segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

GAZA... Feliz Ano Velho!

POR QUÊ????????????











PARA QUÊ??????????



ATÉ QUANDO?????????




Hoje sou árabe, sou palestina, sou humana.

Sinto a dor daquele povo oprimido na Faixa de Gaza.
Sinto o desespero das mães ao verem seus filhos mortos.
Sinto o apavoramento da Terra ao ter tanto sangue derramado em seu corpo.

Até quando as pessoas matarão-se assim, impunemente e desalmadamente???

Hoje é na Faixa de Gaza.
Amanhã, sabe-se lá aonde... pode ser no lar de qualquer um!

O mundo precisa cada vez mais de PAZ.

Mas isto são palavras... e palavras não abrandam corações...
(Pelo menos não os corações dos líderes mundiais.)

Em 2008 foi assim... triste e fatídico Ano Velho...

Que em 2009 não precisemos mais perguntar por quê...

Que em 2009, as ações sejam de amor e paz.

Que em 2009 a humanidade faça juz a este nome!

domingo, 28 de dezembro de 2008

Pensamento do dia

O vento é sempre o mesmo,
mas a sua resposta é diferente em cada folha.
Somente a árvore seca fica imóvel
entre as borboletas e os pássaros.
(Cecília Meireles)

Natal tem tradições mais antigas do que o cristianismo


Mesas generosamente servidas, canções, árvores cheias de luzes e o alegre soar de sinos são algumas características da festa de Natal, uma celebração que não nasceu com o cristianismo, mas tem raízes em antigos ritos pagãos indo-europeus bem anteriores a Jesus Cristo.



A festa mais universal do Ocidente, a comemoração do nascimento do menino Jesus, foi celebrada pela primeira vez, com o sentido de hoje, em 25 de dezembro de 336, em Roma, poucos anos depois de o cristianismo ser adotado como religião do Império.



Contudo, na época, a capital imperial era Constantinopla, onde até o século cinco a Igreja do Oriente celebrou no dia 6 de janeiro o nascimento e batismo do Filho de Deus.

O nome da festa vem do substantivo latino nativistas (nascimento, geração) e este do adjetivo nativus (o que nasce).

Ao longo dos séculos, as dioceses orientais foram adotando o dia 25 de dezembro como data oficial e deixando o 6 de janeiro para celebrar o batismo de Cristo, com exceção da Igreja da Armênia,que até hoje comemora o Natal no primeiro mês do ano.

Sobre as razões para adotar o dia 25 de dezembro como data do Natal, pouco se sabe, mas considera-se provável que os cristãos quisessem na época substituir com o nascimento de Cristo a festa pagã conhecida como natalis solis invicti (festa do nascimento do Sol Vitorioso), que correspondia ao solsticio de Inverno no Hemisfério Norte.

Esta efeméride astronômica coincide com o dia mais curto do ano ao norte do Equador, por volta de 21 de dezembro, início do aumento da duração dos dias e do encurtamento das noites, a época em que o Sol passa pela sua maior declinação boreal ou austral.

Uma vez que a Igreja Oriental adotou a data de 25 de dezembro como Natal, o batismo de Jesus começou a ser festejado no Oriente em 6 de janeiro, mas em Roma esta data passou a ser usada para lembrar a chegada a Belém dos Reis Magos, com presentes de ouro, incensos e mirra, que em alguns países católicos é celebrada com a distribuição de presentes para as crianças.

Há uma considerável influência nestas tradições o fato de a celebração coincidir com as datas de antiquíssimos ritos pagãos com origem agrícola, que acontecem no começo do inverno.

Sendo assim, o Natal recebeu elementos da tradição latina de Satumália, uma festa alegre e de trocas de presentes, que os romanos costumavam celebrar em 17 de dezembro, em homenagem a Saturno.

O dia 25 de dezembro também era a festa do deus persa da luz, Mitra, respeitado por Diocleciano e que inspirou gregos e romanos a adorar Febo e Apolo.

O certo é que o dia de Natal foi fixado oficialmente no ano de 345 quando as instâncias de São João Crisóstomo e São Gregório Nacianreno estabeleceram o dia 25 de dezembro como data de nascimento de Jesus Cristo.

Cumpria-se assim uma vez mais o costume da Igreja primitiva de absorver e dar nova forma aos ritos pagãos, em vez de rejeitá-los ou proibí-los para poder angariar mais seguidores para sua nova crença.

No Ano Novo, os romanos decoravam suas casas com luzes e folhas de plantas, dando presentes às crianças e aos pobres, num clima que hoje seria chamado de natalino e, apesar do ano romano começar em março, estas tradições também foram incorporadas à festividade cristã.

Por outro lado, com a chegada dos invasores teutônicos à Gália, à Inglaterra e à Europa Central, ritos germânicos mesclaram-se com costumes celtas e foram adotados por parte dos cristãos, tornando o Natal praticamente desde o começo uma celebração regada a muita bebida e comida, com chamas, luzes e árvores decoradas.

Na Idade Média, a Igreja introduziu as canções temáticas. O Natal que se celebra hoje é, por isso, fruto de um milênio cristão em que as tradições gregas e romanas se conjugaram com rituais celtas e germânicos e com liturgias de antigas religiões orientais.

Posteriormente, o personagem de São Nicolau, o velhinho barbudo e vestido de pesadas roupas vermelhas, inspirou a representação do atual Papai Noel, personagem generoso e adorado pelas crianças.

Já a tradição de celebrar o Natal ao redor de uma árvore carregada de enfeites e luzes multicoloridas é um costume de vários séculos entre os povos cristãos, mas sua origem não é em absoluto cristã: surgiu entre povos pagãos escandinavos e germânicos que, posteriormente, se converteram na Idade Média.

Mas o hábito de usar uma árvore de folhas douradas como símbolo da fertilidade e vida eterna é muito anterior a estes povos, que o adotaram após a chegada na Europa de antigos costumes orientais.

De qualquer forma, foram primeiro os germânicos e depois os escandinavos que criaram a tradição de celebrar o Ano Novo colocando uma árvore na porta de casa ou dentro dela, com a finalidade de afastar os demônios durante todo o ano.

A árvore de Natal tal como a conhecemos hoje é bastante posterior a estes antecedentes. Provém de uma tradição medieval da Alemanha cristã, que consistia em colocar em casa, no dia 24 de dezembro, uma árvore na qual se penduravam maçãs para remeter à árvore do paraíso, da qual Eva tirou o fruto proibio para oferecê-lo a Adão.

Atualmente, o Natal superou as fronteiras do mundo cristão e a sociedade de consumo, com sua avalanche de presentes e comidas diversas, fez com que fosse esquecido parte do seu significado original, embora o ato de presentear sempre seja um gesto agradável independentemente das circunstâncias.


(in Diário de Moçambique, 25 de dezembro de 2008, p. 17).

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Pensamento do dia


Nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons.

(Sigmund Freud)

A aranha e a teia


«Darwin gostava de aranhas. Foi a observação, no Brasil, de uma luta entre uma vespa e uma aranha (ganhou a vespa) que o terá levado à idéia de sobrevivência dos mais aptos. Há, também, aranhas e teias metafóricas. Pessoa escreveu um poema, 'A aranha do meu destino / - Faz teias de eu não pensar / Mais apto será, então, quem conseguir ganhar o destino'».


Carlos Folhais, físico e diretor da Biblioteca da Universidade de Coimbra, concluiu o comentário da seguinte forma:


«É feia a aranha e bonita a teia?»


E deixa Alberto Caeiro responder:


«Ambos existem, cada um como é


(Rui Cardoso, in Rev. Única, Jornal Expresso, 8 nov/08, p. 09 - O que vê nesta imagem?)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Pensamento do dia - Natal




O Natal começou no coração de Deus.

