segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O Mundo


(um poema epicurista)




O que é o mundo e o seu brilho afamado?

O que é o mundo e todo o seu esplendor?

Uma aparência vil em espaço limitado,

Um breve raio na noite de céu ameaçador,

Um campo colorido onde verdejam cardos,

Um belo hospital onde a doença é astro,

Uma casa de escravos onde tudo são fardos,

Um túmulo já podre coberto de alabastro.


Nós, homens, construímos sobre um terreno assim,

E é a ele que a carne como um ídolo abraça.

Vem, alma, vem e ensina-nos o olhar sem fim

Para além do círculo que este mundo nos traça!

Liberta-te da tua mesquinha ostentação,

Vê como o seu prazer te faz pesada e presa:

E sem esforço darás com o cais da salvação

Onde a eternidade se casa com a beleza.



Christian Hofmann Von Hofmannswaldau (1617-169)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Frase do dia


«Não há talvez dias da nossa infância que tenhamos tão intensamente vivido como aqueles que julgamos passar sem tê-los vivido, aqueles que passamos com um livro preferido.»


Marcel Proust, in O Prazer da Leitura

A origem do Gaúcho

Quem são / somos nós

Por volta de 1580, os cavalos abandonados na região do Prata em 1536 tinham se multiplicado aos milhares. Tanto que, em 1600, não podiam mais ser mais contados em suas gigantescas manadas. Os Pampas do Rio Grande, Uruguai e Argentina estavam povoados de cavalos chimarrões (cimarrones) e o povo que vivia nessa região, unida pela semelhança ambiental, se tornou um povo cavaleiro.


A posterior introdução do gado chimarrão, que também tornou-se abundante e formou rebanhos de 40 milhões de cabeças (somando Rio Grande, Uruguai e Argentina), sedimenta esta cultura. A partir dali havia gado solto e sem dono em abundância para ser caçado com laço por aqueles que não queriam outra vida, com liberdade tão incomparável. O gado chimarrão era a base da alimentação e origem de produtos que seriam comercializados e/ou contrabandeados (na época, uma rebeldia contra os pesados impostos).


Mas na origem da formação do gaúcho devem ser lembrados os índios pampeanos (nossos charruas e minuanos), que logo se adaptaram magnificamente ao cavalo (por volta de 1607). Sua miscigenação com o europeu fundiu as culturas ibérica e americana, e gerou os mozos perdidos (homens que optaram pela vida no pampa), sendo seu primeiro registro em 1617, já com chiripá, poncho e bota de garrão de potro (tendo esta indumentária uma evolução gradual e natural até por volta de 1865, com a substituição do chiripá pela bombacha, se estabilizando relativamente até agora).


Índios, mozos perdidos, vagabundos do campo (1642), changadores (1700) e gaudérios foram os antecessores do gaúcho, de origem e comportamento bem semelhantes. Mas, afinal, em que momento começa a existir o gaúcho? É impossível passar a faca sobre este variado mosaico e separar as partes que em muitos momentos se sobrepõem. A palavra "gaúcho", entretanto, só aparece em crônicas de viajantes na América do Sul por volta de 1770. Demonstra uma nova adaptação, ou melhor, a culminação dos tipos anteriores, presente simultaneamente no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina.


O viajante francês Dreys, em observações entre 1817 e 1825 sobre o Rio Grande, assegura:"Todos os exercícios de manejo e picaria dos mestres de equitação da Europa são familiares ao gaúcho, e alguns dos exercícios mais difíceis são mesmo entre eles divertimentos de crianças."


Os hábitos dos antigos gaúchos, sejam eles alimentares, de vestuário, aperos e arreios dos cavalos, forma de domar cavalos, de laçar ou bolear, maneira figurada de falar, palavras utilizadas e música, entre outros, passam a ser assimilados pelas novas ondas de colonização açoriana (1752) que o continente de São Pedro do Rio Grande do Sul sofreu. A cultura de fora se rende à cultura local e adapta-se, transforma-se ou desaparece.


Neste período, muitos gaúchos eram vaqueanos (conhecem a região nos seus mais mínimos detalhes) e guiavam viajantes e exércitos pelo pampa. Outros tocavam infindáveis tropas de gado por léguas sem fim. Havia ainda os carreteiros, que transportavam produtos cortando a região de todas as maneiras. Os antigos e primeiros gaúchos nômades (injustamente chamados de ladrões no período do gado cimarrão, época de enfrentamento de forças pela posse do gado sem dono) trabalhavam sazonalmente em fazendas (eram pouco exigentes e pareciam se divertir no trabalho mais duro - eram exímios laçadores, boleadores, carneadores e artesões de produtosde couro necessários a montaria) e influenciavam de forma espantosa os filhos dos colonos da campanha ou povoados por onde passavam.


Os gaúchos influenciaram o comportamento de toda a região. Sessenta anos após a chegada dos açorianos, Saint-Hilaire anotou em seu diário que seus descendentes não queriam outro modo de vida, muitas vezes contrariando a vontade de seus pais. Todos queriam ser como os gaúchos. Nota-se traços deste fato mesmo na rígida colônia alemã já em 1858, anotado por Avé-Lallemant. Para ele, "esses alemães demonstram nos campo traços de gaucharia, que se destaca no manejo do laço, condução da tropa e pelo modo de montar e destaca alemães aparecerem montados a cavalo, com elegantes ponchos listrados". Quando o inglês Luccock esteve no Rio Grande em 1808, a região estava completamente acriollada (ou agauchada): todos andavam a cavalo na região, independente de serem índios, soldados, escravos, peões, estancieiros, comerciantes, viajantes ou crianças. Logo todos se transformariam num povo único: o gaúcho.


Em "Viagem ao Rio Grande do Sul", documento escrito em 1845 pelo belga A. Baguet, o autor fala de crianças com poucos anos cavalgando sem sela, a toda velocidade, descreve a forma como montam colocando o pé descalço no joelho do cavalo, a provação dos ventos da pradaria, a lealdade nas guerras, o costume da hospitalidade mesmo entre os mais pobres, a confiança humana nos vaqueanos, os principais costumes (o mate e suas propriedades e o churrasco), a exibição dos arreios com prata (feita até pelos vaqueanos mais simples), o impacto da imagem do pampa e a habilidade do gaúcho nas boleadeiras e no cavalo. Menciona à exaustão, com preciosas descrições, a habilidade do gaúcho com o cavalo, o qual considera o melhor cavaleiro do mundo junto aos índios.


Vejamos algumas observações de Dreys (1817-1825) sobre os rio-grandenses:


" Independente dessas armas comuns aos militares, o rio-grandense traz consigo duas armas auxiliares peculiares, que somente os homens desta parte da América sabem manejar com habilidade: queremos falar do laço e das boleadeiras. Tem o rio-grandense contraído uma espécie de aliança com o cavalo, em virtude da qual é feito auxiliar indispensável da vida do homem, o cooperador assíduo de quase todos os seus movimentos. O rio-grandense folga em percorrer suas imensas planícies a cavalo. (...) A predileção que manifesta por seu cavalo não se contenta a admiti-lo como companheiro inseparável; ele se ocupa também em adorná-lo (...). "


"Nas guerrilhas do Rio Grande empregadas contra o estrangeiro, adquiriram uma reputação de firmeza e de coragem que o inimigo não desconheceu. A coragem do rio-grandense é fria e perseverante(...). "


Fazendo um parênteses, é bom lembrar que os gaúchos (considerando além do Rio Grande, os gaúchos do Uruguai e Argentina) foram a base utilizada na guerra em seus respectivos países, os quais lhes devem seja a independência, seja a manutenção das fronteiras - por exemplo: sem os gaúchos, basicamente rio-grandenses, Rosas, na Argentina, não teria caído). No Brasil o caso é exemplar: quem manteve as fronteiras ou lutou nas guerras foram os homens deste Estado, mesmo que os livros de história não lembrem disso.


Sobre a honra dos rio-grandenses, Dreys afirmou que "Sua palavra é inviolável".


