ninguém tinha necessidade de falar com o exterior. Os parentes estavam todos ali na vila, quem nascia em Macumba morria em Macumba. Enfim, a vila de Madruga era tão isolada que em muitos lugares do país ninguém sabia da sua existência.
Por isso, o administrador da Repartição não se preocupava com as recentes notícias. De certeza que havia alguma luta para os lados da capital, mas seria abafada pelo Partido muito antes de os rebeldes lembrarem-se de chegar a Macumba.
João Madruga não tomou a notícia em conta. Havia sempre alguma confusão na capital, mas o Partido sempre as sufocara antes que se espalhassem pelo interior. Além do mais, aquela sua vila era tão longe de tudo que, se realmente o Partido tivesse caído, o novo regime nunca se lembraria de bulir por ali.
Macumba era uma vila simpática, de ruas largas ladeadas de simpáticos sobrados, todos construídos pelo antigo regime. As árvores frutíferas cresciam ordenadamente ao longo das avenidas e, na época da floração, davam à cidade um ar bucólico que chegava a dar a impressão de pertencer a outro mundo.
A economia era praticamente auto-sustentada. Pescava-se, plantava-se e, o que não podia ser produzido ou obtido do local, era trazido por um caminhão que visitava a loja do indiano Salim de seis em seis meses. Quando a encomenda chegava, o empório de Salim ficava abarrotado de gente que disputava panelas de alumínio, bacias de plástico e tecidos. O movimento durava quase um mês, depois diminuía como o estoque da loja.
Os habitantes da vila de Macumba empenhavam-se em manter o isolamento do resto do mundo. Quando chegavam notícias de fora, eram trazidas pelos raros visitantes ou pelo motorista do carro dos correios que, mensalmente, trazia alguma pouca correspondência, geralmente oficial ou relativa aos movimentos do posto bancário da vila.
O único telefone estava na Repartição dirigida por Madruga, mas havia avariado há tanto tempo que ninguém mais lembrava-se dele. Até porque ninguém tinha necessidade de falar com o exterior. Os parentes estavam todos ali na vila, quem nascia em Macumba morria em Macumba. Enfim, a vila de Madruga era tão isolada que em muitos lugares do país ninguém sabia da sua existência.
Por isso, o administrador da Repartição não se preocupava com as recentes notícias. De certeza que havia alguma luta para os lados da capital, mas seria abafada pelo Partido muito antes de os rebeldes lembrarem-se de chegar a Macumba.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Saramago voou
Hoje está nos jornais eletrônicos e circulando em todos os e-mails a notícia que amanhã chegará aos jornais de papel...
SARAMAGO MORREU!
Quando recebi a mensagem, a primeira reação foi ficar triste. Pensei logo em fazer esta postagem e fui procurar uma foto que simbolizasse o luto para ilustrar este meu pobre comentário.
Depois desisti... luto? Por quê??? Saramago é imortal! Assim como Joyce, Shakespeare, Dante, Camões e tantos outros. Quem nos dá páginas tão irresistíveis e perturbadoras nunca morre.
Esta é a vantagem dos grandes escritores. Com a sua morte física, são mais e mais lidos. E a cada novo leitor ou re-leitor o escritor fica mais vivo, mais presente. É como se sua alma se transportasse para as páginas dos livros. E o escritor transmuta-se, desdobra-se, multiplica-se, até que já não pode mais ser ignorado mesmo por aqueles que nunca o leram ou mesmo nunca gostaram de suas obras.
Ora... quantos leram Shakespeare? Mas quantos sabem quem ele é???
Então afirmo: não há luto na morte de Saramago. Há regozijo! Regozijo pelo seu legado, pela beleza de suas páginas, que ele ofereceu tão polemicamente à toda a humanidade.
Neste momento, consigo lembrar-me de uma citação que penso ser uma das mais marcantes da obra de Saramago:
"Não me acuse o leitor de obscurantista. Tenho uma confiança danada no futuro e é para ele que as minhas mãos se estendem. Mas o passado está cheio de vozes que não se calam e ao lado de minha sombra há uma multidão infinita de quantos a justificam." (“Os Portões que dão para onde?”, in A Bagagem do Viajante, Editorial Caminho, 6.ª ed., P. 84).
Pois é... ele agarrou o futuro com as duas mãos. As vozes do passado, que levantavam-se facilmente com críticas, agora, talvez, pensem duas vezes antes de manifestarem-se.
Afinal, Saramago voou, é imortal!!!
