sexta-feira, 24 de setembro de 2010

E-mail desagradável


Pessoal, ontem recebi o seguinte e-mail:

BOMBA:

MOVIMENTO NÃO VOTE EM DILMA!!!



SÓ PRA VC COMO CRENTE OU CATOLICO FICAR COM A CONSCIÊNCIA TRANQUILA....

A DILMA APROVARÁ A LEI DO ABORTO E DO CASAMENTO GAY JÁ DECLARADO POR ELA MESMA.

E O MAIS INTERESSANTE QUE EU NÃO SABIA E NÃO HAVIA REPARADO...

VCS SABEM O NOME DO VICE DA DILMA?

MICHEL TEMER!

ISSO TE LEMBRA ALGO?

É ELE MESMO O PAI DE DANIEL MASTRAL O GRANDE CABEÇA DOS SATANISTAS...

INFORMAÇÕES DIVULGARAM QUE A PRESIDENTE SERÁ ELEITA, NÃO TEM JEITO,

PORÉM VC COM CONHECIMENTO E SABEDORIA, FILHO DE DEUS, NÃO VOTE NELA,

OS SATANISTAS JÁ PREPEARAM TUDO...

A PRESIDENTE POSSUI UM CÂNCER ADORMECIDO E DENTRO DO ANO DO SEU LEGADO,

O DIABO A FERIRÁ E ELA FICARÁ TERRIVELMENTE DOENTE, TALVEZ, VINDO ATÉ A FALECER

E QUEM ASSUMIRÁ O PODER?

O VICE MICHEL TEMER.... FIQUE LIGADO!

A INTENSÃO DO DIABO É DOMINAR TODO TERRITÓRIO BRASILEIRO LIBERANDO POTESTADES E PRINCIPADOS NO AR,TERRA E MAR.

É HORA DE NOS LEVANTARMOS COMO FILHOS DE DEUS.

CUIDADO COM O SEU VOTO, NÃO O JOGUE NAS MÃOS DE UM INSTRUMENTO DO NOSSO ADVERSARIO.

 
Por favor!!! Votem em quem quiserem, façam campanha, falem mal, mas não venham com esta conversa ultra fanática para cima de mim.
 
Sinceramente, depois desta, eu, que não votaria na Dilma, até estou pensando em votar nela. Se os seus opositores são fanáticos e ignorantes a ponto de enviar e-mails deste tipo, é porque ela não deve ser tão ruim assim...
 
Votar em um ou outro candidato e fazer uma boa escolha é sinônimo de esclarecimento, de inteligência. Quem utiliza este tipo de argumentos obtém o resultado inverso.
 
Lembro que quando o Obama candidatou-se, correu na Internet uma interpretação de uma profecia do Nostradamus que afirmava ser o Obama o anticristo. A profecia dizia que quando um negro assumisse o comando da maior potência do mundo, este negro seria o tal coisa ruim.
 
Nem por isso o Obama perdeu.
 
Não sei se ele é ou não é o tal, mas sei que este tipo de história não agrada e muito menos convence pessoas inteligentes e psicologicamente sãs.
 
Acredito em Deus, sim. Mas não suporto qualquer tipo de radicalismo ou fanatismo.
 
A resposta que dei a esta pessoa (que não conheço) que enviou-me este e-mail foi: se for para encher a minha caixa postal com este tipo de absurdo, por favor remova o meu endereço da sua lista.
 
Para terminar: votem conscientemente, com responsabilidade, baseados nos fatos reais, na história do candidato.
 
Eu até poderia dizer: não votem na Dilma, mas, depois desta, fico com medo de me acharem fanática!!!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Que mulher mais desavergonhada!!! Dois maridos!!! Oh, que horror!!! (huaehuaehuae........)


Engraçado... nunca tinha visto a coisa assim... quando procurei no Google imagens sobre poliandria, a primeira que me apareceu foi esta, da Branca de Neve.