Vários comentaram sobre a hospitalidade do rio-grandense/gaúcho, entre os quais Arsène Isabelle (1833):


"A hospitalidade é ainda, entre a maioria, uma virtude que se pratica com generosidade. "


No seu comportamento, o gaúcho antigo e o acriollado tinham respeito para quem os tratavam de forma gentil, tinham uma base ética (mesmo que rudimentar), eram impetuosos e peleadores (quando necessário), tinham certa atração pela guerra (desde que seja a cavalo - jamais à pé), atração pela montaria (que se manifesta em muitos enfeites, até de prata) e tradição, seja na indumentária, seja na forma de arrear os cavalos.


A maneira de falar do gaúcho antigo chegou de forma impressionante até nossos dias. Mesmo nos maiores centros urbanos do Estado, dezenas de palavras oriundas da lida campeira continuam sendo usadas com significado paralelo ao original (apesar de que a quase totalidade das pessoas que as utilizam desconheçam esta origem).


Também chegaram até nossos dias a música, os payadores e a poesia gaúcha (culta sim, mas derivada do canto homens do campo do passado). Simões Lopes Neto no seu Cancioneiro Guasca, antologia da música popular gaúcha do passado, mostra a atenção que os habitantes do interior tinham pelo gaúcho. Muitas pessoas do interior, ainda hoje ligadas diretamente ou indiretamente ao campo, compõem músicas e fazem poesias e trovas a maneira (ou lembrando a vida) do gaúcho. Centenas de músicos de qualidade compõem letras e músicas campeiras (nem sempre com apoio da mídia local). Festas que lembram as habilidades do gaúcho (doma e laço, principalmente) são atração sempre que acontecem, mesmo nas zonas mais metropolitanas. Pesquisadores como Paixão Côrtes e Barbosa Lessa conseguiram recuperar muito da dança gaúcha.


Chegou também uma espécie de reminiscência da campanha e um sentimento de épico. Venera-se a planície. A base do comportamento do gaúcho (seu ethos) de forma geral chegou até os dias de hoje e influencia. Isto é um fato, pelo menos até 20 ou 30 anos atrás. Entretanto, a massificação proporcionada pela televisão e globalização (além de um antigo preconceito local à influencia gaúcha) ameaçam esta antiga homogeneidade de povo. O "ser gaúcho", ou seja, a manutenção de características mínimas de identificação, tais como gosto pela música nativa, pela literatura regional ou manutenção do comportamental básico (combatividade era uma das características) passa a ser visto por intelectuais (rio-grandenses, pasmem!) como "negativa" e atrasada. Estes intelectuais, com marcada visão etnocêntrica, não consideram que expressam seu modo urbano (ou globalizado?) de ver. Contraditoriamente, estes mesmos intelectuais concordam que devem ser respeitada as culturas regionais de outros locais.


No mundo inteiro, incluindo sobremaneira a Europa e os Estados Unidos, festas regionais reforçam suas certezas sobre suas origens, como comportar-se frente às adversidades e planejar o futuro. Saberem quem são. Este é o sentido de conhecer o passado, afinal "É tão grave esquecer-se no passado como esquecer o passado. Nos dois casos desaparece a possibilidade de história".


Evaldo Muñoz Braz

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Vocabulário gaúcho

Como toda a região, o Rio Grande do Sul tem um vocabulário próprio, com seus regionalismos muito característicos.

A diferença do "dialeto" gaúcho é tão grande em relação ao restante da língua portuguesa que já existem vários dicionários publicados. Vejam alguns exemplos:


Abichornado: Aborrecido, triste, desanimado.
Abrir cancha: Abrir espaço para alguém passar.
A cabresto: Conduzido pelo cabresto; submetido.
Achego: Amparo, encosto, proteção.
Acolherar: Unir dois animais por meio de uma pequena guasca amarrada ao pescoço; Unir, juntar, com relação a pessoas.
Afeitar: Cortar a barba.
Água-Benta: Cachaça, destinada a ser bebida ocultamente.
A laço e espora: Com muita dificuldade, com muito esforço, vencendo grandes obstáculos.
A la cria!: Ao Deus-dará, à aventura. Foi-se a la cria, significa foi-se embora, foi-se ao Deus-dará, caiu no mundo.
A la pucha!: Exprime admiração, espanto.
À meia guampa: Meio embriagado, levemente ébrio.
Aporreado: Cavalo mal domado, indomável, que não se deixa amansar. Aplica-se, também ao homem rebelde.
Arapuca: Armadilha para pegar passarinhos; trapaça.
Arrastar a asa: Paquerar.

Bagual: Cavalo manso que se tornou selvagem.
Bicheira: Ferida nos animais, contendo vermes depositados pelas moscas varejeiras. Para sua cura, além de medicação, são largamente utilizadas as simpatias e benzeduras.
Biriva: Nome dado aos habitantes de Cima da Serra, descendentes de bandeirantes, ou aos tropeiros paulistas, os quais geralmente andavam em mulas e tinham um sotaque especial diferente do da fronteira ou da região baixa do Estado. Var.: beriva, beriba, biriba.
Bóia: Comida
Bolicho: Casa de negócios de pequeno sortimento e de pouca importância. Bodega. Venda. Bolicheiro: Dono de bolicho.
Braça-de-Sesmaria: Media antiga, de superfície, usada no Rio Grande do Sul. A braça-de-sesmaria mede 2,20 m por 6.600 m ou seja 14.520 metros quadrados.
Buenacha: Boa.

Cabresto: Peça de couro que é apresilhada ao buçal para segurar o cavalo ou o muar.
Cacho: A cola, o rabo do cavalo; caso com uma mulher.
Cagaço: Grande susto, medo.
Califórnia: conjunto de coisas belas; pioneiro festival de música gaúcha realizado em Uruguaina.
Cambicho: Apego, paixão, inclinação irresistível por uma mulher.
Campo de Lei: Campo de ótima qualidade.
Capão: Diz-se ao animal mal capado; indivíduo fraco, covarde, vil; pequeno mato isolado no meio do campo.
Carboteiro(a): Alguém difícil, que não dá bola.
Carreira: Corrida de cavalos, em cancha reta. Quando participam da carreira mais de dois parelheiros, esta toma o nome de penca ou califórnia.
Caudilho: Chefe militar; manda-chuva.
Cavalo de Lei: Animal muito veloz, capaz de percorrer duas quadras (264m) em 16 segundos ou menos.
Chalana: Embarcação ou lancha grande e chata.
Chambão: Otário.
Charla: Conversa.
Chasque: Recado; mensagem.
Chimango: Alcunha dada no Rio Grande do Sul aos partidários do governo na Revolução de 1929.

China: mulher gaúcha; descendente ou mulher de índio, ou pessoa de sexo feminino que apresenta alguns dos traços característicos étnicos das mulheres indígenas; cabloca, mulher morena; mulher de vida fácil; esposa.
Chinoca: Mulher, menina.
Colhudo: Cavalo inteiro, não castrado. Pastor. Figuradamente, diz-se do sujeito valente, que enfrenta o perigo, que agüenta o repuxo.
Credo: Exclamação de espanto.
Cuiudo: O mesmo que colhudo.
Cupincha: Companheiro, amigo, comparsa.
Cusco: Cão pequeno, cão de raça ordinária. O mesmo que guaipeca, guaipé.

Daí Tchê: Oi.
De vereda: Imediatamente, de momento, de uma vez.
Doma: Ato de domar. Ato de amansar um animal xucro.
Duro de boca: Diz-se do animal que não obedece à ação das rédeas.
Duro de Pealar: Difícil de fazer, trabalhoso.

Embretado: Encerrado no brete; metido em apertos, apuros ou dificuldades; enrascado, emaranhado.
Entrevero: Mistura, desordem, briga, confusão de pessoas, animais ou objetos.
Erva-Lavada: Erva já sem fortidão por ter servido para muitos mates.
Estar com o pé no estribo: Estar prestes a sair.
Estrela-Boieira: Estrela d’alva, planeta Vênus.
Estribo: Peça presa ao loro, de cada lado da sela, e na qual o cavaleiro firma o pé.
Estropiado: Diz-se o animal sentido dos cascos, com dificuldade de andar, em conseqüência de marchas por estradas pedregosas.

Facada: Pedido de dinheiro feito por indivíduo vadio, incapaz de trabalhar, que não pretende restituí-lo.
Facho: O ar livre. Usado na expressão sair do facho.
Fatiota: Terno; conjunto de roupas do homem: calça, colete e paletó.
Fiambre: Alimento para viagem, geralmente carne fria, assada ou cozida.
Fazer a viagem do corvo: Sair e demorar muito a regressar.
Flete: Cavalo bom e de bela aparência, encilhado com luxo e elegância.
Funda: Estilingue, bodoque.

