segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A praia dourada

Sentada na areia ela admirava o pôr-do-sol numa praia do Índico. Os raios solares batiam na água e douravam a paisagem. Pensou que já eram horas de ele chegar. A espera, para uma mulher, nunca é confortável. Mas ele não tardou. Nunca tardava.

Enquanto o sol se punha, o casal de adolescentes planejava o futuro. Casamento, filhos, uma casinha com varanda. Uma vida simples, feliz. Conversavam sobre tudo, e entre os planos para o casamento e a cor da casa, ela ensaiou um assunto mais sério. Havia assistido na televisão uma notícia sobre uma guerra qualquer, em um lugar muito longe dali. Comentou com ele, repetindo o que ouvira, contando dos horrores que aconteciam naquele local que nem país era, somente uma faixa de terra onde crianças morriam indiscriminadamente.

Não porque estivesse realmente preocupada, mas porque era notícia. E porque, no fundo, agradecia por morar em um país pacífico, banhado pelas águas mornas do Índico.

Ele, como muitos outros, e como ela, alienado das coisas, respondeu-lhe que não chateasse sua linda cabeça com estes assuntos. Afinal, isso acontecia lá do outro lado do mundo, em um lugar tão distante que nem constava que para eles existisse.

Ela concordou. Certamente essas notícias um dia iriam deixar de passar na televisão, outras viriam, e o mundo continuaria assim, os horrores sempre longe da sua linda praia do Índico.

Os anos se passaram e o casal de adolescentes transformou-se em pai e mãe de um lindo menino. Agora eram os olhos do filho que douravam toda a paisagem ao redor da mãe. Um casal feliz, despreocupado com o mundo.

Novamente notícias de guerra apareciam na televisão. Mas aquele lugar ainda estava muito longe, a guerra não atingia a praia dourada. Comentaram os dois, assistiram mais uma vez às imagens das crianças mortas. E não se preocuparam. Não era ali, não era com eles.

Seu filho corria nas areias douradas pelo pôr-do-sol, banhava-se nas águas seguras da baía. Nada que houvesse no mundo poderia perturbar aquela paz. Não tinham por que importar-se com as guerras em lugares longínquos.

Mais alguns anos e o casal de adolescentes agora era um casal de velhinhos que passeava nas margens do Índico, ainda contemplando o pôr-do-sol dourado. Seu filho já era pai e, numa visita, trouxe notícias de mais uma guerra assassina naquele lugar muito longe dali. A conversa ainda era sem preocupação. A praia dourada continuava dourada. Os dias continuavam mornos e a brisa do mar continuava a refrescá-los.

O casal de adolescentes morreu. Ficou o filho, que não pôde levar seu filho para correr na praia dourada. A guerra naquele lugar muito longe havia chegado até ali. Algum dos lados utilizara uma arma tão poderosa que seus efeitos foram sentidos mesmo nos lugares mais distantes.

As areias da praia estavam contaminadas com radiação. Os peixes, tão fáceis de apanhar nos tempos da adolescência dos seus pais, ou estavam mortos, ou contaminados também.

A comida faltava e a água era escassa. Já não havia mais a brisa suave que refrescava os dias. Já não havia vegetação. Já não havia tranquilidade.

E agora o filho importava-se com a guerra naquele lugar distante. Agora, que já era tarde demais.

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