Nós crescemos com estas histórias e nem sempre nos damos conta do conteúdo moral delas...

Todos conhecem a história... a Branca de Neve é socorrida pelos anões e contrai um casamento poliândrico com eles... mas, claro, o mais correto, aceitável, sociável é o casamento monogâmico, portanto, o príncipe vem e faz da coitada da sem-vergonha da Branca de Neve uma mulher respeitada.

Mas o que me motivou a pesquisa foi uma reportagem enorme que estava no Diário de Moçambique de ontem. Ocupava as duas páginas centrais. Sinceramente - e desculpem-me os meus grandes amigos jornalistas do Diário - penso que há assunto mais importante do que aquela notícia... pareceu mais fofoca do que notícia...

Acontece que aqui perto da Beira, numa vila (ou cidade, mas é mais vila, pelo tamanho) chamada Caia, há uma mulher que é casada com dois homens e este fato está arrepiando os cabelos de todo mundo.

Sim, estas coisas geram curiosidade, perplexidade... mas lendo o conteúdo da reportagem, a interpretação é muito diferente.

A mulher tem 58 anos e batalha todos os dias o sustento. Vende produtos no mercado local. O seu primeiro marido ficou cego, portanto, numa sociedade em que a comida no prato todos os dias é uma luta medonha, este marido já não desempenhava as suas funções como deveria ser. Entenda-se aqui que estou falando da função de sustento da família, de provedor, que ao homem, em uma sociedade patriarcal, é inerente. A nossa heroína, portanto, achou por bem casar-se com outro para prover esta "lacuna" no seu casamento. 

Segundo a reportagem, ambos maridos dão-se perfeitamente bem e têm um entendimento acertado. Ela visita cada um seguindo um calendário pré-estabelecido e cumpre as suas funções de esposa (sim, agora estou falando das funções que a sociedade patriarcal impõe à esposa). 

Outro fato da reportagem: parece que a mulher é estéril, portanto, muito antes de contrair o segundo casamento, convenceu a sobrinha a tornar-se segunda esposa do marido (o primeiro), união que frutificou em 5 filhos. Portanto, o primeiro marido já possuía uma segunda esposa...

Mais: o segundo marido também tem uma segunda esposa, que visita regularmente.

Para um expectador de fora, isso poderia parecer uma grande suruba!!! Mas vamos prosseguir...

Em Moçambique, a poligamia é socialmente aceita. Por um lado pelo grande número de muçulmanos, por outro, porque as culturas tribais mais antigas também já aceitavam. Claro que a poligamia deriva do advento da sociedade patriarcal, onde ao homem é permitido ter tantas esposas quantas possa sustentar. Porque o homem DEVE sustentar a família.

Hoje em dia, o status de provedor único já não é mais masculino. As mulheres trabalham tanto quanto eles e, às vezes, até mais. Mas, infelizmente, os preconceitos machistas ainda prevalecem. Mesmo em uma sociedade um pouco mais atrasada na evolução social, as mulheres saem todos os dias de casa para providenciar o sustento dos filhos e, em muitos casos, dos maridos também.

Fiquei, sinceramente, chocada quando vi na reportagem que as autoridades (sim, as autoridades têm de lidar com este tipo de assunto por aqui) dizem-se "preocupadas" com a situação da poliandra de Caia, porque não é uma situação NORMAL. O próprio primeiro marido diz temer que a sua segunda esposa siga os passos da primeira... (ora, se ele pode, por que não ela???).

Ora!!! Analisemos, então, o caso..................

A mulher tem de se sustentar... o marido já não serve mais para o sustento, pelo contrário, está cego e agora quem tem de sustentá-lo é ela!!! A única obrigação de esposa que ela não cumpriu, dar-lhe os filhos, foi cumprida indiretamente pela sobrinha... 

Mais: ela afirma que nunca pensou em separar-se do primeiro marido, pois sabe que ele é cego e precisa dela...

Será que estamos mesmo diante de um caso clássico de poliandria??? Penso que não...