Gadaria: Porção de gado, grande quantidade de gado, o gado existente em uma estância ou em uma invernada.
Gado chimarrão: Gado alçado, xucro, sem costeio.
Galpão: Construção existente nas estâncias, destinadas ao abrigo de homens e de animais; O galpão característico do Rio Grande do Sul é uma construção rústica, de regular tamanho, em geral de madeira bruta e parte de terra batida, onde o fogo de chão está sempre aceso. Serve de abrigo e aconchego à peonada da estância e a qualquer tropeiro ou gaudério que dele necessite. Gato: Bebedeira, porre, embriaguez.
Gaudério: Pessoa que não tem ocupação séria e vive à custa dos outros, andando de casa em casa; parasita; amigo do viver à custa alheia.
Graxaim: Guaraxaim, sorro, zorro. Pequeno animal semelhante ao cão, que gosta de roer cordas, principalmente de couro cru e engraxadas ou ensebadas, e de comer aves domésticas. Sai, geralmente, à noite. É muito comum em toda a campanha.
Gringo: Denominação dada ao estrangeiro em geral, com exceção do português e do hispano-americano.
Guaiaca: Cinto largo de couro macio, às vezes de couro de lontra ou de camurça, ordinariamente enfeitado com bordados ou com moedas de prata ou de ouro, que serve para o porte de armas e para guardar dinheiro e pequenos objetos.
Guaipeca: Cão pequeno, cusco, cachorrinho de pernas tortas, cãozinho ordinário, vira-lata, sem raça definida. Pequeno, de minguada estatura; aplica-se, também, às pessoas, com sentido depreciativo.
Guapo: Forte, vigoroso, valente, bravo.
Guasca: Tira, corda de couro cru, isto é, não curtido; homem rústico, forte, guapo, valente. Guasqueaço: Pancada, golpe dado com guasca.
Relhaço: relhada, chicotada, chibatada, correada, açoite.
Guri: Criança, menino, piazinho, piazito, serviçal para trabalhos leves nas estâncias.

Há cachorro na cancha: Significa que há alguma coisa atrapalhando a execução de determinado plano.
Haraganear: Andar solto o animal por muito tempo, sem prestar serviço algum.

Invernada: Grande extensão de campo cercado. Nas estâncias, geralmente, há diversas invernadas: para engordar, para cruzamento de raças, etc.

Jururu: Cabisbaixo, tristonho, abatido.

Lábia: Habilidade de conversa.
Lambe esporas: Indivíduo bajulador; leva e traz.
Lasqueado: Trouxa, metido a besta, passado.
Légua: Medida itinerária equivalente a 3.000 braças ou 6.600 metros. O mesmo que légua de sesmaria.

Macanudo: Designa alguém bonito ou algo legal.
Maleva: Bandido, malfeitor, desalmado; cavalo infiel, que por qualquer coisa corcoveia.
Maludo: Cavalo inteiro, garanhão. Diz-se do animal com grandes testículos.
Mangueira: Grande curral construído de pedra ou de madeira, junto à casa da estância, destinado a encerrar o gado para marcação, castração, cura de bicheiras, aparte e outros trabalhos. Manotaço: Pancada que o cavalo dá com uma das patas dianteiras, ou com ambas; bofetada, pancada com a mão dada por pessoa.

Negrinho: Designação carinhoso que se dá a crianças ou a pessoas que se tem afeição.
Num upa: Num abrir e fechar de olhos; de golpe; rapidamente.

Oigalê!: Exprime admiração, espanto, alegria.
Orelhano: Animal sem marca, nem sinal; gaúcho sem origem conhecida.

Paisano: Do mesmo país; amigo, camarada; civil.
Papudo: Indivíduo que tem papo. Balaqueiro, jactancioso, blasonador. O termo é empregado para insultar, provocar, depreciar, menosprezar outra pessoa, embora esta não tenha papo.
Passar um pito: Repreender, descompor.
Patrão: Designação dada ao presidente de Centro de Tradições Gaúchas (CTG) ou ao dono da estância ou fazenda.
Patrão-Velho: Deus.
Pelea ou Peleia: Peleja, pugilato, contenda, briga, rusga, disputa, combate.
Pelear: Brigar, lutar, combater, pelejar, teimar, disputar.
Petiço: Cavalo pequeno, curto, baixo.
Piá: Menino, guri, caboclinho.
Piquete: Pequeno potreiro, ao lado da casa, onde se põe ao pasto os animais utilizados diariamente.
Poncho: Espécie de capa de pano de lã, de forma retangular, ovalada ou redonda, com uma abertura no centro, por onde se enfia a cabeça. É feito geralmente de pano azul, com forro de baeta vermelha. É o agasalho tradicional do gaúcho do campo. Na cama de pelegos, serve de coberta. A cavalo, resguarda o cavaleiro da chuva e do frio.
Potrilho: Animal cavalar durante o período de amamentação, isto é, desde que nasce até dois anos de idade. Potranco, potreco, potranquinho.

Queixo-Duro: Cavalo que não obedece facilmente a ação das rédeas; pessoa teimosa.
Qüera: homem, gaúcho, gaudério.

Rebenque: Chicote curto, com o cabo retovado, com uma palma de couro na extremidade. Pequeno relho.
Regalo: Presente, brinde.
Relho: Chicote com cabo de madeira e açoiteira de tranças semelhantes a de laço, com um pedaço de guasca na ponta.
Repontar: Tocar o gado por diante de um lugar para outro.

Sair fedendo: Fugir em disparada.
Sanga: Pequeno curso d'água menor que um regato ou arroio.
Sesmaria: Antiga medida agrária correspondente a três léguas quadradas, ou seja a 13.068 hectares. São 3000 por 9000 braças; ou 6.600 por 19.800 metros; ou ainda, 130.680.000 metros quadrados.
Soga: Corda feita de couro, ou de fibra vegetal, ou ainda de crina de animal, utilizada para prender o cavalo à estaca ou ao pau-de-arrasto, quando é posto a pastar. Corda de couro torcido ou trançado, que liga entre si as pedras das boleadeiras; o termo é usado também em sentido figurado.
Surungo: Arrasta pé, baile de baixa classe, caroço.
Sorro: graxaim.
Sorro manso: expressão que designa alguém ladino, esperto, que age mas não aparece (dá o tapa e esconde a mão).

Taco: Diz-se ao indivíduo capaz, hábil, corajoso; guapo.
Taipa: Represa de leivas, nas lavouras de arroz; cerca de pedra, na região serrana; tapado, burro, ignorante.
Taita: Indivíduo valentão, destemido, guapo.
Tala: Nervura do centro da folha do jerivá; chibata improvisada com a tala do jerivá ou com qualquer vara flexível; lado de corte do facão ou da adaga.
Talagaço: Pancada com tala (ex: talagaço de adaga, fig: levou um talagaço da vida).
Talho: Corte, ferimento.
Tapera: Casa de campo, rancho, qualquer habitação abandonada, quase sempre em ruínas, com algumas paredes de pé e algum arvoredo velho. Diz-se da morada deserta, inabitada, triste. Tchê: Meu, cara.
Tirador: Espécie de avental de couro macio, ou pelego, que os laçadores usam pendente da cintura, do lado esquerdo, para proteger e o corpo do atrito do laço. Mesmo quando não está fazendo serviços em que utilize o laço, o homem da fronteira usa, freqüentemente, como parte da vestimenta, o seu tirador, que por vezes é de luxo, enfeitado com franjas, bolsos e coldre para revólver.
Tosa: Tosquia, toso, esquila.
Tranco: Passo largo, firme e seguro, do cavalo ou do homem. Ex: andar ao tranco.
Tranquito: passo lento.
Tramposo: Intrometido, trapaceiro, velhaco.
Trem: Sujeito inútil.
Três-Marias: Boleadeiras.
Tronqueira: Cada um dos grossos esteios colocados nas porteiras, os quais são providos de buracos em que são passadas as varas que as fecham.

Uma-de-pé: Uma briga, conflito, luta.

Usted: Você; usado na fronteira.