Só estará completo quando alcançar o coração do Homem.

Desabafando...

Amigos, desculpem… tenho que extravasar esta revolta…

Não consigo mais sentir o Natal como sentia quando era criança. Não consigo mais esperar ansiosamente pela noite de Natal…

Tento lembrar de alguma música natalina para cantar ao meu filho e me vem à cabeça um clássico:

Deixei meu sapatinho
Na janela do quintal
Papai Noel deixou
Meu presente de Natal

Como é que Papai Noel
Não se esquece de ninguém
Seja rico ou seja pobre
O velhinho sempre vem…

Como é que vou cantar isso para o meu filho? Uma mentira deslavada destas! O velhinho não vem para a maioria arrasadora das crianças. E muitas destas crianças esquecidas pelo “bom velhinho” provavelmente nem saibam o que é Natal, ou o confundam, como algumas que vi ontem na porta do supermercado, como uma oportunidade maior de ganhar algum dinheiro.

E nós, os lembrados pelo Papai Noel, tentamos aliviar nossa consciência com alguma caridade, dando algum dinheiro, uma cesta básica, um presentinho sem valor nenhum.

Um amigo já disse que as pessoas que têm a barriga cheia criam ONGs e instituições de caridade para aliviar suas consciências. É bonito e está na moda fazer caridade. “Ah, eu ajudo uma vez por semana aquela ONG…”.

É tudo muito injusto… as ONGs e instituições não deveriam precisar existir. A miséria não deveria precisar ser discutida e lembrada. O “velhinho” deveria visitar, sim, todas as crianças.

Será que o coração do homem está tão endurecido que Deus já não consegue mais penetrá-lo? Não posso acreditar que esse Deus de Amor e Luz tenha esquecido de tantos filhos.

Por outro lado, a grande contradição… Por quê??? Por que tanto sofrimento e tanta miséria no mundo? Por que tantas crianças perdidas, famintas e sem futuro? Onde está o Amor, onde está a Luz?

Ironias...


Um texto do Neto, diretor de criação da Bullet, sobre a crise mundial. Básico. Na minha opinião, próprio para a época. É para cair na real mesmo...

"Vou fazer um slideshow para você.
Está preparado? É comum, você já viu essas imagens antes.
Quem sabe até já se acostumou com elas.
Começa com aquelas crianças famintas da África.
Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele.
Aquelas com moscas nos olhos.
Os slides se sucedem.
Êxodos de populações inteiras.
Gente faminta.
Gente pobre.
Gente sem futuro.
Durante décadas vimos estas imagens.
No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto.
Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados.
São imagens de miséria que comovem.
São imagens que criam plataformas de governo.
Criam ONGs.
Criam entidades.
Criam movimentos sociais.
A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá sensibiliza.
Ano após ano, discutiu-se o que fazer.
Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta.
Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo.
Resolver, capicce?
Extinguir.
Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta.
Não sei como calcularam este número.
Mas digamos que esteja subestimado.
Digamos que seja o dobro.
Ou o triplo.
Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo.
Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse.
Não houve documentário, ONG, lobby ou pressão que resolvesse.
Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia."


FELIZ NATAL!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Natal 2008


Mais um Natal.


Já corri, comprei os presentes, montei a árvore e programei a ceia.

Pronto. O Natal está pronto, programado e ajustado.

Que tristeza pensar assim, não acham? Ainda bem que pensamos diferente, que sabemos que o Natal não é presentes, ceia e champanhe.

Ainda bem que sabemos que o Natal é a festa do amor, da paz, da humildade e, principalmente, do perdão e do agradecimento.

Impressionante ver como nesta época as pessoas ficam mais sensíveis, mais caridosas, mais piedosas. Impressiona mais ainda ver como, logo em janeiro, já nos esquecemos de todos os ideais de amor e de paz. Pensamos é nas contas que ficaram para pagar, na ressaca do Reveillon... e continuamos a nossa vida egoísta, para, no próximo Natal, enchermos nossos corações de mais amor e mais caridade.

Enviamos e recebemos mensagens de Boas Festas, lembrando o espírito do Natal, enaltecendo os bons sentimentos e desejando amor e paz para todo o próximo ano...

Alguém já disse que seria maravilhoso se pudéssemos pegar todos estes bons sentimentos natalícios e colocá-los em potes. A cada mês do ano seguinte, abriríamos um dos potes, para que nosso estoque de bons sentimentos e boas intenções não expirasse logo no dia 01 de janeiro.

Que bom se fosse assim... que bom se na manhã do dia 25 de dezembro desaparecessem das ruas as crianças e os animais abandonados. Que bom se nesta linda manhã, quando estamos reunidos com nossas famílias aproveitando os presentes e preparando aquele almoço especial, desaparecessem da face da terra todas as armas e a paz fosse uma constante. Maravilhoso seria que na manhã de Natal todas as pessoas abraçacem-se como verdadeiros irmãos... cristãos, muçulmanos, hindus, budistas, judeus e todas as pessoas de todas as outras religiões que agora não lembro... brancos, negros, amarelos, pardos, azuis, vermelhos... hetero, homo, bissexuais... enfim, li-te-ral-men-te TODAS AS PESSOAS DO MUNDO, todos considerados FILHOS DE DEUS (ou Alá, ou seja lá o nome que se dá para este ser que é na verdade pura luz e amor e é independente de religião). Mesmo os ateus, que, apesar de não acreditarem, eu acredito que sejam filhos desta LUZ.

Que bom seria que na manhã do dia 25 de dezembro todos realmente se sentissem irmãos... então, não haveria mais tristeza, fome, miséria, maldade...

Que bom seria... mas não é... o mundo não quer, apesar de, cinicamente, durante o Natal, todos dizerem que são irmãos...

Mas, claro, Natal é época de felicidade, de esperanças renovadas, e não vou ser eu que vou estragar isso tudo com pessimismos...

Para todos meus irmãos, de todas as religiões, de todas as etnias, de todas as opções, para meus irmãos chamados irracionais, os animais, para todos os seres vivos deste lindo planeta azul,

FELIZ NATAL!!!

E que, num ano desses, em um 25 de dezembro ou em qualquer outra data, possamos realmente nos abraçarmos a todos!!!

Aline

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Amigos, tenho andado sumida, sumidinha, eu sei... é a vida real que me consome! Mas sinto saudades de compartilhar com vocês as coisas bonitas que encontro.
Recebi um presente lindo de um grande amigo: o último livro de poemas do Mia Couto. Chama-se Idades, Cidades, Divindades e foi publicado no ano passado.



Divido com vocês um dos poemas, chamado Rosa, lindíssimo!





Não ascendo a rosa.
Fico por espinho, crosta, remorso.


Lição do gesto
de quem retira a mão,
gotejando sangue,
em castigo
de querer possuir
a beleza da flor.


Me sufoca o ser,
me assuta o querer ser.


O que mais quero ter
é a impossibilidade do ter.



Um comentário: sabem aquelas frases que tornam-se lapidares e acabam circulando por aí, às vezes até se perdendo do autor? Estes quatro últimos versos são um exemplo. Penso que circularão muito!

sábado, 25 de outubro de 2008

Seios - Adelino Timóteo

Teus os seios sãos, transpirados e cheios de vitalidade, teus os seios resolutos, arrojados e vitalícios a forma como anuem as mãos. Teus os seios anónimos a carcaça das conchas que os abrigam. Teus os seios amaciados e tolhidos como o barro, o barro maleável, manietado das mãos. Entre eles um rio. Percorrem-nos um diafragma. Efémeras as tempestades que lhe ponho. Liso e perfeito a matéria dos seus vidros. Bela a cerâmica e o esmalte deles.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Carta de Brigite Bardot a Sarah Palin


Amigos...