P.S. Quem quiser conferir a última postagem de Saramago em seu blogue, acesse Nem leis, nem justiça , postado por ele no último dia 13 de fevereiro.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
A insólita história de João Madruga - parte I
A insólita história de João Madruga
“A diferença entre a verdade e a ficção é que a ficção tem de fazer sentido.”
João Madruga gostava acima de tudo da vida que tinha. Vindo de origem humilde, conseguira uma boa posição no governo após a Revolução e, com esta posição, angariara alguns imóveis que alugava.
O salário que recebia e as rendas dos imóveis garantiam-lhe uma existência que considerava luxuosa.
Todas as sextas-feiras, mandava buscar ao bazar quatro dúzias de galinhas rechonchudas, daquelas com a gordura amarela. Suas três esposas coordenavam a matança, limpeza e tempero das aves, que ficavam em uma enorme geleira comprada somente para este fim.
No sábado de manhã, João Madruga acordava com o sol e punha-se a coordenar a preparação das churrasqueiras para mais uma de suas famosas festas.
As grades de cerveja e refrigerante chegavam com os primeiros convidados. Aliás, “convidados” é uma maneira de dizer, porque as festas no sobrado do Madruga eram tão famosas que as pessoas iam chegando assim, mesmo sem convite. O verdadeiro chamariz era o aroma da galinha assada e o ritmo da música, sentidos a grande distância.
João Madruga recebia a todos com seu sorriso largo de poucos dentes. Desde parentes chegados até desconhecidos. Todos eram bem-vindos. O anfitrião regozijava-se em dividir com todos a sua prosperidade e, é claro, mostrar sua superioridade.
As festas viravam o sábado e terminavam nas últimas horas do domingo. Se o número de convidados era superior ao esperado, Madruga mandava buscar mais suprimentos ao bazar ou à distribuidora de bebidas. Pagava tudo na segunda-feira, pontualmente, e era considerado o melhor cliente dos estabelecimentos da cidade.
Durante a semana, Madruga dividia seu tempo entre os encontros nos cafés, as visitas às amantes e algumas poucas horas a marcar presença na Administração da Vila, afinal, se o administrador não aparece para trabalhar, ninguém trabalha também.
A vida, afinal, não podia ser melhor.
Só temia e respeitava o Partido. Afinal, fora graças a esta instituição que deixara para trás a vida de privações. Realmente valera à pena pegar em armas e lutar pela Revolução.
Mas tudo o que sobe, um dia desce...
Iniciação - meu primeiro conto
Olá a todos!
A próxima postagem é a primeira parte de um conto que estou escrevendo. Ou escrevinhando, ou rabiscando, se preferirem...
Como é a primeira versão, estou à espera de críticas! Como todos sabem, de escritora não tenho nada, mas de metida tenho tudo.
O conto chama-se "A insólita história de João Madruga" e baseia-se em uma história que ouvi no salão de cabeleireiro. Afinal, quem disse que as fofocas não rendem nada??? Conta a vida de um homem que subiu e depois desceu. Os detalhes, acompanhem aqui, no Devezenquandário.
Espero que gostem mas, se não gostarem, por favor digam, ok?
Fui!
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Quintana 4ever!!!
A RUA DOS CATAVENTOS
VI
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.
Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola...
Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.
Ele trabalha silenciosamente
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente...
terça-feira, 6 de abril de 2010
Da série "Livros"
(O Livro-Árvore - Salvador Dali)
Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro.
(Henry David Thoreau )
"Homo homini lupus"??? Nãããããooooo!!!!
Ontem no início da tarde, quando cheguei à minha loja, encontrei um bilhete de identidade colocado entre as grades da entrada. Imaginei logo que alguém o tivesse encontrado por ali e o tivesse deixado à vista para quem o perdeu, se voltasse a procurá-lo, encontrasse com facilidade.
Temendo que o tal bilhete de identidade tomasse outros rumos que não fosse voltar para o seu proprietário, pedi ao meu funcionário que o entregasse na esquadra de polícia que fica perto da loja.
Meu funcionário respondeu logo que não, que se entregasse o bilhete de identidade na esquadra poderia ter problemas, pois aquele documento poderia ser de alguém que foi agredido e a polícia poderia pensar que ele havia sido o agressor. Eu tive de insistir para que ele fosse até lá. Ele acabou por concordar, mas contrariado.
Afinal, ele entregou o documento na esquadra e não lhe aconteceu nada.
Depois fiquei pensando... o que leva uma pessoa a temer fazer o que é correcto? Será que a nossa sociedade está tão viciada e tão desconfiada que mesmo um acto de solidariedade e nobreza pode ser interpretado como algo ruim?