Por um lado, a compaixão dela pelo marido que agora está incapacitado... por outro, a necessidade de ajuda no sustento. Ela diz que ama os dois. E eu acredito. Existem muitos tipos de amor.

Agora, dizer que é uma situação preocupante??? Acho que não. Em uma sociedade em que a sobrevivência é tão difícil, é mais um caso de adaptação. Evolução, lei do mais forte. 

Darwin concordaria comigo....

Deixo para vocês as interpretações....

Quem quiser saber mais sobre poliandria, acesse a Wikipedia.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sempre adolescente!!!

Sempre gostei de música velha... pelo menos muito mais velha do que eu...

Mas, no meu tempo (huahuahua!!! nunca pensei usar esta expressão!!!), esta música, apesar de "velha", tocava muito nas danceterias (discoteca para os portugueses, boate para os brasileiros) que eu frequentava.

Eu delirava! Até comprei o disco (vinil, sim, ainda sou desta época) para uma das "discos" porque eles não tinham a versão ao vivo.

É TALKING HEADS, numa performance ma-ra-vi-lho-sa do David Byrne! Esta é a música do filme "Stop Making Sense". Simplesmente de-ma-is!!!

Agora, para os brasileiros... o TALKING HEADS não lembra um pouquinho os TITÃS???

Curtam!!! PSYCHO KILLER!!!

video

I can’t seem to face up to the facts.
I’m tense and nervous and I... can’t relax.
I can’t sleep, cause my bed’s on fire.
Don’t touch me I’m a real live wire.

Psycho Killer
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run run away
OH OH OH

Psycho Killer
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run run away
OH OH OH 
AY AY AY AY AY WOO

You start a conversation you can't even finish it.
You're talking a lot, but you're not saying anything.
When I have nothing to say, my lips are sealed.
Say something once, why say it again?

Psycho Killer,
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run away
OH OH OH

Psycho Killer
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run away
OH OH OH OH
AY AY AY AY 

Ce que j'ai fait, ce soir-là [What I did that night]
Ce qu'elle a dit, ce soir-là [What she said that night]
Réalisant mon espoir [Making my hope come true]
Je me lance vers la gloire ... okay [I hurl myself toward glory]
YA YA YA YA YA YA YA YA YA YA YA 
We are vain and we are blind
I hate people when they're not polite

Psycho Killer,
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run away
OH OH OH

Psycho Killer,
Qu'est-ce que c'est? [What is it?]
fa fa fa fa fa fa fa fa fa fa better
Run run run run run run run away
OH OH OH OH
AY AY AY AY OOOH

Hey hey hey ha

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Sempre Florbela...

Imagem: http://www.ilustramos.blogspot.com/


Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro

Amo a hera, que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar
E da minha charneca o rosto duro

Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam
Tudo o que é Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A insólita história de João Madruga - Parte III

Passaram-se alguns meses e a vida em Macumba continuava no seu ritmo. João Madruga continuava com suas famosas festas, sempre a esbanjar dinheiro e sorrisos.

Num desses sábados, João acordou ainda com a escuridão a tomar conta da vila. Estranhou estar completamente desperto àquela hora e foi consultar o relógio. Nove horas da manhã! Como era possível ter dormido tanto, justamente em um dia tão especial como o sábado? Precisava arranjar-se rapidamente, afinal, em pouco tempo os convivas da festa estariam chegando e tinha muito que fazer antes disso.

No afã de apressar-se, esqueceu-se da escuridão. Só deu-se conta quando saiu para o pátio do sobrado. Uma neblina estranha encobria a claridade do sol e tornava o dia em noite. João Madruga já havia ouvido falar em neblinas assim espessas que aconteciam em certos lugares, mas isso nunca acontecera em Macumba. A névoa branca dava ao dia um ar de sobrenatural, de mau agouro. Um arrepio percorreu a espinha do Administrador. Alguma coisa muito ruim estava para acontecer...