Ando realmente ocupadíssima e, por isso, tive de abandonar o blog. Mas não podia deixar de compartilhar com todos esta carta de Brigite Bardot, uma mulher fantástica, um exemplo a ser seguido por todas nós, endereçada a uma outra mulher, Sarah Palin, governadora do Alasca e defensora da destruição da natureza, uma vergonha para as mulheres.

As mulheres são, por natureza, mais sensíveis do que os homens. É a nossa condição, somos mais coração, enquanto os homens são mais razão. É um fato. Mas a Sra. Sarah Palin não... ela sente prazer em matar covardemente.

Eu não sou estadunidense, não tenho direito a voto naquele país. Mas como todos os seres humanos deste planeta, tenho direito a um voto nesta matéria. Pessoas como esta "senhora" (sim, entre aspas, porque não merece o respeito do título) deveriam ser banidas da sociedade e não eleitas governadoras ou vice-presidentes...

Leiam a carta de Brigite Bardot:

Prezada Senhora,

Há mais de dois anos entrei em contato com seu antecessor para denunciar a crueldade da caça aérea aos lobos do Alasca. Agora, estou chocada por saber que a senhora apóia, vigorosa e financeiramente, essa prática indigna, de uma covardia rara.

Suas medidas no sentido de manter os ursos polares na lista das espécies ameaçadas - para que deixem de ser protegidas, ainda que ameaçadas pelo aquecimento global - demonstram sua total irresponsabilidade, além de incapacidade para proteger ou simplesmente respeitar a vida animal. Mas também é verdade que para a senhora um animal bom é um animal morto!

Ao fazer campanha pela perfuração de poços de petróleo no Refúgio Nacional Ártico para a Vida Selvagem, a senhora coloca ainda em perigo um habitat já fragilizado, como também toda a biodiversidade de uma zona sensível que devia, absolutamente, ser preservada.

Governadora, ao negar a responsabilidade do homem pelo aquecimento global, ao fazer campanha pelo direito ao porte de armas e à prática de atirar sobre qualquer coisa que se mova, ao fazer numerosas declarações de alarmante tolice, a senhora cobre as mulheres de vergonha e representa, por si mesma, uma ameaça terrível, uma verdadeira catástrofe ecológica.

Defender a vida significa mostrar humanidade e compaixão por todos os seres que povoam esta terra doente. Já que só estamos aqui de passagem, por tempo limitado, pense no que estará deixando para as gerações futuras.

Para finalizar, faço um apelo para que não mais se refira a si mesma como 'um pitbull de batom', já que, posso assegurá-la, nenhum pitbull, nenhum cachorro, como nenhum outro animal, é mais perigoso do que a senhora.

Em nome do respeito pela Natureza e sua preservação, espero com todas as minhas forças que a senhora seja derrotada nesta eleição.

Desta forma, o mundo inteiro, feliz, estará ganhando!


Complementando... vejam esta foto:


É a dita "senhora" posando para uma foto com uma de suas filhas após abater desumanamente um calibu. Vejam a matéria no Los Angeles Times.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O Mundo


(um poema epicurista)




O que é o mundo e o seu brilho afamado?

O que é o mundo e todo o seu esplendor?

Uma aparência vil em espaço limitado,

Um breve raio na noite de céu ameaçador,

Um campo colorido onde verdejam cardos,

Um belo hospital onde a doença é astro,

Uma casa de escravos onde tudo são fardos,

Um túmulo já podre coberto de alabastro.


Nós, homens, construímos sobre um terreno assim,

E é a ele que a carne como um ídolo abraça.

Vem, alma, vem e ensina-nos o olhar sem fim

Para além do círculo que este mundo nos traça!

Liberta-te da tua mesquinha ostentação,

Vê como o seu prazer te faz pesada e presa:

E sem esforço darás com o cais da salvação

Onde a eternidade se casa com a beleza.



Christian Hofmann Von Hofmannswaldau (1617-169)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Frase do dia


«Não há talvez dias da nossa infância que tenhamos tão intensamente vivido como aqueles que julgamos passar sem tê-los vivido, aqueles que passamos com um livro preferido.»


Marcel Proust, in O Prazer da Leitura

A origem do Gaúcho

Quem são / somos nós

Por volta de 1580, os cavalos abandonados na região do Prata em 1536 tinham se multiplicado aos milhares. Tanto que, em 1600, não podiam mais ser mais contados em suas gigantescas manadas. Os Pampas do Rio Grande, Uruguai e Argentina estavam povoados de cavalos chimarrões (cimarrones) e o povo que vivia nessa região, unida pela semelhança ambiental, se tornou um povo cavaleiro.


A posterior introdução do gado chimarrão, que também tornou-se abundante e formou rebanhos de 40 milhões de cabeças (somando Rio Grande, Uruguai e Argentina), sedimenta esta cultura. A partir dali havia gado solto e sem dono em abundância para ser caçado com laço por aqueles que não queriam outra vida, com liberdade tão incomparável. O gado chimarrão era a base da alimentação e origem de produtos que seriam comercializados e/ou contrabandeados (na época, uma rebeldia contra os pesados impostos).


Mas na origem da formação do gaúcho devem ser lembrados os índios pampeanos (nossos charruas e minuanos), que logo se adaptaram magnificamente ao cavalo (por volta de 1607). Sua miscigenação com o europeu fundiu as culturas ibérica e americana, e gerou os mozos perdidos (homens que optaram pela vida no pampa), sendo seu primeiro registro em 1617, já com chiripá, poncho e bota de garrão de potro (tendo esta indumentária uma evolução gradual e natural até por volta de 1865, com a substituição do chiripá pela bombacha, se estabilizando relativamente até agora).


Índios, mozos perdidos, vagabundos do campo (1642), changadores (1700) e gaudérios foram os antecessores do gaúcho, de origem e comportamento bem semelhantes. Mas, afinal, em que momento começa a existir o gaúcho? É impossível passar a faca sobre este variado mosaico e separar as partes que em muitos momentos se sobrepõem. A palavra "gaúcho", entretanto, só aparece em crônicas de viajantes na América do Sul por volta de 1770. Demonstra uma nova adaptação, ou melhor, a culminação dos tipos anteriores, presente simultaneamente no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina.


O viajante francês Dreys, em observações entre 1817 e 1825 sobre o Rio Grande, assegura:"Todos os exercícios de manejo e picaria dos mestres de equitação da Europa são familiares ao gaúcho, e alguns dos exercícios mais difíceis são mesmo entre eles divertimentos de crianças."


Os hábitos dos antigos gaúchos, sejam eles alimentares, de vestuário, aperos e arreios dos cavalos, forma de domar cavalos, de laçar ou bolear, maneira figurada de falar, palavras utilizadas e música, entre outros, passam a ser assimilados pelas novas ondas de colonização açoriana (1752) que o continente de São Pedro do Rio Grande do Sul sofreu. A cultura de fora se rende à cultura local e adapta-se, transforma-se ou desaparece.


Neste período, muitos gaúchos eram vaqueanos (conhecem a região nos seus mais mínimos detalhes) e guiavam viajantes e exércitos pelo pampa. Outros tocavam infindáveis tropas de gado por léguas sem fim. Havia ainda os carreteiros, que transportavam produtos cortando a região de todas as maneiras. Os antigos e primeiros gaúchos nômades (injustamente chamados de ladrões no período do gado cimarrão, época de enfrentamento de forças pela posse do gado sem dono) trabalhavam sazonalmente em fazendas (eram pouco exigentes e pareciam se divertir no trabalho mais duro - eram exímios laçadores, boleadores, carneadores e artesões de produtosde couro necessários a montaria) e influenciavam de forma espantosa os filhos dos colonos da campanha ou povoados por onde passavam.