Já ouvi em algum lugar que o ser humano é desconfiado e mau por natureza. “Homo homini lupus” (em latim, alguma coisa como “o homem é o lobo do próprio homem”), aprendi com Thomas Hobbes. Mas não concordo de maneira alguma com esta afirmação. Vejo que a humanidade é boa e nobre, que os homens têm atitudes de solidariedade e piedade para com os seus próximos todos os dias.
Quantas pessoas deixam a sua terra natal, sua casa, pais, amigos, para passarem por dificuldades e perigos somente para ajudar? Quantos voluntários padecem somente porque sentem a necessidade de atenuar a dor dos que sofrem demais?
No nosso dia-a-dia também encontramos pessoas assim. Pessoas que se preocupam com a miséria à sua volta. Pessoas anónimas que com um olhar, um pedaço de pão, uma mão amiga atenuam o sofrimento de outros.
E não estou a falar de Madres Teresas, Gandhis, Dianas... estou a falar de pessoas comuns, que acordam todos os dias e vão batalhar pela vida, trabalham de sol a sol, têm problemas e sofrem e, mesmo assim, encontram um tempo e um espaço no coração para os mais necessitados.
Mas muitos de vocês devem estar a dizer: “ah! Esqueces-te dos bárbaros que assassinam e fazem horrores todos os dias? Esqueces-te das guerras implacáveis que só servem para fazer sofrer inocentes? Esqueces-te dos mesquinhos?”.
E eu respondo: “Não, não esqueço-me.”
Estes mesquinhos e bárbaros também são coitados. E são os maiores coitados. Não merecem o nosso ódio, porque o ser humano não foi feito para odiar. Merecem a nossa compaixão, a nossa piedade, porque são almas perdidas que nunca conheceram o amor, nunca souberam o que é um abraço reconfortante, nunca sentiram seu coração aquecido pelo amor. Enfim, não são seres humanos. Porque os seres humanos não são lobos. Os seres humanos são coração, amor.
Continuemos sendo seres humanos, amando, ajudando, consolando. Que todos nós nunca esqueçamos da nossa essência pacífica e amorosa.
E, principalmente, que nunca tenhamos medo de fazer o que é certo.
Ah! E uma observação, para ilustrar e esclarecer o título deste escrevinhamento...
Os lobos não são maus. Nenhum animal é mau. Atacam para se defender. São assustadiços. Como os humanos...
sexta-feira, 26 de março de 2010
quinta-feira, 25 de março de 2010
Sobre as guerras (ditas) religiosas
Está publicado no Diário de Moçambique de hoje este belo texto sobre este assunto tão pavoroso.
Faço questão de dividir com todos. Apesar do assunto ser pavoroso, tem sempre de ser lembrado para que estas atrocidades deixem de acontecer.
Aqui, no Devezenquandário, há um outro texto, meu, sobre este mesmo assunto: Guerras Religiosas, Guerras Mentirosas, se quiserem acessar.
(Imagem do documentário "The Other Side of the Country", de Catherine Hébert)
Guerra, paz e religião
Por P. Manuel Ferreira
Os romanos definiam a paz como tranquilitas ordinis, tranquilidade da ordem ou na ordem. Onde não há paz, há uma forma de guerra. E, a partir daquela definição, podem ser três essas formas: a tranquilidade na desordem, a intranquilidade na ordem, e a intranquilidade na desordem. A guerra é sempre uma desarmonia dolorosa e sangrenta, nas relações humanas: entre indivíduos, entre famílias, entre tribos, entre nações, entre blocos, entre inteiros continentes.
Toda a pessoa tem, lá bem dentro, uma aspiração fundamental de tranquilidade e de ordem. Ninguém gosta da desordem ou da intranquilidade. Quando gostar, é porque as vê e define como o contrário delas. Ninguém vê na guerra um bem. Poderá ver um mal menor e necessário. Só se recorre à guerra, quando se esgotam todos os outros meios de chegar à ordem da justiça e da dignidade humana.
A guerra sempre teve uma causa, com a pretensão de a justificar. Quem a provoca e promove usa-a como meio de defender determinados valores considerados intocáveis, ou de conseguir determinados interesses: econômicos, políticos, sociais.
Ao falarmos de guerra religiosa, seria mais exacto falar de uma guerra entre pessoas que seguem uma religião, e que a usam como pretexto, como bandeira, e até como máscara. Muitas vezes, o motivo decisivo e principal delas não é o religioso. É antes o interesse social, económico ou outro. A guerra sangrenta na Nigéria é religiosa, por ser entre cristãos e muçulmanos. Mas a motivação principal não é a religião. Será talvez a questão tribal, a questão económica, a questão territorial. Na guerra cruel no Uganda, o Exército do Senhor comete, todos os dias, as maiores atrocidades contra inocentes. Exército do Senhor significa mesmo exército de Deus. Esta guerra só é religiosa porque se instrumentaliza a religião, para justificar as maiores desumanidades. São pessoas religiosas a matar-se, não por causa da religião, mas apesar da religião.