Vacaria: Grande número de vacas; grande extensão de campo que os jesuítas reservavam para criação de gado bovino.
Varar: Atravessar, cruzar.
Vareio: Susto, sova, surra, repreensão.
Vaza: Vez, oportunidade.
Vil: Covarde, desanimado, fraco.
Vivente: Pessoa, criatura, indivíduo.

Xepa: Comida.
Xerenga: Faca velha, ordinária.
Xirú: O mesmo que chirú.
Xucro: Diz-se do animal ainda não domado, bravio, arisco.

Zarro: Incômodo, difícil de fazer, chato.

Zunir: Ir-se apressadamente, soar.

domingo, 21 de setembro de 2008

Lendas Gaúchas - Negrinho do Pastoreio

 (Imagem: Patchwork de Joyce Loss - Negrinho do Pastoreio)

Naquele tempo os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem divisas nem cercas; somente nas volteadas se apanhava a gadaria xucra e os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos...


Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de onças e meias-doblas e mais muita prataria; porém era muito cauíla e muito mau, muito.


Não dava pousada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no invemo o fogo da sua casa não fazia brasas; as geadas e o minuano podiam entanguir gente, que a sua porta não se abria; no verão a sombra dos seu umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas cacimbas.


Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se com ele, porque o homem só dava para comer um churrasco de tourito magro; farinha grossa e erva-caúna e nem um naco de fumo... e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira, que parecia que era o seu próprio couro que ele estava lonqueando...

Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino como uma mosca, para um bafo cabosnegros, que era o seu parelheiro de confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como carvio e a quem todos chamava somente o Negrinho . A este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem.

Todas as madrugadas o Negrinho galopeava o parelheiro baio; depois conduzia os avios do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino, que o judiava e se ria. Um dia, depois de muitas negaças, o estancieiro atou carreira com um seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro que não, que não? que a parada devia ser do dono do cavalo que ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada, mil onças de ouro.

No dia aprazado, na concha da carreira havia gente como em festa de santo grande. Entre os dois parelheiros a gauchada não sabia se decidir, tão perfeito era e bem lançado cada um dos animais. Do baio era fama que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não se lhe viam as patas baterem no chão... E do mouro era voz que quanto mais cancha, mais aguente, e que desde a largada ele ia ser como um laço que se arrebenta...

As parcerias abriram as guaiacas, e aí no mais já se apostavam aperos contra rebanhos e redomões contra lenços.

- Pelo baiol Luz e doble!...

- Pelo mourol Doble e luz!...
Os corredores fizeram as suas partidas à vontade e depois as obrigadas; e quando foi na última, fizeram ambos a sua senha e se convidaram. E amagando o corpo, de rebenque no ar, largaram, os parelheiros meneando cascos, que parecia uma tormenta...

- Empate! Empate! gritavam os aficionados ao longo da cancha por onde passava a parelha veloz, compassada como uma colhera.

- Valha-me a Virgem madrinha, Nossa Senhora! gemia o Negrinho. Se os sete-léguas perde, o meu senhor me mata! Hip! hip! hip!...

E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio. - Se o corta-vento ganhar é só para os pobres!... retrucava o outro corredor. Hip! hip!

E cortava as esporas no mouro.

Mas os fletes corriam, compassados como numa colhera. Quando foi na última quadra, o mouro vinha arrematado e o baio vinha aos tirões.., mas sempre juntos, sempre emparelhados.

E as duas braças da raia, quase em cima do laço, o baio assentou de supetão, pôs-se em pé e fez uma cara-volta, de modo que deu ao mouro tempo mais que preciso para passa, ganhando de luz aberta! E o Negrinho, de em um ginetaço.

- Foi mau jogo! gritava o estancieiro.

- Mau jogo! secundavam os outros da sua parceria.

A gauchada estava dividida no julgamento da carreira; mais de um torena coçou o punho da adaga, mais de um desapresilhou a pistola, mais de um virou as esporas para o peito de pé... Mas o juiz, que era um velho do tempo da guerra de Sepé-Tiarajú, era um juiz macanudo, que já tinha visto muito mundo. Abanando a cabeça branca sentenciou, para todos ouvirem:

- Foi na lei! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem gateadas; quem as ganhou venha buscá-las. Foi na lei!

Não havia o que alegar. Despeitado e furioso, o estancieiro pagou a parada, à vista de todos, atirando as mil onças de ouro sobre o poncho do seu contrário, estendido no chão.

E foi um alegrão por aqueles pagos, porque logo o ganhador mandou distribuir tambeiros e leiteiras, côvados de baeta e baguais e deu o resto, de mota, ao pobrerio. Depois as carreiras seguiram com os changueiritos que havia.

O estancieiro retirou-se para a sua casa e veio pensando, pensando, calado, em todo o caminho. A cara dele vinha lisa, mas o coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado a meia espalda... O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma.

E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho. Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha falou assim:

- Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta dias ficará aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos negros... O baio fica de piquete na soga e tu ficas de estaca!

O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos iam pastando.

Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O Negrinho, varado de fome e já sem força nas mãos, enleou a soga num pulso e deitou-se encostado a um cupim.

Vieram então as corujas e fizeram roda, voando, paradas no ar, e todas olhavam-no com os olhos reluzentes, amarelos na escuridão. E uma piou e todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem barulho nas asas.

O Negrinho tremia, de medo... porém de repente pensou na sua madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu.

E dormiu. Era já tarde da noite, iam passando as estrelas; o Cruzeiro apareceu, subiu e passou; passaram as Três-Marias; a estrela-d'alva subiu... Então vieram os guaraxains ladrões e farejam o Negrinho e cortaram a guasca da soga. O bafo sentindo-se solto rufou a galope, e toda a tropilha com ele, escaramuçando no escuro e desguaritando-se nas canhadas.

O tropel acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram, dando berros de escárnio.

Os galos estavam cantando, mas nem o céu nem as barras do dia se enxergava: era a cerração que tapava tudo.

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.

O menino maleva foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não estavam. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.

E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o perdido. Rengueando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa, tomou o coto de vela aceso em frente da imagem e saiu para o campo.

Por coxilhas e canhadas, na beira dos lagoões, nos paradeiros e nas restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta ia pingando cera no chão: e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram tantas que clareavam tudo. O gado ficou deitado, os touros não escarvaram a terra e as manadas xucras não dispararam... Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou por diante a tropilha, até a coxilha que o seu senhor lhe marcara.

E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu...

Gemendo, gemendo, o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo instante apagaram-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua madrinha, o Negrinho dormiu. E não apareceram nem as corujas agoureiras nem os guaraxúns ladrões; porém pior do que os bichos maus, ao clarear o dia veio o menino, filho do estancieiro e enxotou os cavalos, que se dispersaram, disparando campo afora, retouçando e desguaritando-se nas canhadas.

O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai que os cavalos não estavam lá...

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou...

O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos, a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho... dar-lhe até ele não mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue vivo escorrendo do corpo... O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e Senhora Nossa, deu um suspiro triste, que chorou no ar como uma música, e pareceu que morreu...

E como já era de noite e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o estancieiro mandou atar o corpo do Negrinho na panela de um formigueiro, que era para as formigas devorarem-lhe a carne e o sangue e os ossos... E assanhou bem as formigas; e quando elas, raivosas, cobriram todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-lo, é que então ele se foi embora, sem olhar para trás.

Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo, mil vezes e que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro.., e que tudo isto cabia folgado dentro dem um formigueiro pequeno...

Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros e a casca das frutas.

Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto. E três dias houve cerração forte, e três noites o estancieiro teve o mesmo sonho.

A peonada bateu o campo, porém, ninguém achou a tropilha e nem rastro.

Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava do corpo do escravo.

Qual não foi o seu grande espanto, quando chegado perto, viu na boca do formigueiro o Negrinho de pé, com a pele lisa, perfeita, sacudindo de si as formigas que o cobriam ainda!...

O Negrinho, de pé, e ali ao lado, o cavalo baio e ali junto, a tropilha dos trinta tordilhos.., e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu a madrinha dos que não a têm, viu a Virgem, Nossa Senhora, tão serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu...

Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo. E o Negrinho, sarado e risonho, pulando de em pêlo e sem rédeas, no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.