Os gaúchos influenciaram o comportamento de toda a região. Sessenta anos após a chegada dos açorianos, Saint-Hilaire anotou em seu diário que seus descendentes não queriam outro modo de vida, muitas vezes contrariando a vontade de seus pais. Todos queriam ser como os gaúchos. Nota-se traços deste fato mesmo na rígida colônia alemã já em 1858, anotado por Avé-Lallemant. Para ele, "esses alemães demonstram nos campo traços de gaucharia, que se destaca no manejo do laço, condução da tropa e pelo modo de montar e destaca alemães aparecerem montados a cavalo, com elegantes ponchos listrados". Quando o inglês Luccock esteve no Rio Grande em 1808, a região estava completamente acriollada (ou agauchada): todos andavam a cavalo na região, independente de serem índios, soldados, escravos, peões, estancieiros, comerciantes, viajantes ou crianças. Logo todos se transformariam num povo único: o gaúcho.


Em "Viagem ao Rio Grande do Sul", documento escrito em 1845 pelo belga A. Baguet, o autor fala de crianças com poucos anos cavalgando sem sela, a toda velocidade, descreve a forma como montam colocando o pé descalço no joelho do cavalo, a provação dos ventos da pradaria, a lealdade nas guerras, o costume da hospitalidade mesmo entre os mais pobres, a confiança humana nos vaqueanos, os principais costumes (o mate e suas propriedades e o churrasco), a exibição dos arreios com prata (feita até pelos vaqueanos mais simples), o impacto da imagem do pampa e a habilidade do gaúcho nas boleadeiras e no cavalo. Menciona à exaustão, com preciosas descrições, a habilidade do gaúcho com o cavalo, o qual considera o melhor cavaleiro do mundo junto aos índios.


Vejamos algumas observações de Dreys (1817-1825) sobre os rio-grandenses:


" Independente dessas armas comuns aos militares, o rio-grandense traz consigo duas armas auxiliares peculiares, que somente os homens desta parte da América sabem manejar com habilidade: queremos falar do laço e das boleadeiras. Tem o rio-grandense contraído uma espécie de aliança com o cavalo, em virtude da qual é feito auxiliar indispensável da vida do homem, o cooperador assíduo de quase todos os seus movimentos. O rio-grandense folga em percorrer suas imensas planícies a cavalo. (...) A predileção que manifesta por seu cavalo não se contenta a admiti-lo como companheiro inseparável; ele se ocupa também em adorná-lo (...). "


"Nas guerrilhas do Rio Grande empregadas contra o estrangeiro, adquiriram uma reputação de firmeza e de coragem que o inimigo não desconheceu. A coragem do rio-grandense é fria e perseverante(...). "


Fazendo um parênteses, é bom lembrar que os gaúchos (considerando além do Rio Grande, os gaúchos do Uruguai e Argentina) foram a base utilizada na guerra em seus respectivos países, os quais lhes devem seja a independência, seja a manutenção das fronteiras - por exemplo: sem os gaúchos, basicamente rio-grandenses, Rosas, na Argentina, não teria caído). No Brasil o caso é exemplar: quem manteve as fronteiras ou lutou nas guerras foram os homens deste Estado, mesmo que os livros de história não lembrem disso.


Sobre a honra dos rio-grandenses, Dreys afirmou que "Sua palavra é inviolável".


Vários comentaram sobre a hospitalidade do rio-grandense/gaúcho, entre os quais Arsène Isabelle (1833):


"A hospitalidade é ainda, entre a maioria, uma virtude que se pratica com generosidade. "


No seu comportamento, o gaúcho antigo e o acriollado tinham respeito para quem os tratavam de forma gentil, tinham uma base ética (mesmo que rudimentar), eram impetuosos e peleadores (quando necessário), tinham certa atração pela guerra (desde que seja a cavalo - jamais à pé), atração pela montaria (que se manifesta em muitos enfeites, até de prata) e tradição, seja na indumentária, seja na forma de arrear os cavalos.


A maneira de falar do gaúcho antigo chegou de forma impressionante até nossos dias. Mesmo nos maiores centros urbanos do Estado, dezenas de palavras oriundas da lida campeira continuam sendo usadas com significado paralelo ao original (apesar de que a quase totalidade das pessoas que as utilizam desconheçam esta origem).


Também chegaram até nossos dias a música, os payadores e a poesia gaúcha (culta sim, mas derivada do canto homens do campo do passado). Simões Lopes Neto no seu Cancioneiro Guasca, antologia da música popular gaúcha do passado, mostra a atenção que os habitantes do interior tinham pelo gaúcho. Muitas pessoas do interior, ainda hoje ligadas diretamente ou indiretamente ao campo, compõem músicas e fazem poesias e trovas a maneira (ou lembrando a vida) do gaúcho. Centenas de músicos de qualidade compõem letras e músicas campeiras (nem sempre com apoio da mídia local). Festas que lembram as habilidades do gaúcho (doma e laço, principalmente) são atração sempre que acontecem, mesmo nas zonas mais metropolitanas. Pesquisadores como Paixão Côrtes e Barbosa Lessa conseguiram recuperar muito da dança gaúcha.


Chegou também uma espécie de reminiscência da campanha e um sentimento de épico. Venera-se a planície. A base do comportamento do gaúcho (seu ethos) de forma geral chegou até os dias de hoje e influencia. Isto é um fato, pelo menos até 20 ou 30 anos atrás. Entretanto, a massificação proporcionada pela televisão e globalização (além de um antigo preconceito local à influencia gaúcha) ameaçam esta antiga homogeneidade de povo. O "ser gaúcho", ou seja, a manutenção de características mínimas de identificação, tais como gosto pela música nativa, pela literatura regional ou manutenção do comportamental básico (combatividade era uma das características) passa a ser visto por intelectuais (rio-grandenses, pasmem!) como "negativa" e atrasada. Estes intelectuais, com marcada visão etnocêntrica, não consideram que expressam seu modo urbano (ou globalizado?) de ver. Contraditoriamente, estes mesmos intelectuais concordam que devem ser respeitada as culturas regionais de outros locais.


No mundo inteiro, incluindo sobremaneira a Europa e os Estados Unidos, festas regionais reforçam suas certezas sobre suas origens, como comportar-se frente às adversidades e planejar o futuro. Saberem quem são. Este é o sentido de conhecer o passado, afinal "É tão grave esquecer-se no passado como esquecer o passado. Nos dois casos desaparece a possibilidade de história".


Evaldo Muñoz Braz

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Vocabulário gaúcho

Como toda a região, o Rio Grande do Sul tem um vocabulário próprio, com seus regionalismos muito característicos.

A diferença do "dialeto" gaúcho é tão grande em relação ao restante da língua portuguesa que já existem vários dicionários publicados. Vejam alguns exemplos:


Abichornado: Aborrecido, triste, desanimado.
Abrir cancha: Abrir espaço para alguém passar.
A cabresto: Conduzido pelo cabresto; submetido.
Achego: Amparo, encosto, proteção.
Acolherar: Unir dois animais por meio de uma pequena guasca amarrada ao pescoço; Unir, juntar, com relação a pessoas.
Afeitar: Cortar a barba.
Água-Benta: Cachaça, destinada a ser bebida ocultamente.
A laço e espora: Com muita dificuldade, com muito esforço, vencendo grandes obstáculos.
A la cria!: Ao Deus-dará, à aventura. Foi-se a la cria, significa foi-se embora, foi-se ao Deus-dará, caiu no mundo.
A la pucha!: Exprime admiração, espanto.
À meia guampa: Meio embriagado, levemente ébrio.
Aporreado: Cavalo mal domado, indomável, que não se deixa amansar. Aplica-se, também ao homem rebelde.
Arapuca: Armadilha para pegar passarinhos; trapaça.
Arrastar a asa: Paquerar.