Na Idade Média, ficaram tristemente famosas as cruzadas, as guerras entre cristãos e muçulmanos. Os cristãos pensavam prestar culto a Deus, matando os muçulmanos. E nos muçulmanos pensavam prestar culto a Allá, matando esses infiéis, que eram os cristãos. Tanto uns como outros combatiam até à morte, e pensavam cumprir um dever religioso. Quando agora analisamos estas guerras "santas", espanta-nos como é que uns e outros não viram a corrupção da religião que elas significavam. São bem conhecidas as causas sociais, políticas e económicas, além do obscurantismo e do esquecimento dos valores essenciais, que todas as religiões ensinam.
A guerra é tanto mais cruel, quanto mais indiscutíveis se consideram os valores pelos quais os homens se batem. A religião, a política, o amor, o futebol, são desses valores, que mais profundamente apaixonam o coração humano. E quanto o coração se apaixona e descontrola, acaba por trocar os nomes às realidaes, e de pesar e medir tudo com pesos e medidas alterados.
Atente-se na área semântica da guerra: batalha, combate, luta, pugna, agonia. Luta pela vida... a vida é uma luta... Luta armada... quem perde uma batalha ainda não perdeu a guerra.
Finalmente, um texto sugestivo, de São Tiago: "De onde vêm as guerras? De onde vêm as lutas entre vós? Não vêm dos prazeres, que guerreiam nos vossos membros? Cobiçais, mas não tendes. Matais e buscais, com avidez, mas nada conseguis obter. Entregai-vos à luta e à guerra. E com tudo isto, nada possuís."
Livros
Hoje recebi um e-mail lindíssimo de um grande amigo.
Gostaria de compartilhar com todos vocês. É uma série de citações sobre este nosso companheiro de vida, o livro.
Vai a primeira, espero que gostem!
Gostaria de compartilhar com todos vocês. É uma série de citações sobre este nosso companheiro de vida, o livro.
Vai a primeira, espero que gostem!
"Sempre que se conta um conto de fadas, a noite vem."
(Clarissa Pinkola Estés)
E, claro, um P.S. da Aline...
Lembram quando estávamos quase a dormir e um dos nossos pais nos lia uma história ou simplesmente contava uma inventada?
Lembram como sonhávamos depois com aquela história?
Fiquem com esta lembrança boa!!!
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Preservação da espécie humana
Quando estava grávida, li em algum lugar que aquele sentimento de amor e carinho que sentimos quando vemos uma criança faz parte do nosso instinto de preservação da espécie, é fisiológico e não psicológico. Quem não tem estes sentimentos provavelmente tem alguma falha genética.
Mas isso fez-me pensar... Será que a humanidade está passando por alguma mutação genética quase geral? Porque cada vez mais vemos crianças maltratadas e ignoradas.
Onde está o nosso instinto de preservação? E não falo aqui somente da procriação, mas também da preservação da espécie humana pelo que a caracteriza, ou seja, o que chamamos humanidade.
O conceito desta palavra – humanidade – tem a ver com preocupação, sentimento, caridade. Afinal, o que nos diferencia (pelo menos teoricamente) dos outros animais é justamente a capacidade de raciocinar e de amar.
Infelizmente, tenho visto muitos animais ditos irracionais mais humanos do que os próprios humanos. Eles praticam a caridade e o amor ao próximo, cuidam e protegem os seus.
Se a coisa continuar assim, vamos ter de reescrever os dicionários. A palavra humano terá de ser riscada deles ou, quem sabe, corrigida. Terá de passar a significar qualquer animal que consiga amar.
Neste sábado estive em um lugar muito triste. Chama-se Centro de Acomodação Santos Inocentes. É um orfanato, recheado de crianças que, apesar do abandono e da pobreza extrema, não perderam a capacidade de amar. Mas porque ainda amam, sentem a necessidade de amor.
Estava a brincar com alguns meninos quando senti uma mãozinha pequenina pegar na minha mão. Olhei para baixo e vi um menino dos seus quatro ou cinco anos, com o narizinho escorrendo, a fitar-me com uns olhos que cabiam o mundo. Abaixei-me e perguntei-lhe o nome. Ele não respondeu. Limitou-se a fixar o seu olhar no meu e eu, naquele momento, soube tudo o que ele queria dizer. Afinal, só queria que eu lhe pegasse na mão, somente um pouquinho de carinho, de amor de mãe.