Chamou pelos empregados. Nenhuma resposta. Nem os cães ladraram em resposta aos seus gritos. Silêncio absoluto. Apressou-se a entrar na casa e acordar as esposas e os filhos. Provavelmente, pensou ele, estes também haviam dormido demais por conta da falsa noite...

Mas ninguém estava em casa. O sobrado estava deserto. Nem família, nem empregados, nem os habituais primeiros convivas chegavam à casa.

Correu as ruas da vila, a tropeçar na escuridão. Chamou, gritou, nenhuma resposta. A vila estava vazia. Nenhuma vida além da sua. Sentia no ar úmido um cheiro pestilento, de podridão. O odor e o nervosismo fizeram-no vomitar.

Quando conseguiu recompor-se minimamente, olhou em volta e já não conseguia mais distinguir as construções, nem as árvores, nem coisa alguma. A neblina parecia ter engolido tudo. Correu em direcção ao rio para lavar o rosto, mas no lugar do rio encontrou um buraco lamacento cheio de peixes mortos a apodrecer.

Paralisou-se na margem do rio a fitar o nada. Estava sem acção, sem saber o que fazer. Subitamente, sentiu uma rajada de vento muito forte que o fez desequilibrar e cair no leito morto do rio. A lama era pegajosa e profunda e Madruga foi-se afundando. quanto mais se movia, mais a lama o puxava para baixo. Conformou-se com a sua sorte e deixou-se ser sugado para o fundo da lama. Fechou os olhos, lembrou-se da boa vida que tinha e entregou-se ao seu fatídico destino. Morreria sem saber o motivo daquela desolação...

terça-feira, 27 de julho de 2010

CHEGA, BASTA, ACABOU!!!

Gente...

Hoje não há texto bonito nem palavras rebuscadas...

Recebi este e-mail, com estas fotos:




Sim, foi um muçulmano que enviou-me estas fotos...

Mas também recebo sempre e-mails de cristãos mostrando os "horrores" que os muçulmanos fazem.

Está na hora de parar com esta briga I D I O T A ! ! !

Deus, Allá, Jeová, Luz, Ser Superior, Mestre ou seja lá qual for o nome do nosso Pai, está dentro de nós e é Ú N I C O !

Com tanta porcaria (para não dizer merda) que está acontecendo no mundo, tantas catástrofes - enchentes, terremotos, tsunamis, maremotos, furacões, etc., etc., etc., etc., etc., - será que ninguém se dá conta de que todos, independentemente de religião, sofrem igualmente???

Podem me chamar de maluca, mas tenho certeza de que, se houvesse mais compreensão, amor e paz neste nosso planetinha tão maltratado, ele não reagiria tão mal e nos pouparia de tanta dor!!!

Então, muçulmanos, cristãos, budistas, testemunhas de Jeová, hindus, judeus e todos os outros que acreditam em Deus, por favor, por amor!!! Parem com esta briga imbecil!!!

E tenho dito!!! Humpf!!!

P.S. Isto depois de ficar mais de uma semana sem Internet... Nos próximos dias, atualizações super atuais no Devezenquandário!!!

Muitos beijos, muito amor e muita paz a todos!!!

terça-feira, 22 de junho de 2010

Da série "Livros"

Moça lendo com o cão
(Charles Burton Barber)


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso,
nem porto,
alimentam-se um instante em cada
par de mãos
e partem.
E olhas, então, estas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

(Mário Quintana)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A insólita história de João Madruga - Parte II

Foi num desses sábados de festa que um conhecido deu-lhe a notícia: a oposição havia tomado de golpe o governo. Os líderes do Partido estavam todos presos ou executados a tiros de fuzil.


João Madruga não tomou a notícia em conta. Havia sempre alguma confusão na capital, mas o Partido sempre as sufocara antes que se espalhassem pelo interior. Além do mais, aquela sua vila era tão longe de tudo que, se realmente o Partido tivesse caído, o novo regime nunca se lembraria de bulir por ali.