Bagual: Cavalo manso que se tornou selvagem.
Bicheira: Ferida nos animais, contendo vermes depositados pelas moscas varejeiras. Para sua cura, além de medicação, são largamente utilizadas as simpatias e benzeduras.
Biriva: Nome dado aos habitantes de Cima da Serra, descendentes de bandeirantes, ou aos tropeiros paulistas, os quais geralmente andavam em mulas e tinham um sotaque especial diferente do da fronteira ou da região baixa do Estado. Var.: beriva, beriba, biriba.
Bóia: Comida
Bolicho: Casa de negócios de pequeno sortimento e de pouca importância. Bodega. Venda. Bolicheiro: Dono de bolicho.
Braça-de-Sesmaria: Media antiga, de superfície, usada no Rio Grande do Sul. A braça-de-sesmaria mede 2,20 m por 6.600 m ou seja 14.520 metros quadrados.
Buenacha: Boa.

Cabresto: Peça de couro que é apresilhada ao buçal para segurar o cavalo ou o muar.
Cacho: A cola, o rabo do cavalo; caso com uma mulher.
Cagaço: Grande susto, medo.
Califórnia: conjunto de coisas belas; pioneiro festival de música gaúcha realizado em Uruguaina.
Cambicho: Apego, paixão, inclinação irresistível por uma mulher.
Campo de Lei: Campo de ótima qualidade.
Capão: Diz-se ao animal mal capado; indivíduo fraco, covarde, vil; pequeno mato isolado no meio do campo.
Carboteiro(a): Alguém difícil, que não dá bola.
Carreira: Corrida de cavalos, em cancha reta. Quando participam da carreira mais de dois parelheiros, esta toma o nome de penca ou califórnia.
Caudilho: Chefe militar; manda-chuva.
Cavalo de Lei: Animal muito veloz, capaz de percorrer duas quadras (264m) em 16 segundos ou menos.
Chalana: Embarcação ou lancha grande e chata.
Chambão: Otário.
Charla: Conversa.
Chasque: Recado; mensagem.
Chimango: Alcunha dada no Rio Grande do Sul aos partidários do governo na Revolução de 1929.

China: mulher gaúcha; descendente ou mulher de índio, ou pessoa de sexo feminino que apresenta alguns dos traços característicos étnicos das mulheres indígenas; cabloca, mulher morena; mulher de vida fácil; esposa.
Chinoca: Mulher, menina.
Colhudo: Cavalo inteiro, não castrado. Pastor. Figuradamente, diz-se do sujeito valente, que enfrenta o perigo, que agüenta o repuxo.
Credo: Exclamação de espanto.
Cuiudo: O mesmo que colhudo.
Cupincha: Companheiro, amigo, comparsa.
Cusco: Cão pequeno, cão de raça ordinária. O mesmo que guaipeca, guaipé.

Daí Tchê: Oi.
De vereda: Imediatamente, de momento, de uma vez.
Doma: Ato de domar. Ato de amansar um animal xucro.
Duro de boca: Diz-se do animal que não obedece à ação das rédeas.
Duro de Pealar: Difícil de fazer, trabalhoso.

Embretado: Encerrado no brete; metido em apertos, apuros ou dificuldades; enrascado, emaranhado.
Entrevero: Mistura, desordem, briga, confusão de pessoas, animais ou objetos.
Erva-Lavada: Erva já sem fortidão por ter servido para muitos mates.
Estar com o pé no estribo: Estar prestes a sair.
Estrela-Boieira: Estrela d’alva, planeta Vênus.
Estribo: Peça presa ao loro, de cada lado da sela, e na qual o cavaleiro firma o pé.
Estropiado: Diz-se o animal sentido dos cascos, com dificuldade de andar, em conseqüência de marchas por estradas pedregosas.

Facada: Pedido de dinheiro feito por indivíduo vadio, incapaz de trabalhar, que não pretende restituí-lo.
Facho: O ar livre. Usado na expressão sair do facho.
Fatiota: Terno; conjunto de roupas do homem: calça, colete e paletó.
Fiambre: Alimento para viagem, geralmente carne fria, assada ou cozida.
Fazer a viagem do corvo: Sair e demorar muito a regressar.
Flete: Cavalo bom e de bela aparência, encilhado com luxo e elegância.
Funda: Estilingue, bodoque.

Gadaria: Porção de gado, grande quantidade de gado, o gado existente em uma estância ou em uma invernada.
Gado chimarrão: Gado alçado, xucro, sem costeio.
Galpão: Construção existente nas estâncias, destinadas ao abrigo de homens e de animais; O galpão característico do Rio Grande do Sul é uma construção rústica, de regular tamanho, em geral de madeira bruta e parte de terra batida, onde o fogo de chão está sempre aceso. Serve de abrigo e aconchego à peonada da estância e a qualquer tropeiro ou gaudério que dele necessite. Gato: Bebedeira, porre, embriaguez.
Gaudério: Pessoa que não tem ocupação séria e vive à custa dos outros, andando de casa em casa; parasita; amigo do viver à custa alheia.
Graxaim: Guaraxaim, sorro, zorro. Pequeno animal semelhante ao cão, que gosta de roer cordas, principalmente de couro cru e engraxadas ou ensebadas, e de comer aves domésticas. Sai, geralmente, à noite. É muito comum em toda a campanha.
Gringo: Denominação dada ao estrangeiro em geral, com exceção do português e do hispano-americano.
Guaiaca: Cinto largo de couro macio, às vezes de couro de lontra ou de camurça, ordinariamente enfeitado com bordados ou com moedas de prata ou de ouro, que serve para o porte de armas e para guardar dinheiro e pequenos objetos.
Guaipeca: Cão pequeno, cusco, cachorrinho de pernas tortas, cãozinho ordinário, vira-lata, sem raça definida. Pequeno, de minguada estatura; aplica-se, também, às pessoas, com sentido depreciativo.
Guapo: Forte, vigoroso, valente, bravo.
Guasca: Tira, corda de couro cru, isto é, não curtido; homem rústico, forte, guapo, valente. Guasqueaço: Pancada, golpe dado com guasca.
Relhaço: relhada, chicotada, chibatada, correada, açoite.
Guri: Criança, menino, piazinho, piazito, serviçal para trabalhos leves nas estâncias.

Há cachorro na cancha: Significa que há alguma coisa atrapalhando a execução de determinado plano.
Haraganear: Andar solto o animal por muito tempo, sem prestar serviço algum.

Invernada: Grande extensão de campo cercado. Nas estâncias, geralmente, há diversas invernadas: para engordar, para cruzamento de raças, etc.

Jururu: Cabisbaixo, tristonho, abatido.

Lábia: Habilidade de conversa.
Lambe esporas: Indivíduo bajulador; leva e traz.
Lasqueado: Trouxa, metido a besta, passado.
Légua: Medida itinerária equivalente a 3.000 braças ou 6.600 metros. O mesmo que légua de sesmaria.

Macanudo: Designa alguém bonito ou algo legal.
Maleva: Bandido, malfeitor, desalmado; cavalo infiel, que por qualquer coisa corcoveia.
Maludo: Cavalo inteiro, garanhão. Diz-se do animal com grandes testículos.
Mangueira: Grande curral construído de pedra ou de madeira, junto à casa da estância, destinado a encerrar o gado para marcação, castração, cura de bicheiras, aparte e outros trabalhos. Manotaço: Pancada que o cavalo dá com uma das patas dianteiras, ou com ambas; bofetada, pancada com a mão dada por pessoa.

Negrinho: Designação carinhoso que se dá a crianças ou a pessoas que se tem afeição.
Num upa: Num abrir e fechar de olhos; de golpe; rapidamente.

Oigalê!: Exprime admiração, espanto, alegria.
Orelhano: Animal sem marca, nem sinal; gaúcho sem origem conhecida.