Quando estava indo-me embora, reparei neste mesmo menino ao longe, sem roupas, a tentar vestir-se sozinho. Corri para ajudá-lo e, surpresa, era uma menina. Quando peguei no macacãozinho para vestir-lhe, reparei que estava sujo, ela havia feito coco. Sem supervisão, tentou resolver o problema sozinha.
Peguei-a pela mão e levei-a até onde estavam algumas mulheres responsáveis pelo lar. Elas chamaram-na pelo nome – Sofia - e tomaram conta dela.
Fui-me embora, mas meu coração ficou lá naquele lugar. À noite, não conseguia parar de pensar em como estaria a Sofia. Tentei me tranquilizar, convencendo-me de que ela, afinal, não sentia falta de um aconchego antes de dormir, ou de uma cama limpinha só para ela porque nunca teve este tipo de coisa. Mas não adiantou... não consegui enganar-me! Qual é a criança, afinal, que não precisa de amor e carinho? Mesmo nunca tendo conhecido, seu coraçãozinho sente falta de calor.
Desespero-me, então. O que posso fazer? Não tenho como trazer a Sofia para minha casa e, se pudesse fazê-lo, quantas Sofias ainda estariam na mesma situação dela???
A Sofia, assim como o Jaimito, de quem vocês conheceram a história há algum tempo, são vítimas de algumas daquelas pessoas que estão sofrendo a tal mutação genética. Quem, neste mundo, pode abandonar à sua própria sorte um pequenino que precisa de cuidados e amor?
Meu pai, quando meu filho nasceu, comentou que o ser humano é o único animal que precisa de proteção na sua infância. Todos os outros animais tornam-se independentes quase logo que nascem. Alguns já começam a caminhar e a buscar alimento assim que nascem, outros precisam de supervisão, mas somente durante pouquíssimo tempo.
O ser humano não. Precisa da proteção e do amor – porque, como disse uma amiga nos sábado, amor de mãe ajuda a crescer – para desenvolver-se com saúde física e psicológica.
O que podemos, então, fazer para travar esta mutação genética da espécie humana??? E, urgentemente, salvar as vítimas desta doença terrível?
Abrir orfanatos é uma solução, mas é apenas o começo da solução. Estes locais têm de tornar-se verdadeiros lares para estas crianças, elas têm de sentir-se amadas e protegidas. Têm de crescer saudáveis e tornarem-se homens e mulheres aptos e capazes para enfrentar a vida aqui fora, que, todos nós sabemos, não é nada fácil. Estas crianças precisam, e continuo a me repetir, de amor, amor, amor, amor!!! Esta é a única cura para a tenebrosa mutação genética que a humanidade está sofrendo. Precisamos preocupar-nos muito mais com nossos pequenos, que, também, são nossos filhos, pois são filhos da humanidade, são da nossa espécie.
Abaixo, vocês verão algumas fotos do lugar onde a Sofia e muitos outros vivem. Quem quiser saber onde fica, é só perguntar pelo Lar Santos Inocentes, no bairro da Manga, na cidade da Beira.
Mas se não encontrar o Santos Inocentes, pode ir a qualquer orfanato que conheça, perto da sua casa. Não precisa levar presentes, leve apenas seu amor, um carinho, um abraço, um beijo. Fique algum tempo com as crianças, brinque e ouça suas histórias. Ou, simplesmente, olhe-as nos olhos.
Tenham todos um Natal iluminado, que sua família esteja unida e seus pequenos protegidos!
sábado, 28 de novembro de 2009
Os mitos do fim do mundo
Reproduzo aqui um texto que achei muito interessante.
O original está no site do Somos Todos Um
:: Graziella Marraccini ::
De vez em quando surgem boatos sobre o fim do mundo! Essas notícias aparecem a cada final de século (lembrem-se do ano 2000!) e agora estão circulando novamente por causa das profecias anunciadas no Calendário Maia. Com a facilidade de comunicação proporcionada pela Internet, as notícias se espalham como praga e a divulgação de mais um filme-catástrofe que anuncia 2012 como o Fim do Mundo, coloca lenha na fogueira, espalhando ainda mais o medo de que em 21 de dezembro de 2012 o mundo irá acabar numa série de super-catástrofes sucessivas! Recebo todos os dias e-mails de internautas que me pedem explicações e esclarecimentos.