E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não chorou, e nem se riu.

Correu no vizindário a nova dó fadário e da triste morte do Negrinho, devorado na panela do formigueiro.

Porém logo, de perto e de longe, de todos os rumos do vento, começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo... E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, mascates e carreteiros, todos davam notícia da mesma hora - de ter visto passar, como levada em pastoreio, uma tropilha de tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pêlo, em um cavalo baio!...

Então, muitos acenderam velas e rezaram o Padre-nosso pela alma do judiado. Daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma cousa, o que fosse, pela noite velha o Negrinho campeava e achava, mas só entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele levava para pagar a do altar da sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o remiu e salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia, sem ninguém ver.

Todos os anos, durante três dias, o Negrinho desaparece: está metido em algum formigueiro grande, fazendo visita às formigas, suas amigas; a sua tropilha esparrama-se; e um aqui, outro por lá, os seus cavalos retouçam nas manadas das estâncias. Mas ao nascer do sol do terceiro dia, o baio relincha perto do seu ginete; o Negrinho monta-o e vai fazer a sua recolhida; é quando nas estâncias acontece a disparada das cavalhadas e a gente olha, olha, e não vê ninguém, nem na ponta, nem na culatra.

Desde então e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho, sarado e risonho, cruza os campos, corta os macegais, bandeia as restingas, desponta os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas e desce às canhadas. O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem achados pelos seus donos, quando estes acendem um coto de vela, cuja luz ele leva para o altar da Virgem Senhora Nossa, madrinha dos que não a têm.

Quem perder suas prendas no campo, guarde esperança: junto de algum moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo - Foi por aí que eu perdi...

Foi por aí que eu perdi... Foi por aí que eu perdi!...

Se ele não achar: ninguém mais.

Pensamento do dia

Imagem: Britenbucher - Peace on Earth

«Não há caminho para a paz.
A paz é o caminho.»


(Mahatma Gandhi)

Dia Internacional da Paz

Hoje, dia 21 de setembro, é o Dia Internacional da Paz. Proposto pela ONU, é um apelo para um dia de cessar fogo. Gostaria, do fundo do meu coração, que este cessar fogo fosse respeitado hoje e todos os outros 364 dias do ano...



Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell bellow us
Above us only sky

Imagine all the people
Living for today

Imagine there's no countries
It's isn't hard to do
Nothing to kill or die for

And no religion too

Imagine all the people
Living life in peace

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday
You'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of men

Imagine all the people
Sharing all the world

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one


Imagine que não há paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
E acima somente céu

Imagine todas as pessoas
Vivendo para hoje

Imagine que não há países
Não é difícil de fazer
Nada por que matar ou morrer
E nenhuma religião também

Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer que sou um sonhador
Mas não sou o único
Espero que um dia
Você junte-se a nós
E o mundo será um só

Imagine que não há posses
Eu ficarei maravilhado se você conseguir
Nenhuma necessidade de cobiça ou fome
Uma irmandade de homens

Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Você pode dizer que sou um sonhador
Mas não sou o único
Espero que um dia
Você junte-se a nós
E o mundo será um só


Alguém dirá: esta música novamente?! Pois é... mas, infelizmente, esta canção ainda tem de ser cantada, este sonho ainda tem de ser sonhado. O sonho da paz ainda não se realizou, mas temos de seguir no caminho.

sábado, 20 de setembro de 2008

Carlos Rufai Murange

Três pretendentes à mesma noiva


Algures em Marromeu, em Sofala, três rapazes, por curiosa coincidência, pensaram em noivar a mesma rapariga. Como eram pobres e sabiam já que o pai só daria a filha ao pretendente mais rico, resolveram ir trabalhar na Rodésia do Sul, actual Zimbabwe, a fim de fazerem fortuna.

Partiram. Algum tempo depois de lá estarem, um deles encontrou um segredo maravilhoso que lhe permitia conhecer as coisas que aconteciam a distância.

Um outro, também na mesma altura, encontrou um segredo que tinha a virtude de levar uma pessoa rapidamente a terras longínquas.

Finalmente, o terceiro encontrou um remédio que lhe dava o poder de ressuscitar os mortos.

Decorridos alguns meses, o primeiro deles, por virtude do seu segredo, teve conhecimento da morte da noiva pretendida.

Correu ao encontro dos outros dois seus companheiros e falou-lhes desta sorte:

- Na nossa terra, lá em Moçambique, aconteceu uma grande desgraça. Acaba de falecer a nossa pretendida noiva.
Ao ouvir a novidade, o segundo, que tinha o poder de fazer deslocar uma pessoa à distância, disse:

- Então vamos os três depressa, a fim de assistirmos ao seu enterro.

E, por virtude do seu segredo, dentro de momentos, encontraram-se, misteriosamente, os três juntos da defunta.

Uma vez ali, o terceiro disse:

- Eu tenho o poder de ressuscitar os mortos. Por isso, ressuscitá-la-ei. E assim fez, deixando toda a gente maravilhada.

Como a rapariga ficasse completamente boa, novamente renasceu no coração dos três rapazes o desejo de a noivarem.

O primeiro a apresentar as suas pretensões foi o que acbara de a ressuscitar. E disse:

- A menina é minha, porque, se não fosse eu, ela não mais voltaria à vida.

Mas logo lhe observou o segundo:

- A menina pertence-me, porque, se é certo que tu a ressuscitaste, a verdade é que nenhum de vós chegaria a tempo de a ver, se eu não usasse do segredo que tenho.

Por sua vez, o que tinha o segredo de conhecer as coisas à distância objectou contra os dois:

- Alto lá com as pretensões! A menina é minha e muito minha, porque, embora um para aqui nos tenha conduzido rapidamente e outro tenha ressuscitado, se não fosse eu, nenhum de vós teria sequer conhecimento da morte dela.

Estado o assunto neste pé e não querendo nenhum deles ceder a outro o direito de pretensão à rapariga, foram os três ter com o Régulo a fim de resolver o milando.

O Régulo, depois de ouvir atentamente cada uma das partes, declarou que o caso era dificílimo de solucionar, porque as razões que militavam a favor de cada um eram todas de igual valor.

Como, pois, nada mais acrescentasse, entrou de falar a rapariga e propôs aos pretendentes a seguinte prova:

- Aquele dentro de vós que for capaz de aplicar os seus lábios ao peito da minha mãe, esse será o que terá dirieto à minha mão.

Apenas acabou de falar, imediatamente dois deles se apressaram a cumprir a condição imposta. O outro, ao contrário, sentiu-se tomado de um natural pudor e exclamou, decisivamente:

- Perderei a noiva, mas nunca!... nunca eu farei uma tal coisa!

Então a rapariga, ao contrário do que prometera, estendeu a mão para este terceiro e sentenciou, sabiamente:

- Só tu efectivamente tens direito à minha mão, os outros dois não, porque são meus irmãos... A prova é que não tiveram repugnância de aplicar os lábios ao mesmo peito a que eu fui amamentada...

Deste modo, ficou a contenda definitivamente resolvida, passando toda a assistência da esperteza da rapariga.

Alma Welt


Flor Noturna
Uma flor nasceu em meu jardim
Até então desconhecida, e inusitada
Pois que tem um cheiro doce de jasmim
Não sendo co'este todavia aparentada

Pois de noite evola outro perfume
E eu diria que de modo até perverso
Assim como essa lua que resume
A doce febre de onde nasce o verso.

Mas logo a senti como uma irmã
Das dores e anseios com que lido
De dia a rescender o meu amor,

Pálida e bela, mas altiva barregã
Que se erguesse do seu leito proibido,
A vagar nua entre os seres de labor...

Às vezes, sem querer, descobrimos uma pérola no meio de um areal. Foi o que aconteceu. Passeando por alguns blogs, clicando em links, descobri os sonetos desta poetisa gaúcha, Alma Welt.

A responsável pelos blogs é sua irmã, Lúcia Welt, também poetisa mas que, num lindo gesto de desprendimento e amor, dedica-se a divulgar a obra da irmã, falecida em 2007.

Os sonetos de Alma são autobiográficos e através deles conhecemos uma mulher com alma de anjo, ou de ninfa, ou de demônio. Uma Alma livre presa em um corpo físico que a limitava.

Agora Alma está livre e Lúcia nos presenteia com seu legado.