Macumba era uma vila simpática, de ruas largas ladeadas de simpáticos sobrados, todos construídos pelo antigo regime. As árvores frutíferas cresciam ordenadamente ao longo das avenidas e, na época da floração, davam à cidade um ar bucólico que chegava a dar a impressão de pertencer a outro mundo.

A economia era praticamente auto-sustentada. Pescava-se, plantava-se e, o que não podia ser produzido ou obtido do local, era trazido por um caminhão que visitava a loja do indiano Salim de seis em seis meses. Quando a encomenda chegava, o empório de Salim ficava abarrotado de gente que disputava panelas de alumínio, bacias de plástico e tecidos. O movimento durava quase um mês, depois diminuía como o estoque da loja.

Os habitantes da vila de Macumba empenhavam-se em manter o isolamento do resto do mundo. Quando chegavam notícias de fora, eram trazidas pelos raros visitantes ou pelo motorista do carro dos correios que, mensalmente, trazia alguma pouca correspondência, geralmente oficial ou relativa aos movimentos do posto bancário da vila.

O único telefone estava na Repartição dirigida por Madruga, mas havia avariado há tanto tempo que ninguém mais lembrava-se dele. Até porque ninguém tinha necessidade de falar com o exterior. Os parentes estavam todos ali na vila, quem nascia em Macumba morria em Macumba. Enfim, a vila de Madruga era tão isolada que em muitos lugares do país ninguém sabia da sua existência.

Por isso, o administrador da Repartição não se preocupava com as recentes notícias. De certeza que havia alguma luta para os lados da capital, mas seria abafada pelo Partido muito antes de os rebeldes lembrarem-se de chegar a Macumba.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago voou




Hoje está nos jornais eletrônicos e circulando em todos os e-mails a notícia que amanhã chegará aos jornais de papel...

SARAMAGO MORREU!

Quando recebi a mensagem, a primeira reação foi ficar triste. Pensei logo em fazer esta postagem e fui procurar uma foto que simbolizasse o luto para ilustrar este meu pobre comentário.

Depois desisti... luto? Por quê??? Saramago é imortal! Assim como Joyce, Shakespeare, Dante, Camões e tantos outros. Quem nos dá páginas tão irresistíveis e perturbadoras nunca morre.

Esta é a vantagem dos grandes escritores. Com a sua morte física, são mais e mais lidos. E a cada novo leitor ou re-leitor o escritor fica mais vivo, mais presente. É como se sua alma se transportasse para as páginas dos livros. E o escritor transmuta-se, desdobra-se, multiplica-se, até que já não pode mais ser ignorado mesmo por aqueles que nunca o leram ou mesmo nunca gostaram de suas obras.

Ora... quantos leram Shakespeare? Mas quantos sabem quem ele é???

Então afirmo: não há luto na morte de Saramago. Há regozijo! Regozijo pelo seu legado, pela beleza de suas páginas, que ele ofereceu tão polemicamente à toda a humanidade.

Neste momento, consigo lembrar-me de uma citação que penso ser uma das mais marcantes da obra de Saramago:

"Não me acuse o leitor de obscurantista. Tenho uma confiança danada no futuro e é para ele que as minhas mãos se estendem. Mas o passado está cheio de vozes que não se calam e ao lado de minha sombra há uma multidão infinita de quantos a justificam." (“Os Portões que dão para onde?”, in A Bagagem do Viajante, Editorial Caminho, 6.ª ed., P. 84).

Pois é... ele agarrou o futuro com as duas mãos. As vozes do passado, que levantavam-se facilmente com críticas, agora, talvez, pensem duas vezes antes de manifestarem-se.

Afinal, Saramago voou, é imortal!!!

 
P.S. Quem quiser conferir a última postagem de Saramago em seu blogue, acesse Nem leis, nem justiça , postado por ele no último dia 13 de fevereiro.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A insólita história de João Madruga - parte I

A insólita história de João Madruga




“A diferença entre a verdade e a ficção é que a ficção tem de fazer sentido.”