Não tenho ainda muitos elementos sobre o assunto, pois 2012 me parece ainda longe de minha realidade. Além disso, eu sou o tipo de pessoa que caminha pela Senda Pessoal, observando o hoje, o aqui e agora, para não deixar que as coisas boas que eu posso aproveitar neste momento sejam estragadas definitivamente por pensamentos negativos gerados pela visão de um horizonte negro que ainda não chegou! Não quero dizer, com isso, que não esteja atenta aos acontecimentos futuros, já que a astrologia é também uma arte de previsões e esse é meu oficio. E é por isso mesmo que não vejo nada de particularmente catastrófico no céu do ano de 2012!
Vamos analisar os fatos: primeiramente, o calendário Maia NÃO termina realmente em 2012! Essa civilização considerava este ano como um ponto importante e determinante que indicaria o fim de um ciclo e o início de outro, na evolução da humanidade. Os Maias registraram o tempo de forma precisa, como poucas culturas fizeram naquela época. Durante o apogeu do império Maia foi criado um calendário, chamado de Grande Contagem. Este calendário iniciava sua contagem do tempo em 11 de agosto do ano 3.114 antes de Cristo. Esta data foi considerada o 'Ano Zero' desta era. Este calendário circular que parece um disco de pedra é encontrado nas casas esotéricas, pelo menos em suas inúmeras reproduções. Bem, segundo este calendário, no momento em que acontece o Solstício de Inverno do ano 2012, terminaria a primeira grande contagem, ou seja, terminaria um ciclo de civilização e reiniciaria o ano zero de uma nova era.
O filme 2012 é mais uma façanha holywoodiana para assustar os incautos e ingênuos que se deixam influenciar facilmente, por causa de sua ignorância! No filme em questão, o 'deslocamento dos pólos' seria causa das grandes catástrofes que acabariam por deslocar as placas tectônicas dos continentes com conseqüências desastrosas. O derretimento das calotas polares está realmente acontecendo e este é um fato facilmente comprovado que requer medidas urgentes por parte dos governantes do planeta. O buraco de ozônio faz subir a temperatura que derrete o gelo polar e se o mar subir como está previsto, muitas cidades litorâneas e ilhas rasas irão realmente desaparecer. Esse fenômeno se acentuou consideravelmente por causa da poluição causada pela industrialização dos países 'civilizados'. É verdade também que alguns cientistas afirmam que está ocorrendo um 'rearranjo' das placas tectônicas, e que esse fenômeno causa terremotos e tsunamis, mas isto já não aconteceu inúmeras vezes ao longo da história da humanidade? Por que desta vez isto seria muito pior? Acontecerá, então, o Big One, o grande terremoto que irá destruir a costa oeste dos Estados Unidos? Acontecerão outros tsunamis ainda mais destruidores? Não há como prever com exatidão.
Além disso, é previsto um estranho alinhamento planetário ou 'alinhamento galáctico' que acontecerá pela primeira vez em 26.000 anos. O trajeto do Sol, naquele momento indicado pelo calendário, cruzará um ponto que, visto da Terra, parece ser o ponto central de nossa galáxia, localizado na Via Láctea, entre o signo de Sagitário e o Signo de Escorpião.
Nenhum astrônomo prevê este alinhamento galáctico especial já que este 'ingresso do Sol em Escorpião' acontece todos os anos, e não tem nenhum interesse para a astronomia. Somente a astrologia se interessa por esses fenômenos. Somente a astrologia faz uma analogia entre um eclipse solar ou lunar e uma eventual catástrofe!
Para os astrônomos, essas analogias não existem e são consideradas superstições dos povos antigos. Lembrem que o próprio Natal, que festeja o nascimento de Jesus, é uma festa ligada às antigas festas pagãs do Ingresso do Sol em Capricórnio. Existem alguns artigos a este respeito já publicados no nosso site em anos passados.
Os próprios Reis Magos, segundo a astrologia, eram astrólogos que buscaram o nascimento de um Rei por causa de um alinhamento planetário entre Júpiter e Saturno! Se eles fossem astrônomos, não iriam encontrar Jesus!
De qualquer maneira, os estudiosos que se debruçam sobre os relatos deixados pelos Maias, deixam claro que não havia nestes escritos nenhuma previsão de que a humanidade se aproximaria de um 'fim de ciclo' neste período de 2012, e é isso que importa neste momento.
Se, astrologicamente, as eras precessionais se sobrepõem umas as outras, e a Era de Peixes está acabando para dar lugar a Era de Aquário, fato interpretado pelos astrólogos como sendo um período de 'fim de ciclo', então, as profecias Maias não seriam diferentes, não acham?