Querem saber mais sobre Alma e Lúcia? Cliquem aqui: O Espaço da Irmã da Alma ou aqui: Sonetos de Mistérios de Alma Welt ou, simplesmente, procurem no google por Alma Welt.

Pensamento do dia

«Povo que não tem virtude acaba por ser escravo...»
(do hino riograndense)

O Grito dos Livres

Esta música é uma das minhas preferidas. Conta a história da formação do povo gaúcho. Quem canta é Dante Ramón Ledesma, um gaúcho argentino, porque o gaúcho não é somente quem nasceu no Rio Grande do Sul, mas também os pampeanos, que vivem na fronteira Brasil / Uruguai / Argentina.

Ouçam a música, vejam como é linda e conheçam um pouquinho mais da minha terra.



O Grito dos Livres


Quando os campos deste sul eram mais verdes
Índios pampeanos que habitavam o lugar
Foram mesclando com a raça do homem branco
Recém chegado de querências além mar

E o novo ser que se formou miscigenado
Virou semente, germinou e se fez povo
E um grito novo ecoou no continente
Lembrando a todos que esta terra tinha dono

Enquanto o gaúcho for visto no pampa
Enquanto essa raça teimar em viver
O grito dos livres ecoará nesses montes
Buscando horizontes libertos na paz

No grito do índio, o grito inicial
Com cheiro de terra no próprio ideal
De amor à querência liberta nos pampas
Gerada em estampas do próprio ancestral

A nova raça cresceu e traçou limites
Que bem demarcam a extensão dos ideais
E o mesmo povo hoje repete o grito
Alicerçado nas raízes culturais

A liberdade não tem tempo nem fronteiras
O homem livre não verga e não perde o entono
Vai repetindo a todos num velho grito
Passam os tempos mas a terra ainda tem dono

Do grito do índio, aos gritos atuais
Há cheiro de terra nos próprios ideais
De um povo sofrido, ereto em vontade
De escrever liberdade nos seus memoriais

Enquanto o gaúcho for visto no pampa
Enquanto essa raça teimar em viver
O grito dos livres ecoará nesses montes
Buscando horizontes libertos na paz



Dante Ramon Ledesma - Grito dos livres

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Rio Grande do Sul - Bandeira e Hino



Hino Riograndense


Como a aurora precursora
Do farol da divindade,
Foi o Vinte de Setembro
O precursor da liberdade


(estribilho)
Mostremos valor, constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra


Mas não basta pra ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo


Wilson Pain - Gaucha - Hino do Rio Grande do Sul

Semana Farroupilha

Todos os anos, na semana que antecede o 20 de setembro, os gaúchos promovem a Semana Farroupilha. Em todas as cidades há comemorações com bailes, rodeios, confraternizações com muito churrasco, carreteiro de charque e todas as outras comidas típicas do Rio Grande do Sul. A Semana é encerrada com um grande desfile, a cavalo, com os homens ostentando seus lenços vermelhos e as mulheres em seus vestidos de prenda.

Lá no Rio Grande, hoje é o dia deste desfile maravilhoso. Aqui, no Devezenquandário, inicio a nossa Semana Farroupilha. Espero poder dividir com todos um pouco da história e da cultura dos gaúchos!

Começo com nossos símbolos mais queridos, nossa bandeira e nosso hino. Uma observação: praticamente não há gaúcho, criança, adulto ou velho, que não saiba cantar o hino. É um orgulho para o nosso estado!

Revolução Farroupilha

Guilherme Litran, Carga de Cavalaria Farroupilha

Há 173 anos explodia uma revolução no sul do Brasil. Foi a Revolução Farroupilha, guerra que, teoricamente, foi perdida. Teoricamente porque o resultado moral desta revolução foi a maior vitória que um povo poderia ter alcançado.

Lutando descalços, desnutridos e desamparados, os farrapos deram seu sangue e sua alma em favor de um ideal maior, o maior ideal de todos: a LIBERDADE.

Hoje, graças aos nossos antepassados que lutaram em andrajos, continuamos um povo altivo, orgulhoso da sua terra. Um povo que não se verga mas não quebra. Continuamos o povo GAÚCHO!

Quem ainda não conhece a história da "nossa" revolução, dê uma passadinha na Wikipedia, lá eles contam a história bem melhor do que eu contaria aqui, porque, quando penso nela, fico cheia de emoção, que poderia trair minha objetividade.

Pensamento do dia - Democracia


«O governo de um só não é preferível à decisão coletiva, mas o que fazer, quando um só pensa (ou poucos) em meio a uma multidão agitada pelo afeto? Qual é o futuro da democracia de um povo que não pensa? Desponta aqui uma objeção severa contra o governo do povo, sustentada ainda por Platão. Como poderão governar pessoas dominadas pela paixão? Um estado só poderá ter êxito se dirigido por homens que pensam. (...) A tirania é provocada por homens que não pensam(negrito meu)


Donald Schüller, in Origens do Discurso Democrático

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Pensamento do dia


«Em todo homem existem centenas de homens: o homem tem possibilidades infinitas: basta pensar que um manifesto, colado a uma parede, com uma ordem de mobilização, transforma, de um dia para outro, um pacífico estudante num guerreiro


(Pitigrilli, escritor italiano)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Fernão Capelo Gaivota - continuação VII


Terceira Parte
Fernão voou em círculo, devagar, sobre os Penhascos Longínquos, observando. Este duro jovem Francisco Gaivota aproximava-se muito de um perfeito aluno de vôo. Era forte, leve e rápido no ar, mas muito mais importante do que isso era o ritmo vertiginoso com que aprendia a voar.

Ali vinha ele agora, turva forma cinzenta troando à saída de um mergulho, a duzentos quilômetros por hora, passando como um relâmpago à frente do seu instrutor.

Abruptamente, lançou-se noutra tentativa, um "slow roll" vertical de dezesseis pontos, fazendo a contagem bem alto.

— ... oito... nove... dez... olha-Fernão-estou-saindo-da-velocidade-do-ar... onze... eu-quero-boas-paradas-bruscas-como-as-suas... doze... mas-maldição-não-consigo... treze... fazer-estes-últimos-três-pontos... sem... cator... aaahh!
A atrapalhação de Francisco no topo foi como uma chicotada, foi o pior que lhe podia ter acontecido, e enfureceu-se por ter falhado. Caiu para trás, aos trambolhões, desabou selvaticamente num "inverted spin" e acabou por se recuperar, ofegante, trinta metros abaixo do nível do seu instrutor.
— Você perde o seu tempo comigo, Fernão! Sou tapado demais! Sou estúpido demais! Tento e volto a tentar, mas nunca conseguirei!
Fernão Gaivota olhou para ele e concordou.
— Você nunca o conseguirá, é certo, se continuar a fazer o arranque com essa brusquidão. Francisco, você perdeu sessenta quilômetros na entrada! TEM de ser suave! Firme mas suave, compreende?
Desceu ao nível da gaivota mais nova.
— Agora vamos tentar juntos, em formação. E preste atenção ao arranque. É uma entrada suave, fácil.

