
Esta semana fui apresentada a uma mulher especial, a Rami. Moçambicana bonita, forte, de alma guerreira, mas que se julga feia, fraca e sem encantos.
Encontrei-a com o rosto manchado de lágrimas, a lamentar um amor perdido, a maldizer sua condição de mulher fraca, estéril de atributos para manter sua cama aquecida e sua honra feminina intacta.
Encontrando-se no fundo do poço do desespero, Rami encontra forças para cumprir o que julga ser sua obrigação, trazer seu marido de volta e salvar seu casamento. Assim, envolve-se em lutas corporais com suas rivais, procura ajuda de curandeiros e igrejas, cursos que ensinam o que é o amor. E, aos poucos, vai se descobrindo mulher.
Não conheço ainda o desenlace da história de minha amiga Rami, porque ela é de papel, protagonista do livro Niketche, escrito por outra mulher fantástica, essa de carne e osso, Paulina Chiziane.
Mas ser «de papel» não faz de Rami menos mulher. Ela é o espelho de muitas de nós, esposas conformadas por fora e desesperadas por dentro, que ainda não se descobriram mulheres. Aliás, o espelho de Rami é seu melhor companheiro, seu melhor amigo, que reflecte sua verdadeira imagem, da mulher bonita, forte e guerreira. Fala com ela e lhe diz verdades doídas, que calam na sua alma e vão trazendo de volta a força que vem da terra, da natureza, aquela força que está em todas nós mulheres, descendentes das míticas amazonas, filhas da Deusa e senhoras do mundo.
Nestes tempos, em que as livrarias estão abarrotadas de livros de auto-ajuda, a boa literatura continua a ser a verdadeira conselheira, a verdadeira amiga. E este novo livro da Paulina é leitura imprescindível a mulheres e homens. Às mulheres, por nos ajudar a lembrar de que barro somos feitas e aos homens para dissipar esta névoa em que os séculos patriarcais nos envolveram.