Em 2012, Urano estará iniciando um ciclo de 8 anos no signo de Áries e Netuno estará iniciando um ciclo de 12 anos no signo de Peixes. O Sol estará em conjunção com Plutão nos primeiros graus de Capricórnio. Esses planetas que são considerados pela astrologia 'planetas coletivos', indicam que estaremos enfrentando grandes modificações em todo o planeta: indicados pela natureza de cada planeta e de sua posição no 'pano de fundo' representado pelo signo zodiacal onde eles se encontram.
Do mesmo modo que estamos observando todos os dias uma maior intensidade dos fenômenos metereológicos, o aumento das inundações, (que podem ser atribuídos à conjunção entre Júpiter e Netuno), os tsunamis, os terremotos (oposição Urano/Saturno). O aumento da violência e a ausência de respeito às leis e a desordem social, são simplesmente conseqüências dos atos insensatos praticados por uma sociedade doente e pela irresponsabilidade dos governantes da maioria dos países de nosso planeta. A irresponsabilidade dos seres humanos é a causa de nossas desgraças! O mundo, desde que é mundo, sempre esteve em guerra! Sempre ocorreram catástrofes, pois a Terra, Gaia, esta nave-mãe que nos suporta, como um ser vivo e dinâmico, está dando demonstrações de cansaço e de intolerância! Do mesmo modo que nosso corpo acusa com dores e doenças os excessos de uma vida desregrada, a Terra também está dando seus recados: cabe a nós ouvi-los. E nem dá para 'praticar EFT*' na Terra....
Após essas considerações, repito que eu não creio no Fim do Mundo em 21-12-2012! Provavelmente, ainda estaremos festejando o Santo Natal no ocidente, num mundo melhor, se conseguirmos iniciar a caminhada de realinhamento energético necessário para salvar nosso planeta da destruição. Pior do que uma destruição rápida seria, então, uma deteriorização lenta, agonizante do planeta, não é mesmo?
A meu ver, em 2012, ainda teremos um céu azul sobre nossas cabeças para nos fazer sonhar, um mar azul profundo para mergulhar nosso corpo e nos refrescar, um campo verde para nos dar alimento e refrigério. Tudo depende de nós. Não podemos, portanto, deixar de fazer nossa parte, todos os dias, procurando desenvolver em nós mesmos a RESPONSABILIDADE SOCIAL.
Um povo que depreda os bens públicos, que maltrata suas crianças, que polui seus rios e mares, que exaure suas reservas, que não respeita os mais velhos e que não mantém suas tradições, não tem responsabilidade social!
Vamos acordar e nos dar as mãos: faça sua parte! Amar o planeta é amar a humanidade. Lembre-se das palavras de Jesus: "Ame ao próximo como a ti mesmo", esta é a mensagem da Era de Peixes, neste fim de ciclo.
sábado, 14 de novembro de 2009
Jaimito

Olá, sou o Jaimito. Com certeza tu já me conheces mas, infelizmente, não te lembras de mim porque, apesar de ter falado comigo muitas vezes, nunca prestaste atenção em mim.
Muitas vezes ajudei-te com as compras e outras muitas nem isto deixaste-me fazer, pois meu aspecto dava-te asco ou, pior, tinhas medo de que eu te roubasse.
E talvez até tivesses razão no teu medo. Sim, talvez eu te roubasse mesmo.
Aprendi, quando passei a maior parte dos meus 11 anos nas ruas da Beira, que roubar e mentir são garantias de sobrevivência. E sim, muitas vezes inventei sofrimentos falsos para apelar à tua consciência e ao teu bolso. O que não sabes é que talvez não suportes saber dos meus verdadeiros sofrimentos, que nem eu mesmo quero lembrar.
Prefiro afogá-los em ilusões transportadas pelo álcool que consigo comprar quando tu alivias tua consciência com alguns trocados.
Sei que não queres saber da minha história, mas hoje vais ter de ouvi-la. Pelo menos o que consigo contar...
Decerto fui amado por alguém, pois tenho nome. Ninguém dá nome a outra pessoa sem amá-lo. E este meu nome, no diminutivo, faz-me lembrar algum carinho. Se bem que também não sei direito o que é esse tal de carinho. É uma palavra bonita, que sempre vem junto com outras palavras como “abraço”, “afago”, “preocupação”, “beijo”. Isso, que me lembre, nunca tive. Quem sabe aquela pessoa que me deu o nome quisesse me ensinar o que é tudo isto, mas desconfio que seja a minha mãe e ela já não está mais por aqui.
Não tenho pai ou mãe. Vivi com um tio que dizia que meus pais haviam morrido. Este tio também morreu.