João Madruga gostava acima de tudo da vida que tinha. Vindo de origem humilde, conseguira uma boa posição no governo após a Revolução e, com esta posição, angariara alguns imóveis que alugava.

O salário que recebia e as rendas dos imóveis garantiam-lhe uma existência que considerava luxuosa.

Todas as sextas-feiras, mandava buscar ao bazar quatro dúzias de galinhas rechonchudas, daquelas com a gordura amarela. Suas três esposas coordenavam a matança, limpeza e tempero das aves, que ficavam em uma enorme geleira comprada somente para este fim.

No sábado de manhã, João Madruga acordava com o sol e punha-se a coordenar a preparação das churrasqueiras para mais uma de suas famosas festas.

As grades de cerveja e refrigerante chegavam com os primeiros convidados. Aliás, “convidados” é uma maneira de dizer, porque as festas no sobrado do Madruga eram tão famosas que as pessoas iam chegando assim, mesmo sem convite. O verdadeiro chamariz era o aroma da galinha assada e o ritmo da música, sentidos a grande distância.

João Madruga recebia a todos com seu sorriso largo de poucos dentes. Desde parentes chegados até desconhecidos. Todos eram bem-vindos. O anfitrião regozijava-se em dividir com todos a sua prosperidade e, é claro, mostrar sua superioridade.

As festas viravam o sábado e terminavam nas últimas horas do domingo. Se o número de convidados era superior ao esperado, Madruga mandava buscar mais suprimentos ao bazar ou à distribuidora de bebidas. Pagava tudo na segunda-feira, pontualmente, e era considerado o melhor cliente dos estabelecimentos da cidade.

Durante a semana, Madruga dividia seu tempo entre os encontros nos cafés, as visitas às amantes e algumas poucas horas a marcar presença na Administração da Vila, afinal, se o administrador não aparece para trabalhar, ninguém trabalha também.

A vida, afinal, não podia ser melhor.

Só temia e respeitava o Partido. Afinal, fora graças a esta instituição que deixara para trás a vida de privações. Realmente valera à pena pegar em armas e lutar pela Revolução.

Mas tudo o que sobe, um dia desce...

Iniciação - meu primeiro conto

Olá a todos!

A próxima postagem é a primeira parte de um conto que estou escrevendo. Ou escrevinhando, ou rabiscando, se preferirem...

Como é a primeira versão, estou à espera de críticas! Como todos sabem, de escritora não tenho nada, mas de metida tenho tudo.

O conto chama-se "A insólita história de João Madruga" e baseia-se em uma história que ouvi no salão de cabeleireiro. Afinal, quem disse que as fofocas não rendem nada??? Conta a vida de um homem que subiu e depois desceu. Os detalhes, acompanhem aqui, no Devezenquandário.

Espero que gostem mas, se não gostarem, por favor digam, ok?

Fui!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Quintana 4ever!!!


A RUA DOS CATAVENTOS
VI
Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola...

Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente...


terça-feira, 6 de abril de 2010

Da série "Livros"

(O Livro-Árvore - Salvador Dali)


Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro.

(Henry David Thoreau )

"Homo homini lupus"??? Nãããããooooo!!!!


Ontem no início da tarde, quando cheguei à minha loja, encontrei um bilhete de identidade colocado entre as grades da entrada. Imaginei logo que alguém o tivesse encontrado por ali e o tivesse deixado à vista para quem o perdeu, se voltasse a procurá-lo, encontrasse com facilidade.

Temendo que o tal bilhete de identidade tomasse outros rumos que não fosse voltar para o seu proprietário, pedi ao meu funcionário que o entregasse na esquadra de polícia que fica perto da loja.