* * *

Ao cabo de três meses, Fernão tinha mais seis discípulos, todos banidos, mas ainda curiosos acerca desta estranha e nova idéia de voar pelo prazer de voar.
Contudo, era-lhes mais fácil praticar altas execuções do que compreender a razão que existia por detrás delas.
— Cada um de nós é, em realidade, uma idéia da Grande Gaivota, uma idéia ilimitada de liberdade — costumava dizer-lhes Fernão à noite, quando se reuniam na praia. — E o vôo de precisão é um passo à frente para expressarmos a nossa verdadeira natureza. Temos de pôr de parte tudo o que nos limita. É por isso que todo este treino de alta velocidade, baixa velocidade e acrobacia aérea...
E os seus alunos adormeciam, exaustos pelo vôo do dia. Gostavam dos treinos porque eram rápidos e excitantes e porque saciavam uma fome de aprender que crescia de lição para lição. Mas nenhum deles, nem mesmo Francisco Coutinho Gaivota, chegava a crer que o vôo de idéias pudesse de fato ser tal real como o vôo de vento e penas.
— Todo o corpo de vocês , da ponta de uma asa à outra — dizia Fernão outras vezes —, não é mais do que seus próprios pensamentos, numa forma que podem ver. Quebrem as correntes dos seus pensamentos e conseguirão quebrar as correntes do corpo...
Mas qualquer que fosse a maneira como o dissesse, soava sempre como ficção agradável, e eles precisavam dormir.
Só um mês depois Fernão disse que era tempo de voltar ao bando.
— Mas não estamos prontos! — disse João Calvino Gaivota. — E não nos desejam! Estamos banidos! Não podemos forçar-nos a ir aonde não somos desejados, não é?
— Nós somos livres para ir aonde nos aprouver e ser o que somos — replicou Fernão, elevando-se da areia e voando para leste, para os domínios do bando.
A angústia reinou por momentos entre os seus alunos, pois, segundo a lei do bando, nenhum banido regressa, e a lei não fora quebrada em dez mil anos. A lei dizia: fiquem. Fernão dizia: vão. E nesta altura já ia há mais de um quilômetro de distância, sobrevoando a água. Se esperasse muito mais, ele iria enfrentar sozinho o bando hostil.
— Bem, já que não fazemos parte do bando não temos que nos submeter à lei... — disse Francisco timidamente. — Além disso, se houver luta, seremos muito mais úteis lá do que aqui.
E assim, oito gaivotas voaram do oeste nessa manhã, em dupla formação de diamante, as pontas das asas quase sobrepondo-se. Atravessaram a Praia do Conselho do Bando a mais de duzentos quilômetros por hora, Fernão à frente, Francisco suavemente à sua direita, João Calvino lutando com o vento, brincalhão, à sua esquerda. Então, toda a formação rolou suavemente para a direita, como um único pássaro... planando... invertendo... planando, o vento chicoteando-os todos por cima.
Os gritos e guinchos habituais à vida diária do bando cessaram de repente, como se a formação fosse uma espada gigante, e oito mil olhos de gaivotas observaram, sem pestanejar uma só vez. Um a um, ou oito pássaros lançaram-se abruptamente para cima, fazendo um "loop" completo, descreveram uma curva perfeita e deixaram-se cair lentamente até aterrarem na areia, de pé. Então, tal como se o acontecimento fosse uma coisa de todos os dias, Fernão Gaivota iniciou a sua crítica do vôo.
— Para começar — disse com um sorriso zombeteiro —, demoraram um bocado a juntar-se a mim...
Foi como se um relâmpago percorresse o bando. Aqueles pássaros eram banidos! E tinham regressado! E isso... isso não podia acontecer! As predições de Francisco quanto a haver luta fundiram-se na confusão do bando.
— Está bem, é certo que são banidos — disse uma das gaivotas mais novas —, mas, caramba! onde eles aprenderam a voar desta maneira?
A palavra do Mais Velho levou quase uma hora a percorrer o bando: — Ignorem-nos.
A gaivota que falar a um banido será banida. A gaivota que olhar para um banido quebrará a lei do bando.
Costas de penas cinzentas viraram-se a Fernão a partir desse momento, mas ele não deu a perceber tê-lo notado. Deu as sessões precisamente sobre a Praia do Conselho e, pela primeira vez, começou a instigar os seus alunos até o limite de sua capacidade.
— Martinho Gaivota! — gritou através do céu. — Você diz que sabe voar a baixa velocidade. Não sabe nada até provar! VOE!
Foi assim que o calado Martinho Gaivota, sobressaltado pelo fogo que o seu instrutor lhe ateara, surpreendeu a si próprio tornando-se um especialista em baixas velocidades. Conseguia curvar as suas penas de modo a elevar-se na mais leve brisa, sem um único batimento da asa, da areia às nuvens e voltar das nuvens à areia.
Do mesmo modo, Rolando Gaivota sobrevoou o pico da Grande Montanha do Vento, a sete mil e duzentos metros, desceu azul do ar frio e rareado, maravilhado e feliz, decidido a ir ainda mais alto no dia seguinte.
Francisco Gaivota, que mais do que ninguém adorava a acrobacia aérea, conseguiu o seu "slow roll" vertical de dezesseis pontos, ao qual, no dia seguinte, acrescentou um triplo "cartwheel", as penas irradiando uma luz solar branca que ofuscou a praia onde mais de um olho furtivo o observava.
A todo momento, lá estava Fernão ao lado de cada um dos seus discípulos, demonstrando, sugerindo, instigando, conduzindo. Voou com eles através da noite, da nuvem e da tempestade, por puro prazer, enquanto o bando se encolhia miseravelmente no solo.
Depois dos treinos, os alunos descansavam na areia, e, com o tempo, começaram a prestar mais atenção a Fernão. Embora este tivesse algumas idéias loucas que não entendiam, tinha outras muito boas, que conseguiam aprender.
Gradualmente, à noite, começou a formar-se outro círculo à volta dos alunos — um círculo de gaivotas curiosas que escutavam durante horas a fio, desejando não ver nem ser vistas por outras e desvanecendo-se na meia-luz que antecede a aurora.
Foi um mês depois do Regresso que a primeira gaivota do bando venceu a barreira e pediu para aprender a voar. Ao fazê-lo, Teseu Sousa Gaivota passou a ser um pássaro condenado, portador de uma etiqueta que dizia: "Banido". E passou também a ser o oitavo aluno de Fernão.

Na noite seguinte foi Virgilio Gaivota quem deixou o bando. Aproximou-se cambaleante, arrastando a asa esquerda pela areia, e caiu aos pés de Fernão.
— Ajude-me — pediu-lhe baixinho, com a voz daqueles que estão morrendo. — Mais do que tudo no mundo eu quero voar...
— Nesse caso, venha — disse Fernão. — Eleve-se comigo e comecemos.
— Você não compreende... A minha asa. Não consigo mexê-la.
— Virgilio Gaivota, você tem liberdade de ser você mesmo, de ser o seu próprio eu, aqui e agora, e não há nada que possa interpor-se no seu caminho. Essa é a lei da Grande Gaivota, a lei que É.
— Você quer dizer que eu posso voar?
— Eu quero dizer que você é livre.

Tão simples e rapidamente como fora dito, Virgilio Gaivota abriu as asas, sem esforço, e rasgou o ar negro da noite. A cento e cinqüenta metros de altura, gritou o mais alto que pôde e o seu grito arrancou o bando do sono que o entorpecia.
— Eu posso voar! Ouçam! EU POSSO VOAR!

Quando o sol surgiu no horizonte, havia quase mil pássaros em volta do círculo de alunos, olhando curiosamente para Virgilio. Pouco lhes importava serem vistos ou não, e escutavam, tentando compreender, Fernão Gaivota.
Falou de coisas muito simples — que as gaivotas têm o direito de voar, que a liberdade é própria da sua natureza, que todo aquele que se oponha a essa liberdade deve ser posto de parte, quer a oposição seja motivada por ritual, superstição ou limitação sob qualquer forma.

— Pôr de parte? — gritou uma voz entre a multidão. — Mesmo se for a lei do bando?
— Só a lei que conduz à liberdade é verdadeira — disse Fernão. — Não há outra.
— Como você pode esperar que voemos como você? — interrompeu outra voz. — Você é especial, dotado e divino, muito acima dos outros pássaros.
— Olhem para Francisco! Teseu! Rolando! São também especiais, dotados e divinos? Não mais do que vocês, não mais do que eu. A única diferença, a única, de fato, é que eles começaram a compreender o que são realmente e decidiram pôr em prática esse conhecimento.
Salvo Francisco, os alunos moveram-se pouco à vontade. Ainda não tinham tomado consciência de que era isso realmente o que lhes acontecia.
A multidão crescia de dia para dia: vinham fazer perguntas, idolatrá-lo ou injuriá-lo.
***

Pensamento do dia


«Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo.»


José Saramago - do blog dele!

Saramago blogueiro

Ontem recebi a notícia: o Saramago está escrevendo em um blog.

Fiquei confusa... será que é mesmo o JOSÉ SARAMAGO??? Isso não é dele... muito estranho!
Fui conferir: era ele mesmo! Imaginem o autor de A Caverna e todos aqueles outros livros maravilhosos virando um blogueiro, como um simples mortal, como nós!

Como não tive tempo de ler tudo ontem, hoje acordei e, sem tirar o pijama, liguei o computador. Tomei café lendo o Caderno de Saramago. Fantástico!