Paisano: Do mesmo país; amigo, camarada; civil.
Papudo: Indivíduo que tem papo. Balaqueiro, jactancioso, blasonador. O termo é empregado para insultar, provocar, depreciar, menosprezar outra pessoa, embora esta não tenha papo.
Passar um pito: Repreender, descompor.
Patrão: Designação dada ao presidente de Centro de Tradições Gaúchas (CTG) ou ao dono da estância ou fazenda.
Patrão-Velho: Deus.
Pelea ou Peleia: Peleja, pugilato, contenda, briga, rusga, disputa, combate.
Pelear: Brigar, lutar, combater, pelejar, teimar, disputar.
Petiço: Cavalo pequeno, curto, baixo.
Piá: Menino, guri, caboclinho.
Piquete: Pequeno potreiro, ao lado da casa, onde se põe ao pasto os animais utilizados diariamente.
Poncho: Espécie de capa de pano de lã, de forma retangular, ovalada ou redonda, com uma abertura no centro, por onde se enfia a cabeça. É feito geralmente de pano azul, com forro de baeta vermelha. É o agasalho tradicional do gaúcho do campo. Na cama de pelegos, serve de coberta. A cavalo, resguarda o cavaleiro da chuva e do frio.
Potrilho: Animal cavalar durante o período de amamentação, isto é, desde que nasce até dois anos de idade. Potranco, potreco, potranquinho.

Queixo-Duro: Cavalo que não obedece facilmente a ação das rédeas; pessoa teimosa.
Qüera: homem, gaúcho, gaudério.

Rebenque: Chicote curto, com o cabo retovado, com uma palma de couro na extremidade. Pequeno relho.
Regalo: Presente, brinde.
Relho: Chicote com cabo de madeira e açoiteira de tranças semelhantes a de laço, com um pedaço de guasca na ponta.
Repontar: Tocar o gado por diante de um lugar para outro.

Sair fedendo: Fugir em disparada.
Sanga: Pequeno curso d'água menor que um regato ou arroio.
Sesmaria: Antiga medida agrária correspondente a três léguas quadradas, ou seja a 13.068 hectares. São 3000 por 9000 braças; ou 6.600 por 19.800 metros; ou ainda, 130.680.000 metros quadrados.
Soga: Corda feita de couro, ou de fibra vegetal, ou ainda de crina de animal, utilizada para prender o cavalo à estaca ou ao pau-de-arrasto, quando é posto a pastar. Corda de couro torcido ou trançado, que liga entre si as pedras das boleadeiras; o termo é usado também em sentido figurado.
Surungo: Arrasta pé, baile de baixa classe, caroço.
Sorro: graxaim.
Sorro manso: expressão que designa alguém ladino, esperto, que age mas não aparece (dá o tapa e esconde a mão).

Taco: Diz-se ao indivíduo capaz, hábil, corajoso; guapo.
Taipa: Represa de leivas, nas lavouras de arroz; cerca de pedra, na região serrana; tapado, burro, ignorante.
Taita: Indivíduo valentão, destemido, guapo.
Tala: Nervura do centro da folha do jerivá; chibata improvisada com a tala do jerivá ou com qualquer vara flexível; lado de corte do facão ou da adaga.
Talagaço: Pancada com tala (ex: talagaço de adaga, fig: levou um talagaço da vida).
Talho: Corte, ferimento.
Tapera: Casa de campo, rancho, qualquer habitação abandonada, quase sempre em ruínas, com algumas paredes de pé e algum arvoredo velho. Diz-se da morada deserta, inabitada, triste. Tchê: Meu, cara.
Tirador: Espécie de avental de couro macio, ou pelego, que os laçadores usam pendente da cintura, do lado esquerdo, para proteger e o corpo do atrito do laço. Mesmo quando não está fazendo serviços em que utilize o laço, o homem da fronteira usa, freqüentemente, como parte da vestimenta, o seu tirador, que por vezes é de luxo, enfeitado com franjas, bolsos e coldre para revólver.
Tosa: Tosquia, toso, esquila.
Tranco: Passo largo, firme e seguro, do cavalo ou do homem. Ex: andar ao tranco.
Tranquito: passo lento.
Tramposo: Intrometido, trapaceiro, velhaco.
Trem: Sujeito inútil.
Três-Marias: Boleadeiras.
Tronqueira: Cada um dos grossos esteios colocados nas porteiras, os quais são providos de buracos em que são passadas as varas que as fecham.

Uma-de-pé: Uma briga, conflito, luta.

Usted: Você; usado na fronteira.

Vacaria: Grande número de vacas; grande extensão de campo que os jesuítas reservavam para criação de gado bovino.
Varar: Atravessar, cruzar.
Vareio: Susto, sova, surra, repreensão.
Vaza: Vez, oportunidade.
Vil: Covarde, desanimado, fraco.
Vivente: Pessoa, criatura, indivíduo.

Xepa: Comida.
Xerenga: Faca velha, ordinária.
Xirú: O mesmo que chirú.
Xucro: Diz-se do animal ainda não domado, bravio, arisco.

Zarro: Incômodo, difícil de fazer, chato.

Zunir: Ir-se apressadamente, soar.

domingo, 21 de setembro de 2008

Lendas Gaúchas - Negrinho do Pastoreio

 (Imagem: Patchwork de Joyce Loss - Negrinho do Pastoreio)

Naquele tempo os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem divisas nem cercas; somente nas volteadas se apanhava a gadaria xucra e os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos...


Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de onças e meias-doblas e mais muita prataria; porém era muito cauíla e muito mau, muito.


Não dava pousada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no invemo o fogo da sua casa não fazia brasas; as geadas e o minuano podiam entanguir gente, que a sua porta não se abria; no verão a sombra dos seu umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas cacimbas.


Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se com ele, porque o homem só dava para comer um churrasco de tourito magro; farinha grossa e erva-caúna e nem um naco de fumo... e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira, que parecia que era o seu próprio couro que ele estava lonqueando...

Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino como uma mosca, para um bafo cabosnegros, que era o seu parelheiro de confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como carvio e a quem todos chamava somente o Negrinho . A este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem.

Todas as madrugadas o Negrinho galopeava o parelheiro baio; depois conduzia os avios do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino, que o judiava e se ria. Um dia, depois de muitas negaças, o estancieiro atou carreira com um seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro que não, que não? que a parada devia ser do dono do cavalo que ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada, mil onças de ouro.

No dia aprazado, na concha da carreira havia gente como em festa de santo grande. Entre os dois parelheiros a gauchada não sabia se decidir, tão perfeito era e bem lançado cada um dos animais. Do baio era fama que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não se lhe viam as patas baterem no chão... E do mouro era voz que quanto mais cancha, mais aguente, e que desde a largada ele ia ser como um laço que se arrebenta...

As parcerias abriram as guaiacas, e aí no mais já se apostavam aperos contra rebanhos e redomões contra lenços.

- Pelo baiol Luz e doble!...

- Pelo mourol Doble e luz!...
Os corredores fizeram as suas partidas à vontade e depois as obrigadas; e quando foi na última, fizeram ambos a sua senha e se convidaram. E amagando o corpo, de rebenque no ar, largaram, os parelheiros meneando cascos, que parecia uma tormenta...

- Empate! Empate! gritavam os aficionados ao longo da cancha por onde passava a parelha veloz, compassada como uma colhera.

- Valha-me a Virgem madrinha, Nossa Senhora! gemia o Negrinho. Se os sete-léguas perde, o meu senhor me mata! Hip! hip! hip!...

E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio. - Se o corta-vento ganhar é só para os pobres!... retrucava o outro corredor. Hip! hip!

E cortava as esporas no mouro.