Meu funcionário respondeu logo que não, que se entregasse o bilhete de identidade na esquadra poderia ter problemas, pois aquele documento poderia ser de alguém que foi agredido e a polícia poderia pensar que ele havia sido o agressor. Eu tive de insistir para que ele fosse até lá. Ele acabou por concordar, mas contrariado.

Afinal, ele entregou o documento na esquadra e não lhe aconteceu nada.

Depois fiquei pensando... o que leva uma pessoa a temer fazer o que é correcto? Será que a nossa sociedade está tão viciada e tão desconfiada que mesmo um acto de solidariedade e nobreza pode ser interpretado como algo ruim?

Já ouvi em algum lugar que o ser humano é desconfiado e mau por natureza. “Homo homini lupus” (em latim, alguma coisa como “o homem é o lobo do próprio homem”), aprendi com Thomas Hobbes. Mas não concordo de maneira alguma com esta afirmação. Vejo que a humanidade é boa e nobre, que os homens têm atitudes de solidariedade e piedade para com os seus próximos todos os dias.

Quantas pessoas deixam a sua terra natal, sua casa, pais, amigos, para passarem por dificuldades e perigos somente para ajudar? Quantos voluntários padecem somente porque sentem a necessidade de atenuar a dor dos que sofrem demais?

No nosso dia-a-dia também encontramos pessoas assim. Pessoas que se preocupam com a miséria à sua volta. Pessoas anónimas que com um olhar, um pedaço de pão, uma mão amiga atenuam o sofrimento de outros.

E não estou a falar de Madres Teresas, Gandhis, Dianas... estou a falar de pessoas comuns, que acordam todos os dias e vão batalhar pela vida, trabalham de sol a sol, têm problemas e sofrem e, mesmo assim, encontram um tempo e um espaço no coração para os mais necessitados.

Mas muitos de vocês devem estar a dizer: “ah! Esqueces-te dos bárbaros que assassinam e fazem horrores todos os dias? Esqueces-te das guerras implacáveis que só servem para fazer sofrer inocentes? Esqueces-te dos mesquinhos?”.

E eu respondo: “Não, não esqueço-me.”

Estes mesquinhos e bárbaros também são coitados. E são os maiores coitados. Não merecem o nosso ódio, porque o ser humano não foi feito para odiar. Merecem a nossa compaixão, a nossa piedade, porque são almas perdidas que nunca conheceram o amor, nunca souberam o que é um abraço reconfortante, nunca sentiram seu coração aquecido pelo amor. Enfim, não são seres humanos. Porque os seres humanos não são lobos. Os seres humanos são coração, amor.

Continuemos sendo seres humanos, amando, ajudando, consolando. Que todos nós nunca esqueçamos da nossa essência pacífica e amorosa.

E, principalmente, que nunca tenhamos medo de fazer o que é certo.

Ah! E uma observação, para ilustrar e esclarecer o título deste escrevinhamento...

Os lobos não são maus. Nenhum animal é mau. Atacam para se defender. São assustadiços. Como os humanos...

sexta-feira, 26 de março de 2010

Da série "Livros"

(Livros, de Van Gogh)

"A leitura engrandece a alma."

(Voltaire)

quinta-feira, 25 de março de 2010

Sobre as guerras (ditas) religiosas

Está publicado no Diário de Moçambique de hoje este belo texto sobre este assunto tão pavoroso.

Faço questão de dividir com todos. Apesar do assunto ser pavoroso, tem sempre de ser lembrado para que estas atrocidades deixem de acontecer.

Aqui, no Devezenquandário, há um outro texto, meu, sobre este mesmo assunto: Guerras Religiosas, Guerras Mentirosas, se quiserem acessar.


(Imagem do documentário "The Other Side of the Country", de Catherine Hébert)


Guerra, paz e religião

Por P. Manuel Ferreira

Os romanos definiam a paz como tranquilitas ordinis, tranquilidade da ordem ou na ordem. Onde não há paz, há uma forma de guerra. E, a partir daquela definição, podem ser três essas formas: a tranquilidade na desordem, a intranquilidade na ordem, e a intranquilidade na desordem. A guerra é sempre uma desarmonia dolorosa e sangrenta, nas relações humanas: entre indivíduos, entre famílias, entre tribos, entre nações, entre blocos, entre inteiros continentes.