Ele promete escrever diariamente. E está cumprindo a promessa, desde segunda-feira já são três posts.

Curiosos??? Confiram: http://caderno.josesaramago.org (é sem www mesmo!)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Caridade?!

Notícia da última página do Jornal de Moçambique de hoje: Esmola acaba em tragédia na Indonésia. Explico, para não transcrever: uma família abastada estava distribuindo esmolas para a população, quando se deu um tumulto, resultando em pelo menos 23 pessoas mortas, esmagadas. Tudo por uma quantia equivalente a 100 meticais, ou 10 reais, ou 4 dólares, ou 3 euros.

História triste, que me fez lembrar uma situação que vivi ontem. Fui ao mercado, como sempre faço. E, como sempre, um dos meninos que fica por lá veio ajudar-me a empacotar as compras e colocá-las no carro.

Ajudar é maneira de falar, porque esta «ajuda» tem como contrapartida um dinheirinho, uma esmola. Confesso que, para mim, é muito confortável ter alguém que me «ajude» com as compras, apesar de, no fundo, saber que estou agindo erradamente. Quando estava guardando as compras no carro, outro menino veio correndo para «ajudar» também. Dei-lhe também um dinheirinho, coisa pouca, para mim.

Ao final, já dentro do táxi, comentei com o taxista que estes meninos deveriam estar na escola. A resposta do homem foi, senão óbvia, um verdadeiro tapa na cara! Eles estavam ali porque há pessoas como eu que lhes dão dinheiro. Fogem da escola para arrecadar alguns trocados.
Mea culpa! Sou culpada sim. Como são culpados todos os que dão esmolas. Já diz aquele velho ditado: ensinar a pescar, não dar o peixe.

Fácil falar, difícil fazer. Quem tem tempo para perder com caridade? Muito mais fácil abrir a carteira! Vamos reconhecer: dar dinheiro não é caridade, é desencargo de consciência!

Mas tem gente que faz. São estas pessoas iluminadas e desprendidas, que ajudam simplesmente por ajudar. Fazem realmente diferença. Conheço um grupo de mulheres que veio do Brasil para Moçambique simplesmente para ajudar. Largaram família, amigos, empregos, estudos, tudo por um ideal. Viajam o país, enfrentando estradas esburacadas, machibombos (ônibus, autocarros) mais velhos do que a História, fazem caminhos a pé, enfrentam condições deploráveis de saneamento e higiene, comem mal, dormem mal. E não reclamam. Pelo contrário, agradecem pelo aprendizado.

Chamado de Deus, dizem elas, modestas. Eu digo exemplo difícil de ser seguido, abnegação, dedicação. Não buscam reconhecimento, aplausos ou prêmios. Não pedem ajuda nem esperam que ninguém as siga. Já disse: ajudam simplesmente por ajudar.

Ah, se eu conseguisse fazer pelo menos um centésimo do que a Raquel, a Lívia, a Cris, a Thaís e tantas outras fazem… se cada pessoa fosse um pouquinho de cada uma delas, o mundo seria melhor, perfeito, fraterno!

E eu fico aqui, com inveja da coragem delas… limito-me a escrever, contar e admirar.

P.S. Se alguém quiser conhecer o trabalho delas e ajudar (de qualquer maneira), aí estão os e-mails de cada uma:

Raquel: raqueliecp@yahoo.com.br
Lívia: liviahoza@hotmail.com
Cris: cris.kikka@hotmail.com
Thaís: semlimitess@yahoo.com.br

Elas costumam fazer uma «carta informativa» mensalmente, contando todas as suas realizações aqui em Moçambique. Escrevam-lhes!

Hambre - Aldo Novelli


Me tragué la luna
de un tirón,
sorbí cinco estrellas
y dos nubes negras,
me comí
una pierna, los pechos y un ojo de mi hembra
y aún tengo hambre de este mundo.

Aldo Novelli - La poesía es un impossible y el poema una derrota.

Foi com surpresa que conheci este poeta argentino. Visceral, posso dizer!...

vejam sua interpretação de poesia e do que deve ser um poema...


Los efectos de un buen poema


Un buen poema, durante y después de su lectura nos deja mirando el infinito, ese punto inaccesible del espacio que brilla como una lejanísima estrella en medio de un vendaval de piedras y palabras.

Y al observar detenidamente por unos instantes interminables ese mínimo resplandor, uno siente una sensación inefable en todo el cuerpo y en ese lugar desconocido llamado alma, una sensación física que nos modifica en forma permanente hasta el fin de nuestros días o hasta el próximo poema.

Quisiera compartir ahora con ustedes, un mínimo y discutible ensayo que escribiera alguna vez, sobre el nacimiento y los acontecimientos posteriores al luminoso acto de escribir el poema, que bien o mal, podría tomarse como una metodología (tal vez fallida) para escribir un buen poema.


Nacimiento y avatares del poema


La poesía es un imposible y el poema una derrota.

El poema surge de un mal estado de ánimo, de una manifestación tribal en la esquina, de un texto mal leído, de un intestino revolucionario, de la soledad absoluta un segundo después del coito, o de la observación abusiva de un programa banal de televisión.

Técnicamente diría, que sucede un acontecimiento, personal o ajeno, un acontecimiento cualquiera, la imagen de una película, un trozo de conversación escuchado arriba del colectivo, los pechos de una mujer vislumbrados debajo de la blusa, algunos acordes de una canción olvidada, una muerte, o un sueño extraño y fragmentado por la desmemoria.

Y alguno de estos sucesos genera una sensación, una sensación diversa y varia, dolor, emoción, angustia, nostalgia, delirio, desasosiego o excitación, o cualquier otra, y ésta permanece grabada, en algún recoveco de la memoria y de alguna desconocida forma.

Después de cierto tiempo, en un momento pertinente y sensitivo, este recuerdo surge inesperadamente en el presente, creando ahora una sensación similar o tal vez igual (pero no la misma) y forma imágenes mentales, claras o difusas, reales o ficcionales, de aquel acontecimiento que las generó y entonces el cerebro y el espíritu las empieza a traducir en palabras, las decodifica, las sintetiza, las corrompe, y nace un verso, tan solo un verso, que el esfuerzo posterior, o sea, la inspiración, el talento natural y un complejo y desconocido andamiaje de saberes, convertirán en un poema, o mejor aún, en un proto-poema.

Después de todo esto, resta un esfuerzo importantísimo, el trabajo textual sobre esta arcilla blanda y maleable, que es el poema crudo, el poema en estado puro, y allí, las diversas facetas de este arduo trabajo.

Luego, una de las múltiples consecuencias de este proceso, es provocar una sensación parecida o análoga, a la que generó el texto, ahora en el lector, intención, que generalmente es otra derrota.
De aquí, que la poesía, el arte todo, es una permanente derrota, es la búsqueda de un ideal, de un imposible.

A mí me alienta la búsqueda de ese ‘aleph poético’, la búsqueda del poema total, aún sabiendo conscientemente que es un imposible, pero también una utopía, tal vez la que me incita a seguir escribiendo.

Algunos ‘poetas entre comillas’ (y dice esto, un poeta que no está totalmente libre de comillas) creen, que están escribiendo la ‘gran cosa’ y entonces, ‘se postran embelesados con reverencia ante un paisaje plagado de edenes’, o nos dictan ‘una desiderata estúpida y vulgar sobre su amor a la madre o a la novia indigestada de blanca pureza’, seguramente están muy lejos de la poesía o cualquier otra forma de arte que se precie.

Personalmente, no puedo afirmar que he accedido al ‘cosmos de la poesía’, digo que vi una hendija y espié por allí (y esto me llevó muchos años) y digamos, que apenas he vislumbrado ese cosmos, que intuyo infinito.

Compartirlo ahora con otros, con ustedes, es un acto generoso y egoísta, es buscar en el otro una afinidad, es buscar un soñador, un príncipe de las mareas entre aguas turbias y contaminadas.

Compartirlo con otro, es intentar un mundo mejor, es creer que la palabra sirve para algo más que para comunicarse, es un acto de rebelión, es también, un acto de fe.

Compartirlo con el otro, es el último acto de resistencia, para combatir la tremenda soledad que nos aflige en este nuevo milenio.

Compartirlo, es ya el triunfo, de esta permanente derrota.