Mas os fletes corriam, compassados como numa colhera. Quando foi na última quadra, o mouro vinha arrematado e o baio vinha aos tirões.., mas sempre juntos, sempre emparelhados.

E as duas braças da raia, quase em cima do laço, o baio assentou de supetão, pôs-se em pé e fez uma cara-volta, de modo que deu ao mouro tempo mais que preciso para passa, ganhando de luz aberta! E o Negrinho, de em um ginetaço.

- Foi mau jogo! gritava o estancieiro.

- Mau jogo! secundavam os outros da sua parceria.

A gauchada estava dividida no julgamento da carreira; mais de um torena coçou o punho da adaga, mais de um desapresilhou a pistola, mais de um virou as esporas para o peito de pé... Mas o juiz, que era um velho do tempo da guerra de Sepé-Tiarajú, era um juiz macanudo, que já tinha visto muito mundo. Abanando a cabeça branca sentenciou, para todos ouvirem:

- Foi na lei! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem gateadas; quem as ganhou venha buscá-las. Foi na lei!

Não havia o que alegar. Despeitado e furioso, o estancieiro pagou a parada, à vista de todos, atirando as mil onças de ouro sobre o poncho do seu contrário, estendido no chão.

E foi um alegrão por aqueles pagos, porque logo o ganhador mandou distribuir tambeiros e leiteiras, côvados de baeta e baguais e deu o resto, de mota, ao pobrerio. Depois as carreiras seguiram com os changueiritos que havia.

O estancieiro retirou-se para a sua casa e veio pensando, pensando, calado, em todo o caminho. A cara dele vinha lisa, mas o coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado a meia espalda... O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma.

E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho. Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha falou assim:

- Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta dias ficará aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos negros... O baio fica de piquete na soga e tu ficas de estaca!

O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos iam pastando.

Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O Negrinho, varado de fome e já sem força nas mãos, enleou a soga num pulso e deitou-se encostado a um cupim.

Vieram então as corujas e fizeram roda, voando, paradas no ar, e todas olhavam-no com os olhos reluzentes, amarelos na escuridão. E uma piou e todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem barulho nas asas.

O Negrinho tremia, de medo... porém de repente pensou na sua madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu.

E dormiu. Era já tarde da noite, iam passando as estrelas; o Cruzeiro apareceu, subiu e passou; passaram as Três-Marias; a estrela-d'alva subiu... Então vieram os guaraxains ladrões e farejam o Negrinho e cortaram a guasca da soga. O bafo sentindo-se solto rufou a galope, e toda a tropilha com ele, escaramuçando no escuro e desguaritando-se nas canhadas.

O tropel acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram, dando berros de escárnio.

Os galos estavam cantando, mas nem o céu nem as barras do dia se enxergava: era a cerração que tapava tudo.

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.

O menino maleva foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não estavam. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.

E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o perdido. Rengueando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa, tomou o coto de vela aceso em frente da imagem e saiu para o campo.

Por coxilhas e canhadas, na beira dos lagoões, nos paradeiros e nas restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta ia pingando cera no chão: e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram tantas que clareavam tudo. O gado ficou deitado, os touros não escarvaram a terra e as manadas xucras não dispararam... Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou por diante a tropilha, até a coxilha que o seu senhor lhe marcara.

E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu...

Gemendo, gemendo, o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo instante apagaram-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua madrinha, o Negrinho dormiu. E não apareceram nem as corujas agoureiras nem os guaraxúns ladrões; porém pior do que os bichos maus, ao clarear o dia veio o menino, filho do estancieiro e enxotou os cavalos, que se dispersaram, disparando campo afora, retouçando e desguaritando-se nas canhadas.

O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai que os cavalos não estavam lá...

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou...

O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos, a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho... dar-lhe até ele não mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue vivo escorrendo do corpo... O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e Senhora Nossa, deu um suspiro triste, que chorou no ar como uma música, e pareceu que morreu...

E como já era de noite e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o estancieiro mandou atar o corpo do Negrinho na panela de um formigueiro, que era para as formigas devorarem-lhe a carne e o sangue e os ossos... E assanhou bem as formigas; e quando elas, raivosas, cobriram todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-lo, é que então ele se foi embora, sem olhar para trás.

Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo, mil vezes e que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro.., e que tudo isto cabia folgado dentro dem um formigueiro pequeno...

Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros e a casca das frutas.

Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto. E três dias houve cerração forte, e três noites o estancieiro teve o mesmo sonho.

A peonada bateu o campo, porém, ninguém achou a tropilha e nem rastro.

Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava do corpo do escravo.

Qual não foi o seu grande espanto, quando chegado perto, viu na boca do formigueiro o Negrinho de pé, com a pele lisa, perfeita, sacudindo de si as formigas que o cobriam ainda!...

O Negrinho, de pé, e ali ao lado, o cavalo baio e ali junto, a tropilha dos trinta tordilhos.., e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu a madrinha dos que não a têm, viu a Virgem, Nossa Senhora, tão serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu...

Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo. E o Negrinho, sarado e risonho, pulando de em pêlo e sem rédeas, no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.

E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não chorou, e nem se riu.

Correu no vizindário a nova dó fadário e da triste morte do Negrinho, devorado na panela do formigueiro.

Porém logo, de perto e de longe, de todos os rumos do vento, começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo... E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, mascates e carreteiros, todos davam notícia da mesma hora - de ter visto passar, como levada em pastoreio, uma tropilha de tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pêlo, em um cavalo baio!...

Então, muitos acenderam velas e rezaram o Padre-nosso pela alma do judiado. Daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma cousa, o que fosse, pela noite velha o Negrinho campeava e achava, mas só entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele levava para pagar a do altar da sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o remiu e salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia, sem ninguém ver.

Todos os anos, durante três dias, o Negrinho desaparece: está metido em algum formigueiro grande, fazendo visita às formigas, suas amigas; a sua tropilha esparrama-se; e um aqui, outro por lá, os seus cavalos retouçam nas manadas das estâncias. Mas ao nascer do sol do terceiro dia, o baio relincha perto do seu ginete; o Negrinho monta-o e vai fazer a sua recolhida; é quando nas estâncias acontece a disparada das cavalhadas e a gente olha, olha, e não vê ninguém, nem na ponta, nem na culatra.

Desde então e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho, sarado e risonho, cruza os campos, corta os macegais, bandeia as restingas, desponta os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas e desce às canhadas. O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem achados pelos seus donos, quando estes acendem um coto de vela, cuja luz ele leva para o altar da Virgem Senhora Nossa, madrinha dos que não a têm.

Quem perder suas prendas no campo, guarde esperança: junto de algum moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo - Foi por aí que eu perdi...

Foi por aí que eu perdi... Foi por aí que eu perdi!...

Se ele não achar: ninguém mais.

Pensamento do dia

Imagem: Britenbucher - Peace on Earth

«Não há caminho para a paz.
A paz é o caminho.»


(Mahatma Gandhi)

Dia Internacional da Paz

Hoje, dia 21 de setembro, é o Dia Internacional da Paz. Proposto pela ONU, é um apelo para um dia de cessar fogo. Gostaria, do fundo do meu coração, que este cessar fogo fosse respeitado hoje e todos os outros 364 dias do ano...



Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell bellow us
Above us only sky

Imagine all the people
Living for today

Imagine there's no countries
It's isn't hard to do
Nothing to kill or die for

And no religion too

Imagine all the people
Living life in peace

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday
You'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of men

Imagine all the people
Sharing all the world

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one


Imagine que não há paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
E acima somente céu

Imagine todas as pessoas
Vivendo para hoje

Imagine que não há países
Não é difícil de fazer
Nada por que matar ou morrer
E nenhuma religião também

Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer que sou um sonhador
Mas não sou o único
Espero que um dia
Você junte-se a nós
E o mundo será um só

Imagine que não há posses
Eu ficarei maravilhado se você conseguir
Nenhuma necessidade de cobiça ou fome
Uma irmandade de homens

Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Você pode dizer que sou um sonhador
Mas não sou o único
Espero que um dia
Você junte-se a nós
E o mundo será um só


Alguém dirá: esta música novamente?! Pois é... mas, infelizmente, esta canção ainda tem de ser cantada, este sonho ainda tem de ser sonhado. O sonho da paz ainda não se realizou, mas temos de seguir no caminho.

sábado, 20 de setembro de 2008

Carlos Rufai Murange

Três pretendentes à mesma noiva


Algures em Marromeu, em Sofala, três rapazes, por curiosa coincidência, pensaram em noivar a mesma rapariga. Como eram pobres e sabiam já que o pai só daria a filha ao pretendente mais rico, resolveram ir trabalhar na Rodésia do Sul, actual Zimbabwe, a fim de fazerem fortuna.

Partiram. Algum tempo depois de lá estarem, um deles encontrou um segredo maravilhoso que lhe permitia conhecer as coisas que aconteciam a distância.

Um outro, também na mesma altura, encontrou um segredo que tinha a virtude de levar uma pessoa rapidamente a terras longínquas.

Finalmente, o terceiro encontrou um remédio que lhe dava o poder de ressuscitar os mortos.

Decorridos alguns meses, o primeiro deles, por virtude do seu segredo, teve conhecimento da morte da noiva pretendida.

Correu ao encontro dos outros dois seus companheiros e falou-lhes desta sorte:

- Na nossa terra, lá em Moçambique, aconteceu uma grande desgraça. Acaba de falecer a nossa pretendida noiva.
Ao ouvir a novidade, o segundo, que tinha o poder de fazer deslocar uma pessoa à distância, disse:

- Então vamos os três depressa, a fim de assistirmos ao seu enterro.

E, por virtude do seu segredo, dentro de momentos, encontraram-se, misteriosamente, os três juntos da defunta.

Uma vez ali, o terceiro disse:

- Eu tenho o poder de ressuscitar os mortos. Por isso, ressuscitá-la-ei. E assim fez, deixando toda a gente maravilhada.

Como a rapariga ficasse completamente boa, novamente renasceu no coração dos três rapazes o desejo de a noivarem.

O primeiro a apresentar as suas pretensões foi o que acbara de a ressuscitar. E disse:

- A menina é minha, porque, se não fosse eu, ela não mais voltaria à vida.

Mas logo lhe observou o segundo:

- A menina pertence-me, porque, se é certo que tu a ressuscitaste, a verdade é que nenhum de vós chegaria a tempo de a ver, se eu não usasse do segredo que tenho.

Por sua vez, o que tinha o segredo de conhecer as coisas à distância objectou contra os dois:

- Alto lá com as pretensões! A menina é minha e muito minha, porque, embora um para aqui nos tenha conduzido rapidamente e outro tenha ressuscitado, se não fosse eu, nenhum de vós teria sequer conhecimento da morte dela.

Estado o assunto neste pé e não querendo nenhum deles ceder a outro o direito de pretensão à rapariga, foram os três ter com o Régulo a fim de resolver o milando.

O Régulo, depois de ouvir atentamente cada uma das partes, declarou que o caso era dificílimo de solucionar, porque as razões que militavam a favor de cada um eram todas de igual valor.

Como, pois, nada mais acrescentasse, entrou de falar a rapariga e propôs aos pretendentes a seguinte prova:

- Aquele dentro de vós que for capaz de aplicar os seus lábios ao peito da minha mãe, esse será o que terá dirieto à minha mão.

Apenas acabou de falar, imediatamente dois deles se apressaram a cumprir a condição imposta. O outro, ao contrário, sentiu-se tomado de um natural pudor e exclamou, decisivamente:

- Perderei a noiva, mas nunca!... nunca eu farei uma tal coisa!

Então a rapariga, ao contrário do que prometera, estendeu a mão para este terceiro e sentenciou, sabiamente:

- Só tu efectivamente tens direito à minha mão, os outros dois não, porque são meus irmãos... A prova é que não tiveram repugnância de aplicar os lábios ao mesmo peito a que eu fui amamentada...

Deste modo, ficou a contenda definitivamente resolvida, passando toda a assistência da esperteza da rapariga.

Alma Welt


Flor Noturna
Uma flor nasceu em meu jardim
Até então desconhecida, e inusitada
Pois que tem um cheiro doce de jasmim
Não sendo co'este todavia aparentada

Pois de noite evola outro perfume
E eu diria que de modo até perverso
Assim como essa lua que resume
A doce febre de onde nasce o verso.

Mas logo a senti como uma irmã
Das dores e anseios com que lido
De dia a rescender o meu amor,

Pálida e bela, mas altiva barregã
Que se erguesse do seu leito proibido,
A vagar nua entre os seres de labor...

Às vezes, sem querer, descobrimos uma pérola no meio de um areal. Foi o que aconteceu. Passeando por alguns blogs, clicando em links, descobri os sonetos desta poetisa gaúcha, Alma Welt.

A responsável pelos blogs é sua irmã, Lúcia Welt, também poetisa mas que, num lindo gesto de desprendimento e amor, dedica-se a divulgar a obra da irmã, falecida em 2007.

Os sonetos de Alma são autobiográficos e através deles conhecemos uma mulher com alma de anjo, ou de ninfa, ou de demônio. Uma Alma livre presa em um corpo físico que a limitava.

Agora Alma está livre e Lúcia nos presenteia com seu legado.

Querem saber mais sobre Alma e Lúcia? Cliquem aqui: O Espaço da Irmã da Alma ou aqui: Sonetos de Mistérios de Alma Welt ou, simplesmente, procurem no google por Alma Welt.

Pensamento do dia

«Povo que não tem virtude acaba por ser escravo...»
(do hino riograndense)

O Grito dos Livres

Esta música é uma das minhas preferidas. Conta a história da formação do povo gaúcho. Quem canta é Dante Ramón Ledesma, um gaúcho argentino, porque o gaúcho não é somente quem nasceu no Rio Grande do Sul, mas também os pampeanos, que vivem na fronteira Brasil / Uruguai / Argentina.

Ouçam a música, vejam como é linda e conheçam um pouquinho mais da minha terra.



O Grito dos Livres


Quando os campos deste sul eram mais verdes
Índios pampeanos que habitavam o lugar
Foram mesclando com a raça do homem branco
Recém chegado de querências além mar

E o novo ser que se formou miscigenado
Virou semente, germinou e se fez povo
E um grito novo ecoou no continente
Lembrando a todos que esta terra tinha dono

Enquanto o gaúcho for visto no pampa
Enquanto essa raça teimar em viver
O grito dos livres ecoará nesses montes
Buscando horizontes libertos na paz

No grito do índio, o grito inicial
Com cheiro de terra no próprio ideal
De amor à querência liberta nos pampas
Gerada em estampas do próprio ancestral

A nova raça cresceu e traçou limites
Que bem demarcam a extensão dos ideais
E o mesmo povo hoje repete o grito
Alicerçado nas raízes culturais

A liberdade não tem tempo nem fronteiras
O homem livre não verga e não perde o entono
Vai repetindo a todos num velho grito
Passam os tempos mas a terra ainda tem dono

Do grito do índio, aos gritos atuais
Há cheiro de terra nos próprios ideais
De um povo sofrido, ereto em vontade
De escrever liberdade nos seus memoriais

Enquanto o gaúcho for visto no pampa
Enquanto essa raça teimar em viver
O grito dos livres ecoará nesses montes
Buscando horizontes libertos na paz



Dante Ramon Ledesma - Grito dos livres