Toda a pessoa tem, lá bem dentro, uma aspiração fundamental de tranquilidade e de ordem. Ninguém gosta da desordem ou da intranquilidade. Quando gostar, é porque as vê e define como o contrário delas. Ninguém vê na guerra um bem. Poderá ver um mal menor e necessário. Só se recorre à guerra, quando se esgotam todos os outros meios de chegar à ordem da justiça e da dignidade humana.

A guerra sempre teve uma causa, com a pretensão de a justificar. Quem a provoca e promove usa-a como meio de defender determinados valores considerados intocáveis, ou de conseguir determinados interesses: econômicos, políticos, sociais.

Ao falarmos de guerra religiosa, seria mais exacto falar de uma guerra entre pessoas que seguem uma religião, e que a usam como pretexto, como bandeira, e até como máscara. Muitas vezes, o motivo decisivo e principal delas não é o religioso. É antes o interesse social, económico ou outro. A guerra sangrenta na Nigéria é religiosa, por ser entre cristãos e muçulmanos. Mas a motivação principal não é a religião. Será talvez a questão tribal, a questão económica, a questão territorial. Na guerra cruel no Uganda, o Exército do Senhor comete, todos os dias, as maiores atrocidades contra inocentes. Exército do Senhor significa mesmo exército de Deus. Esta guerra só é religiosa porque se instrumentaliza a religião, para justificar as maiores desumanidades. São pessoas religiosas a matar-se, não por causa da religião, mas apesar da religião.

Na Idade Média, ficaram tristemente famosas as cruzadas, as guerras entre cristãos e muçulmanos. Os cristãos pensavam prestar culto a Deus, matando os muçulmanos. E nos muçulmanos pensavam prestar culto a Allá, matando esses infiéis, que eram os cristãos. Tanto uns como outros combatiam até à morte, e pensavam cumprir um dever religioso. Quando agora analisamos estas guerras "santas", espanta-nos como é que uns e outros não viram a corrupção da religião que elas significavam. São bem conhecidas as causas sociais, políticas e económicas, além do obscurantismo e do esquecimento dos valores essenciais, que todas as religiões ensinam.

A guerra é tanto mais cruel, quanto mais indiscutíveis se consideram os valores pelos quais os homens se batem. A religião, a política, o amor, o futebol, são desses valores, que mais profundamente apaixonam o coração humano. E quanto o coração se apaixona e descontrola, acaba por trocar os nomes às realidaes, e de pesar e medir tudo com pesos e medidas alterados.

Atente-se na área semântica da guerra: batalha, combate, luta, pugna, agonia. Luta pela vida... a vida é uma luta... Luta armada... quem perde uma batalha ainda não perdeu a guerra.

Finalmente, um texto sugestivo, de São Tiago: "De onde vêm as guerras? De onde vêm as lutas entre vós? Não vêm dos prazeres, que guerreiam nos vossos membros? Cobiçais, mas não tendes. Matais e buscais, com avidez, mas nada conseguis obter. Entregai-vos à luta e à guerra. E com tudo isto, nada possuís."

Livros

Hoje recebi um e-mail lindíssimo de um grande amigo.

Gostaria de compartilhar com todos vocês. É uma série de citações sobre este nosso companheiro de vida, o livro.

Vai a primeira, espero que gostem!




"Sempre que se conta um conto de fadas, a noite vem."

(Clarissa Pinkola Estés)

E, claro, um P.S. da Aline...
Lembram quando estávamos quase a dormir e um dos nossos pais nos lia uma história ou simplesmente contava uma inventada?
Lembram como sonhávamos depois com aquela história?
Fiquem com esta lembrança boa!!!