Desde então, apesar de ter algum lugar para ficar, na casa de alguma tia, preferi viver nas ruas. Durmo por aí e sempre consigo algum trocado para abrandar a fome.
A vida nas ruas não é muito fácil. Certa vez, numa brincadeira com meus amigos, fui queimado. Tenho cicatrizes horríveis nos pés, com a pele toda repuxada. Também tenho cicatrizes de cortes no rosto, resultado das agressões que sofri e das que tentei infligir.
Mas as piores cicatrizes estão na minha alma. No hospital, onde já sou velho conhecido, dizem que não tenho jeito. Sou um menino mal, violento, dado a acessos de raiva. Sempre que passo por lá amarram-me na cama e dão-me tranquilizantes. Por um lado é bom, tenho cama e comida por alguns dias, mas como tenho muito medo de tudo, sempre dou um jeito de fugir.
Já estive em um orfanato. Rendeu-me uma das cicatrizes no rosto, uma das grandes, acima do olho. Não conto como foi, só que foi.
Não, não tenham pena de mim! Não é por isso que conto esta história. Agora, neste preciso momento, não preciso de pena.
Estou internado na psiquiatria do Hospital Central, com cuidados. Precisarei da pena de vocês quando voltar às ruas. Precisarei que sintam pena de mim para darem-me os trocados de sempre.
Como vim parar ao hospital novamente? Conto já...
Consegui um dinheirinho, mas não conto como. Decida-se pela resposta mais lógica... alguém com a consciência muito pesada mesmo deu-me quinhentos meticais ou, talvez, eu tenha roubado de alguém sem consciência.
Outros que também andam pela rua souberam disso e tentaram tirar-me o dinheiro. Espancaram-me. Eu, como estava bêbado, não consegui reagir muito bem e desmaiei. Fiquei sem o dinheiro e todo machucado. Alguém que passava trouxe-me ao hospital e aqui estou.
Como sou homem, forte, não tive grandes lesões. Como dizia antes, as maiores cicatrizes estão na minha alma.
Uma senhora que eu costumo ajudar com as compras, tendo a consciência pesada, veio ajudar-me. Ficou comigo durante algum tempo e eu, penso que pela primeira vez em muito tempo, senti-me protegido. Segurou a minha mão enquanto eu tirava raio-x. E eu deixei-me chorar. Aquela sensação de proteção foi tão estranha que não sabia se gostava ou não. Mas chorei, apesar de saber que gente como eu não tem o direito de chorar.
Acho que estava assustado. Com o raio-x e com a proteção. Ela disse que iria ajudar-me. Saiu e voltou com um sumo, mas a enfermeira-chefe, já minha amiga e uma das minhas mães, uma alma iluminada, deu-me coisa melhor... Deu-me o seu almoço! Arroz de tomate e galinha. Sim, aqui no hospital há gente muito boa mesmo! Aproveitei para ser criança um pouquinho – lembram-se? Tenho onze anos! – e pedi àquela senhora da consciência pesada uma bicicleta.
Na verdade, queria ser como as outras crianças que vejo por aí. Ir à escola, brincar com os amigos, andar de bicicleta. Mas não tenho casa onde guardar a bicicleta, não tenho pais que me protejam quando eu estiver a andar de bicicleta e alguém quiser roubá-la. Acho que não posso mesmo ter uma bicicleta.
Do que eu preciso, tu deves estar te perguntando...
Eu acho que só preciso que continues com a tua consciência pesada e me dês os trocados de sempre.
Mas Deus sabe que eu preciso de amor, carinho e tratamentos. Tenho problemas psicológicos, sim. Às vezes sou agressivo, tenho acessos de raiva. Mas são as cicatrizes da minha alma que ardem e preciso fazer com que a dor desapareça.
Deus sabe que eu só preciso ser criança, com todos os direitos que cada criança tem.
Ah! Só para lembrar!!! Como eu, existem milhares por aí. Mas isso tu já sabes e te apavoras e dizes “Meu Deus!” cada vez que sabes de alguma barbaridade que aconteceu conosco. Abres a carteira, alivias tua consciência e segues em frente.
Nós, os Jaimitos da rua, continuamos aqui. Talvez seja uma maneira de Deus lembrar-te que a vida não é tão simples quanto pensas.
Agora despeço-me. Sem beijos nem abraços, porque, tenho certeza, não gostarias de me abraçar ou beijar.
Adeus, logo nos veremos, assim que eu sair do hospital e voltar para as ruas.
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Obs.: Esta foto não é do Jaimito, encontrei no Google, mas nem precisava... para conhecer o Jaimito, é só olhar para qualquer criança de rua que encontrares...
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